Há uma espécie humana que prospera admiravelmente em nossos tempos.
Não cria mais do que os outros, não trabalha mais do que os outros, não sofre mais do que os outros; mas possui uma qualidade singular: sabe dividir o mundo entre os puros e os impuros.
Tal talento, outrora reservado aos inquisidores, aos sacerdotes e aos burocratas da salvação universal, democratizou-se. Hoje qualquer cidadão munido de uma conta em rede social pode exercer a mesma função com notável desenvoltura.
Basta escolher um pecado.
Uns escolhem a literatura errada, outros a opinião errada, outros a tecnologia errada. Escolhido o pecado, resta apenas anunciar os castigos.
"Quem praticar tal ato será excluído."
"Quem conviver com tais pessoas será removido."
"Quem souber de algum infrator, favor denunciar."
E eis formado um pequeno tribunal.
O curioso é que tais proclamações raramente produzem o efeito pretendido. Não convertem ninguém, não esclarecem ninguém, não educam ninguém. Servem sobretudo para comunicar a superioridade moral do próprio autor.
O cidadão já não diz: "Discordo."
Diz: "Sou tão virtuoso que minha discordância deve ter consequências administrativas."
É nesse ponto que a moral abandona a convivência e passa a desejar a polícia.
Max Stirner, esse velho perturbador de certezas, talvez observasse que por trás de muitos desses gestos não existe amor à arte, à justiça ou à comunidade. Existe apenas um novo fantasma exigindo sacrifícios.
Ontem era a religião.
Hoje pode ser uma causa, uma ideologia, uma estética ou uma tecnologia.
O nome muda; o mecanismo permanece.
O indivíduo deixa de perguntar se algo lhe convém, lhe beneficia ou lhe parece razoável. Passa a perguntar apenas se o novo ídolo permite.
E então sacrifica amigos, oportunidades, conversas e até o próprio interesse econômico no altar de uma abstração.
Não porque precise.
Mas porque o fantasma exige.
O mais engraçado, entretanto, é que a História raramente demonstra grande respeito por esses fiscais.
As máquinas continuam chegando.
As técnicas continuam mudando.
Os costumes continuam se transformando.
E aqueles que juravam deter a marcha do mundo acabam, anos depois, descobrindo que o mundo sequer tomou conhecimento de suas proibições.
Talvez por isso a prudência seja uma virtude tão rara.
Ela exige reconhecer que podemos estar certos em nossas preocupações e errados em nossos excessos.
Exige compreender que uma tecnologia pode trazer riscos sem que seja necessário declarar guerra a metade da humanidade.
Exige distinguir entre defender um princípio e transformar esse princípio numa patrulha.
Mas a prudência tem um defeito terrível: não rende aplausos imediatos.
Já os editais de excomunhão sempre encontram plateia.

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