Ah, o furry brasileiro!
Nasceu em Campinas, em Belém ou em Sorocaba, mas não se conforma. Considera o próprio nascimento um acidente geográfico. A alma dele, assegura, nasceu em Ohio e foi despachada por engano para o Hemisfério Sul.
Acorda americano. Espreguiça-se americano. Toma café americano. Sonha americano. Pensa americano. E se pudesse trocar o próprio sangue por xarope de milho industrializado, trocava.
Escreve em inglês mesmo quando os leitores são brasileiros. Conversa em inglês com brasileiros. Discute problemas americanos com brasileiros. Briga por causas americanas, usa gírias americanas e mede o valor das coisas pela distância que possuem do Brasil.
A pátria para ele é uma inconveniência burocrática.
O português lhe parece uma língua áspera, provinciana, quase um defeito de fabricação. Escrevê-lo é um sacrifício. Falá-lo, uma concessão humilhante à realidade.
E não basta fugir sozinho.
Quer companhia na fuga.
Exige dos amigos a mesma devoção. Corrige, adverte, catequiza.
— O que vale é o dólar! O que vale é o inglês! Às favas o real e o português!
É um missionário da própria desnacionalização.
A infância preparou-o para o sacerdócio.
Passou as tardes afundado no sofá, mastigando guloseimas industriais e recebendo lições diárias daquela pedagogia silenciosa que ensina uma criança a admirar tudo que vem de fora e a desconfiar de tudo que nasce perto.
Aprendeu os nomes dos estados americanos antes dos municípios vizinhos. Conheceu as rodovias da Califórnia antes das estradas do interior. Decorou feriados estrangeiros sem jamais entender os próprios.
Cresceu.
E tornou-se aquilo que sempre sonhou ser:
um americano honorário sem passaporte, sem visto e, frequentemente, sem América.
E eis o apogeu.
A corte reúne-se.
A Brasil Fur Fest, empreendimento que talvez merecesse um capítulo perdido de Lima Barreto, abre seus portões para a grande temporada de sociabilidade nacional.
Acorrem os barões, os sub-barões e os candidatos ao baronato.
Chegam os acionistas do condomínio afetivo, os coronéis de Facebook, os marechais de Twitter, os administradores de servidores e toda aquela aristocracia digital que distribui favores, prestígios e desgraças com a mesma desenvoltura com que um coronel da República Velha distribuía cargos na intendência municipal.
Vêm também os protegidos.
Esses chegam mais tarde.
Trazem no currículo anos de beija-mão, de reverências estratégicas, de fidelidades cuidadosamente cultivadas. Alguns alcançaram o convite por talento. Outros por perseverança. Outros por misteriosas operações políticas cuja investigação exigiria uma comissão parlamentar.
E então acontece o momento supremo.
O acontecimento.
A revelação.
O contato com os americanos.
Os olhos brilham.
Os sorrisos esticam-se até as orelhas.
As espinhas dorsais adquirem uma flexibilidade quase circense.
A língua inglesa, antes hesitante, reaparece milagrosamente curada de todos os seus males.
Aperta-se a mão do visitante como quem toca uma relíquia sagrada.
Escuta-se cada frase como se fosse um pronunciamento imperial.
Se pudessem, alguns levariam o estrangeiro para passear pelas vitrines da própria alma, apontando orgulhosamente cada traço de americanização adquirido ao longo dos anos.
— Veja! Eu também penso assim!
— Veja! Eu também escrevo assim!
— Veja! Eu também odeio as mesmas coisas!
Mexicano? Não desperta o mesmo fervor.
Paraguaio? Passa despercebido.
Argentino? Talvez receba alguma atenção.
Português? Dependendo das circunstâncias.
Mas o americano...
Ah, o americano.
Sobre ele recaem todas as expectativas de um povo que passou décadas aprendendo a admirar de longe aquilo que julgava impossível ser.
E se por acaso aparecer algum nórdico, algum alemão ou qualquer europeu suficientemente pálido para parecer saído de um catálogo turístico, a devoção rapidamente encontra novos santos para venerar.
Afinal, entre os presentes, muitos ainda carregam uma antiga esperança: a de serem confundidos com estrangeiros por tempo suficiente para esquecerem que nasceram brasileiros.
E eis o apogeu.
O americano chega.
Traz consigo apenas a própria nacionalidade, mas isso basta. Ao redor dele forma-se uma auréola invisível, construída por décadas de cinema, televisão, propaganda e fantasias importadas.
O brasileiro americanista aproxima-se com a devoção de um peregrino.
Já não importa a conversa, a amizade, o caráter ou a inteligência.
Importa a procedência.
Importa o selo.
Importa o pedigree.
Porque nesta curiosa aristocracia tropical, o valor das pessoas não se mede pelo que são, mas pelo passaporte que carregam no bolso.
Há quem passe uma noite inteira em êxtase para depois descobrir que o acontecimento foi perfeitamente comum.
Mas que importa?
O fato em si vale menos que o relato posterior.
O troféu não está na experiência.
Está na possibilidade de anunciá-la.
Está no prestígio acumulado.
Está nas histórias contadas nos corredores, nos grupos privados, nos parlamentos informais da comunidade.
E assim o visitante regressa à sua terra como quem encerra mais um dia ordinário.
Já o devoto permanece.
Permanece encantado.
Permanece alimentando a memória daquele breve contato com a raça eleita de sua imaginação.
E durante anos colherá os dividendos simbólicos da experiência.
Ganhará assentos mais confortáveis no condomínio acionário.
Receberá novas credenciais de prestígio.
Acumulará distinções invisíveis que só possuem valor para aqueles que participam da mesma liturgia.
Talvez alguém pergunte qual a necessidade de tudo isso.
Eu não saberia responder.
Certas consciências são como igrejas: vivem de mistérios que seus próprios sacerdotes não conseguem explicar.
A Brasil Fur Fest escolheu como símbolo a capivara, esse pacífico rato dos rios brasileiros.
Escolha infeliz.
Se desejasse maior fidelidade sociológica, teria adotado o vira-lata.
Não o vira-lata real, que ao menos conserva alguma dignidade canina.
Mas o vira-lata espiritual.
Aquele que passa a vida tentando convencer os outros de que nasceu na nação errada.
Aquele que sonha em ser estrangeiro.
Aquele que imagina que toda virtude mora ao norte e todo defeito nasceu ao sul.
E lá segue ele.
O caboclo que se imagina inglês.
O tropical que sonha com neve.
O brasileiro que pede desculpas por ser brasileiro.
Sempre à procura de um novo senhor para admirar.
Sempre à espera de uma aprovação que jamais virá.
Eis a vida.
- JonniX