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sexta-feira, 12 de junho de 2026

ÚLTIMA ADVERTENCIA (13/06)

 Parece que a nossa época, tão orgulhosa de seus progressos morais, não aprendeu absolutamente nada com os seus próprios fracassos.

Tomemos o caso de Monark. Pouco me interessa a figura em si; interessa-me o fenômeno. O que fizeram? Isolaram-no. Cobriram-no de injúrias. Expulsaram-no dos círculos respeitáveis. Transformaram-no num exemplo público, desses que as multidões gostam de exibir como troféus de sua virtude.

E depois espantam-se com o resultado.

Há uma crença curiosa entre os reformadores de costumes de nosso tempo: a de que o ostracismo produz reflexão. Raramente produz. O que ele produz, quase sempre, é ressentimento. O homem lançado à margem não encontra mestres, encontra companheiros de exílio; não encontra diálogo, encontra ecos; não encontra correção, encontra aplausos dos que já pensam como ele.

Assim, aquilo que poderia ter sido apenas um erro, uma opinião infeliz ou uma extravagância passageira, converte-se em doutrina. O indivíduo, privado do convívio comum, passa a viver entre os seus iguais mais exaltados. E cada nova condenação que recebe serve apenas para confirmar-lhe a convicção de que o mundo inteiro conspira contra ele.

Depois, quando surge um radical verdadeiro, quando aparecem movimentos que já não aceitam qualquer mediação ou convivência, os mesmos que ajudaram a construir o isolamento perguntam-se, sinceramente espantados, de onde veio tamanho extremismo.

Veio do lugar para onde vocês o empurraram.

Uma sociedade que só conhece a expulsão como método de persuasão não está educando ninguém; está apenas fabricando inimigos.

Dos Beneméritos do Polegar

 

Há em nossos dias uma nova aristocracia, desconhecida dos velhos livros de História, mas não menos orgulhosa que as antigas.

Já não se funda em títulos nobiliárquicos, em brasões, em vastas propriedades ou em genealogias que remontam a algum cavaleiro medieval. Funda-se em coisa muito mais delicada e moderna: a distribuição dos pequenos sinais de aprovação.

O homem antigo desejava ser rei; o homem contemporâneo contenta-se em ser dono do "amei".

Eis por que me chamou a atenção um cidadão que, desejando tranquilizar os artistas de sua convivência, anunciou solenemente que contempla todas as suas obras e as considera excelentes; apenas lhe sucede, por uma dessas fatalidades da vida humana, esquecer-se de manifestar tal apreço.

A declaração é admirável.

Observem a elegância da construção.

Não é o artista que merece reconhecimento; é o observador que merece ser reconhecido como observador. A mensagem não procura enaltecer os desenhos, mas informar aos desenhistas que existe, pairando sobre eles, uma consciência superior que os examina, os aprova e os julga dignos.

A aprovação existe; apenas não chega ao aprovado.

É uma espécie de caridade metafísica.

Lembra aqueles benfeitores que anunciam ter alimentado cem famintos, mas por descuido se esqueceram de entregar-lhes a comida.

O curioso é que tal fenômeno se repete em toda parte. Multiplicam-se os indivíduos que desejam ser vistos como generosos sem praticar a generosidade, como atentos sem prestar atenção, como apoiadores sem apoiar.

Querem os dividendos morais da ação sem o incômodo de realizá-la.

Assim, o pequeno gesto de apertar um botão transforma-se numa peça de teatro social. Não basta apreciar; é preciso que todos saibam que se aprecia. Não basta possuir uma opinião favorável; é necessário publicar a existência dessa opinião favorável.

O elogio deixa de servir ao elogiado e passa a servir ao elogiante.

Eis a mágica dos tempos modernos: uma frase que parece desculpa converte-se em autocelebração; uma ausência de gesto transforma-se em prova de virtude; e um simples "não interajo" reaparece vestido como "interajo tanto que sequer consigo acompanhar meus próprios méritos".

Os artistas, porém, podem dormir tranquilos. Continuam invisivelmente admirados por toda uma legião de admiradores secretos, cuja principal ocupação consiste em anunciar ao mundo a intensidade de sua admiração silenciosa.

Os Puristas da Arte

 


"Ah eu não uso IA por nada nessa vida" - Ah tá bom purista, parabéns por não se render a tecnologia malvadona! Receba aqui vossa medalha por não deixar vossa alma ser corrompida!

As questões que levam os artistas atuais a não retirar essa pauta de seu meio, são um combinação de quesitos financeiros, ego ferido e o fim de uma classe que se julgava intocável.

Talvez se o artistas passassem menos tempo lendo porcarias proselitistas como Lenin e se dedicassem a ler de fato métodos de análise histórica saberiam que o capitalismo não pretende deixar castas ou classes de ofício intocáveis- o objetivo do capitalismo é sempre sua renovação e a destruição das estruturas do passado - como afirmaria Joseph Schumpeter

A ideia de "destruição criativa" é justamente que o capitalismo destrói constantemente setores antigos para criar novos setores produtivos.

A questão que nós devemos ter em nossa frente são meros dados econômicos, não vamos nos desgastar aqui em ficar debatendo tolices como direito autoral ou o que é arte de fato - porque é uma interpretação subjetiva, porque o proprio fenômeno da arte moderna para uns não e arte, o que é curioso, pois o que alegam os mesmos que também são contra IA é que a arte em suma é "expressão humana" - então caberia encaixar nessa categoria o cara que simplesmente faz uma bandalheira de manchas e rabiscos em uma tela.

Vamos pensar aqui: uma comissão da boa, não sairá menos do que 60 Reais - as vezes muito mais dependendo da demanda existente - e a pessoa pagará 60 ou mais por uma única peça. Agora vamos por em partes uma análise histórica da tecnologia: nenhuma começa perfeita, mais sua evolução é inevitável, então o que nós podemos presumir é que dentro de anos a IA será tão precisa que o jogo irá virar: ela vai ser impassível de erros (uma vez que é um conjunto de logaritmos que se tornam mais e mais precisos) e os artistas serão reconhecidos pelos erros,então o jogo vai virar.

Ai vamos por em conta que os artistas do Brasil alem de inflacionar tabelas, ainda tem por costume dolariza-las, ou seja, você pagará 3 vezes mais devido a escolha deles. E então chegaremos a essa conclusão cruel: vale a pena a você investir 60 reais ou mais em uma única peça ou com esse valor pagar uma IA que poderá produzir (vamos tentar ser modestos e pensar em um limite pequeno) que irá permitir que você crie 5 desenhos, provavelmente mais do que isso, mais supondo 5 desenhos por dia - isso em uma visão estritamente produtiva é totalmente benéfica, pois você tera que esperar dias por uma única peça, são questões de minutos - otimização.

Talvez os puristas prefiram de fato a demanda artesanal, mais sabemos que em uma sociedade de consumo imediato como a nossa isso nao é uma mentalidade coletiva, muito pelo oposto - as pessoas querem consumir e otimizar pois estao naufragadas na logica comercial, a qual muitos artistas por mais críticos que sejam, estão submersos em sua lógica.

Antes que me acusem de ser um "capitalista" perverso que só pensa em lucro e não no fator humano devo elucidar que só estou propondo um raciocínio logico

Se os artistas pretendem se manter como classse recomendaria a eles que diminuíssem o enpinar de narizes e a própria importância que não tem, que parem de dolarizar as tabelas e retomem a confiança do publico, porque quando essa evolução tecnológica acontecer de fato - muitos vão pular da fragata de vela pro navio a vapor.

Eu poderia ficar horas aqui, debatendo outros problemas, mais as questões morais (que eu como stineriano não creio na existencia) são desnecessárias, o ressentimento da classe artística esta muito mais na desestabilização financeira do que qualquer outra coisa. O orgulho do artista que antes se encontrava em um parnaso intocável pelas condições materiais hoje é atingido com uma pedra enorme e ve se aproximar o fim de seu ofício, como é todo processo histórico.

A evolução tecnológica e a classe intocável

 

Talvez vocês se perguntem o porque dos tais ditos "artistas" ficam tão furiosos com alguem usando IA, e resolvem não obstante expor o usuário a uma especie de "humilhação" - apelando pro falso fantasma de uma "ética" perene que flutua sobre a humanidade, afinal a eles "o uso de IA é antiético" por todos aqueles motivos que já conhecemos de praxe.

Mais o que deve ser observado meus caros, que isto não é mera indignação moral: É UMA ESTRATÉGIA DE MERCADO.

pensem comigo, a pessoa que usa IA pelos mais variados motivos (falta de dinheiro, habilidade para desenvolver os estilos artísticos consideráveis aceitáveis dentro do campo artistico, entre outros) é exposta a humilhação e é condenada pela ótica de uma pressuposta ética - que sequer existe - o que restará a essa pessoa? virar CONSUMIDORA, ou seja - adquirir artes por meio de comissões 

Outro exemplo: uma pessoa que recém esta começando a desenhar, que possui técnicas rudmentares ou básicas, que desenvolveu um estilo e linguagem próprio que distoa do padrão exigido pela elite artistica, o mesmo acontece: humilhação, um julgamento estético feito sem que o autor o desejasse e nos casos mais extremos um ostracismo: e entra novamente a lógica comercial - um concorrente novo ou precisa ser absorvido pelos donos do monopólio para que opere de acordo com suas regras ou deve estar fora do mercado.

Então meus amigos, não vos deixeis persuadir pelas falsas premissas ético-morais de um bando de imorais, os que gostam de arrotar virtudes porém tem suas consciências as imundices de um sepulcro caiado.

Outra coisa que vejo é que muitos artistas se recusam a fazer vendas a "usuários de IA" - justamente porque eles operam não com uma mentalidade empreendedora (que seria tentar conquistar o consumidor por meio da qualidade e superioridade do material artesanal) eles operam com a mentalidade corporativa dos mais baixos capitalistas: eu seleciono meus compradores por criterios supostamente éticos, mais no final do dia eu apenas quero deixar eles sem opções a não ser adquirir peças de meu mercado 

A Inglaterra durante o dominio na Índia confiscou ferramentas e impediu as famílias indianas de produzirem suas roupas por conta própria, forçando as mesmas a comprarem do mercado ingles - o mesmo esta se tentando fazer aqui, impedindo que as pessoas possam possuir seus próprios meios de fazer arte por meio do constrangimento delas e as obrigado a se tornarem consumidoras de um mercado já monopolizado.

O maior medo dos monopolistas é que a população possua meios de produzir por sua conta própria seus produtos - eis ai porque a industria se transformou em trusts.

E meus caros e queridos amigos, pensemos comigo - é uma perca tão grande assim? Será mesmo que vale a pena dar vintens as mãos dos ingratos e orgulhosos? Vale a pena sustentar os que nos veem do alto de seu parnaso e nos desprezam pois em suas mentes parcas de qualquer sinapse somos "incapazes de sermos criativos de verdade pois não dominamos as refinadas tecnicas do ofício artesanal da arte"?

Pensem comigo - o que vale mais a pena? Pagar 50 Reais em uma peça as vezes nem pintada, ou dar 27,99 em uma IA que te permitirá criar até (vamos tentar medir aqui) 10 peças de arte POR DIA? será mesmo que vale tanto a pena continuar dependendo desses vendedores de araque que não são capazes de entender o proprio mercado?

Será mesmo que vale a pena desperdiçar 100 reais com alguém que vai demorar pra entregar sua peça, e ainda com 500 reclamações adjuntas pois por mais que você esteja pagando pra ele comer segundo ele você esta sugando o tempo dele com um trabalho que literalmente ele aceitou ou pagar 100 reais em uma I.A e repetir o mesmo processo dado acima, de fazer de 5 a 10 painéis por dia.

No final os artistas não vão perder o mercado por incompetência, pois possuem sim talento e isso e inegável, mais por burrice e falta de compreensão, por por ideais e ideologias na frente de tudo, por apelar pra uma falsa ética e moral da qual qualquer um com dois neurônios já não cre.

E no final o que derrubará os artesãos não sera o tear, mais sim a arrogância dele para os que possuem menos poder aquisitivo de possuir suas peças

Uma burrada digna de monopolistas! Eis ai o intelecto desta classe que se julgava superior, mais a chegada da tecnologia rasgou o véu do templo que separava-nos da realidade completa: no capitalismo nenhum ofício esta salvo e todos sofrerão o processo natural da história e da tecnologia - como todos os ofícios.

"Ah mais a alma da arte" - meus caros, a alma da arte não se encontra na arte, mais sim no artista. E o que não falta são artistas talentosos mais sem nenhum pingo de alma, suas peças refinadas não possuem nada de criativas de fato, são apenas mera replicação de cenas do cotidiano burlesco da vida entediante de aburguesados, quando as obras não se resumem a series compulsórias de pornografia sem um respiro.

Ah meus caros, a máquina de fato não tem alma - mais isso tem logica pois afinal ela não é orgânica e nem possui vida, mais é triste que os desalmados possuam apenas um talento quase que mecânico que apenas lhe servem para encher os pratos, o vaso esta vazio sem alma lá, e nem haverá- pois aquele que dedica seus dias e anos a procurar pessoas que estavam quietas em seus espaços criando apenas para julga-las é incapaz de criar o mínimo de sensibilidade ou alma.

Talento não confere humanidade nem dignidade.

Carta aos artistas

 

Algumas coisas precisam ser ditas:

Vejo muitos colegas de arte receosos de suas produções artísticas, muitas vezes as reduzindo ou sequer trazendo as tais a luz, por receio do julgamento dos apóstolos de Judas, os falsos moralistas que permeiam a estrutura da Furryfandom brasileira.

Talvez com receio dos temas abordados, do estilo inovador ou do uso de inteligência artificial para a realização de tais obras, o que implica sabemos nos o julgamento dessa caterva que não tem mais nada em suas vidas de melhor do que ficar na incessante perseguição a qualquer um que desvie de seus ditames draconianos.

Meus amigos, meus irmãos! Até quando deixeis que o julgamento alheio permeie vossas obras e mentes criativas? Até quando vós permitirão que eles colonizem vossas almas e vossa criatividade?

Alguns fatos precisam ser expostos com clareza.


O que a obediência a essa elite putrida da arte irá trazer a vocês? O que lhes trará de benefício? Acharam talvez que obedecendo lhe cederão uma cadeira no grande jure - mais não. As cadeiras ja estão nominadas e espaçadas de maneira absurdamente calculada. Não ha lugar nem a mais nem a menos.

A elite se protege e protege seus interesses de domínio - e por isso sua campanha em perseguir tudo aquilo que sai de dentro de seu perímetro é essencial, pois uma vez que acabem por surgir mais e mais rebeldes, eles perderão o controle e o castelo começará a ruir, e esse é o medo deles: perder o monopólio. E é por isso que eles se usam de uma cartilha de falso moralismo para promover esse constrangimento.

O objetivo deles é justamente esse, colocar ou as pessoas sobre seus sapatos, subjugar elas - ou as eliminar.


E Até quando vocês continuarão aceitando essa posição ridícula de subservientes? Até quando viverão como miseráveis paspalhos com um pires na mão esperando que os senhorios, os "coroné" da arte lhe deem uma migalha de aceitação? basta! FAÇAMOS AQUILO QUE SATISFAZ NOSSO EGO!

Sejamos livres do senhorio. Declaramos independência do baronato da arte, mandemos as favas todos os falos moralistas e polemicistas que não sabem nada da vida pois vivem dentro de seus casulos cristalinos, não sabem o que e fome, dificuldades e so defendem as causas progressistas pois isso lhes assiste apenas na questão sexual e nada mais.

Pior que o canalha é o covarde, é o que se omite da luta - e pior, espera da covardia uma recompensa que JAMAIS virá. Pois para os barões da arte a sua obediência é um dever e não uma gentileza.

Então escutem essa voz das trincheiras meus queridos amigos, levantai-vos, lutei, joguem os barões a lama! Ignorem sua existência, não deixem que a perversidade de algumas pessoas que apenas por dominar tecnicas ditas "refinadas" de arte dominem vossas vidas, vossas mentes e sua criatividade!

ABAIXO A ELITE ARTÍSTICA! ABAIXO OS MORALISTAS! viva a expressão plena do indivíduo seja da forma que for com a ferramenta que for!


LIBERDADE MEUS CAROS!

sábado, 6 de junho de 2026

A Indignação seletiva

 


Ah, a indignação seletiva! Velha conhecida de todas as corporações humanas e, ao que parece, estimada frequentadora das modernas associações de admiradores.

Nestes anos em que observei, de dentro e de fora, a pequena república da chamada furry fandom, aprendi que ela não difere muito das demais organizações humanas. Mudam os símbolos, mudam os nomes, mudam as vestimentas; permanecem, contudo, os mesmos mecanismos de proteção aos influentes e de severidade para com os desprovidos de prestígio.

Recordo-me de um artista de grande reputação — chamemo-lo, para preservar a elegância da crônica, de Cabeça de Bode. Certo dia publicou considerações que, vindas de qualquer indivíduo comum, provocariam protestos, manifestos e sessões públicas de condenação. Entretanto, como procediam de uma figura cercada de estima e influência, receberam o silêncio respeitoso que tantas vezes substitui a virtude.

E se algum espírito mais inquieto ousasse apontar a inconveniência do ocorrido, logo surgiriam os intérpretes da ocasião. Dir-lhe-iam que exagera, que promove escândalos, que não compreendeu o contexto, ou ainda que o acusado se encontra em admirável processo de evolução moral.

A mesma multidão que exige inflexibilidade para julgar os pequenos descobre subitamente as virtudes da paciência e da compreensão quando se trata dos grandes.

Observei também certas companhias estranhas, certas amizades embaraçosas, certas proximidades que, em outros casos, seriam consideradas provas suficientes para uma condenação perpétua. Mas os favores da reputação possuem propriedades quase milagrosas: tornam invisível aquilo que, nos demais, seria visto à distância.

Não se trata de novidade alguma. O mecanismo é antigo. Pode ser encontrado nos governos, nos partidos, nos escritórios, nas escolas e até nas famílias. Os homens raramente julgam os atos; julgam as pessoas. E, uma vez decidido quem pertence ao círculo dos eleitos, a moral passa a funcionar como uma porta giratória, abrindo-se ou fechando-se conforme a conveniência.

A pequena comunidade virtual apenas reproduz, em escala reduzida, os costumes do país que a produziu. Herdamos uma tradição em que a autoridade vale mais que o argumento, a posição vale mais que o mérito e a proximidade vale mais que a coerência.

Por isso não me espanta que muitos dos mais ferozes defensores da justiça sejam também seus mais hábeis administradores. Exigem princípios para os adversários e exceções para os amigos. A indignação, que deveria ser uma questão de consciência, transforma-se em simples questão de preferência.

Mas a verdadeira natureza dessas repúblicas revela-se no tratamento dispensado aos indivíduos sem prestígio.

Surge então o sujeito comum, o homem sem influência, sem admiradores numerosos, sem posição destacada na hierarquia informal da comunidade. Um desses personagens que passam despercebidos até o dia em que cometem algum erro público.

Era um conservador daqueles que ainda abundam neste país, criatura de opiniões antigas e convicções rígidas. Em dado momento, publicou observações abertamente hostis a pessoas transgênero. Não havia ali grande sofisticação intelectual; apenas a combinação, tão comum entre nós, de preconceito e ignorância.

A partir desse instante, a máquina moral entrou em funcionamento com admirável eficiência.

Primeiro vieram as capturas de tela. Depois os comentários indignados. Em seguida os compartilhamentos em grupos privados. Logo surgiram as denúncias públicas, os julgamentos coletivos e a inevitável transformação do acusado em exemplo pedagógico para toda a comunidade.

Em poucas horas, o obscuro cidadão alcançou uma notoriedade que jamais obteria por seus próprios méritos.

Não pretendo defendê-lo. O homem disse o que disse e deve responder por suas palavras. O que me interessa é outra questão: por que a mesma falta produz consequências tão distintas quando muda o autor?

Quando o erro pertence a um indivíduo influente, a comunidade descobre as virtudes da paciência, da contextualização e da misericórdia. Quando pertence a um desconhecido, descobre as virtudes da severidade, do rigor e do castigo exemplar.

A diferença não está no delito; está na posição social do delinquente.

Os velhos senhores do mundo compreendiam perfeitamente esse princípio. As leis mais duras sempre recaíram sobre os camponeses, os artesãos e os desprovidos de proteção. Já os proprietários, os nobres e os homens de prestígio frequentemente encontravam caminhos mais suaves para atravessar os mesmos tribunais.

Mudaram-se os cenários. Saíram os castelos, entraram as redes sociais. Saíram os brasões, entraram os números de seguidores. Mas a lógica permanece estranhamente familiar.

As modernas congregações da virtude parecem ter conservado, sem o saber, o mesmo espírito dos antigos bispados: penitência para os humildes, absolvição para os notáveis.

E talvez seja precisamente por isso que seus julgamentos despertem tão pouca confiança. Não porque punam os culpados, mas porque escolhem cuidadosamente quais culpados merecem punição.

E é precisamente aí que reside a minha inquietação.

Como chegamos a semelhante estado de coisas? Quem imaginaria que uma associação dedicada a personagens antropomórficos, ilustrações bem-humoradas e passatempos recreativos pudesse reproduzir, com tamanha fidelidade, os vícios das sociedades mais antigas?

Contudo, a observação prolongada não me permite outra conclusão.

Ali também existem hierarquias, clientelas, protegidos e magistraturas informais. Ali também existem os que julgam e os que são julgados. E, como em toda organização humana, raramente ambas as categorias coincidem.

A comunidade mostra-se particularmente diligente quando o acusado é um desconhecido ou, melhor ainda, um estrangeiro distante. Escândalos ocorridos em terras remotas são discutidos com entusiasmo quase acadêmico. Formam-se júris improvisados para examinar faltas cometidas a milhares de quilômetros de distância. Cada novo caso converte-se numa oportunidade para demonstrações públicas de virtude.

Entretanto, quando a questão envolve personagens situados no centro da própria estrutura social, a energia investigativa parece sofrer um curioso enfraquecimento.

Os homens mais influentes raramente comparecem perante os tribunais morais que tanto apreciam convocar para os demais.

Não afirmo que devam ser perseguidos. Tampouco sustento que toda acusação seja verdadeira. O que observo é algo mais simples: a extraordinária diferença de rigor empregada conforme a posição ocupada pelo acusado.

Para os periféricos, a suspeita basta. Para os notáveis, exige-se uma montanha de provas. Para os primeiros, a condenação é rápida; para os segundos, a compreensão é infinita.

Talvez seja esse o destino inevitável de toda comunidade humana. Começa proclamando igualdade e termina fabricando aristocracias.

Talvez os títulos tenham mudado de nome. Já não se fala em condes, viscondes ou desembargadores. Entretanto, continuam existindo figuras cuja reputação lhes concede privilégios que os regulamentos jamais ousariam admitir por escrito.

Quanto a mim, não alimento ilusões sobre as consequências de formular tais observações.

Todo grupo humano possui seus guardiões, seus administradores da ordem e seus distribuidores de prestígio. Questionar-lhes os critérios nunca foi uma atividade particularmente popular.

Mas há momentos em que o silêncio se torna mais desconfortável que a desaprovação.

E, se uma comunidade pretende fundamentar sua autoridade moral na justiça, parece-me razoável perguntar se seus princípios são realmente universais ou se apenas acompanham a direção dos ventos, das amizades e das conveniências.

Porque a verdadeira prova da justiça não está na facilidade com que condena os fracos.

Está na disposição de aplicar aos fortes os mesmos padrões que exige dos demais.


- JonniX 


O Furry Brasileiro

 


Ah, o furry brasileiro!

Nasceu em Campinas, em Belém ou em Sorocaba, mas não se conforma. Considera o próprio nascimento um acidente geográfico. A alma dele, assegura, nasceu em Ohio e foi despachada por engano para o Hemisfério Sul.

Acorda americano. Espreguiça-se americano. Toma café americano. Sonha americano. Pensa americano. E se pudesse trocar o próprio sangue por xarope de milho industrializado, trocava.

Escreve em inglês mesmo quando os leitores são brasileiros. Conversa em inglês com brasileiros. Discute problemas americanos com brasileiros. Briga por causas americanas, usa gírias americanas e mede o valor das coisas pela distância que possuem do Brasil.

A pátria para ele é uma inconveniência burocrática.

O português lhe parece uma língua áspera, provinciana, quase um defeito de fabricação. Escrevê-lo é um sacrifício. Falá-lo, uma concessão humilhante à realidade.

E não basta fugir sozinho.

Quer companhia na fuga.

Exige dos amigos a mesma devoção. Corrige, adverte, catequiza.

— O que vale é o dólar! O que vale é o inglês! Às favas o real e o português!

É um missionário da própria desnacionalização.

A infância preparou-o para o sacerdócio.

Passou as tardes afundado no sofá, mastigando guloseimas industriais e recebendo lições diárias daquela pedagogia silenciosa que ensina uma criança a admirar tudo que vem de fora e a desconfiar de tudo que nasce perto.

Aprendeu os nomes dos estados americanos antes dos municípios vizinhos. Conheceu as rodovias da Califórnia antes das estradas do interior. Decorou feriados estrangeiros sem jamais entender os próprios.

Cresceu.

E tornou-se aquilo que sempre sonhou ser:

um americano honorário sem passaporte, sem visto e, frequentemente, sem América.

E eis o apogeu.

A corte reúne-se.

A Brasil Fur Fest, empreendimento que talvez merecesse um capítulo perdido de Lima Barreto, abre seus portões para a grande temporada de sociabilidade nacional.

Acorrem os barões, os sub-barões e os candidatos ao baronato.

Chegam os acionistas do condomínio afetivo, os coronéis de Facebook, os marechais de Twitter, os administradores de servidores e toda aquela aristocracia digital que distribui favores, prestígios e desgraças com a mesma desenvoltura com que um coronel da República Velha distribuía cargos na intendência municipal.

Vêm também os protegidos.

Esses chegam mais tarde.

Trazem no currículo anos de beija-mão, de reverências estratégicas, de fidelidades cuidadosamente cultivadas. Alguns alcançaram o convite por talento. Outros por perseverança. Outros por misteriosas operações políticas cuja investigação exigiria uma comissão parlamentar.

E então acontece o momento supremo.

O acontecimento.

A revelação.

O contato com os americanos.

Os olhos brilham.

Os sorrisos esticam-se até as orelhas.

As espinhas dorsais adquirem uma flexibilidade quase circense.

A língua inglesa, antes hesitante, reaparece milagrosamente curada de todos os seus males.

Aperta-se a mão do visitante como quem toca uma relíquia sagrada.

Escuta-se cada frase como se fosse um pronunciamento imperial.

Se pudessem, alguns levariam o estrangeiro para passear pelas vitrines da própria alma, apontando orgulhosamente cada traço de americanização adquirido ao longo dos anos.

— Veja! Eu também penso assim!

— Veja! Eu também escrevo assim!

— Veja! Eu também odeio as mesmas coisas!

Mexicano? Não desperta o mesmo fervor.

Paraguaio? Passa despercebido.

Argentino? Talvez receba alguma atenção.

Português? Dependendo das circunstâncias.

Mas o americano...

Ah, o americano.

Sobre ele recaem todas as expectativas de um povo que passou décadas aprendendo a admirar de longe aquilo que julgava impossível ser.

E se por acaso aparecer algum nórdico, algum alemão ou qualquer europeu suficientemente pálido para parecer saído de um catálogo turístico, a devoção rapidamente encontra novos santos para venerar.

Afinal, entre os presentes, muitos ainda carregam uma antiga esperança: a de serem confundidos com estrangeiros por tempo suficiente para esquecerem que nasceram brasileiros.

E eis o apogeu.

O americano chega.

Traz consigo apenas a própria nacionalidade, mas isso basta. Ao redor dele forma-se uma auréola invisível, construída por décadas de cinema, televisão, propaganda e fantasias importadas.

O brasileiro americanista aproxima-se com a devoção de um peregrino.

Já não importa a conversa, a amizade, o caráter ou a inteligência.

Importa a procedência.

Importa o selo.

Importa o pedigree.

Porque nesta curiosa aristocracia tropical, o valor das pessoas não se mede pelo que são, mas pelo passaporte que carregam no bolso.

Há quem passe uma noite inteira em êxtase para depois descobrir que o acontecimento foi perfeitamente comum.

Mas que importa?

O fato em si vale menos que o relato posterior.

O troféu não está na experiência.

Está na possibilidade de anunciá-la.

Está no prestígio acumulado.

Está nas histórias contadas nos corredores, nos grupos privados, nos parlamentos informais da comunidade.

E assim o visitante regressa à sua terra como quem encerra mais um dia ordinário.

Já o devoto permanece.

Permanece encantado.

Permanece alimentando a memória daquele breve contato com a raça eleita de sua imaginação.

E durante anos colherá os dividendos simbólicos da experiência.

Ganhará assentos mais confortáveis no condomínio acionário.

Receberá novas credenciais de prestígio.

Acumulará distinções invisíveis que só possuem valor para aqueles que participam da mesma liturgia.

Talvez alguém pergunte qual a necessidade de tudo isso.

Eu não saberia responder.

Certas consciências são como igrejas: vivem de mistérios que seus próprios sacerdotes não conseguem explicar.

A Brasil Fur Fest escolheu como símbolo a capivara, esse pacífico rato dos rios brasileiros.

Escolha infeliz.

Se desejasse maior fidelidade sociológica, teria adotado o vira-lata.

Não o vira-lata real, que ao menos conserva alguma dignidade canina.

Mas o vira-lata espiritual.

Aquele que passa a vida tentando convencer os outros de que nasceu na nação errada.

Aquele que sonha em ser estrangeiro.

Aquele que imagina que toda virtude mora ao norte e todo defeito nasceu ao sul.


E lá segue ele.

O caboclo que se imagina inglês.

O tropical que sonha com neve.

O brasileiro que pede desculpas por ser brasileiro.

Sempre à procura de um novo senhor para admirar.

Sempre à espera de uma aprovação que jamais virá.


Eis a vida.


- JonniX

quarta-feira, 25 de março de 2026

NAO FOI SURPRESA. FOI NEGLIGÊNCIA.

Artigo publicado originalmente em 11 de fevereiro de 2026 no DeviantArt 

Há quem finja espanto. Há quem arregale os olhos como se o trovão tivesse rasgado um céu límpido.

Mentira.

O céu já estava carregado.

O estampido apenas confirmou o que qualquer observador lúcido anunciava: visibilidade sem estratégia é desfile na mira da artilharia.

A comunidade cresceu. Expandiu-se. Tornou-se fenômeno cultural. E o que fez sua alta cúpula? Sorriso protocolar. Neutralidade performática. Silêncio elegante.

Como se o mundo fosse um jardim neutro onde diferenças florescem sem disputa.
Ingenuidade é pouco. Foi presunção.

Subculturas que crescem deixam de ser invisíveis. E quando deixam de ser invisíveis, tornam-se símbolo.

E símbolo é munição nas mãos de quem vive de narrativa.

Mas, enquanto o enquadramento era preparado, o que fazia a liderança?

Eventos sem posicionamento.

Pronunciamentos vazios.

A crença pueril de que “somos apenas arte”.

Apenas arte? Nenhuma expressão cultural que alcance massa permanece “apenas”.

Arte é poder simbólico. Poder simbólico atrai confronto.

E confronto exige preparo.

Não se trata de histeria. Trata-se de leitura de cenário.

O erro não foi existir.

O erro foi agir como se crescimento não tivesse custo.

A indulgência da cúpula — esse desejo quase aristocrático de parecer acima das disputas — deixou a base exposta. Sem discurso estruturado. Sem blindagem narrativa.
Sem coordenação diante da primeira ofensiva simbólica relevante.

E quando o enquadramento veio, veio completo. Não pedindo diálogo.
Não oferecendo compreensão. Mas impondo rótulo.
Quem cresce e não estrutura defesa discursiva não é vítima do destino — é vítima da própria vaidade.

A pergunta agora não é quem nos apontou os canhões.
A pergunta é: por que marchamos para a frente deles acreditando que seriam apenas decoração?

Comunidades que desejam maturidade precisam abandonar o romantismo político.

Neutralidade não é escudo.
Silêncio não é estratégia. Boa intenção não é proteção.
Ou a liderança acorda para a realidade da disputa simbólica, ou continuará reagindo sempre tarde — sempre indignada — sempre surpresa.

E surpresa é privilégio de quem não quis enxergar.






-Artigo de Jonni X para "O incendiário" 

 

domingo, 22 de março de 2026

Furries no "Splash" - Um tiro contra a propria comunidade

 

É de notório conhecimento a emissão de uma edição do sensacionalista programa "Splash" do portal de notícias UOL, e esse programa é notoriamente conhecido por ser um promotor do "escandalo social" - o seu apresentador, o senhor Chico Barney é conhecido por transformar suas pautas e pautados em chacota, transformar-lhes em bufões para que o seu público miserável sedento por sensacionalismo barato se sacie de seu vazio patético de ser apenas um indivíduo medíocre, que pra se sentir melhor consigo mesmo gosta de ver conteúdo de baixa categoria, para que ele cultive o parco pensamento de "eu não sou tão esquisito assim! Existem pessoas piores!mais miseráveis que eu!"

Mais o que deve-se ser notado e que isso é uma porta escancarada para o panico moral e sensacionalismo barato encima da comunidade. Já não bastam as centenas de vídeos de youtubers medíocres taxando a comunidade furry como "degeneração social" - tudo que precisamos é que uma ruma de patetas vá a um programa de quinta categoria jogar holofotes sobre a comunidade, transformando ela em alvo fácil para a crescente campanha de moralidade que vem arrombando a fechadura de todos os espaços de nosso país. Tudo que precisamos é que um youtuber ou tiktoker político descubra essa "pepita de ouro" que é uma fonte inesgotável de polemicas e passe a demonizar toda uma comunidade embasado nos casos isolados dentro da mesma, e todo esse efeito provocado pelo NARCISISMO DE ALGUNS DE QUERER SE PROJETAREM AO NACIONAL AO CUSTO DE MILHARES.

Afinal, eles não serão afetados pela propaganda, se as coisas escalarem pegam o primeiro avião e rumam fora do país, como todo o galinha de alma e corpo o faz, nos momentos difíceis não quer lutar, quer "quitar" e fugir acima de tudo pra se preservar. Pra eles não faz diferença, o bom é o IBOPE, é a promoção da fandom como "mainstream" e não "underground" afinal, "Money!", mais o que falta a incauta liderança do "evento furry" é o cálculo das consequências das atitudes.

Em um texto anterior, ja avisando anteriormente, eu adverti que isso seria um erro fatal. A comunidade Otaku se expos a mídia e virou alvo dos moralistas, religionistas e até mesmo do oportunismo politico. E isso não será diferente com a furryfandom, o problema é que ela é uma fazenda bem mais ampla para panico moral, podendo gerar um revés de patamares inimagináveis. Talvez falte a liderança do "condomínio acionario" um pouco de leitura sobre o modus-operandi da mídia PODRE do Brasil

A mídia sensacionalista do Brasil

Jacinto Figueira Jr. O percursor do "mundo cão" na televisão
A mídia brasileira esta embasada em escandalo e tumulto moral, visto que um dos lemas motes da extinta TV Rio nos anos 50 foi "quanto mais baixaria, melhor!" E assim se seguiu a TV Brasileira durante sua existência, seguindo o padrão de jornais podres como "diário popular". A televisão foi se rebaixando cada vez mais a cada ano,a cada década, para se conquistar a audiência fácil as reportagens passam a ser mais tendenciosas e os programas passam a exibir escândalos de proporção a abalar até mesmo os gabinetes dos tapados militares, e tudo isso também gerava consigo um efeito de moralidade coletiva que era engajado pelos apresentadores de época, demagogos de marca maior, que carregavam consigo uma falsa sensação de moral ou de moralizador. Como todo religionista, pensa que vai salvar a humanidade expondo ao ridículo alguma minoria ou algum grupo underground a fim de "salvar o ocidente e a moral vigente" - bandalheira de calhordas!

Jacinto Figueira Junior, inspirado no filme "mondo cane", cria um programa de exposição de escândalos e de casos escabrosos:"O homem do Sapato Branco". O programa era tão PODRE que os militares o vetaram ao final da década de 1960, mesmo não sendo um programa de cunho político ou sexual, foi em demasia até mesmo para os censores, que essa ocasião acertaram.  O sapato de Jacinto era branco para aumentar o contraste do sangue que lhe escorria pelas mãos e caia a seus pés, eu recomendaria a Jacinto (se ainda vivo o fosse) a se vestir de açougueiro que é mais sua cara. 

Talvez o princípio da maldição total iniciou-se em 1979, na ja decaída TV Tupi do Rio, uma ruma de apresentadores desesperados por audiência fácil com pouco trabalho e gasto, inaugura o primeiro programa do gênero "exposição de desgraças e denuncias baratas" surge no rio o "Aqui e agora", o início dos desfiles de desgraças na televisão. Tudo isso pioraria ainda mais no ano seguinte (1980) com a ida da parte mais escandalosa do elenco ao infame canal onze do Rio, fundando o famigerado "O Povo na TV" - lá o programa atingiu o apice da baixaria: escândalos familiares, charlatães, justiça barata e bizarrices diversas. O programa exibiu A MORTE DE UM BEBÊ AO VIVO. E em NENHUM MOMENTO nem o apresentador nem o rico Senor Abravanel pagou uma ambulância ou levou o nenê a algum hospital privado a fim de salvar sua vida, NÃO, DEIXARAM O BEBE MORRER E AGONIZAR DIANTE DAS CÂMERAS. O IBOPE se salvou, a criança não.

Wagner Montes, o símbolo-mor do sensacionalismo na televisão brasileira 


Em seu elenco infame, contavam se as figuras nefastas de Wagner Montes, Wilton Franco, Sérgio Mallandro e Roberto Jefferson, o larapio-mor do PTB e reacionário doente. O programa é a cara do SBT: sensacionalista, sem pudor e explorador do bizzarro, não a toa o canal seria o responsavel por trazer de volta ao ar o proprio Jacinto Figueira Jr. Anos depois também surgiria dentro do mesmo canal outro cancro: a versão SB'Tista do "Aqui e Agora" - que chegou a exibir um SUICÍDIO AO VIVO MESMO SABENDO QUE A LEI PROIBIA. A mesma coisa se prossegiu nos outros canais: Manchete,Record, Band, RedeTV e canais por todo o Brasil, na busca desenfreada pela audiência transformava tudo em espetáculo.

O sensacionalismo chega a Internet

Ao final dos anos 90, os jornalistas ja contaminados com o "Wagner Montismo" passam a formar suas plataformas, surge o UOL, plataforma conhecida por promover escândalos e por dar proporção a figuras apodrecidas do meio nacional, como o ex-presidente Jair Messias Bolsonaro, ppsite notoriamente conhecido pelo alto grau de sensacionalismo. E isso se reflete na contratação de Chico Barney, que vive de promover chacota a grupos ou indivíduos considerados "fora do eixo". Tudo que Chico cobre, vira chacota (ou melhor, PANICO MORAL) 

Com o atual crescimento da polarização e das redes, também vemos um efeito que ja vem crescendo desde os finais dos anos 90 crescendo em nosso pais: o panico moral (moral panic)!,trazido para cá na figura do maldito adventista Irion, que chegou a TV com o apresentador ausente de carisma ou caráter, Gilberto Barros com o "baralho do diabo".

Com o crescimento da Internet, da maldição chamada "youtubers" (principalmente dos sectos de "games" e "opinião")e do crescimento do reacionarismo,se cria uma fórmula perfeita para uma perseguição ao que é considerado diferente implacavel, e tudo isso será possível por causa de uma EXPOSIÇÃO DESNECESSÁRIA EM UM PROGRAMA DE SENSACIONALISMO CARNICEIRO.

Eu realmente espero que a "alta cúpula Paulista" tenha noção do hate que isso irá gerar nos fóruns reaças, nas campanhas que serão empregadas pelos MALDITOS youtubers sensacionalistas de "opinião" que irão além de farmar rios de grana promoverão uma "santa campanha" para expulsar da sociedade esses "entes malignos e deturpados" -  questão é QUANDO ISSO VAI SAIR DO ONLINE?

QUANDO grupos reacionários monitorarão os grupos para saber dos eventos, para invadir eles e fazer suas coisas dantescas que eles ja vem fazendo em outros eventos, o dia que um youtuber sensacionalista adentrar a Brasil Fur Fest e começar a perturbar os participantes, talvez seja a hora que a alta cúpula vai se tocar do estrago que foi feito nessa tentativa tosca e ridícula de promoção que vai ser um TIRO NO PÉ QUE SÓ VAI AFETAR OS MEMBROS MENORES. E ainda dará gás à maldita propaganda moralista reacionária que vem so em crescimento.



O Brasil não é a Argentina nem a Espanha, e um pais neo-moralista, copia do cristianismo  americano, uma rastaquera! Os furries serão alvo ideal, ousaria dizer eu, até mais eficaz que os transsexuais.
"OLHEM SÓ! AS PESSOAS NÃO ESTÃO APENAS QUERENDO MUDAR DE GÊNERO! ESTÃO QUERENDO MUDAR DE ESPÉCIE!!"

Os furries burros não conseguem compreender que aqui NÃO É OS ESTADOS UNIDOS, aqui o panico moral é efeitvo, nao há liberdade de expressão como lá, aqui, basta que alguém de views ou que uma reportagem saia na Globo ou Record pra que tudo se ponha a baixo.

A inocência de uns é o triunfo dos sensacionalistas, que vivem de explorar as desgraças alheias e promover através delas mecanismos de perseguição moral a fim de emplacar panico moral a fim de promover o reacionarismo 

Maldito seja o jornalismo cão e seus membros.

-Artigo de Jonni X para "O incendiário" 

MATERIA ANTERIOR SOBRE O MESMO TEMA:
https://jornaloincendiario.blogspot.com/2026/03/exposicao-midiatica-e-seus-riscos.html





A Fandom como Condominio dos Associados

A furry fandom brasileira gosta de se imaginar como vanguarda cultural. Livre. Descentralizada. Horizontal.

Mas horizontalidade performática não elimina hierarquia. Apenas a torna menos visível.

Os Diários Associados também se vendiam como federação plural de veículos independentes. Na prática, eram um condomínio de interesses, sustentado por prestígio, alianças e manutenção de fachada. Enquanto havia coesão simbólica, o prédio parecia sólido.

A fandom opera do mesmo modo — só que em versão digital.
Não há ações registradas.
Mas há cotas de visibilidade.
Não há diretoria formal.
Mas há elite reputacional.
Não há estatuto escrito.
Mas há código moral não negociável.

A elite que nunca erra

Nos Associados, influência significava blindagem.

Na fandom, seguidores significam tolerância.
Grandes nomes podem flertar com polêmica, ambiguidade ou silêncio estratégico. A repercussão é amortecida. Há sempre contextualização, defesa, relativização.

Perfis pequenos?
São descartáveis.

A punição não é ética. É logística.

Não se ataca quem sustenta o prédio.

Ataca-se quem pode ser removido sem abalar a fachada.

Isso não é inclusão.
É gestão de risco.

Neutralidade aristocrática

A velha elite dos Associados acreditava que o império sobreviveria pela própria relevância histórica. Enquanto a estrutura financeira apodrecia, mantinha-se o discurso de grandeza.
Na fandom, a versão contemporânea disso é a neutralidade performática.

“Somos apenas arte.”
“Não queremos nos envolver.”
“Somos um espaço seguro.”
Espaço seguro para quem?

Subcultura que cresce vira símbolo.
Símbolo vira alvo.

Alvo exige estratégia.

Ignorar isso não é maturidade.
É presunção estética.

-"já temos nosso próprio João Calmon! Só nos falta descobrir quem é o Edmundo Monteiro dessa história!"

Americanização como servidão elegante

Os Associados dependiam de alianças políticas e econômicas para manter influência.

A fandom depende de validação internacional.

Produzir em inglês virou regra implícita.

A estética global virou padrão silencioso.
Referência local virou risco reputacional.

Isso não é abertura cultural.
É sucursalização.
Exporta-se conformidade.
Importa-se moralização.

E quem não domina o idioma do centro simplesmente orbita.

O higienismo como autopreservação

Quando surgem crises ou exposição midiática, o sistema reage como todo condomínio acuado:
fecha portas.

padroniza comportamento.
aumenta vigilância.
Humor ácido vira problema.
Crítica vira desvio.
Dissidência vira ameaça.
Não porque a arte exija pureza.
Mas porque a imagem exige limpeza.

Fragmentação conveniente

Os Diários Associados nunca foram unidade orgânica — eram feudos sob um nome comum.

A fandom também é isso: polos regionais, núcleos ideológicos, hierarquias tácitas.
O que mantém a coesão não é solidariedade profunda.

É conveniência reputacional.
Enquanto ninguém abala o nome coletivo, tudo funciona.

Quando há risco externo, os mais frágeis são empurrados para fora para preservar o todo.

A diferença que dói

Os Associados colapsaram financeiramente.
A TV Tupi saiu do ar.

A fandom não vai “sair do ar”.
Mas pode apodrecer culturalmente.
Pode virar previsível.

Autocensurada.
Dependente.
Domesticada.

Condomínios raramente desabam de repente.
Eles se tornam burocráticos, medrosos e irrelevantes.

E quando percebem, já não produzem cultura — apenas manutenção de marca.

Conclusão

A furry fandom brasileira não é caos.

É um condomínio simbólico que acredita ser comuna.

Funciona por capital reputacional.
Protege seus ativos.
Sacrifica suas periferias.
Busca validação externa.
E chama isso de progresso.

Nenhum sistema desses cai por acidente.

Ele se estabiliza até perder vitalidade.

E quando finalmente racha, todos fingem surpresa.

Como sempre.

"A furryfandom em vez de alçar o posto de condomínio acionario deveria alçar o posto de serem Assis Chateubriand: Brasil Primeiro!. Mais nem isso as ratazanas filhas do mais baixo e pueril americanismo são capazes!"

sábado, 21 de março de 2026

Exposicao midiatica e seus riscos

 


A fandom brasileira enfrenta um risco estrutural que precisa ser compreendido com clareza: exposição pública em canais sensacionalistas não fortalece a comunidade, fragiliza-a.

Programas de TV, youtubers sensacionalistas e microfones religiosos tratam qualquer subcultura como espetáculo, choque ou alvo moral. Quando representantes do alto escalão aceitam esses espaços, eles entregam a narrativa e expõem a comunidade a interpretações distorcidas que rapidamente se espalham nas redes.

Os efeitos dessa exposição são claros:

Pânico moral em cascata: notícias sensacionalistas viram viral, gerando ataques, perseguição e linchamento simbólico;

Reforço da estética clean: comportamento previsível e conformidade ideológica se tornam normas de autoproteção;

Desvinculação da realidade internacional: escândalos de origem americana são ignorados, criando hierarquia interna e apagando memória coletiva;

Fragilização de artistas periféricos: jovens, amadores e frequentadores anônimos pagam o preço primeiro e mais severamente.

O Brasil já tem histórico de subculturas criminalizadas, ridicularizadas ou atacadas após exposição sensacionalista. RPG, metal, cosplay, anime e cultura gótica são exemplos claros: a lógica se repete. A furry fandom brasileira não é exceção.

A mensagem é direta: visibilidade sem controle não é conquista, é passivo coletivo. O alto escalão pode sobreviver, mas a comunidade como um todo sofre consequências inevitáveis.
Este é um alerta: cada ação midiática deve ser medida, planejada e contextualizada. A busca por validação externa não pode substituir autonomia e proteção interna. Exposição imprudente tem preço — e ele será pago, mais cedo ou mais tarde, pelos mais vulneráveis da fandom.

"Guardem isso: quando essa exposição inevitavelmente cair nas mãos de religiosos, conservadores e sensacionalistas, a conta não será individual. Será coletiva. Quem buscou palco e capital simbólico não estará na linha de frente quando a reação vier. No Brasil, a história é clara: imprudência e ambição de poucos sempre produzem punição para muitos. Depois, o silêncio — e a limpeza interna começa."


-Artigo de Jonni X para "O incendiário" 

Americanizacao não é abertura: é dependencia

 

Americanização não é abertura: é dependência

No Brasil, a americanização não opera como troca cultural, mas como substituição simbólica. Ela não amplia horizontes; ela estreita possibilidades. Trata-se de um processo no qual referências, língua e estética locais são deslegitimadas em favor de um padrão estrangeiro tratado como universal, neutro e superior.
Esse padrão não é adotado por afinidade cultural espontânea, mas por necessidade de validação. O resultado é uma identidade performática: pessoas que vivem, falam e produzem como se estivessem inseridas num contexto que não corresponde à sua realidade material. Uma vida ensaiada segundo códigos externos.

A fandom brasileira como espaço de sucursal

Na furry fandom brasileira, esse mecanismo aparece de forma explícita. O inglês não é uma opção estratégica: é um requisito implícito. A estética globalizada não é escolha artística: é norma silenciosa. Produzir em português, usar referências nacionais ou propor qualquer forma de nacionalização simbólica é tratado como sinal de atraso, irrelevância ou inadequação.

O argumento recorrente — mercado, dólar, integração internacional — não se sustenta empiricamente. Outras fandoms periféricas (latino-americanas, asiáticas) operam internacionalmente sem abandonar língua ou identidade. Elas exportam conteúdo a partir de si. O Brasil, nesse modelo, exporta conformidade.

Inglês como filtro de classe

No contexto brasileiro, o domínio do inglês não é distribuído de forma equitativa. Ele é produto direto de privilégio estrutural. Quando o inglês se torna padrão obrigatório, ele funciona como filtro de classe, selecionando quem pode ter voz, alcance e legitimidade.
Por isso, críticas ao apagamento do português costumam ser desqualificadas como “inveja”, “ressentimento” ou “skin issue”. Essa resposta não refuta o argumento; ela o neutraliza. O debate sobre poder é convertido em falha individual. É uma técnica clássica de manutenção de hierarquia.

Progressismo retórico, disciplina seletiva

A fandom se apresenta como progressista, mas opera com punição desigual. Artistas com capital simbólico são protegidos; artistas periféricos são descartáveis. O discurso de inclusão convive com práticas de silenciamento, exposição e exclusão.

A americanização facilita esse processo ao importar também um modelo de moralização seletiva: linguagem progressista combinada com hierarquia rígida. O coletivo se enfraquece, enquanto o controle simbólico se fortalece.

O efeito estrutural

O resultado não é uma comunidade forte, mas:

•fragmentação interna
•ausência de memória coletiva
•dependência permanente de validação externa
•policiamento ideológico constante

A fandom não se organiza como centro cultural.
Ela funciona como satélite.

Conclusão

A americanização não fortalece a fandom brasileira.
Ela a desloca para fora e a disciplina por dentro.
Não produz identidade.
Produz adequação.
Não cria autonomia.
Cria dependência.
Questionar esse modelo não é isolamento nem nostalgia.
É recusar a condição de sucursal cultural permanente.


-Artigo de Jonni X para "O incendiário" 

quinta-feira, 19 de março de 2026

Higienismo Moral e Assimetria de Poder em Fandoms


Existe uma crença difundida de que determinados fandoms online funcionam como espaços progressistas, inclusivos e politicamente conscientes. Essa crença não se sustenta quando observamos seus mecanismos reais de exclusão.

Na prática, esses fandoms operam como instituições privadas morais, regidas menos por princípios universais e mais por gestão de imagem, capital simbólico e controle ideológico.

A inclusão é condicional.
O pertencimento depende de alinhamento discursivo.
A divergência não é debatida — é neutralizada.

A assimetria fundamental

Há uma diferença clara entre quem pode errar e quem pode ser punido.

Artistas grandes, com capital simbólico, visibilidade e utilidade econômica, frequentemente expressam opiniões transfóbicas, racistas ou abertamente polêmicas sem consequências proporcionais. O silêncio coletivo, a relativização ou a omissão funcionam como mecanismos de proteção.

Perfis pequenos, com pouco alcance e baixo capital cultural, são tratados como descartáveis. Quando expressam opiniões consideradas reacionárias ou inadequadas, tornam-se alvos de campanhas coordenadas: prints fora de contexto, exposeds, denúncias em massa, ostracismo e listas informais de exclusão.

Isso não configura justiça social.

Configura hierarquia.

O bode expiatório como ferramenta

A punição seletiva cumpre uma função simbólica importante: reafirma a moral dominante sem custo estrutural. Punir quem não tem poder é barato. Punir quem sustenta a visibilidade do grupo é inconveniente.

O “inimigo” ideal é aquele que:
não domina o vocabulário correto
não possui rede de proteção
não sabe se defender publicamente
já é percebido como socialmente inferior
A violência moral se justifica pelo alvo.


O silêncio como sobrevivência

Esses espaços afirmam rejeitar discussões políticas, mas apenas um tipo de política é realmente proibido: a que desafia o consenso interno.

O alinhamento progressista não é opcional; é pressuposto.

O silêncio não é neutralidade; é suspeita.

Dessa forma, muitos artistas aprendem que:
falar é arriscado
discordar é fatal
calar-se é estratégia

A ausência de posicionamento torna-se um marcador invisível de dissidência.

O caso da crítica religiosa

A exclusão de indivíduos que criticam religião — mesmo a partir de argumentos racionais ou históricos — evidencia que o problema não é “ódio”, mas quebra de tabu.

Certos temas são blindados.

Não por análise crítica, mas por sacralização moral.

Isso revela um processo de higienismo ideológico: remover o que causa desconforto, independentemente de coerência ou contexto.
Consequência estrutural

O resultado não é um espaço mais seguro, mas um espaço:

intelectualmente empobrecido
artisticamente previsível
moralmente performático
A pluralidade desaparece.
A contradição é punida.
A complexidade é tratada como ameaça.
O fandom se torna limpo, silencioso e homogêneo — não por consenso real, mas por medo de exclusão.


Conclusão:

O que se apresenta como inclusão é, muitas vezes, controle.

O que se vende como justiça é, frequentemente, gestão de risco.

E o que se chama de progresso pode operar como censura moral informal.
Não se trata de esquerda versus direita.

Trata-se de quem pode falar, quem pode errar e quem pode existir sem pedir permissão.



-Artigo de Jonni X para "O incendiário" 

A Furry Fandom Brasileira e a República Velha: um ensaio sobre coronelismo estético

 


Existe algo curiosamente familiar na estrutura da furry fandom brasileira. Familiar demais para ser coincidência. Em tese, trata-se de um espaço nascido do exagero, do estranho, do híbrido, do humor deslocado e da liberdade estética. Na prática, porém, o que se observa é um ecossistema rigidamente organizado, hierarquizado e surpreendentemente conservador.

Talvez não seja exagero dizer que estamos diante de uma reencenação informal — e ilustrada — da velha República.

Tal como no período oligárquico brasileiro, há um centralismo bem definido. Rio de Janeiro e São Paulo funcionam como capitais simbólicas: polos de legitimação, visibilidade e influência. Não necessariamente os mais criativos, mas certamente os mais bem conectados. O resto do país orbita em torno desses centros, buscando validação, indicação ou ao menos silêncio respeitoso.

Ao redor desse eixo surgem os caudilhos regionais. Grupos locais que se organizam como feudos culturais, cada qual com suas regras tácitas, seus códigos estéticos e seus líderes informais. Nada é explicitamente imposto — como todo bom coronelismo, tudo funciona por consenso implícito, favores, recomendações e exclusões sutis.

Os “artistas grandes”, nesse cenário, ocupam um papel semelhante ao dos deputados da República Velha. São eles que definem o que é “bom”, “maduro”, “aceitável” ou “problemático”. Seus seguidores — aspirantes, iniciantes ou dependentes de validação — cumprem o papel dos coronéis locais: replicam discursos, policiam desvios e observam atentamente quem está ou não “na linha”.

Não se trata apenas de estética, mas de moralidade artística. O humor precisa ser limpo. A crítica, diluída. O absurdo, domesticado.

Opiniões fortes são vistas como falha de caráter, e não como escolha expressiva. A arte não deve refletir o presente, o conflito ou a vivência concreta — deve pairar acima da realidade, neutra, polida e preferencialmente em inglês.
Aqui entra uma ironia particularmente cruel: uma fandom que se diz plural e inclusiva frequentemente reage com hostilidade a qualquer expressão que escape do padrão dominante. O artista que produz humor absurdo, fragmentado ou politicamente incômodo não é visto como alguém explorando outra tradição do cartoon — mas como alguém “mal resolvido”, “problemático” ou simplesmente “não profissional”.

Tal como na República Velha, talento não garante ascensão. O que garante crescimento é alinhamento. Indicação. Pertencimento. Muitos artistas tecnicamente medianos prosperam não pela força de suas ideias, mas pela capacidade de não desagradar. Enquanto isso, artistas inventivos, críticos ou estilisticamente desviantes são empurrados para a marginalidade — quando não para uma espécie de lista negra informal, onde qualquer crítica posterior pode ser descartada como “problema pessoal”.

A acusação de que “isso é influência americana” também merece ironia. A furry fandom norte-americana, apesar de seus próprios vícios, é notavelmente mais plural em termos de linguagem, humor e posicionamento político. O que se reproduz aqui não é essa diversidade, mas uma versão higienizada, acadêmica e desidratada, importada sem o contexto que a tornava interessante.

Talvez o problema não seja a influência externa, mas algo mais antigo e doméstico: nossa velha tendência ao controle social travestido de cordialidade, ao policiamento informal, à confusão entre harmonia e silêncio.
A pergunta que resta não é se há saída, mas se há disposição para criá-la. Toda hegemonia só existe enquanto não é nomeada. E talvez a simples recusa em se conformar — em continuar produzindo humor absurdo, crítica direta e arte com identidade — já seja, por si só, um gesto político.

Afinal, como a própria história mostra: nenhum sistema oligárquico cai por dentro. Ele apodrece.
E o absurdo sempre encontra um jeito de rir por último.



-Artigo de Jonni X para "O incendiário"