sexta-feira, 12 de junho de 2026

ÚLTIMA ADVERTENCIA (13/06)

 Parece que a nossa época, tão orgulhosa de seus progressos morais, não aprendeu absolutamente nada com os seus próprios fracassos.

Tomemos o caso de Monark. Pouco me interessa a figura em si; interessa-me o fenômeno. O que fizeram? Isolaram-no. Cobriram-no de injúrias. Expulsaram-no dos círculos respeitáveis. Transformaram-no num exemplo público, desses que as multidões gostam de exibir como troféus de sua virtude.

E depois espantam-se com o resultado.

Há uma crença curiosa entre os reformadores de costumes de nosso tempo: a de que o ostracismo produz reflexão. Raramente produz. O que ele produz, quase sempre, é ressentimento. O homem lançado à margem não encontra mestres, encontra companheiros de exílio; não encontra diálogo, encontra ecos; não encontra correção, encontra aplausos dos que já pensam como ele.

Assim, aquilo que poderia ter sido apenas um erro, uma opinião infeliz ou uma extravagância passageira, converte-se em doutrina. O indivíduo, privado do convívio comum, passa a viver entre os seus iguais mais exaltados. E cada nova condenação que recebe serve apenas para confirmar-lhe a convicção de que o mundo inteiro conspira contra ele.

Depois, quando surge um radical verdadeiro, quando aparecem movimentos que já não aceitam qualquer mediação ou convivência, os mesmos que ajudaram a construir o isolamento perguntam-se, sinceramente espantados, de onde veio tamanho extremismo.

Veio do lugar para onde vocês o empurraram.

Uma sociedade que só conhece a expulsão como método de persuasão não está educando ninguém; está apenas fabricando inimigos.

Os inquisidores

 


Há uma espécie humana que prospera admiravelmente em nossos tempos.

Não cria mais do que os outros, não trabalha mais do que os outros, não sofre mais do que os outros; mas possui uma qualidade singular: sabe dividir o mundo entre os puros e os impuros.

Tal talento, outrora reservado aos inquisidores, aos sacerdotes e aos burocratas da salvação universal, democratizou-se. Hoje qualquer cidadão munido de uma conta em rede social pode exercer a mesma função com notável desenvoltura.

Basta escolher um pecado.

Uns escolhem a literatura errada, outros a opinião errada, outros a tecnologia errada. Escolhido o pecado, resta apenas anunciar os castigos.

"Quem praticar tal ato será excluído."

"Quem conviver com tais pessoas será removido."

"Quem souber de algum infrator, favor denunciar."

E eis formado um pequeno tribunal.

O curioso é que tais proclamações raramente produzem o efeito pretendido. Não convertem ninguém, não esclarecem ninguém, não educam ninguém. Servem sobretudo para comunicar a superioridade moral do próprio autor.

O cidadão já não diz: "Discordo."

Diz: "Sou tão virtuoso que minha discordância deve ter consequências administrativas."

É nesse ponto que a moral abandona a convivência e passa a desejar a polícia.

Max Stirner, esse velho perturbador de certezas, talvez observasse que por trás de muitos desses gestos não existe amor à arte, à justiça ou à comunidade. Existe apenas um novo fantasma exigindo sacrifícios.

Ontem era a religião.

Hoje pode ser uma causa, uma ideologia, uma estética ou uma tecnologia.

O nome muda; o mecanismo permanece.

O indivíduo deixa de perguntar se algo lhe convém, lhe beneficia ou lhe parece razoável. Passa a perguntar apenas se o novo ídolo permite.

E então sacrifica amigos, oportunidades, conversas e até o próprio interesse econômico no altar de uma abstração.

Não porque precise.

Mas porque o fantasma exige.

O mais engraçado, entretanto, é que a História raramente demonstra grande respeito por esses fiscais.

As máquinas continuam chegando.

As técnicas continuam mudando.

Os costumes continuam se transformando.

E aqueles que juravam deter a marcha do mundo acabam, anos depois, descobrindo que o mundo sequer tomou conhecimento de suas proibições.
Talvez por isso a prudência seja uma virtude tão rara.

Ela exige reconhecer que podemos estar certos em nossas preocupações e errados em nossos excessos.

Exige compreender que uma tecnologia pode trazer riscos sem que seja necessário declarar guerra a metade da humanidade.

Exige distinguir entre defender um princípio e transformar esse princípio numa patrulha.
Mas a prudência tem um defeito terrível: não rende aplausos imediatos.

Já os editais de excomunhão sempre encontram plateia.

Dos Beneméritos do Polegar

 

Há em nossos dias uma nova aristocracia, desconhecida dos velhos livros de História, mas não menos orgulhosa que as antigas.

Já não se funda em títulos nobiliárquicos, em brasões, em vastas propriedades ou em genealogias que remontam a algum cavaleiro medieval. Funda-se em coisa muito mais delicada e moderna: a distribuição dos pequenos sinais de aprovação.

O homem antigo desejava ser rei; o homem contemporâneo contenta-se em ser dono do "amei".

Eis por que me chamou a atenção um cidadão que, desejando tranquilizar os artistas de sua convivência, anunciou solenemente que contempla todas as suas obras e as considera excelentes; apenas lhe sucede, por uma dessas fatalidades da vida humana, esquecer-se de manifestar tal apreço.

A declaração é admirável.

Observem a elegância da construção.

Não é o artista que merece reconhecimento; é o observador que merece ser reconhecido como observador. A mensagem não procura enaltecer os desenhos, mas informar aos desenhistas que existe, pairando sobre eles, uma consciência superior que os examina, os aprova e os julga dignos.

A aprovação existe; apenas não chega ao aprovado.

É uma espécie de caridade metafísica.

Lembra aqueles benfeitores que anunciam ter alimentado cem famintos, mas por descuido se esqueceram de entregar-lhes a comida.

O curioso é que tal fenômeno se repete em toda parte. Multiplicam-se os indivíduos que desejam ser vistos como generosos sem praticar a generosidade, como atentos sem prestar atenção, como apoiadores sem apoiar.

Querem os dividendos morais da ação sem o incômodo de realizá-la.

Assim, o pequeno gesto de apertar um botão transforma-se numa peça de teatro social. Não basta apreciar; é preciso que todos saibam que se aprecia. Não basta possuir uma opinião favorável; é necessário publicar a existência dessa opinião favorável.

O elogio deixa de servir ao elogiado e passa a servir ao elogiante.

Eis a mágica dos tempos modernos: uma frase que parece desculpa converte-se em autocelebração; uma ausência de gesto transforma-se em prova de virtude; e um simples "não interajo" reaparece vestido como "interajo tanto que sequer consigo acompanhar meus próprios méritos".

Os artistas, porém, podem dormir tranquilos. Continuam invisivelmente admirados por toda uma legião de admiradores secretos, cuja principal ocupação consiste em anunciar ao mundo a intensidade de sua admiração silenciosa.

Os Puristas da Arte

 


"Ah eu não uso IA por nada nessa vida" - Ah tá bom purista, parabéns por não se render a tecnologia malvadona! Receba aqui vossa medalha por não deixar vossa alma ser corrompida!

As questões que levam os artistas atuais a não retirar essa pauta de seu meio, são um combinação de quesitos financeiros, ego ferido e o fim de uma classe que se julgava intocável.

Talvez se o artistas passassem menos tempo lendo porcarias proselitistas como Lenin e se dedicassem a ler de fato métodos de análise histórica saberiam que o capitalismo não pretende deixar castas ou classes de ofício intocáveis- o objetivo do capitalismo é sempre sua renovação e a destruição das estruturas do passado - como afirmaria Joseph Schumpeter

A ideia de "destruição criativa" é justamente que o capitalismo destrói constantemente setores antigos para criar novos setores produtivos.

A questão que nós devemos ter em nossa frente são meros dados econômicos, não vamos nos desgastar aqui em ficar debatendo tolices como direito autoral ou o que é arte de fato - porque é uma interpretação subjetiva, porque o proprio fenômeno da arte moderna para uns não e arte, o que é curioso, pois o que alegam os mesmos que também são contra IA é que a arte em suma é "expressão humana" - então caberia encaixar nessa categoria o cara que simplesmente faz uma bandalheira de manchas e rabiscos em uma tela.

Vamos pensar aqui: uma comissão da boa, não sairá menos do que 60 Reais - as vezes muito mais dependendo da demanda existente - e a pessoa pagará 60 ou mais por uma única peça. Agora vamos por em partes uma análise histórica da tecnologia: nenhuma começa perfeita, mais sua evolução é inevitável, então o que nós podemos presumir é que dentro de anos a IA será tão precisa que o jogo irá virar: ela vai ser impassível de erros (uma vez que é um conjunto de logaritmos que se tornam mais e mais precisos) e os artistas serão reconhecidos pelos erros,então o jogo vai virar.

Ai vamos por em conta que os artistas do Brasil alem de inflacionar tabelas, ainda tem por costume dolariza-las, ou seja, você pagará 3 vezes mais devido a escolha deles. E então chegaremos a essa conclusão cruel: vale a pena a você investir 60 reais ou mais em uma única peça ou com esse valor pagar uma IA que poderá produzir (vamos tentar ser modestos e pensar em um limite pequeno) que irá permitir que você crie 5 desenhos, provavelmente mais do que isso, mais supondo 5 desenhos por dia - isso em uma visão estritamente produtiva é totalmente benéfica, pois você tera que esperar dias por uma única peça, são questões de minutos - otimização.

Talvez os puristas prefiram de fato a demanda artesanal, mais sabemos que em uma sociedade de consumo imediato como a nossa isso nao é uma mentalidade coletiva, muito pelo oposto - as pessoas querem consumir e otimizar pois estao naufragadas na logica comercial, a qual muitos artistas por mais críticos que sejam, estão submersos em sua lógica.

Antes que me acusem de ser um "capitalista" perverso que só pensa em lucro e não no fator humano devo elucidar que só estou propondo um raciocínio logico

Se os artistas pretendem se manter como classse recomendaria a eles que diminuíssem o enpinar de narizes e a própria importância que não tem, que parem de dolarizar as tabelas e retomem a confiança do publico, porque quando essa evolução tecnológica acontecer de fato - muitos vão pular da fragata de vela pro navio a vapor.

Eu poderia ficar horas aqui, debatendo outros problemas, mais as questões morais (que eu como stineriano não creio na existencia) são desnecessárias, o ressentimento da classe artística esta muito mais na desestabilização financeira do que qualquer outra coisa. O orgulho do artista que antes se encontrava em um parnaso intocável pelas condições materiais hoje é atingido com uma pedra enorme e ve se aproximar o fim de seu ofício, como é todo processo histórico.

A evolução tecnológica e a classe intocável

 

Talvez vocês se perguntem o porque dos tais ditos "artistas" ficam tão furiosos com alguem usando IA, e resolvem não obstante expor o usuário a uma especie de "humilhação" - apelando pro falso fantasma de uma "ética" perene que flutua sobre a humanidade, afinal a eles "o uso de IA é antiético" por todos aqueles motivos que já conhecemos de praxe.

Mais o que deve ser observado meus caros, que isto não é mera indignação moral: É UMA ESTRATÉGIA DE MERCADO.

pensem comigo, a pessoa que usa IA pelos mais variados motivos (falta de dinheiro, habilidade para desenvolver os estilos artísticos consideráveis aceitáveis dentro do campo artistico, entre outros) é exposta a humilhação e é condenada pela ótica de uma pressuposta ética - que sequer existe - o que restará a essa pessoa? virar CONSUMIDORA, ou seja - adquirir artes por meio de comissões 

Outro exemplo: uma pessoa que recém esta começando a desenhar, que possui técnicas rudmentares ou básicas, que desenvolveu um estilo e linguagem próprio que distoa do padrão exigido pela elite artistica, o mesmo acontece: humilhação, um julgamento estético feito sem que o autor o desejasse e nos casos mais extremos um ostracismo: e entra novamente a lógica comercial - um concorrente novo ou precisa ser absorvido pelos donos do monopólio para que opere de acordo com suas regras ou deve estar fora do mercado.

Então meus amigos, não vos deixeis persuadir pelas falsas premissas ético-morais de um bando de imorais, os que gostam de arrotar virtudes porém tem suas consciências as imundices de um sepulcro caiado.

Outra coisa que vejo é que muitos artistas se recusam a fazer vendas a "usuários de IA" - justamente porque eles operam não com uma mentalidade empreendedora (que seria tentar conquistar o consumidor por meio da qualidade e superioridade do material artesanal) eles operam com a mentalidade corporativa dos mais baixos capitalistas: eu seleciono meus compradores por criterios supostamente éticos, mais no final do dia eu apenas quero deixar eles sem opções a não ser adquirir peças de meu mercado 

A Inglaterra durante o dominio na Índia confiscou ferramentas e impediu as famílias indianas de produzirem suas roupas por conta própria, forçando as mesmas a comprarem do mercado ingles - o mesmo esta se tentando fazer aqui, impedindo que as pessoas possam possuir seus próprios meios de fazer arte por meio do constrangimento delas e as obrigado a se tornarem consumidoras de um mercado já monopolizado.

O maior medo dos monopolistas é que a população possua meios de produzir por sua conta própria seus produtos - eis ai porque a industria se transformou em trusts.

E meus caros e queridos amigos, pensemos comigo - é uma perca tão grande assim? Será mesmo que vale a pena dar vintens as mãos dos ingratos e orgulhosos? Vale a pena sustentar os que nos veem do alto de seu parnaso e nos desprezam pois em suas mentes parcas de qualquer sinapse somos "incapazes de sermos criativos de verdade pois não dominamos as refinadas tecnicas do ofício artesanal da arte"?

Pensem comigo - o que vale mais a pena? Pagar 50 Reais em uma peça as vezes nem pintada, ou dar 27,99 em uma IA que te permitirá criar até (vamos tentar medir aqui) 10 peças de arte POR DIA? será mesmo que vale tanto a pena continuar dependendo desses vendedores de araque que não são capazes de entender o proprio mercado?

Será mesmo que vale a pena desperdiçar 100 reais com alguém que vai demorar pra entregar sua peça, e ainda com 500 reclamações adjuntas pois por mais que você esteja pagando pra ele comer segundo ele você esta sugando o tempo dele com um trabalho que literalmente ele aceitou ou pagar 100 reais em uma I.A e repetir o mesmo processo dado acima, de fazer de 5 a 10 painéis por dia.

No final os artistas não vão perder o mercado por incompetência, pois possuem sim talento e isso e inegável, mais por burrice e falta de compreensão, por por ideais e ideologias na frente de tudo, por apelar pra uma falsa ética e moral da qual qualquer um com dois neurônios já não cre.

E no final o que derrubará os artesãos não sera o tear, mais sim a arrogância dele para os que possuem menos poder aquisitivo de possuir suas peças

Uma burrada digna de monopolistas! Eis ai o intelecto desta classe que se julgava superior, mais a chegada da tecnologia rasgou o véu do templo que separava-nos da realidade completa: no capitalismo nenhum ofício esta salvo e todos sofrerão o processo natural da história e da tecnologia - como todos os ofícios.

"Ah mais a alma da arte" - meus caros, a alma da arte não se encontra na arte, mais sim no artista. E o que não falta são artistas talentosos mais sem nenhum pingo de alma, suas peças refinadas não possuem nada de criativas de fato, são apenas mera replicação de cenas do cotidiano burlesco da vida entediante de aburguesados, quando as obras não se resumem a series compulsórias de pornografia sem um respiro.

Ah meus caros, a máquina de fato não tem alma - mais isso tem logica pois afinal ela não é orgânica e nem possui vida, mais é triste que os desalmados possuam apenas um talento quase que mecânico que apenas lhe servem para encher os pratos, o vaso esta vazio sem alma lá, e nem haverá- pois aquele que dedica seus dias e anos a procurar pessoas que estavam quietas em seus espaços criando apenas para julga-las é incapaz de criar o mínimo de sensibilidade ou alma.

Talento não confere humanidade nem dignidade.

Carta aos artistas

 

Algumas coisas precisam ser ditas:

Vejo muitos colegas de arte receosos de suas produções artísticas, muitas vezes as reduzindo ou sequer trazendo as tais a luz, por receio do julgamento dos apóstolos de Judas, os falsos moralistas que permeiam a estrutura da Furryfandom brasileira.

Talvez com receio dos temas abordados, do estilo inovador ou do uso de inteligência artificial para a realização de tais obras, o que implica sabemos nos o julgamento dessa caterva que não tem mais nada em suas vidas de melhor do que ficar na incessante perseguição a qualquer um que desvie de seus ditames draconianos.

Meus amigos, meus irmãos! Até quando deixeis que o julgamento alheio permeie vossas obras e mentes criativas? Até quando vós permitirão que eles colonizem vossas almas e vossa criatividade?

Alguns fatos precisam ser expostos com clareza.


O que a obediência a essa elite putrida da arte irá trazer a vocês? O que lhes trará de benefício? Acharam talvez que obedecendo lhe cederão uma cadeira no grande jure - mais não. As cadeiras ja estão nominadas e espaçadas de maneira absurdamente calculada. Não ha lugar nem a mais nem a menos.

A elite se protege e protege seus interesses de domínio - e por isso sua campanha em perseguir tudo aquilo que sai de dentro de seu perímetro é essencial, pois uma vez que acabem por surgir mais e mais rebeldes, eles perderão o controle e o castelo começará a ruir, e esse é o medo deles: perder o monopólio. E é por isso que eles se usam de uma cartilha de falso moralismo para promover esse constrangimento.

O objetivo deles é justamente esse, colocar ou as pessoas sobre seus sapatos, subjugar elas - ou as eliminar.


E Até quando vocês continuarão aceitando essa posição ridícula de subservientes? Até quando viverão como miseráveis paspalhos com um pires na mão esperando que os senhorios, os "coroné" da arte lhe deem uma migalha de aceitação? basta! FAÇAMOS AQUILO QUE SATISFAZ NOSSO EGO!

Sejamos livres do senhorio. Declaramos independência do baronato da arte, mandemos as favas todos os falos moralistas e polemicistas que não sabem nada da vida pois vivem dentro de seus casulos cristalinos, não sabem o que e fome, dificuldades e so defendem as causas progressistas pois isso lhes assiste apenas na questão sexual e nada mais.

Pior que o canalha é o covarde, é o que se omite da luta - e pior, espera da covardia uma recompensa que JAMAIS virá. Pois para os barões da arte a sua obediência é um dever e não uma gentileza.

Então escutem essa voz das trincheiras meus queridos amigos, levantai-vos, lutei, joguem os barões a lama! Ignorem sua existência, não deixem que a perversidade de algumas pessoas que apenas por dominar tecnicas ditas "refinadas" de arte dominem vossas vidas, vossas mentes e sua criatividade!

ABAIXO A ELITE ARTÍSTICA! ABAIXO OS MORALISTAS! viva a expressão plena do indivíduo seja da forma que for com a ferramenta que for!


LIBERDADE MEUS CAROS!

domingo, 7 de junho de 2026

Por que Bachofen?


 Há homens que descobrem continentes; outros, estrelas; outros ainda, maneiras novas de arruinar os seus semelhantes. Johann Jakob Bachofen pertence a uma categoria menos ruidosa e talvez mais singular: a dos que descobrem passados. Não passados propriamente ditos, desses que se registram em cartórios e arquivos, mas passados imaginados, reconstruídos à luz de fragmentos, mitos, símbolos e velhas tradições.

Segundo Bachofen, a humanidade não nascera sob a égide do pai, como tantas vezes supõem os respeitáveis defensores da ordem. Ao contrário, teria atravessado épocas remotas em que a figura materna ocupava o centro da vida social e religiosa. Antes do cetro do patriarca, haveria existido o véu da sacerdotisa; antes da autoridade do pai, a veneração da mãe.

A ideia pareceu extravagante a muitos dos seus contemporâneos, e talvez ainda o pareça. Contudo, Bachofen observava os mitos antigos com a mesma atenção que um avarento dedica ao seu cofre. Onde outros viam fábulas, ele via vestígios; onde outros encontravam apenas deuses e monstros, ele julgava perceber ecos de formas sociais desaparecidas.

Assim, propôs que a humanidade teria conhecido diferentes estágios. O primeiro seria uma condição primitiva e tumultuosa, quase entregue aos impulsos da natureza. Depois surgiria aquilo que chamou de "direito materno", uma ordem na qual a linhagem e a autoridade derivariam da mãe. Não porque as mulheres governassem necessariamente todas as coisas, mas porque a maternidade era a única certeza visível num mundo em que a paternidade permanecia envolta em dúvidas.

Esse período estaria associado, em sua interpretação, a divindades femininas, à fertilidade, à terra e aos ciclos naturais. A mãe apareceria como símbolo da própria continuidade da vida. O mundo seria compreendido menos como uma hierarquia e mais como um organismo fecundo.


Mas a história, segundo Bachofen, não permanece imóvel. Pouco a pouco, forças novas se afirmariam. Os antigos cultos femininos cederiam espaço a divindades masculinas. A ordem materna seria substituída por uma ordem paterna. O direito, a propriedade, a política e a religião reorganizar-se-iam em torno da autoridade masculina. Apolo venceria Deméter; a luz da razão jurídica substituiria os mistérios da terra.

Convém notar que Bachofen não descrevia essa transformação apenas como um fato social. Via nela um drama espiritual. Para ele, a história era também a história dos símbolos, dos valores e das formas pelas quais os homens interpretam o universo. O triunfo do patriarcado representava, em certa medida, a vitória de princípios considerados mais abstratos, mais racionais e mais distantes da natureza.

Naturalmente, os sábios posteriores trataram de examinar suas conclusões com o zelo habitual dos sábios, isto é, discordando bastante. Muitas de suas reconstruções históricas já não são aceitas como descrições rigorosas do passado. Faltavam-lhe evidências arqueológicas que hoje consideraríamos indispensáveis. Seus argumentos repousavam frequentemente sobre interpretações mitológicas ousadas.

Entretanto, seria injusto despachá-lo para o sótão das curiosidades intelectuais. Seu mérito não consistiu tanto em provar a existência universal de sociedades matriarcais quanto em sugerir que as formas familiares e políticas possuem história; que aquilo que parece eterno talvez seja apenas antigo; e que os mitos, longe de serem simples fantasias, podem guardar a memória deformada de mundos desaparecidos.

Dessa maneira, Bachofen permanece como uma dessas figuras peculiares que a posteridade nem abraça nem abandona. Errou em muito, provavelmente. Mas errou de maneira fecunda. E há erros que, como certas árvores, valem menos pelos frutos imediatos do que pela sombra que oferecem às gerações seguintes.

Da Poligamia, ou do Mundo Antes dos Pais

Há certas palavras que produzem nos espíritos respeitáveis o mesmo efeito que um rato produz numa sala de jantar: poligamia é uma delas. Mal se pronuncia o vocábulo, e já alguns correm em busca da moral, outros da religião, outros ainda da polícia. Convém, entretanto, que a ciência tenha um pouco mais de sangue-frio.

Para Bachofen, a poligamia — ou, mais precisamente, a ausência de vínculos matrimoniais exclusivos e rigidamente definidos — não era um vício inventado por povos extravagantes, mas uma condição pertencente às épocas mais remotas da humanidade. Ele empregava o termo grego hetairismo para designar esse estado primitivo, em que as relações entre homens e mulheres não estavam ainda submetidas às regras familiares que hoje nos parecem naturais.

Imagine o leitor uma sociedade na qual a paternidade não pudesse ser estabelecida com segurança. A maternidade, ao contrário, apresentava-se como uma evidência imediata. A criança saía do ventre da mãe; quanto ao pai, permanecia envolto em incertezas que nem os mais zelosos genealogistas conseguiriam dissipar.

Desse fato simples, Bachofen extraía uma consequência considerável. Se não era possível determinar com clareza quem era o pai, a organização social tenderia a apoiar-se na mãe. O parentesco, a herança simbólica e mesmo certos aspectos da autoridade seriam calculados segundo a linha materna. Não porque houvesse uma revolução feminista avant la lettre, mas porque a própria realidade biológica impunha essa solução.

O chamado "direito materno" surgiria, assim, como uma resposta à indeterminação característica das fases anteriores. A ordem nasceria precisamente do caos. A figura materna apareceria como um princípio de estabilidade num universo em que as relações sexuais ainda não estavam enquadradas pelas instituições posteriores.


Bachofen acreditava encontrar vestígios dessa antiga condição em numerosos mitos. Histórias de amazonas, cultos dedicados a deusas da fertilidade, narrativas de heróis obrigados a submeter-se a figuras femininas poderosas — tudo isso lhe parecia conservar lembranças, ainda que deformadas, de uma época em que os valores maternos ocupavam posição predominante.

Com o passar do tempo, porém, a situação se alteraria. O casamento monogâmico, a família patriarcal e a autoridade do pai consolidar-se-iam gradualmente. A sociedade deixaria de organizar-se em torno da certeza da maternidade para organizar-se em torno da afirmação jurídica e social da paternidade. O patriarcado não destruiria apenas antigas instituições; destruiria também uma antiga visão de mundo.

Naturalmente, o leitor moderno deve guardar certa prudência. Poucos estudiosos contemporâneos aceitam a sequência histórica proposta por Bachofen em seus detalhes. A ideia de uma humanidade inteira atravessando estágios universais de promiscuidade, matriarcado e patriarcado é hoje considerada excessivamente simplificadora. As sociedades humanas revelaram-se muito mais variadas e complexas do que imaginavam os grandes teóricos do século XIX.

Mas permanece interessante observar que, para Bachofen, a poligamia primitiva não era um sinal de decadência moral. Era, antes, uma condição histórica específica, pertencente a um momento da evolução social. Julgá-la pelos critérios de épocas posteriores seria, em sua perspectiva, tão impróprio quanto censurar uma criança por ainda não possuir barba.

Talvez resida aí uma de suas contribuições mais duradouras: a suspeita de que as instituições humanas não descem prontas do céu nem brotam completas da terra. Também elas possuem infância, juventude e velhice. E quem sabe se os costumes que hoje defendemos com tanta solenidade não parecerão, aos olhos de séculos futuros, tão estranhos quanto nos parecem os antigos mistérios das deusas-mães?

Por Que Bachofen?

É uma pergunta justa. Afinal, o século XIX produziu uma multidão de pensadores, sistemas e profetas. Muitos deles prometiam explicar a totalidade da história humana; alguns pretendiam desvendar o segredo da religião; outros acreditavam possuir a chave definitiva da sociedade. Por que, então, voltar os olhos para Johann Jakob Bachofen?

A resposta talvez esteja justamente no fato de que ele não procurava apenas compreender instituições. Procurava compreender símbolos.

Grande parte dos estudiosos de seu tempo observava leis, governos, batalhas ou formas econômicas. Bachofen dirigia sua atenção para algo mais nebuloso e, por isso mesmo, mais profundo: os mitos, os ritos, as imagens religiosas, os sonhos coletivos das civilizações. Intuía que os homens não vivem apenas de pão, propriedade ou interesse. Vivem também de significados.

Pode-se dizer que sua obra foi uma tentativa de escutar aquilo que as sociedades contam a si mesmas acerca de sua própria origem.

Naturalmente, muitas de suas conclusões envelheceram. A arqueologia moderna, a antropologia comparada e a pesquisa histórica corrigiram diversas de suas hipóteses. Poucos aceitariam hoje a sucessão rígida de estágios históricos que ele propôs. Menos ainda a ideia de um matriarcado universal antecedendo todas as formas de patriarcado.

Mas há autores que permanecem importantes não por terem respondido corretamente todas as perguntas, e sim porque formularam perguntas que ninguém antes havia ousado fazer - Bachofen pertence a essa categoria.

Ele obrigou os estudiosos a considerar que as relações entre homens e mulheres possuem história. Sugeriu que a família não é uma estrutura imóvel, gravada desde toda a eternidade na pedra do universo. Indicou que a religião pode conservar lembranças de transformações sociais profundas. E, sobretudo, ensinou que os mitos não devem ser tratados apenas como fantasias infantis da humanidade, mas também como documentos espirituais.

Sua influência, aliás, estendeu-se muito além daqueles que concordaram com ele. Pode ser percebida em antropólogos, historiadores das religiões, psicólogos, filósofos e até escritores. Em diferentes graus, pensadores tão diversos quanto Friedrich Engels, Carl Gustav Jung, Erich Neumann e Joseph Campbell dialogaram com questões que Bachofen ajudou a colocar em circulação.

E quanto à sua atualidade?

Talvez ela resida precisamente num tempo que voltou a interrogar os fundamentos da cultura. As discussões contemporâneas acerca do gênero, da família, da autoridade, da tradição e da identidade frequentemente giram em torno de uma questão central: as formas sociais são naturais ou históricas?

Bachofen não forneceu uma resposta definitiva. Mas foi um dos primeiros a afirmar que aquilo que parece natural pode ser o resultado de longos processos históricos e simbólicos.

Além disso, sua obra recorda algo que o nosso século, tão apaixonado por estatísticas e algoritmos, por vezes esquece: os seres humanos não são movidos apenas por interesses materiais. São movidos também por narrativas, imagens e crenças. Uma sociedade não se sustenta somente por suas leis; sustenta-se igualmente pelos símbolos que considera sagrados.

Talvez seja essa a razão pela qual Bachofen continua a reaparecer. Não como um legislador da verdade histórica, mas como um explorador de territórios raramente visitados. Seus mapas contêm erros; por vezes, muitos erros. Contudo, foram desenhados sobre regiões que outros sequer suspeitavam existir.

E há uma estranha nobreza nesses pioneiros. O navegador que alcança o destino merece reconhecimento; mas também merece lembrança aquele que, guiado por estrelas imperfeitas, teve a coragem de abandonar o porto.

Bachofen foi um desses homens. Não nos legou uma resposta final. Legou-nos, talvez, algo mais valioso: uma nova maneira de formular perguntas.



-JonniX

sábado, 6 de junho de 2026

A Indignação seletiva

 


Ah, a indignação seletiva! Velha conhecida de todas as corporações humanas e, ao que parece, estimada frequentadora das modernas associações de admiradores.

Nestes anos em que observei, de dentro e de fora, a pequena república da chamada furry fandom, aprendi que ela não difere muito das demais organizações humanas. Mudam os símbolos, mudam os nomes, mudam as vestimentas; permanecem, contudo, os mesmos mecanismos de proteção aos influentes e de severidade para com os desprovidos de prestígio.

Recordo-me de um artista de grande reputação — chamemo-lo, para preservar a elegância da crônica, de Cabeça de Bode. Certo dia publicou considerações que, vindas de qualquer indivíduo comum, provocariam protestos, manifestos e sessões públicas de condenação. Entretanto, como procediam de uma figura cercada de estima e influência, receberam o silêncio respeitoso que tantas vezes substitui a virtude.

E se algum espírito mais inquieto ousasse apontar a inconveniência do ocorrido, logo surgiriam os intérpretes da ocasião. Dir-lhe-iam que exagera, que promove escândalos, que não compreendeu o contexto, ou ainda que o acusado se encontra em admirável processo de evolução moral.

A mesma multidão que exige inflexibilidade para julgar os pequenos descobre subitamente as virtudes da paciência e da compreensão quando se trata dos grandes.

Observei também certas companhias estranhas, certas amizades embaraçosas, certas proximidades que, em outros casos, seriam consideradas provas suficientes para uma condenação perpétua. Mas os favores da reputação possuem propriedades quase milagrosas: tornam invisível aquilo que, nos demais, seria visto à distância.

Não se trata de novidade alguma. O mecanismo é antigo. Pode ser encontrado nos governos, nos partidos, nos escritórios, nas escolas e até nas famílias. Os homens raramente julgam os atos; julgam as pessoas. E, uma vez decidido quem pertence ao círculo dos eleitos, a moral passa a funcionar como uma porta giratória, abrindo-se ou fechando-se conforme a conveniência.

A pequena comunidade virtual apenas reproduz, em escala reduzida, os costumes do país que a produziu. Herdamos uma tradição em que a autoridade vale mais que o argumento, a posição vale mais que o mérito e a proximidade vale mais que a coerência.

Por isso não me espanta que muitos dos mais ferozes defensores da justiça sejam também seus mais hábeis administradores. Exigem princípios para os adversários e exceções para os amigos. A indignação, que deveria ser uma questão de consciência, transforma-se em simples questão de preferência.

Mas a verdadeira natureza dessas repúblicas revela-se no tratamento dispensado aos indivíduos sem prestígio.

Surge então o sujeito comum, o homem sem influência, sem admiradores numerosos, sem posição destacada na hierarquia informal da comunidade. Um desses personagens que passam despercebidos até o dia em que cometem algum erro público.

Era um conservador daqueles que ainda abundam neste país, criatura de opiniões antigas e convicções rígidas. Em dado momento, publicou observações abertamente hostis a pessoas transgênero. Não havia ali grande sofisticação intelectual; apenas a combinação, tão comum entre nós, de preconceito e ignorância.

A partir desse instante, a máquina moral entrou em funcionamento com admirável eficiência.

Primeiro vieram as capturas de tela. Depois os comentários indignados. Em seguida os compartilhamentos em grupos privados. Logo surgiram as denúncias públicas, os julgamentos coletivos e a inevitável transformação do acusado em exemplo pedagógico para toda a comunidade.

Em poucas horas, o obscuro cidadão alcançou uma notoriedade que jamais obteria por seus próprios méritos.

Não pretendo defendê-lo. O homem disse o que disse e deve responder por suas palavras. O que me interessa é outra questão: por que a mesma falta produz consequências tão distintas quando muda o autor?

Quando o erro pertence a um indivíduo influente, a comunidade descobre as virtudes da paciência, da contextualização e da misericórdia. Quando pertence a um desconhecido, descobre as virtudes da severidade, do rigor e do castigo exemplar.

A diferença não está no delito; está na posição social do delinquente.

Os velhos senhores do mundo compreendiam perfeitamente esse princípio. As leis mais duras sempre recaíram sobre os camponeses, os artesãos e os desprovidos de proteção. Já os proprietários, os nobres e os homens de prestígio frequentemente encontravam caminhos mais suaves para atravessar os mesmos tribunais.

Mudaram-se os cenários. Saíram os castelos, entraram as redes sociais. Saíram os brasões, entraram os números de seguidores. Mas a lógica permanece estranhamente familiar.

As modernas congregações da virtude parecem ter conservado, sem o saber, o mesmo espírito dos antigos bispados: penitência para os humildes, absolvição para os notáveis.

E talvez seja precisamente por isso que seus julgamentos despertem tão pouca confiança. Não porque punam os culpados, mas porque escolhem cuidadosamente quais culpados merecem punição.

E é precisamente aí que reside a minha inquietação.

Como chegamos a semelhante estado de coisas? Quem imaginaria que uma associação dedicada a personagens antropomórficos, ilustrações bem-humoradas e passatempos recreativos pudesse reproduzir, com tamanha fidelidade, os vícios das sociedades mais antigas?

Contudo, a observação prolongada não me permite outra conclusão.

Ali também existem hierarquias, clientelas, protegidos e magistraturas informais. Ali também existem os que julgam e os que são julgados. E, como em toda organização humana, raramente ambas as categorias coincidem.

A comunidade mostra-se particularmente diligente quando o acusado é um desconhecido ou, melhor ainda, um estrangeiro distante. Escândalos ocorridos em terras remotas são discutidos com entusiasmo quase acadêmico. Formam-se júris improvisados para examinar faltas cometidas a milhares de quilômetros de distância. Cada novo caso converte-se numa oportunidade para demonstrações públicas de virtude.

Entretanto, quando a questão envolve personagens situados no centro da própria estrutura social, a energia investigativa parece sofrer um curioso enfraquecimento.

Os homens mais influentes raramente comparecem perante os tribunais morais que tanto apreciam convocar para os demais.

Não afirmo que devam ser perseguidos. Tampouco sustento que toda acusação seja verdadeira. O que observo é algo mais simples: a extraordinária diferença de rigor empregada conforme a posição ocupada pelo acusado.

Para os periféricos, a suspeita basta. Para os notáveis, exige-se uma montanha de provas. Para os primeiros, a condenação é rápida; para os segundos, a compreensão é infinita.

Talvez seja esse o destino inevitável de toda comunidade humana. Começa proclamando igualdade e termina fabricando aristocracias.

Talvez os títulos tenham mudado de nome. Já não se fala em condes, viscondes ou desembargadores. Entretanto, continuam existindo figuras cuja reputação lhes concede privilégios que os regulamentos jamais ousariam admitir por escrito.

Quanto a mim, não alimento ilusões sobre as consequências de formular tais observações.

Todo grupo humano possui seus guardiões, seus administradores da ordem e seus distribuidores de prestígio. Questionar-lhes os critérios nunca foi uma atividade particularmente popular.

Mas há momentos em que o silêncio se torna mais desconfortável que a desaprovação.

E, se uma comunidade pretende fundamentar sua autoridade moral na justiça, parece-me razoável perguntar se seus princípios são realmente universais ou se apenas acompanham a direção dos ventos, das amizades e das conveniências.

Porque a verdadeira prova da justiça não está na facilidade com que condena os fracos.

Está na disposição de aplicar aos fortes os mesmos padrões que exige dos demais.


- JonniX 


O Furry Brasileiro

 


Ah, o furry brasileiro!

Nasceu em Campinas, em Belém ou em Sorocaba, mas não se conforma. Considera o próprio nascimento um acidente geográfico. A alma dele, assegura, nasceu em Ohio e foi despachada por engano para o Hemisfério Sul.

Acorda americano. Espreguiça-se americano. Toma café americano. Sonha americano. Pensa americano. E se pudesse trocar o próprio sangue por xarope de milho industrializado, trocava.

Escreve em inglês mesmo quando os leitores são brasileiros. Conversa em inglês com brasileiros. Discute problemas americanos com brasileiros. Briga por causas americanas, usa gírias americanas e mede o valor das coisas pela distância que possuem do Brasil.

A pátria para ele é uma inconveniência burocrática.

O português lhe parece uma língua áspera, provinciana, quase um defeito de fabricação. Escrevê-lo é um sacrifício. Falá-lo, uma concessão humilhante à realidade.

E não basta fugir sozinho.

Quer companhia na fuga.

Exige dos amigos a mesma devoção. Corrige, adverte, catequiza.

— O que vale é o dólar! O que vale é o inglês! Às favas o real e o português!

É um missionário da própria desnacionalização.

A infância preparou-o para o sacerdócio.

Passou as tardes afundado no sofá, mastigando guloseimas industriais e recebendo lições diárias daquela pedagogia silenciosa que ensina uma criança a admirar tudo que vem de fora e a desconfiar de tudo que nasce perto.

Aprendeu os nomes dos estados americanos antes dos municípios vizinhos. Conheceu as rodovias da Califórnia antes das estradas do interior. Decorou feriados estrangeiros sem jamais entender os próprios.

Cresceu.

E tornou-se aquilo que sempre sonhou ser:

um americano honorário sem passaporte, sem visto e, frequentemente, sem América.

E eis o apogeu.

A corte reúne-se.

A Brasil Fur Fest, empreendimento que talvez merecesse um capítulo perdido de Lima Barreto, abre seus portões para a grande temporada de sociabilidade nacional.

Acorrem os barões, os sub-barões e os candidatos ao baronato.

Chegam os acionistas do condomínio afetivo, os coronéis de Facebook, os marechais de Twitter, os administradores de servidores e toda aquela aristocracia digital que distribui favores, prestígios e desgraças com a mesma desenvoltura com que um coronel da República Velha distribuía cargos na intendência municipal.

Vêm também os protegidos.

Esses chegam mais tarde.

Trazem no currículo anos de beija-mão, de reverências estratégicas, de fidelidades cuidadosamente cultivadas. Alguns alcançaram o convite por talento. Outros por perseverança. Outros por misteriosas operações políticas cuja investigação exigiria uma comissão parlamentar.

E então acontece o momento supremo.

O acontecimento.

A revelação.

O contato com os americanos.

Os olhos brilham.

Os sorrisos esticam-se até as orelhas.

As espinhas dorsais adquirem uma flexibilidade quase circense.

A língua inglesa, antes hesitante, reaparece milagrosamente curada de todos os seus males.

Aperta-se a mão do visitante como quem toca uma relíquia sagrada.

Escuta-se cada frase como se fosse um pronunciamento imperial.

Se pudessem, alguns levariam o estrangeiro para passear pelas vitrines da própria alma, apontando orgulhosamente cada traço de americanização adquirido ao longo dos anos.

— Veja! Eu também penso assim!

— Veja! Eu também escrevo assim!

— Veja! Eu também odeio as mesmas coisas!

Mexicano? Não desperta o mesmo fervor.

Paraguaio? Passa despercebido.

Argentino? Talvez receba alguma atenção.

Português? Dependendo das circunstâncias.

Mas o americano...

Ah, o americano.

Sobre ele recaem todas as expectativas de um povo que passou décadas aprendendo a admirar de longe aquilo que julgava impossível ser.

E se por acaso aparecer algum nórdico, algum alemão ou qualquer europeu suficientemente pálido para parecer saído de um catálogo turístico, a devoção rapidamente encontra novos santos para venerar.

Afinal, entre os presentes, muitos ainda carregam uma antiga esperança: a de serem confundidos com estrangeiros por tempo suficiente para esquecerem que nasceram brasileiros.

E eis o apogeu.

O americano chega.

Traz consigo apenas a própria nacionalidade, mas isso basta. Ao redor dele forma-se uma auréola invisível, construída por décadas de cinema, televisão, propaganda e fantasias importadas.

O brasileiro americanista aproxima-se com a devoção de um peregrino.

Já não importa a conversa, a amizade, o caráter ou a inteligência.

Importa a procedência.

Importa o selo.

Importa o pedigree.

Porque nesta curiosa aristocracia tropical, o valor das pessoas não se mede pelo que são, mas pelo passaporte que carregam no bolso.

Há quem passe uma noite inteira em êxtase para depois descobrir que o acontecimento foi perfeitamente comum.

Mas que importa?

O fato em si vale menos que o relato posterior.

O troféu não está na experiência.

Está na possibilidade de anunciá-la.

Está no prestígio acumulado.

Está nas histórias contadas nos corredores, nos grupos privados, nos parlamentos informais da comunidade.

E assim o visitante regressa à sua terra como quem encerra mais um dia ordinário.

Já o devoto permanece.

Permanece encantado.

Permanece alimentando a memória daquele breve contato com a raça eleita de sua imaginação.

E durante anos colherá os dividendos simbólicos da experiência.

Ganhará assentos mais confortáveis no condomínio acionário.

Receberá novas credenciais de prestígio.

Acumulará distinções invisíveis que só possuem valor para aqueles que participam da mesma liturgia.

Talvez alguém pergunte qual a necessidade de tudo isso.

Eu não saberia responder.

Certas consciências são como igrejas: vivem de mistérios que seus próprios sacerdotes não conseguem explicar.

A Brasil Fur Fest escolheu como símbolo a capivara, esse pacífico rato dos rios brasileiros.

Escolha infeliz.

Se desejasse maior fidelidade sociológica, teria adotado o vira-lata.

Não o vira-lata real, que ao menos conserva alguma dignidade canina.

Mas o vira-lata espiritual.

Aquele que passa a vida tentando convencer os outros de que nasceu na nação errada.

Aquele que sonha em ser estrangeiro.

Aquele que imagina que toda virtude mora ao norte e todo defeito nasceu ao sul.


E lá segue ele.

O caboclo que se imagina inglês.

O tropical que sonha com neve.

O brasileiro que pede desculpas por ser brasileiro.

Sempre à procura de um novo senhor para admirar.

Sempre à espera de uma aprovação que jamais virá.


Eis a vida.


- JonniX

Sobre a Poligamia



Dedicatoria 

Dedico estas páginas a Andrômeda — não a constelação, embora também brilhe, mas ao amigo de longa data, cúmplice de ideias livres e entusiasta sincero desse delicado escândalo que é viver sem cabresto afetivo. Que nelas encontre não um espelho, mas um convite — e, quem sabe, uma gargalhada.

E, por justiça poética, desdedico esta obra aos moralistas paulinos, que, com seu apóstolo bem dobrado no bolso do colete, hão de vir atirar-me suas britas minúsculas — essas pedrinhas de convicção herdada que não ferem nem rasgam, mal chegando a empoeirar o tecido da casaca. Recebo-as, aliás, com certa ternura: são leves como toda fé que nunca ousou duvidar de si mesma.

Uma INTRODUÇÃO 

Não sei se o leitor é dado a escândalos — suspeito que sim, como todos nós, ainda que em silêncio —, mas convém desde já adverti-lo: este pequeno escrito não pretende pedir licença à moral, nem beijar a mão da tradição. Ao contrário, ousa fitá-las nos olhos, com aquela cortesia fria de quem já não teme desagradar.

A poligamia, palavra que soa aos ouvidos como delito antes mesmo de ser compreendida, tem sido, ao longo dos séculos, menos julgada por seus efeitos do que condenada por seu atrevimento. Não é o mal que escandaliza, mas a quebra do hábito. E o hábito, leitor, é talvez o mais tirânico dos legisladores — governa sem decreto e pune sem apelação.

Dir-se-á que o amor deve ser uno, indivisível, quase sagrado em sua exclusividade. Mas pergunto, com a modéstia de quem apenas observa: será o coração humano assim tão disciplinado? Ou terá ele sido, desde sempre, um território mais vasto do que as cercas que lhe impuseram? Se a natureza distribui afetos com mão pródiga, por que razão a sociedade insiste em contá-los como quem reparte moedas?

Não ignoro que há, nesse tema, mais paixões do que argumentos, mais temores do que razões. A monogamia, erigida como virtude suprema, talvez deva parte de sua glória não à sua perfeição, mas à sua conveniência. É simples, é administrável, é — ouso dizer — confortável para a ordem das coisas. Já a poligamia, com sua pluralidade inquieta, exige do indivíduo aquilo que raramente se exige: consciência, responsabilidade e, sobretudo, sinceridade.

Este texto, portanto, não vem converter o leitor, tarefa ingrata e quase sempre inútil. Vem, antes, convidá-lo a um breve exercício de suspeita: suspeitar das certezas, das tradições herdadas, das verdades que nunca se deram ao trabalho de justificar-se.

Se ao final destas páginas o leitor não estiver convencido, pouco importa. Basta-me que esteja, ao menos, ligeiramente inquieto. Porque é da inquietação — e não da obediência — que nascem as ideias que sobrevivem.

Bachofen, ou da Família que Não Quis Ficar Parada

Há certas ideias que, por força do hábito, adquirem entre os homens a aparência de verdades eternas. Ninguém lhes pergunta de onde vieram, ninguém lhes examina a certidão de nascimento; aceitam-se como se tivessem descido prontas do céu, junto com as estrelas e as estações do ano.

Tal é o caso da família.

O cidadão moderno, que tantas dúvidas alimenta acerca da política, da economia e até de sua própria identidade, conserva singular confiança na estrutura familiar que lhe foi legada. Crê encontrá-la em toda parte e em todos os tempos, como se Adão tivesse deixado um regulamento doméstico devidamente autenticado para as gerações futuras.

Foi precisamente contra essa tranquila certeza que se ergueu Johann Jakob Bachofen.

Jurista suíço de profissão e arqueólogo das instituições humanas por inclinação, Bachofen realizou uma operação de natureza quase cirúrgica: retirou a família de seu pedestal e devolveu-a à história.

Até então, muitos supunham que a ordem patriarcal e a família moderna fossem expressões naturais e permanentes da condição humana. Bachofen ousou sugerir que talvez não fossem.

A hipótese produziu escândalo suficiente para garantir-lhe um lugar entre os homens que tiveram o mau gosto de pensar por conta própria.


Em sua obra Das Mutterrecht — "O Direito Materno" — propôs que as sociedades humanas teriam conhecido formas de parentesco profundamente distintas daquelas observadas na Europa de seu século.

Não importa aqui se suas conclusões resistiram integralmente ao exame dos antropólogos posteriores. Poucas construções intelectuais sobrevivem intactas ao tempo. O que importa é que Bachofen formulou uma pergunta cuja força permanece.

Se a família mudou uma vez, por que não poderia mudar novamente?

A questão parece simples; contudo, possui a desagradável propriedade de abalar convicções estabelecidas.

Bachofen observava os mitos antigos com o olhar de quem suspeita que as lendas escondem memórias. Onde outros viam apenas narrativas fantásticas, ele julgava encontrar vestígios de formas sociais desaparecidas.

Assim, as grandes deusas da Antiguidade, os cultos maternos e os sistemas de descendência feminina não eram para ele simples curiosidades arqueológicas. Eram testemunhas.

Testemunhas de um mundo em que a organização familiar obedecera a princípios diversos daqueles que a modernidade julgava naturais.

Talvez estivesse certo. Talvez estivesse errado. O ponto essencial permanece outro.

Ao demonstrar a pluralidade histórica das instituições familiares, Bachofen libertou a família da prisão da eternidade.

Ela deixou de ser um fato da natureza para tornar-se um fato da cultura.

E fatos culturais têm a inconveniente tendência de variar.

Esta observação possui importância particular para a presente tese.

Não se pretende aqui restaurar matriarcados imaginários nem ressuscitar civilizações extintas. Tampouco se pretende converter Bachofen em profeta de qualquer sistema contemporâneo.

Seu mérito encontra-se em terreno mais modesto e, por isso mesmo, mais sólido.

Bachofen recorda-nos que a família não é uma fórmula matemática.

Não existe uma equação universal capaz de determinar, para todos os povos e em todas as épocas, quantos indivíduos devem compô-la, quais funções devem exercer ou de que maneira devem organizar seus afetos.

A história humana apresenta variedade excessiva para consentir semelhante simplificação.

O erro moderno consiste em tomar por inevitável aquilo que é apenas habitual.

Acostumados à família nuclear, muitos imaginam que ela constitui o ponto final da evolução social, como se a história houvesse encerrado suas atividades justamente em nossa geração.

Bachofen convida-nos a uma prudência maior.

As instituições humanas possuem passado.

E tudo quanto possui passado pode possuir futuro.

A família, portanto, não deve ser julgada por sua conformidade com um modelo consagrado, mas por sua capacidade de cumprir suas finalidades.

Se uma forma familiar produz cooperação, cuidado, estabilidade e transmissão da vida comum, ela merece exame sério, independentemente de sua distância em relação aos costumes vigentes.

É esta a lição mais duradoura de Bachofen.

Não a de que determinado sistema familiar deva prevalecer sobre todos os outros.

Mas a de que nenhuma geração possui o monopólio da imaginação social.

A família já foi muitas coisas.

Talvez ainda possa ser outras tantas.

Da Família como Cooperativa Humana

Entre os muitos milagres atribuídos à civilização moderna, existe um particularmente curioso.

Consiste em persuadir dois indivíduos, frequentemente inexperientes, quase sempre apaixonados e não raro imprudentes, de que são capazes de desempenhar sozinhos funções que outrora exigiam o esforço de uma comunidade inteira.

Chamam a isto maturidade.

Outras épocas teriam chamado aventura.

Não se pretende negar os méritos da família nuclear. Seria injustiça. Muitas delas florescem admiravelmente, produzem filhos virtuosos, velhos respeitáveis e até alguns cidadãos toleráveis.

O problema não reside em sua possibilidade.

Reside em sua pretensão de exclusividade.

A família moderna apresenta-se frequentemente como unidade autossuficiente. Um casal, alguns filhos, uma residência e uma conta bancária. Eis a fórmula.

Tudo quanto excede esse limite costuma ser tratado como acessório.

Os avós tornam-se visitantes ocasionais.

Os tios transformam-se em nomes de festas de fim de ano.

Os vizinhos convertem-se em estranhos que compartilham paredes.

E a comunidade, essa velha senhora outrora indispensável, acaba relegada ao esquecimento.

Entretanto, a história humana sugere outra interpretação.

Durante a maior parte de sua existência, o homem não viveu cercado apenas por seu cônjuge e seus filhos.

Viveu entre parentes: Entre irmãos, entre primos,entre agregados,entre velhos e crianças. Viveu, em suma, em grupos suficientemente numerosos para repartir encargos e suficientemente próximos para compartilhar destinos.

A sobrevivência dependia disso: O cultivo dos campos, a construção das moradias, a proteção contra perigos, a educação dos jovens, o cuidado dos enfermos. - Nenhuma dessas tarefas era confiada exclusivamente a duas pessoas.

A família funcionava como uma cooperativa antes mesmo que os economistas inventassem a palavra.

Talvez o leitor moderno estranhe esta comparação - Pois está habituado a considerar a família um fenômeno sentimental.

Mas as instituições humanas raramente sobrevivem apenas por sentimento.

O amor inspira - A cooperação sustenta.

Uma casa não permanece de pé porque seus habitantes se amam,permanece porque alguém prepara a refeição, alguém repara o telhado, alguém consola os aflitos e alguém trabalha para adquirir o pão.

O afeto é a alma da comunidade. - A cooperação é seu esqueleto.

Convém possuir ambos.

Quando observamos as dificuldades contemporâneas, percebemos frequentemente o peso desta ausência: Dois adultos devem prover renda, dois adultos devem educar os filhos,dois adultos devem cuidar dos pais idosos, dois adultos devem administrar a casa, dois adultos devem oferecer apoio emocional um ao outro.

E, além disso, espera-se que encontrem tempo para realizar-se pessoalmente.

Não surpreende que tantos fracassem.

Surpreendente seria o contrário - A sociedade moderna exige do casal a resistência de uma instituição e a flexibilidade de uma paixão.

Não raro obtém apenas exaustão.

A presente tese propõe uma reflexão diversa.

Talvez a família deva ser compreendida menos como um contrato romântico e mais como uma associação cooperativa.

Não uma empresa, não um quartel, não como uma mera "burocracia doméstica" - Mas uma comunidade de auxílio mútuo.

Nela, o valor dos indivíduos não se mede apenas por sua capacidade de produzir riqueza ou satisfazer desejos - Mede-se também por sua disposição em participar da vida comum.

Cuidar,ensinar,proteger,amparar,transmitir,receber, satisfazer,dar continuidade.

Sob esta perspectiva, o tamanho da família torna-se questão secundária.

O princípio fundamental é outro - Quanto maior a rede de cooperação, menor a vulnerabilidade dos seus membros.

Uma criança cercada por vários adultos responsáveis possui mais referências.

Um idoso cercado por vários familiares possui mais amparo.

Uma crise econômica torna-se menos devastadora quando seus efeitos podem ser distribuídos entre muitos ombros.

Um homem se sente mais amparado, uma mulher encontra mais apoio imediato - se dissolvem os arrufos monogâmicos peculiares 

A lógica é simples.


As sociedades compreendem-na perfeitamente quando constroem pontes, hospitais ou sistemas de abastecimento - Chamam-na redundância.

Quando aplicada à família, porém, a mesma ideia costuma provocar estranheza.

Talvez porque tenhamos aprendido a imaginar a independência como virtude suprema.

Mas o homem raramente foi independente : O homem foi interdependente - E talvez continue sendo.

A diferença é que algumas épocas reconhecem esse fato - Outras preferem escondê-lo sob o tapete das conveniências ideológicas.

A família, portanto, não deve ser julgada apenas por sua forma exterior.

Monogâmica ou plural.

Formal ou informal.

Tradicional ou inovadora.

Sua verdadeira medida encontra-se em outra parte.

Na capacidade de transformar indivíduos dispersos em uma comunidade capaz de enfrentar o tempo.

Pois o amor pode unir pessoas.

Mas somente a cooperação permite que permaneçam juntas quando o entusiasmo cede lugar à realidade.

E a realidade, como bem sabe qualquer família, possui o hábito desagradável de chegar sem aviso.

Crítica à Família Nuclear, ou da Arte de Construir Fragilidade

Toda época possui suas idolatrias : Os antigos possuíam estátuas,os modernos possuem conceitos - E entre os conceitos que alcançaram posição quase sagrada encontra-se a chamada família nuclear.

Não se trata apenas de uma forma de organização doméstica. Trata-se de um ideal.

Um homem, uma mulher, talvez alguns filhos,uma residência (raramente propria pois o capitalismo não os permite tal),dois automóveis, quando a prosperidade permite,talvez um cachorro, quando a publicidade insiste.

E uma quantidade variável de angústias cuidadosamente mantidas fora de vista.

Tal é o quadro - Tão familiar tornou-se esta imagem que muitos a confundem com a própria natureza humana.

Contudo, a natureza humana possui o defeito de ser mais antiga que a publicidade, mais antiga que a fábrica e mais antiga que o subúrbio.

Durante a maior parte da história, o homem viveu de maneira bastante diversa: As famílias eram extensas,os avós permaneciam próximos,os tios participavam da vida cotidiana,os irmãos frequentemente compartilhavam trabalho e patrimônio.

A casa era menos um abrigo para indivíduos e mais uma pequena comunidade.

A família nuclear, ao contrário, constitui uma redução - uma atomização.

Não necessariamente uma degeneração,mas uma redução.

Convém distinguir as duas coisas: Reduzir uma estrutura não implica automaticamente destruí-la.

Por vezes produz eficiência,por vezes produz vulnerabilidade - Tudo depende das circunstâncias. O problema começa quando uma solução histórica particular passa a ser tratada como modelo universal.


A família nuclear nasceu em estreita relação com a urbanização moderna, a mobilidade do trabalho e a industrialização. O trabalhador precisava deslocar-se - A indústria precisava de mão de obra móvel - As cidades cresciam, os laços comunitários enfraqueciam - Gradualmente, a unidade doméstica tornou-se menor.

Não por decisão filosófica - Mas por adaptação econômica.

O que surgiu como necessidade transformou-se posteriormente em ideal.

Eis uma das ironias favoritas da história: As circunstâncias produzem costumes,os costumes produzem doutrinas, e as doutrinas passam a apresentar-se como verdades eternas.

Entretanto, convém examinar a estrutura antes de celebrar suas virtudes.

Uma família nuclear repousa sobre um princípio singular: concentração.

Poucas pessoas desempenham muitas funções: Dois adultos devem prover sustento,dois adultos devem administrar recursos,dois adultos devem criar filhos, dois adultos devem oferecer apoio emocional, dois adultos devem enfrentar doenças, desemprego, velhice e infortúnios diversos, dois adultos devem se encontrar dispostos 24 horas para o outro.

Quando tudo funciona, o sistema parece admirável - Quando falha, revela sua fragilidade.

Basta a ausência de um dos pilares para que toda a construção seja abalada: O desemprego de um membro,a enfermidade de outro - Uma separação.



Uma morte, uma mudança repentina  - Cada evento exerce pressão desproporcional sobre a estrutura.

Não porque seus integrantes sejam incompetentes, mas porque a margem de segurança é pequena.

Uma ponte construída sobre dois pilares exige menos material - Também tolera menos acidentes.

Não se pretende aqui censurar aqueles que vivem em famílias nucleares, seria tão injusto quanto censurar um homem por habitar uma casa de madeira.

O ponto não é moral - É estrutural.

Uma forma social deve ser julgada também por sua capacidade de resistir às tempestades. - E neste aspecto a família nuclear apresenta limitações evidentes.

Existe ainda outra questão: Ao reduzir a família, ampliam-se as responsabilidades do indivíduo: O cidadão moderno encontra-se frequentemente cercado por pessoas e, ao mesmo tempo, profundamente só.

Precisa ser pai, precisa ser mãe,precisa ser educador,precisa ser psicólogo,precisa ser provedor,precisa ser amante, companheiro, compreensivo - Precisa ser companheiro perfeito.

Precisa administrar emoções, finanças, conflitos e expectativas - Tudo isto enquanto trabalha quarenta horas semanais ou mais.

Não surpreende que a exaustão tenha se tornado uma das doenças morais do nosso tempo.

Exige-se do indivíduo aquilo que outrora se exigia da comunidade.

E depois se estranha que ele falhe.

Talvez a crítica mais importante, porém, seja outra. - A família nuclear tende a transformar o casal no centro absoluto da vida doméstica.

Toda a estabilidade da instituição repousa sobre a permanência de um vínculo específico. Quando esse vínculo se rompe, frequentemente todo o restante se fragmenta.

As amizades dispersam-se, os patrimônios dividem-se,os filhos transitam entre mundos separados, os laços comunitários enfraquecem. - Uma comunidade inteira depende da continuidade de uma relação entre duas pessoas.

Tal arranjo merece ao menos reflexão.

A presente tese não propõe abolir a família nuclear - Nem poderia e nem pretende!

Ela existe, funciona para muitos e continuará existindo.

O que se questiona é sua pretensão de representar a única forma legítima de organização familiar.

Talvez seja uma solução.

Talvez não seja a melhor.

Talvez seja adequada em determinadas circunstâncias.

Talvez insuficiente em outras.

O erro consiste em transformar uma possibilidade histórica em destino universal.

A família nuclear é uma invenção humana - Como toda invenção humana, possui vantagens e limitações.

Reconhecer estas últimas não constitui ataque.

Constitui apenas o primeiro passo para imaginar alternativas.

E imaginar alternativas sempre foi a atividade mais perigosa para as ortodoxias de qualquer época.

Pequena Crônica Doméstica

Suponhamos duas casas - Não peço ao leitor que as visite; basta imaginá-las.

Na primeira habita a respeitável família nuclear.

O pai trabalha.

A mãe trabalha.

A criança cresce.

O cachorro destrói uma almofada.

A máquina de lavar resolve aposentar-se sem aviso prévio.

Tudo corre normalmente.

Numa terça-feira qualquer, a criança adoece.

O pai precisa faltar ao serviço.

A mãe cancela compromissos.

As contas continuam chegando.

O avô mora em outro bairro.

A avó em outra cidade.

Os tios encontram-se ocupados.

A família permanece unida diante da adversidade.

Mas permanece sozinha.


Passemos à segunda casa.

Nela reside uma família plural.

Não importa ao leitor quantos adultos a compõem; bastam alguns a mais.

Uma criança adoece.

Uma das mães permanece em casa.

Outra vai à farmácia.

Um terceiro adulto continua trabalhando.

O jantar é preparado por alguém que não precisou abandonar suas atividades para fazê-lo.

O problema existe.

Mas distribui-se.

A carga não desaparece.

Divide-se.

Dirá o leitor que esta segunda casa possui mais conflitos. - Sem dúvida.

Onde há mais seres humanos, há mais opiniões, a aritmética raramente falha nesse ponto. Contudo, também há mais recursos.

Mais braços.

Mais olhos.

Mais experiências.

Mais possibilidades de resposta.

A questão não é sentimental - É mecânica.

Consideremos agora uma crise mais grave.

O desemprego.

Na primeira casa, a perda de uma renda ameaça todo o equilíbrio doméstico.

Na segunda, a dificuldade continua séria, mas encontra uma estrutura mais ampla para absorver o impacto.

O mesmo princípio que leva engenheiros a construir pontes com margens de segurança aplica-se aqui. - Redundância -Os engenheiros apreciam essa palavra.

As famílias modernas parecem desconfiar dela, talvez porque associemos dependência à fraqueza. Entretanto, uma observação simples sugere o contrário: O recém-nascido depende de todos, o ancião depende de muitos,o enfermo depende de quem o cuide.

A vida humana inteira é atravessada por dependências mútuas - Chamamos isso de fragilidade quando nos acontece.

Chamamos de comunidade quando acontece aos outros.

Não se conclua, porém, que a segunda casa seja um paraíso - Longe disso.

Ali também surgem ciúmes, mal-entendidos,discussões, pratos eventualmente batem à mesa com energia superior à necessária - Os seres humanos conservam seus defeitos independentemente da arquitetura familiar que adotem.

A diferença está em outro lugar.


Quando uma discussão ocorre na primeira casa, metade da estrutura está em conflito.

Quando ocorre na segunda, trata-se apenas de uma parte do conjunto.

Uma comunidade possui a capacidade singular de sobreviver aos erros dos seus membros.

Um casal, por vezes, não.

Ao final do dia, ambas as famílias apagam as luzes.

Ambas alimentam seus filhos.

Ambas enfrentam dificuldades.

Ambas experimentam alegrias.

Mas uma delas deposita seu destino em dois pilares.

A outra espalha o peso por vários.

Qual sistema é superior?

A presente tese não exige resposta imediata.

Pede apenas que o leitor considere a pergunta.

Pois há questões que produzem mais luz quando permanecem abertas do que quando são encerradas depressa demais.

O Mercado e a Atomização Social, ou Como Aprendemos a Comprar o que Antes Recebíamos

Há uma peculiaridade nas sociedades modernas que raramente recebe a atenção merecida. - Quanto mais ricos nos tornamos em mercadorias, mais pobres parecemos tornar-nos em relações.

Não afirmo que uma coisa cause necessariamente a outra. O mundo é complexo demais para explicações tão cômodas. Limito-me a observar a coincidência, o leitor fará dela o uso que julgar conveniente.

Antigamente — palavra perigosa, mas por vezes inevitável — muitas necessidades humanas eram satisfeitas no interior da comunidade : A criança aprendia com os pais, os avós e os vizinhos,o enfermo era assistido pelos familiares,o velho permanecia próximo dos seus,o desempregado encontrava amparo entre parentes,a viúva raramente enfrentava sozinha os rigores da existência.

Não se tratava de uma idade de ouro - Havia miséria, injustiça e ignorância em abundânancia, mas havia também uma característica hoje menos comum:As pessoas dependiam umas das outras.

O mercado moderno observou essa situação com interesse.

Onde existe dependência comunitária, existe pouca oportunidade comercial,onde existe autonomia absoluta, existe um cliente. - Não se conclua daí que comerciantes conspiram contra as famílias em salas escuras iluminadas por velas sinistras.

Os homens de negócios costumam ser mais pragmáticos do que diabólicos,basta-lhes aproveitar circunstâncias favoráveis. E poucas circunstâncias são mais favoráveis ao comércio do que indivíduos isolados.

Uma criança que antes seria cuidada por parentes pode necessitar de um serviço.

Um idoso que antes viveria entre familiares pode necessitar de uma instituição.

Uma refeição que antes seria preparada em casa pode ser comprada.

Uma conversa que antes ocorreria na varanda pode ser substituída por entretenimento.

O mercado não cria todas essas necessidades mas certamente aprende a servi-las. - E, ao servi-las, cresce.

Há quem considere este processo uma vitória da liberdade individual. - Talvez seja.

A liberdade possui muitos méritos: Permite ao homem escolher seu caminho,permite-lhe abandonar ambientes opressivos,permite-lhe reinventar-se, não convém desprezá-la.

Mas a liberdade possui um irmão menos celebrado: A solidão.

Ambos costumam chegar juntos. Quanto mais o indivíduo se emancipa de todas as dependências, mais necessita de mecanismos substitutivos.

Os antigos encontravam apoio em pessoas, os modernos frequentemente encontram apoio em serviços.

A diferença merece reflexão.

Tomemos um exemplo simples.

Uma família extensa possui cinco adultos capazes de auxiliar uma criança.

Uma família nuclear possui dois.

Se ambos os pais estiverem ausentes, será necessário recorrer a uma solução externa.

Nada há de errado nisso.

O ponto interessante é que aquilo que outrora constituía uma função interna da comunidade converte-se em atividade econômica. - Multiplique-se o processo por milhares de situações e obteremos uma parte considerável da economia contemporânea.

Creches, asilos,serviços de entrega,aplicativos de relacionamento,empresas de entretenimento,assistência especializada para tarefas antes desempenhadas por parentes. - Tudo isso responde a necessidades reais.

Mas também revela uma transformação: O que antes era vínculo tornou-se serviço,o que antes era reciprocidade tornou-se contrato,o que antes era obrigação moral tornou-se transação. Tal mudança não ocorreu por maldade - Ocorreu por adaptação, e as adaptações, como os impostos, raramente pedem licença.

Existe ainda uma consequência mais sutil: O indivíduo atomizado não apenas compra mais. Ele também dispõe de menos filtros comunitários.

Suas referências tornam-se mais frágeis,suas decisões tornam-se mais dependentes de instituições externas, sua identidade passa a ser construída em ambientes cada vez mais mediados por mercados, plataformas e sistemas burocráticos.

Não se trata de uma conspiração - Trata-se de uma ecologia social.

As árvores não conspiram contra os arbustos, elas apenas crescem em determinadas condições. - Do mesmo modo, determinadas formas econômicas florescem melhor em determinadas formas de organização social.

A família reduzida, isolada e altamente dependente do consumo constitui uma dessas condições.

Chegamos então a uma questão delicada: Quem serve a quem? A economia serve à família? Ou a família foi gradualmente adaptada às exigências de uma determinada economia?

Talvez a resposta seja ambas as coisas - As instituições humanas raramente obedecem a uma única direção.

Influenciam-se mutuamente. Transformam-se em conjunto.

Contudo, permanece legítimo perguntar se o atual equilíbrio não produziu efeitos indesejáveis.

Quando uma sociedade substitui sistematicamente relações por serviços, corre o risco de adquirir eficiência à custa da coesão.Torna-se mais rápida,mais produtiva, mais especializada - Mas também mais fragmentada,mais solitária,mais dependente de mecanismos que não controla.

A presente tese não propõe abolir mercados. - Seria proposta tão absurda quanto abolir o inverno.

Mercados possuem funções indispensáveis: Geram riqueza, distribuem recursos,estimulam inovação.

O problema não reside em sua existência: reside em sua expansão ilimitada.

Nem tudo aquilo que pode ser comprado deveria necessariamente ser comprado - Algumas coisas tornam-se menores quando transformadas em mercadoria.

Entre elas talvez estejam o cuidado, a companhia e a solidariedade.

A família, compreendida como comunidade cooperativa, representa precisamente um dos últimos espaços em que tais valores podem existir sem depender de preço, recibo ou assinatura contratual.

Talvez por isso sua preservação seja importante.

Não apenas por razões morais.

Mas porque certas formas de riqueza não sobrevivem à comercialização.

E uma sociedade que vende tudo corre o risco de descobrir, tarde demais, que também vendeu aquilo que a mantinha unida.


Poligamia e Família Ampliada, ou da Quantidade de Pessoas Necessária para Formar um Lar

Existe uma curiosa tendência do espírito humano, quando se pronuncia a palavra "poligamia", muitos imaginam imediatamente um harém, uma extravagância oriental ou algum patriarca de barbas respeitáveis cercado por um número inconveniente de esposas.

A imaginação popular raramente decepciona - Ela possui o talento singular de substituir conceitos por caricaturas.

Entretanto, a presente tese não se ocupa de fantasias exóticas,ocupa-se de uma questão mais simples : Pode uma família tornar-se mais forte ao ampliar o número de seus membros?

A pergunta antecede qualquer discussão moral.

Antecede até mesmo a própria poligamia.

Pois ninguém se surpreende quando uma família extensa reúne avós, tios, irmãos e primos sob uma mesma rede de obrigações - mas basta mencionar a possibilidade de múltiplos vínculos conjugais para que muitos imaginem o colapso imediato da civilização. Tal reação merece exame.

Afinal, a história humana oferece abundantes exemplos de famílias organizadas de maneiras diversas.

Algumas prosperaram, outras fracassaram,como acontece com todas as instituições humanas.

A questão central não é saber se a poligamia existiu - Ela existiu.

A questão é compreender por que existiu.

Os críticos frequentemente a interpretam apenas como "mecanismo de privilégio masculino.", e em determinados contextos, sem dúvida foi.

As instituições humanas raramente escapam completamente aos vícios dos homens. Mas reduzir toda a experiência histórica da poligamia a essa explicação seria tão simplificador quanto reduzir a monogamia à história dos divórcios.

Ambas as formas comportam variedades,ambas comportam abusos,ambas comportam virtudes.

A presente tese propõe uma interpretação diferente - Não considera a poligamia como multiplicação de parceiros.

Considera-a como ampliação da unidade familiar.


A distinção é fundamental.

O primeiro conceito pertence à esfera do desejo, o segundo pertence à esfera da organização social.

O desejo é variável - A organização é duradoura.

O desejo aproxima pessoas.

A organização permite que continuem juntas quando o entusiasmo inicial se transforma nas responsabilidades da vida comum.

Sob esta perspectiva, a poligamia aproxima-se menos de uma aventura romântica e mais de uma cooperativa doméstica.

Uma família ampliada possui mais adultos capazes de compartilhar encargos, mais adultos para educar crianças, mais adultos para cuidar de enfermos,mais adultos para enfrentar crises econômicas,mais adultos para preservar a continuidade da casa quando um de seus membros se ausenta. 

Nada disso garante felicidade - Nenhuma estrutura humana possui semelhante poder.

Mas oferece recursos que uma unidade menor dificilmente possui.

Os defensores da família nuclear costumam responder que "o aumento do número de membros também multiplica os conflitos"

A objeção é correta.

Uma comunidade composta por cinco adultos possui mais potencial para divergências do que uma composta por dois. A matemática permanece implacável.

Contudo, convém recordar que a mesma multiplicação ocorre com os recursos: mais conflitos - Mas também mais ssoluçõe,mais opiniões. 

Mas também mais competências,mais atritos - Mas também mais apoio.

A questão não consiste em eliminar dificuldades - Consiste em distribuir responsabilidades.

Uma casa sustentada por muitas vigas pode exigir manutenção mais complexa -Mas dificilmente desaba porque uma delas enfraqueceu. 

Existe ainda um aspecto frequentemente negligenciado: A sociedade moderna concentra enorme quantidade de expectativas sobre uma única relação. Espera-se que um cônjuge seja simultaneamente amante, amigo, conselheiro, parceiro econômico, apoio emocional, companheiro intelectual e colaborador doméstico.

Tal concentração de funções talvez explique parte da fragilidade contemporânea.

A família ampliada opera segundo lógica diferente: as responsabilidades distribuem-se.

Os afetos distribuem-se.

As ausências distribuem-se.

As capacidades distribuem-se.

A carga deixa de repousar integralmente sobre um único vínculo.


A presente tese não afirma que toda família poligâmica será superior a toda família monogâmica - Tal afirmação seria tão ingênua quanto inútil.

Existem lares monogâmicos exemplares, e existem famílias plurais desastrosas (principalmente as embasadas no religionismo)

As instituições não substituem o caráter - Uma má pessoa pode arruinar qualquer sistema - e convém-se ao leitor jamais entrar em relações com tais criaturas, que merecem por sua perfidia o castigo de passarem o resto de seus dias sozinhos sem ter quem arruinar com sua cólera.

Um bom indivíduo pode melhorar até mesmo estruturas imperfeitas.

O argumento aqui desenvolvido é mais modesto: Sustenta apenas que a pluralidade familiar não deve ser julgada exclusivamente por critérios morais herdados ou preconceitos culturais. Deve ser examinada também segundo sua capacidade de gerar cooperação.

Pois uma família não existe apenas para celebrar casamentos ou produzir descendentes, ela existe para enfrentar a realidade. E a realidade, como já tivemos ocasião de observar, possui o hábito desagradável de distribuir desafios sem consultar previamente o número de pessoas disponíveis para enfrentá-los.

Chegamos, assim, à principal conclusão deste apêndice.

A poligamia interessa à presente tese não enquanto exceção romântica, mas enquanto possibilidade institucional.

Não enquanto ampliação do prazer (como pode o ser para ambos os membros,desde que estejam abertos a tal), mas enquanto ampliação da comunidade.

Não enquanto privilégio de um indivíduo, mas enquanto fortalecimento potencial da rede de auxílio mútuo.

Talvez funcione.

Talvez não.

Mas a pergunta merece ser feita.

Pois uma sociedade que aceita discutir livremente todas as formas de produção, todas as formas de governo e todas as formas de propriedade não deveria considerar escandaloso examinar também as formas possíveis da família.

Sobretudo quando a questão não é quantas pessoas podem amar-se.

Mas quantas podem cooperar para construir um lar.

Poligamia e Poliamor: Distinção Conceitual, ou da Diferença entre uma Casa e um Acampamento

Existem palavras que padecem do infortúnio de nascer próximas umas das outras - Aos olhos do observador apressado, tornam-se sinônimos.

Acontece com frequência na política, na filosofia e, não menos, nas questões de família.

Tal parece ser o destino da poligamia e do poliamor.

Ambas as expressões evocam a existência de múltiplos vínculos afetivos - Daí muitos concluírem que representam o mesmo fenômeno.

A conclusão é compreensível - E equivocada.

Entre uma e outra existe diferença semelhante à que separa uma cidade de uma feira.

Ambas reúnem pessoas, mas não se organizam segundo os mesmos princípios.

A poligamia, ao menos na forma examinada pela presente tese, constitui uma instituição familiar - O poliamor constitui uma filosofia relacional.

A distinção parece pequena, mais não é.

Instituições e filosofias obedecem a lógicas distintas: Uma instituição procura durar,uma filosofia procura orientar - Uma organiza estruturas, ja a outra organiza comportamentos.

A poligamia histórica surgiu quase sempre associada a elementos concretos: Patrimônio,parentesco,filiação,responsabilidades domésticas,herança,educação dos filhos,continuidade familiar - Em suma, ocupava-se da administração de uma casa.

O poliamor contemporâneo, por sua vez, costuma concentrar-se em questões diferentes: Autonomia individual, liberdade afetiva, negociação entre parceiros, consentimento,gestão de vínculos emocionais. -Em suma, ocupa-se da administração das relações.

O contraste é significativo.

A poligamia pergunta: Como organizar uma família?

O poliamor pergunta: Como organizar afetos?

São questões legítimas - Mas não são a mesma questão.

Talvez uma pequena imagem auxilie o leitor.

Imagine um arquiteto e um viajante, ambos se interessam por habitação.

O primeiro preocupa-se com fundações, paredes e telhados,já o segundo preocupa-se com os caminhos que percorre - Os dois lidam com o mesmo universo,mas observam aspectos distintos dele.

Algo semelhante ocorre aqui: A poligamia volta seu olhar para a estrutura, já o poliamor dirige-o à experiência.

Não se trata de elogio nem de censura - Trata-se de classificação. E as classificações, embora raramente despertem paixões, costumam evitar confusões.

Existe ainda uma segunda diferença: A poligamia pressupõe uma unidade familiar,o  poliamor pressupõe uma rede relacional.

A unidade busca integrar,já a rede busca conectar.

Na unidade, os vínculos tendem a convergir para uma comunidade comum.

Na rede, os vínculos podem conservar relativa independência.

Um modelo aproxima-se da casa, o outro aproxima-se da praça.

Ambos possuem utilidade,mas desempenham funções distintas.

A presente tese interessa-se principalmente pela primeira forma - porque investiga a família enquanto instituição cooperativa, seu objeto não é unicamente uma pressuposta liberdade amorosa - É a estabilidade comunitária.

Não pergunta quantas pessoas podem amar-se, pois isso seria tolice a esta altura de campeonato, pergunta quantas podem construir uma vida em comum.

Tal enfoque produz consequências importantes: Uma família ampliada exige mecanismos de continuidade,necessita resolver questões de cuidado,necessita distribuir encargos, necessita transmitir patrimônio material ou cultural, necessita sobreviver ao tempo.

O poliamor em sua vasta maioria ignora tais questões - ela não ocupa necessariamente posição central em sua elaboração teórica. - Seu foco costuma residir na qualidade das relações entre indivíduos.

O foco da presente tese reside na qualidade da comunidade produzida por essas relações.

Chegamos então ao ponto em que muitos debates se confundem.

Os críticos da poligamia frequentemente dirigem-lhe objeções concebidas para o poliamor -Os defensores do poliamor frequentemente respondem com argumentos relativos à autonomia individual.

Ambos acabam discutindo fenômenos distintos: Uma conversa sobre arquitetura transforma-se em conversa sobre sentimentos, uma conversa sobre sentimentos transforma-se em conversa sobre instituições - E todos regressam para casa convencidos de que derrotaram o adversário.

A filosofia moderna possui vários exemplos desse gênero de desencontro.

Convém evitar mais um.

A presente tese não pretende negar a legitimidade das experiências poliamorosas -  Tampouco pretende submetê-las a julgamento moral, pois o autor que vos fala, Stineriano que é, jamais o faria - o que poderia se julgar da questão do poliamor é sua eficiência e legitimidade, uma vez que a mim (e a muitos) me soa como fenômeno de adesão identitária, pauta importada por uma esquerda americanizada que nos faz padecer de vergonha absoluta por meio de sua pequines intelectualoide.

Seu objetivo é apenas assinalar uma distinção : A poligamia pode ser compreendida como uma forma de organização familiar - O poliamor pode ser compreendido como uma forma de organização afetiva.

As duas categorias eventualmente se encontram - Mas não coincidem.

E confundi-las produz o mesmo resultado de confundir uma biblioteca com um clube de leitura: Ambos se relacionam com livros,mas apenas um deles foi construído para permanecer de pé quando os leitores forem embora.

Talvez esta seja, afinal, a diferença essencial.

O poliamor preocupa-se, antes de tudo, com os vínculos.

A poligamia preocupa-se, antes de tudo, com a casa.

E a casa, como sabem todos aqueles que já precisaram reparar um telhado durante uma tempestade, possui exigências próprias que os sentimentos, por mais nobres que sejam, nem sempre conseguem satisfazer sozinhos.

O Amor Como Fenômeno Comunitário, ou da Estranha Ideia de que Amar Seja Mais do que Sentir

Poucas palavras sofreram tantas transformações quanto o amor. Os antigos fizeram dele uma divindade, já os poetas fizeram dele uma religião,os comerciantes fizeram dele uma ocasião.- E a modernidade, sempre diligente em simplificar assuntos complexos, transformou-o em sentimento.

Tal definição possui a vantagem da comodidade - E o defeito da insuficiência.

Sentimentos são coisas caprichosas: Chegam sem convite,partem sem explicação. Alteram-se conforme o tempo, a saúde, a idade e até mesmo a qualidade do café da manhã.

Construir uma instituição sobre fundamento tão volátil parece empreendimento arriscado,contudo, foi precisamente isso que a civilização contemporânea decidiu fazer: O amor converteu-se progressivamente no principal fundamento da família.

Tal mudança foi recebida com entusiasmo - Parecia razoável.

Quem melhor para formar um lar do que aqueles que se amam? A pergunta é justa - Mas talvez incompleta.

Pois outra questão se impõe: O que acontece quando o entusiasmo inicial diminui? Quando surgem doenças? Quando surgem dívidas? Quando surgem filhos? Quando surgem responsabilidades? Quando as frustrações diarias de uma relação se acumulam uma sobre a outra sem parar pois nenhum deles tem uma rota de fuga, um confidente, alguém para tentar remediar tais situações com a ponderação necessária.

Quando o amor deixa de ser uma promessa e passa a ser uma tarefa?

A filosofia romântica raramente se demora sobre tais assuntos - As contas de luz, infelizmente, costumam ser menos poéticas.

A presente tese propõe uma compreensão diferente, ela não nega o amor,jamais! 

Seria impossível. O amor constitui uma das forças mais poderosas da experiência humana.

O que se questiona é sua redução a mero estado emocional. Talvez o amor seja também um fenômeno comunitário.

Talvez sua verdadeira natureza revele-se não apenas na intensidade dos sentimentos, mas na capacidade de criar laços duradouros entre pessoas.

Sob esta perspectiva, amar significa participar, significa permanecer,significa compartilhar destinos.

O homem moderno tende a imaginar o amor como relação entre dois indivíduos - A história humana sugere algo mais amplo: Amamos os filhos, amamos os pais,amamos irmãos,amamos amigos,amamos lugares,amamos comunidades,amamos tradições. Amamos até mesmo os mortos, que continuam habitando a memória dos vivos.

O amor, portanto, não une apenas pessoas - Une gerações, une histórias, une responsabilidades - Une mundos. Tal observação possui consequências importantes.

Se o amor é compreendido apenas como emoção, sua duração depende da permanência do sentimento.

Se é compreendido também como vínculo comunitário, passa a possuir raízes mais profundas.

Uma mãe não deixa de amar o filho porque atravessa um dia difícil, um irmão não deixa de ser irmão porque houve uma discussão,um amigo verdadeiro não desaparece à primeira divergência,o vínculo sobrevive ao humor. Sobrevive ao entusiasmo.

Por vezes sobrevive até mesmo à razão.

Eis um dos seus mistérios.

Talvez por isso as sociedades tradicionais tenham concebido o amor menos como paixão e mais como pertencimento.

Pertencer não significa possuir. - Significa reconhecer-se parte de algo maior que si mesmo: Uma família,uma comunidade,uma linhagem,uma história comum.

A modernidade, porém, desenvolveu certa desconfiança em relação a tais conceitos: O indivíduo tornou-se a unidade moral fundamental.

Nada há de errado nisso - A dignidade individual representa uma conquista valiosa.

O problema surge quando todo vínculo passa a ser avaliado exclusivamente segundo a satisfação imediata que proporciona.

Nesse momento, o amor corre o risco de transformar-se em consumo : A relação torna-se produto,o parceiro torna-se fornecedor,a convivência transforma-se em negociação permanente. E o afeto passa a ser medido por critérios semelhantes aos utilizados para escolher um serviço ou uma mercadoria.

A presente tese vê com cautela essa transformação.

Não porque deseje restaurar formas opressivas do passado, jamais, não sou um panaca para ser reacionário de quinta! Mas porque suspeita que certas dimensões da experiência humana não florescem adequadamente sob lógica puramente contratual.

O amor parece ser uma delas.

Nenhuma mãe consulta um contrato antes de cuidar de uma criança febril,nenhum amigo autêntico exige cláusulas para oferecer consolo,nenhum avô calcula retorno financeiro ao transmitir suas histórias - Esses atos pertencem a outra esfera: A esfera da reciprocidade, da gratuidade, da comunidade.

O amor, portanto, talvez não seja apenas aquilo que sentimos pelos outros. Talvez seja também aquilo que construímos com eles.

Uma casa,uma memória,uma tradição,uma rede de auxílio,uma história compartilhada.

Nesta concepção, o amor deixa de ser simples acontecimento emocional e torna-se obra coletiva. - E como toda obra coletiva, exige tempo, esforço e perseverança.

Exige inclusive aquilo que os romances raramente mencionam: Rotina.

A rotina possui péssima reputação entre os poetas, mas excelente reputação entre as civilizações.

São as rotinas que alimentam crianças, que preservam lares,que mantêm comunidades,que atravessam gerações.

Talvez porque o amor, quando amadurece, adquira precisamente essa forma discreta: menos semelhante a um incêndio e mais semelhante a uma lareira.

A primeira impressiona - A segunda aquece.

A primeira ilumina a noite - A segunda permite atravessar o inverno.

E os homens, por mais fascinados que estejam pelas chamas, sempre viveram melhor ao redor das lareiras.

O maior símbolo do amor não é a lascívia do ato sexual, não é a banalidade de uma dita "suruba" - é a chegada do patriarca a casa e o receber dele com entusiasmo e cuidado, é o carinho de entregar as toalhas limpas, de após o banho o brindar com um beijo afetuoso no rosto e o receber a mesa do jantar, com todos reunidos para conversarem sobre banalidades do dia a dia. O símbolo principal do amor maduro e saudável é o cuidado, e talvez ai seja o porquê a Poligamia seja um modelo a ser considerado - pois amiplia as margens do cuidado e retira os encargos que antes teriam que ser de uma pessoa apenas.

Contra a Idolatria do Casal, ou da Curiosa Crença de que Dois Constituem um Universo

Toda civilização possui seus ídolos. Alguns são feitos de pedra, outros de ouro. Os mais sofisticados são feitos de ideias.

Estes últimos possuem uma vantagem considerável sobre os primeiros: Não ocupam espaço, não exigem templos e frequentemente passam despercebidos até mesmo por seus devotos.

Tal parece ser o caso do casal moderno.

Não me refiro ao casal enquanto realidade humana: Dois indivíduos podem amar-se, auxiliar-se e construir juntos uma vida admirável.

Nada há de estranho nisso. - Refiro-me ao casal enquanto princípio absoluto.

Enquanto unidade considerada suficiente para responder a quase todas as necessidades da existência. Enquanto ideal elevado à condição de destino universal.

A modernidade realizou uma operação singular : Tomou uma forma possível de convivência e converteu-a em paradigma moral.

Desde então, o casal deixou de ser apenas uma maneira de organizar a vida, ele passou a representar a própria medida da realização humana.

O indivíduo solteiro é visto com suspeita,o viúvo desperta compaixão,o divorciado exige explicações - Mas o casal permanece.

Sempre o casal.

Como se toda biografia devesse necessariamente culminar na mesma estrutura.

Não deixa de ser curioso.

A mesma sociedade que celebra a diversidade em quase todos os aspectos da existência demonstra notável uniformidade quando imagina o amor.

Mudam as profissões,mudam as crenças,mudam os costumes - Mas o horizonte permanece inalterado: Dois indivíduos,uma residência,uma história comum. E a esperança de que tal arranjo suporte sozinho o peso da vida.

A presente tese não questiona a legitimidade desta escolha. - Questiona apenas sua exclusividade.

Pois há diferença entre reconhecer uma possibilidade e venerá-la.

A veneração começa quando deixamos de perguntar.

E poucas perguntas são mais raras do que esta: Por que dois? porque apenas dois? Porque não três? Porque não quatro? 

O leitor talvez sorria, ou fique indignado se se tratar de um religionista.

A resposta parece evidente "Porque dois constituem um casal" ou a pior resposta "porque o apóstolo Paulo ordenou" - pobre Paulo! A queda do cavalo não lhe fez bem aos miolos!

Mas a observação apenas desloca o problema. Não o resolve.

Por que o casal tornou-se a unidade afetiva fundamental? por que não uma família ampliada? por que não uma comunidade doméstica mais extensa? por que não outras formas de associação humana?

A tradição responde de uma maneira,a religião responde de outra,a economia oferece uma terceira explicação,a sociologia sugere uma quarta. E nenhuma delas encerra definitivamente a questão.

E quando uma questão permanece aberta, a prudência recomenda evitar dogmas.

A idolatria do casal manifesta-se de formas discretas: Espera-se que um único indivíduo satisfaça necessidades outrora distribuídas por comunidades inteiras,p parceiro deve ser amigo,confidente,amante,conselheiro,companheiro intelectual,aliado econômico,apoio emocional,coparticipante da criação dos filhos,guardião dos projetos comuns. - Tudo isso simultaneamente.

E, de preferência, sem falhas.

A exigência seria ambiciosa até mesmo para uma instituição - Aplicada a um ser humano, aproxima-se do heroísmo.

Talvez por isso tantas relações terminem exaustas.Não por ausência de amor,mas por excesso de expectativa.

Pede-se ao casal que desempenhe funções antes exercidas por famílias extensas, vizinhanças, comunidades religiosas e redes de parentesco. Quando fracassa, atribuímos a culpa aos indivíduos. Raramente examinamos a estrutura.

Ora, uma ponte que desaba sob carga excessiva pode indicar problema na engenharia, não necessariamente nos viajantes.

Existe ainda um aspecto mais profundo: A idolatria do casal tende a reduzir o amor à reciprocidade imediata: Dois indivíduos trocam afeto, dois indivíduos trocam cuidados,dois indivíduos trocam promessas e devem cumpri-las, dois indivíduos devem se encontrar sempre na mesma frequência e sintonia de sentimentos.

Tudo permanece encerrado dentro de um círculo relativamente pequeno.

A comunidade surge apenas como cenário - Nunca como protagonista.

Entretanto, a história humana sugere outra possibilidade.

Durante séculos, o amor esteve ligado a redes mais amplas de pertencimento: A família não era apenas um vínculo entre duas pessoas,era um elo entre gerações,entre casas,entre histórias,entre responsabilidades compartilhadas.

O casal participava da comunidade - Não a substituía.

A modernidade inverteu parcialmente essa relação: O casal tornou-se o centro,a  comunidade tornou-se acessória - ja dizia a velha vagabunda do neoliberalismo conservatrouxa Margaret Thatcher, ex-primeira (vadia)-ministra do Reino Unido: "Não existe essa coisa de sociedade. Existem homens e mulheres individuais e existem famílias (no caso as monogamicas)".

Tal mudança produziu benefícios: Aumentou a autonomia individual,enfraqueceu imposições tradicionais,permitiu escolhas antes impensáveis.

Mas também produziu custos: A solidão tornou-se mais frequente,a fragilidade estrutural tornou-se mais visível,a dependência emocional concentrou-se em menos pessoas.

A presente tese não propõe abolir o casal - Seria proposta tão absurda quanto abolir a amizade.

Propõe apenas devolvê-lo ao seu devido lugar.

Nem trono.

Nem altar.

Nem dogma.

Apenas uma entre várias formas possíveis de cooperação humana.

Talvez excelente em determinadas circunstâncias. - Talvez insuficiente em outras.

Talvez capaz de florescer quando integrada a estruturas comunitárias mais amplas.

Pois o erro não está em amar uma unica pessoa.

O erro está em esperar que uma única pessoa substitua uma comunidade inteira.

Os antigos construíam cidades porque compreendiam essa limitação.

Os modernos frequentemente tentam resolvê-la com relacionamentos. E depois se surpreendem quando dois seres humanos, por mais dedicados que sejam, demonstram possuir capacidades menores do que uma civilização inteira.

Talvez a idolatria do casal seja, em última análise, uma forma de solidão organizada.

Uma tentativa sincera de concentrar em duas pessoas tudo aquilo que durante milênios foi distribuído entre muitas.

A experiência merece respeito.

Mas não necessariamente veneração.

E nenhuma instituição humana se beneficia quando seus admiradores lhe recusam o direito de ser questionada.

A Ética da Escolha, ou do Direito de Defender uma Estrada sem Necessariamente Percorrê-la

Existe uma curiosa exigência moral em nosso tempo.

Toda vez que alguém defende uma ideia, imediatamente surge quem lhe pergunte se pretende aplicá-la à própria vida.

A pergunta parece razoável. - Nem sempre é. Em maioria vem do Espírito sofista de alguns seres.

Se um homem defende a liberdade de imprensa, ninguém lhe exige fundar um jornal.

Se uma mulher defende a existência de museus, não lhe pedem que se torne curadora.

Se alguém sustenta a importância da pesquisa oceânica, raramente é obrigado a embarcar num navio.

Mas basta o assunto tocar costumes, família ou afetos para que a lógica se altere.

O defensor passa a ser tratado como suspeito, sua tese deixa de ser examinada,examina-se sua biografia.

A questão já não é: "O argumento é verdadeiro?" Mas: "Você pretende viver assim?"

A mudança parece pequena. - Na realidade, é profunda.

Confunde a validade de uma ideia com as preferências de quem a formula. E ideias possuem o hábito inconveniente de sobreviver aos seus autores.

A presente tese encontra-se particularmente exposta a esse tipo de objeção.

Ao defender a legitimidade intelectual de formas familiares ampliadas, logo surgirá quem pergunte: "Mas o autor deseja participar de uma família poligâmica?" " O senhor deve ser um pervertido que pretende ter um harém!" "O senhor é um indecente e pecador! Esta pisando sobre as ordens boloradas de Paulo!" 

A resposta, embora interessante do ponto de vista biográfico, possui relevância limitada para o argumento.

Uma instituição pode ser defensável sem que todos desejem integrá-la.

A liberdade religiosa não exige múltiplas conversões.

A liberdade artística não exige múltiplas carreiras.

A liberdade acadêmica não exige múltiplos diplomas.

O mesmo princípio aplica-se aqui.

Existe uma diferença entre considerar uma escolha legítima e considerá-la obrigatória. A modernidade compreende perfeitamente essa distinção em quase todos os campos.

Mas frequentemente a esquece quando trata da vida privada,talvez porque as paixões humanas raramente apreciem a neutralidade.

Contudo, uma sociedade livre depende precisamente dela.

O reconhecimento de uma possibilidade não implica sua universalização,reconhecer que uma estrada pode ser percorrida não significa obrigar todos a caminhar por ela: Significa apenas retirar a placa que a declara proibida.

Esta observação conduz a uma questão mais ampla: O que significa escolher?

A palavra tornou-se tão frequente que poucos se detêm para examiná-la.

Escolher não consiste apenas em seguir desejos, consiste também em assumir responsabilidades.

Toda escolha cria obrigações, toda liberdade produz consequências,toda forma de vida exige custos. A verdadeira escolha não elimina compromissos, seleciona quais compromissos estamos dispostos a assumir.

Sob esta perspectiva, a liberdade não é o contrário da responsabilidade. - É sua condição.

Uma decisão só possui valor moral quando poderia ter sido diferente.

O mérito da fidelidade desaparece se a fidelidade for compulsória,o mérito da generosidade desaparece se a generosidade for obrigatória,o mérito da cooperação desaparece se a cooperação for imposta. A escolha confere significado à ação.

E justamente por isso a presente tese evita transformar a poligamia em imperativo.

Imperativos pertencem aos profetas - O objetivo deste trabalho é mais modesto: Deseja apenas examinar possibilidades. A poligamia não é apresentada como destino inevitável da humanidade, nem como solução universal para todos os problemas familiares,nem como estágio superior da evolução social.

Tais pretensões produziram estragos suficientes ao longo da história, e a mim não me apetece o título de apóstolo ou de revolucionário.

O que se propõe é algo mais simples: Se uma forma familiar demonstra capacidade de gerar estabilidade, cooperação e apoio mútuo, ela merece consideração séria.

Nada mais.

Nada menos.

O leitor poderá então aceitá-la, ou rejeitá-la, talvez ignorá-la e quiçá modificá-la. Cada uma dessas atitudes permanece compatível com a liberdade intelectual.

Pois uma ideia não precisa conquistar todos os homens para justificar sua existência. - Basta que tenha o direito de ser discutida.

Existe ainda uma última confusão que merece esclarecimento: Muitos imaginam que toda defesa teórica esconde necessariamente um interesse pessoal.

Às vezes ocorre. - Outras vezes não.

A inteligência humana possui uma característica admirável: Consegue reconhecer valor em experiências que não pretende viver.

Um celibatário pode admirar o casamento,um marinheiro pode defender o direito de cultivar a terra,um pacifista pode estudar a arte militar,um cidadão urbano pode proteger florestas que jamais visitará. A capacidade de compreender além da própria experiência constitui uma das maiores virtudes da civilização.

Sem ela, toda filosofia se reduziria a autobiografia.

Toda política se reduziria a conveniência.

Toda ética se reduziria a interesse.

Felizmente, os seres humanos são capazes de algo mais: São capazes de imaginar.

E imaginar significa precisamente isso: reconhecer que o mundo contém possibilidades que ultrapassam nossas preferências individuais.

Chegamos, assim, à conclusão deste livreto.

A questão fundamental não é saber quais formas de vida escolhemos para nós, a questão fundamental é saber quais formas de vida admitimos que outros escolham para si.

Uma sociedade madura distingue essas duas perguntas.

Uma sociedade insegura costuma confundi-las.

A presente tese prefere a primeira alternativa.

Não porque todas as escolhas sejam igualmente sábias.

Mas porque a sabedoria raramente floresce onde apenas uma escolha é permitida.

E porque as instituições humanas, assim como os homens, revelam suas virtudes e seus defeitos apenas quando lhes é concedida a liberdade de existir.

- JonniX