sexta-feira, 12 de junho de 2026

Os inquisidores

 


Há uma espécie humana que prospera admiravelmente em nossos tempos.

Não cria mais do que os outros, não trabalha mais do que os outros, não sofre mais do que os outros; mas possui uma qualidade singular: sabe dividir o mundo entre os puros e os impuros.

Tal talento, outrora reservado aos inquisidores, aos sacerdotes e aos burocratas da salvação universal, democratizou-se. Hoje qualquer cidadão munido de uma conta em rede social pode exercer a mesma função com notável desenvoltura.

Basta escolher um pecado.

Uns escolhem a literatura errada, outros a opinião errada, outros a tecnologia errada. Escolhido o pecado, resta apenas anunciar os castigos.

"Quem praticar tal ato será excluído."

"Quem conviver com tais pessoas será removido."

"Quem souber de algum infrator, favor denunciar."

E eis formado um pequeno tribunal.

O curioso é que tais proclamações raramente produzem o efeito pretendido. Não convertem ninguém, não esclarecem ninguém, não educam ninguém. Servem sobretudo para comunicar a superioridade moral do próprio autor.

O cidadão já não diz: "Discordo."

Diz: "Sou tão virtuoso que minha discordância deve ter consequências administrativas."

É nesse ponto que a moral abandona a convivência e passa a desejar a polícia.

Max Stirner, esse velho perturbador de certezas, talvez observasse que por trás de muitos desses gestos não existe amor à arte, à justiça ou à comunidade. Existe apenas um novo fantasma exigindo sacrifícios.

Ontem era a religião.

Hoje pode ser uma causa, uma ideologia, uma estética ou uma tecnologia.

O nome muda; o mecanismo permanece.

O indivíduo deixa de perguntar se algo lhe convém, lhe beneficia ou lhe parece razoável. Passa a perguntar apenas se o novo ídolo permite.

E então sacrifica amigos, oportunidades, conversas e até o próprio interesse econômico no altar de uma abstração.

Não porque precise.

Mas porque o fantasma exige.

O mais engraçado, entretanto, é que a História raramente demonstra grande respeito por esses fiscais.

As máquinas continuam chegando.

As técnicas continuam mudando.

Os costumes continuam se transformando.

E aqueles que juravam deter a marcha do mundo acabam, anos depois, descobrindo que o mundo sequer tomou conhecimento de suas proibições.
Talvez por isso a prudência seja uma virtude tão rara.

Ela exige reconhecer que podemos estar certos em nossas preocupações e errados em nossos excessos.

Exige compreender que uma tecnologia pode trazer riscos sem que seja necessário declarar guerra a metade da humanidade.

Exige distinguir entre defender um princípio e transformar esse princípio numa patrulha.
Mas a prudência tem um defeito terrível: não rende aplausos imediatos.

Já os editais de excomunhão sempre encontram plateia.

Nenhum comentário:

Postar um comentário