Se me permites, leitor paciente — desses que não se assustam com ideias que parecem, à primeira vista, deslocadas de seus hábitos — proponho-te um pequeno exercício: considerar a questão da homossexualidade não sob o lume da moral apressada, mas à luz fria (e por isso mesmo mais honesta) do materialismo histórico, tal como o esboçou Gueorgui Plekhanov, discípulo atento de Karl Marx e Friedrich Engels.
Não te assustes: não se trata aqui de defender nem de condenar — ocupações estas muito caras aos espíritos ligeiros —, mas de compreender.
Comecemos por um ponto que parecerá, aos mais zelosos, quase uma irreverência: as ideias morais, aquelas que tantas vezes julgamos eternas como o céu e fixas como as estrelas, não passam, afinal, de produtos históricos. Mudam — como mudam os costumes, as vestes e até as formas de governo.
Dir-me-ás: “Mas como pode a moral, fundamento da sociedade, ser tão volúvel?”
E eu te responderei, com a serenidade que Plekhanov herdou de seus mestres: justamente porque a sociedade não se funda nas ideias, mas na vida material dos homens.
Assim, aquilo que uma época chama virtude, outra poderá chamar vício — e nenhuma delas suspeita, no ardor de suas convicções, que ambas são filhas do mesmo pai: o tempo.
Tomemos, por exemplo, a velha Grécia Antiga, que tanto admiramos pelas estátuas e pelos filósofos. Ali, certas formas de afeição entre homens não apenas existiam, como eram, em determinados contextos, aceitas e até celebradas. Não se tratava de decadência, como diriam alguns moralistas de gabinete, mas de outra organização da vida social.
Plekhanov sorriria — creio — diante da pergunta, e escolheria sem hesitar a segunda hipótese.
Aqui entra em cena um personagem discreto, mas poderoso: a economia.
Não a economia dos tratados enfadonhos, mas aquela que organiza silenciosamente a vida: o trabalho, a propriedade, a família.
Friedrich Engels já observara que a família moderna — essa instituição tão respeitada quanto pouco examinada — está profundamente ligada à propriedade privada e à necessidade de transmissão de bens. A monogamia, nesse quadro, não é apenas um ideal moral; é também um arranjo conveniente.
Conveniente a quê? À ordem social que dela depende.
Ora, tudo aquilo que escapa a essa lógica — tudo que não contribui diretamente para a reprodução dessa estrutura — tende a ser visto com suspeita, quando não com aberta hostilidade.
Eis, leitor, um possível segredo da severidade moral.
Não quero, contudo, que imagines uma conspiração deliberada, como gostam os espíritos romanescos. A ideologia — esse nome grave para fenômenos cotidianos — opera com mais sutileza. Ela não ordena; sugere. Não impõe; naturaliza.
Assim, o que é histórico parece eterno.
O que é social parece natural.
E o que é particular parece universal.
A condenação da homossexualidade, sob esse prisma, deixa de ser um mandamento inscrito nas tábuas do absoluto para tornar-se expressão de uma forma específica de organizar a vida.
Mas considera: não será mais arriscado tomar como eternas as ideias de uma época? Não será mais cômodo — e, por isso mesmo, mais perigoso — confundir costume com natureza?
Plekhanov, homem de seu século, talvez não tenha ido tão longe quanto nós, herdeiros de novas inquietações, desejaríamos. Ainda assim, legou-nos uma chave: a de que as ideias não pairam acima da vida, mas nascem dela.
E assim chegamos a uma conclusão que, se não consola, ao menos esclarece:
Não são as concepções sobre a sexualidade que governam a sociedade; é a sociedade — em sua estrutura mais concreta e material — que engendra essas concepções.
O resto, meu caro leitor, é o trabalho do tempo — esse autor invisível que escreve, apaga e reescreve as morais dos homens, sem jamais assinar a obra.
Transsexualidade
Podemos — e talvez até devamos, se quisermos manter coerência com o método que evocamos há pouco. Mas peço-te, leitor constante, que entres comigo neste terreno com a mesma cautela com que se pisa um assoalho antigo: não por medo, mas por respeito à complexidade do que se examina.
Se seguíssemos o espírito de Gueorgui Plekhanov, não começaríamos pela pergunta: “o que é, em essência, a identidade trans?”, como fazem os metafísicos apressados. Antes, perguntaríamos: em que condições sociais essa questão se torna visível, pensável, discutível?
Pois, como já insinuaram Karl Marx e Friedrich Engels, os homens não pensam no vazio; pensam dentro de formas de vida historicamente determinadas.
Houve épocas — não poucas — em que as distinções de gênero eram rígidas como colunas de pedra. O masculino e o feminino não eram apenas papéis: eram destinos. A divisão do trabalho, a organização da família, a própria sobrevivência material exigiam essa nitidez.
Nessas condições, qualquer variação mais acentuada não encontrava sequer linguagem para se exprimir. Não porque não existisse experiência interior — disso não podemos ter certeza —, mas porque faltavam os meios sociais de reconhecê-la.
Dir-se-ia, então, que certos fenômenos permaneciam invisíveis não por ausência, mas por ausência de forma social.
Avancemos no tempo.
Com a modernidade — e aqui Plekhanov nos convidaria a olhar para as transformações econômicas — vemos: a dissolução progressiva de formas rígidas de trabalho, a urbanização e a crescente individualização da vida
O sujeito, antes definido quase inteiramente por seu lugar na produção e na família, ganha uma margem — ainda que limitada — de autodeterminação.
Dir-me-ás: “Então a identidade trans é produto da sociedade moderna?”
Cuidado. Um materialista mais fino — e aqui talvez caminhemos além do próprio Plekhanov — não diria que ela é “criada” do nada, como uma moda passageira. Diria antes:
As formas pelas quais essa experiência se manifesta, é compreendida e nomeada são historicamente condicionadas.
Em outras palavras: a vivência pode ter raízes profundas na experiência humana - mas sua expressão depende das condições sociais disponíveis
Há ainda outro ponto, que não escapa ao olhar atento: o corpo.
Se outrora ele era destino quase inapelável, hoje se torna, em certa medida, objeto de intervenção técnica. A medicina, a ciência, as tecnologias ampliam as possibilidades de transformação corporal.
Não é difícil perceber que isso altera profundamente: o modo como o indivíduo se relaciona consigo mesmo e o modo como a sociedade regula essa relação
Assim, o que antes era impensável torna-se possível — e, sendo possível, torna-se também objeto de disputa moral e política.
E como reage a sociedade? Ora, como quase sempre reage quando suas formas tradicionais são tensionadas: com uma mistura de adaptação e resistência.
Aqueles que veem na ordem vigente algo natural e eterno tendem a perceber tais mudanças como ameaça. Outros, atentos ao caráter histórico das instituições, inclinam-se a vê-las como parte de um processo mais amplo de transformação.
Aqui, a análise materialista sugere que o conflito não é meramente “de opiniões”, mas reflete: formas distintas de organizar a vida social, interesses, ainda que nem sempre conscientes e diferentes graus de adaptação às novas condições materiais
Se quisermos resumir — e perdoa-me a franqueza pouco machadiana da síntese — diríamos: Não são apenas os indivíduos que mudam; é a própria sociedade que, ao transformar suas bases materiais, transforma também as possibilidades de ser indivíduo.
Talvez Gueorgui Plekhanov, se aqui estivesse, erguesse uma sobrancelha diante de certas formulações contemporâneas. Mas dificilmente negaria este princípio, que lhe era caro: aquilo que parece mais íntimo e pessoal nos homens não escapa, afinal, às condições históricas que os produzem.E o leitor, que chegou até aqui, já não poderá dizer — sem alguma hesitação — que tais questões pertencem apenas ao foro privado.
Marcuse e Foucault
Podemos — e, ouso dizer, é precisamente nesse ponto que a reflexão ganha nervo e atualidade. Plekhanov nos ofereceu o esqueleto; convém agora observar como outros pensadores lhe acrescentaram carne, sangue e, por vezes, alguma inquietação.
Sigamos, pois, sem pressa — como quem atravessa uma rua movimentada, atento aos ruídos.
Se em Gueorgui Plekhanov a sexualidade aparece apenas como parte da superestrutura, em Herbert Marcuse ela ganha um papel muito mais central — quase subversivo.
Marcuse, especialmente em Eros e Civilização, propõe algo que talvez escandalizasse nossos velhos materialistas mais sóbrios: a ideia de que a repressão sexual não é apenas um efeito colateral da sociedade, mas um mecanismo ativo de dominação.
Não se trata apenas de organizar a produção, como diria um marxista clássico; trata-se de organizar os próprios desejos.
A sociedade industrial, segundo ele: canaliza a libido para o trabalho e a disciplina, limita formas de prazer que não sejam “úteis” e, com isso, mantém uma ordem estável
Nesse quadro, identidades dissidentes — incluindo experiências trans e não normativas — podem assumir um caráter potencialmente crítico, pois escapam, ao menos parcialmente, dessa lógica de funcionalidade.
Dir-me-ás: “Então há, na sexualidade, uma força revolucionária?” - Marcuse responderia: talvez — mas uma força constantemente domesticada.
Passemos agora a Michel Foucault, que, como um cirurgião meticuloso, prefere não falar em repressão, mas em algo mais sutil: produção.
Em sua História da Sexualidade, Foucault nos convida a abandonar a ideia de que o poder simplesmente proíbe. Ao contrário: o poder produz discursos, saberes, identidades.
Assim, categorias como “homossexual”, “normal”, “anormal” — e poderíamos acrescentar, hoje, as múltiplas formas de identidade de gênero — não são meros reflexos da realidade, mas construções históricas - Não no sentido banal de serem “inventadas” arbitrariamente, mas no sentido mais inquietante de que: passam a existir como objetos de saber são classificadas, estudadas, nomeadas e, por isso mesmo, tornam-se formas possíveis de subjetividade
Foucault talvez dissesse — com um meio sorriso — que o indivíduo moderno não descobre sua identidade; ele a aprende dentro de um campo de discursos.
Aqui, leitor, o contraste com Plekhanov é instrutivo. Onde Plekhanov vê: base econômica - ideias
Foucault vê uma rede muito mais intrincada: saber, poder e corpo entrelaçados - instituições (medicina, direito, psicologia) moldando a experiência - identidades emergindo como efeitos desses processos
Já Marcuse, por sua vez, ocupa uma posição intermediária: mantém o horizonte crítico do marxismo - mas desloca o foco para a repressão dos desejos
E quanto à questão trans, especificamente? À luz desses autores, poderíamos arriscar três movimentos:
Com Plekhanov (revisitado): A emergência e visibilidade das identidades trans dependem de condições históricas e materiais.
Com Marcuse: Essas identidades podem tensionar a organização repressiva da sociedade, ao desafiar normas rígidas de corpo, gênero e desejo.
Com Foucault: Elas são também produzidas dentro de discursos específicos — médicos, jurídicos, culturais — que simultaneamente: possibilitam sua existência pública e tentam enquadrá-las
Não apenas “quem somos”, mas: como nos tornamos o que somos , Quem tem autoridade para dizer isso e sob quais condições isso é reconhecido
Permita-me encerrar com uma observação que, espero, não soe demasiado grave.
Se há algo que une Herbert Marcuse e Michel Foucault — apesar de suas diferenças — é a recusa em aceitar como naturais as formas pelas quais vivemos nossos corpos e desejos.
E isso, convenhamos, é uma herança que Gueorgui Plekhanov, mesmo sem o saber, ajudou a tornar possível.
Apêndice: Max Stirner
Se há algo que Stirner parece fazer com prazer quase indecente, é desmontar aquilo que ele chamaria de “fantasmas” — não espíritos, mas ideias que se passam por entidades superiores ao indivíduo: a Moral, a Sociedade, o Estado, a Humanidade.
Essas palavras, diria ele, têm um vício curioso: começam como descrições e terminam como imperativos.
E assim nasce o que poderíamos chamar de falsa premissa moral: aquilo que é apenas uma forma de vida passa a ser tratado como obrigação universal.
Tomemos, então, as formas de sexualidade e identidade de gênero — sem nos apressarmos em defini-las como “naturais” ou “antinaturais”, pois Stirner desconfiaria imediatamente dessas palavras.
Ele perguntaria algo mais desconcertante: “Quem exatamente está sendo servido quando se diz que isto ou aquilo é moralmente correto?” - E aqui o ponto central emerge: para Stirner, não existe uma Moral com M maiúsculo pairando sobre os indivíduos.
O que existe são: indivíduos, suas vontades e as construções que tentam capturá-los
Assim, quando uma sociedade afirma: “isto é normal” ou “isto é desvio”, ou ainda “isto é aceitável”
Stirner não vê aí verdades, mas atos de posse simbólica. Alguém está tentando transformar sua própria perspectiva em lei geral - E isso, para ele, já é suspeito.
A questão trans, sob esse olhar, deixa de ser imediatamente um problema “a ser explicado” e passa a ser algo mais simples — e mais perturbador: um campo de experiências individuais que entra em conflito com categorias sociais rígidas que pretendem capturá-las.
E essas categorias não são neutras. Elas carregam o peso de instituições, tradições e discursos que exigem conformidade.
Aqui entra a crítica stirneriana mais afiada: a ideia de que o indivíduo deve “encaixar-se” em identidades pré-fabricadas - Para ele, isso é uma forma de alienação moralizada: primeiro define-se uma norma, depois transforma-se essa norma em “dever ser” e finalmente julga-se o indivíduo por não coincidir com ela
Tudo isso sem perguntar se o próprio indivíduo reconhece esse jogo como seu.
Dir-me-ás: “Mas sem normas não haveria sociedade.”
Stirner provavelmente responderia com um meio sorriso: “Talvez. Mas quem disse que a sociedade deve ser um altar onde o indivíduo se sacrifica?”
Para ele, a crítica não é exatamente à existência de normas, mas ao momento em que elas deixam de ser instrumentos e passam a ser entidades sagradas.
Se quisermos aplicar isso ao tema em questão, a formulação stirneriana seria algo como: não existe uma essência moral da sexualidade ou do gênero - existem apenas indivíduos vivendo suas experiências e discursos sociais tentando enquadrá-las em categorias úteis ao controle, à ordem ou à inteligibilidade
O conflito surge quando essas categorias exigem mais do que descrição: exigem obediência.
E aqui chegamos ao núcleo da “falsa premissa moral”, no sentido stirneriano: transformar uma convenção histórica em dever universal. Ou, dito de forma mais direta e menos piedosa: aquilo que foi construído por homens passa a ser tratado como se fosse exigido por algo acima dos homens.
E esse “algo acima” — seja chamado Natureza, Sociedade ou Moral — é justamente o que Stirner chamaria de fantasma.
Se quisermos concluir no espírito dele, seria mais ou menos assim:
Não há “verdade moral” a respeito de identidades humanas que preceda os indivíduos. Há apenas indivíduos, suas vidas concretas, e os sistemas que tentam dizer o que essas vidas deveriam ser.
E a pergunta verdadeiramente stirneriana não é: “isto é normal?” ,Mas sim: “a quem serve essa normalidade?”
- Anhangá


















