Ah, a indignação seletiva! Velha conhecida de todas as corporações humanas e, ao que parece, estimada frequentadora das modernas associações de admiradores.
Nestes anos em que observei, de dentro e de fora, a pequena república da chamada furry fandom, aprendi que ela não difere muito das demais organizações humanas. Mudam os símbolos, mudam os nomes, mudam as vestimentas; permanecem, contudo, os mesmos mecanismos de proteção aos influentes e de severidade para com os desprovidos de prestígio.
Recordo-me de um artista de grande reputação — chamemo-lo, para preservar a elegância da crônica, de Cabeça de Bode. Certo dia publicou considerações que, vindas de qualquer indivíduo comum, provocariam protestos, manifestos e sessões públicas de condenação. Entretanto, como procediam de uma figura cercada de estima e influência, receberam o silêncio respeitoso que tantas vezes substitui a virtude.
E se algum espírito mais inquieto ousasse apontar a inconveniência do ocorrido, logo surgiriam os intérpretes da ocasião. Dir-lhe-iam que exagera, que promove escândalos, que não compreendeu o contexto, ou ainda que o acusado se encontra em admirável processo de evolução moral.
A mesma multidão que exige inflexibilidade para julgar os pequenos descobre subitamente as virtudes da paciência e da compreensão quando se trata dos grandes.
Observei também certas companhias estranhas, certas amizades embaraçosas, certas proximidades que, em outros casos, seriam consideradas provas suficientes para uma condenação perpétua. Mas os favores da reputação possuem propriedades quase milagrosas: tornam invisível aquilo que, nos demais, seria visto à distância.
Não se trata de novidade alguma. O mecanismo é antigo. Pode ser encontrado nos governos, nos partidos, nos escritórios, nas escolas e até nas famílias. Os homens raramente julgam os atos; julgam as pessoas. E, uma vez decidido quem pertence ao círculo dos eleitos, a moral passa a funcionar como uma porta giratória, abrindo-se ou fechando-se conforme a conveniência.
A pequena comunidade virtual apenas reproduz, em escala reduzida, os costumes do país que a produziu. Herdamos uma tradição em que a autoridade vale mais que o argumento, a posição vale mais que o mérito e a proximidade vale mais que a coerência.
Por isso não me espanta que muitos dos mais ferozes defensores da justiça sejam também seus mais hábeis administradores. Exigem princípios para os adversários e exceções para os amigos. A indignação, que deveria ser uma questão de consciência, transforma-se em simples questão de preferência.
Mas a verdadeira natureza dessas repúblicas revela-se no tratamento dispensado aos indivíduos sem prestígio.
Surge então o sujeito comum, o homem sem influência, sem admiradores numerosos, sem posição destacada na hierarquia informal da comunidade. Um desses personagens que passam despercebidos até o dia em que cometem algum erro público.
Era um conservador daqueles que ainda abundam neste país, criatura de opiniões antigas e convicções rígidas. Em dado momento, publicou observações abertamente hostis a pessoas transgênero. Não havia ali grande sofisticação intelectual; apenas a combinação, tão comum entre nós, de preconceito e ignorância.
A partir desse instante, a máquina moral entrou em funcionamento com admirável eficiência.
Primeiro vieram as capturas de tela. Depois os comentários indignados. Em seguida os compartilhamentos em grupos privados. Logo surgiram as denúncias públicas, os julgamentos coletivos e a inevitável transformação do acusado em exemplo pedagógico para toda a comunidade.
Em poucas horas, o obscuro cidadão alcançou uma notoriedade que jamais obteria por seus próprios méritos.
Não pretendo defendê-lo. O homem disse o que disse e deve responder por suas palavras. O que me interessa é outra questão: por que a mesma falta produz consequências tão distintas quando muda o autor?
Quando o erro pertence a um indivíduo influente, a comunidade descobre as virtudes da paciência, da contextualização e da misericórdia. Quando pertence a um desconhecido, descobre as virtudes da severidade, do rigor e do castigo exemplar.
A diferença não está no delito; está na posição social do delinquente.
Os velhos senhores do mundo compreendiam perfeitamente esse princípio. As leis mais duras sempre recaíram sobre os camponeses, os artesãos e os desprovidos de proteção. Já os proprietários, os nobres e os homens de prestígio frequentemente encontravam caminhos mais suaves para atravessar os mesmos tribunais.
Mudaram-se os cenários. Saíram os castelos, entraram as redes sociais. Saíram os brasões, entraram os números de seguidores. Mas a lógica permanece estranhamente familiar.
As modernas congregações da virtude parecem ter conservado, sem o saber, o mesmo espírito dos antigos bispados: penitência para os humildes, absolvição para os notáveis.
E talvez seja precisamente por isso que seus julgamentos despertem tão pouca confiança. Não porque punam os culpados, mas porque escolhem cuidadosamente quais culpados merecem punição.
E é precisamente aí que reside a minha inquietação.
Como chegamos a semelhante estado de coisas? Quem imaginaria que uma associação dedicada a personagens antropomórficos, ilustrações bem-humoradas e passatempos recreativos pudesse reproduzir, com tamanha fidelidade, os vícios das sociedades mais antigas?
Contudo, a observação prolongada não me permite outra conclusão.
Ali também existem hierarquias, clientelas, protegidos e magistraturas informais. Ali também existem os que julgam e os que são julgados. E, como em toda organização humana, raramente ambas as categorias coincidem.
A comunidade mostra-se particularmente diligente quando o acusado é um desconhecido ou, melhor ainda, um estrangeiro distante. Escândalos ocorridos em terras remotas são discutidos com entusiasmo quase acadêmico. Formam-se júris improvisados para examinar faltas cometidas a milhares de quilômetros de distância. Cada novo caso converte-se numa oportunidade para demonstrações públicas de virtude.
Entretanto, quando a questão envolve personagens situados no centro da própria estrutura social, a energia investigativa parece sofrer um curioso enfraquecimento.
Os homens mais influentes raramente comparecem perante os tribunais morais que tanto apreciam convocar para os demais.
Não afirmo que devam ser perseguidos. Tampouco sustento que toda acusação seja verdadeira. O que observo é algo mais simples: a extraordinária diferença de rigor empregada conforme a posição ocupada pelo acusado.
Para os periféricos, a suspeita basta. Para os notáveis, exige-se uma montanha de provas. Para os primeiros, a condenação é rápida; para os segundos, a compreensão é infinita.
Talvez seja esse o destino inevitável de toda comunidade humana. Começa proclamando igualdade e termina fabricando aristocracias.
Talvez os títulos tenham mudado de nome. Já não se fala em condes, viscondes ou desembargadores. Entretanto, continuam existindo figuras cuja reputação lhes concede privilégios que os regulamentos jamais ousariam admitir por escrito.
Quanto a mim, não alimento ilusões sobre as consequências de formular tais observações.
Todo grupo humano possui seus guardiões, seus administradores da ordem e seus distribuidores de prestígio. Questionar-lhes os critérios nunca foi uma atividade particularmente popular.
Mas há momentos em que o silêncio se torna mais desconfortável que a desaprovação.
E, se uma comunidade pretende fundamentar sua autoridade moral na justiça, parece-me razoável perguntar se seus princípios são realmente universais ou se apenas acompanham a direção dos ventos, das amizades e das conveniências.
Porque a verdadeira prova da justiça não está na facilidade com que condena os fracos.
Está na disposição de aplicar aos fortes os mesmos padrões que exige dos demais.
- JonniX


Nenhum comentário:
Postar um comentário