Muito se tem discutido, nas tribunas, parlatórios e nas folhas públicas, acerca do destino dos povos indígenas em face do avanço da sociedade nacional, que, com seus trilhos, suas leis e seus costumes, se estende progressivamente por todo o vasto território.
Para alguns, a questão parece simples: caberia ao indígena abandonar seus hábitos, suas crenças e suas formas de organização, a fim de incorporar-se plenamente ao que se convencionou chamar-se civilização. Tal perspectiva, contudo, não deixa de suscitar sérias reservas, pois implica, em última análise, a dissolução de modos de vida que possuem valor próprio e significado profundo para aqueles que os praticam.
Outros, em sentido diverso, sustentam que tais povos deveriam permanecer inteiramente apartados, como que preservados em um estado fixo, alheios a qualquer contato mais amplo. Também esta posição, embora movida por intenções por vezes generosas, não se mostra isenta de dificuldades, pois ignora que o mundo moderno, em sua expansão, dificilmente consente espaços absolutamente isolados ou aparte.
Entre esses dois extremos — a absorção completa e o isolamento absoluto — parece delinear-se uma via mais prudente e mais conforme à dignidade humana: a da integração sem anulação.
Integrar não deve-se significar apagar. Significa, antes, possibilitar o convívio, o intercâmbio e a participação na vida comum, sem que isso implique a renúncia forçada às tradições, às línguas e às formas próprias de organização social. Trata-se de reconhecer que a unidade de uma nação não precisa fundar-se na uniformidade, mas pode, ao contrário, sustentar-se na convivência de diferenças legítimas.
Se assim é, cumpre perguntar se não seria possível conceber uma forma de integração em que o indígena participe da vida nacional — no trabalho, no comércio, no diálogo social — sem que, para tanto, seja compelido a abdicar de sua identidade.
Tal empreendimento exige, é certo, mais do que boas intenções. Requer o reconhecimento efetivo de direitos, o respeito às terras e aos modos de vida, bem como a disposição de aprender com aqueles que, por tanto tempo, foram considerados apenas como um mero objeto de tutela ou de transformação.
A dita civilização, se pretende afirmar-se como tal, não pode limitar-se a absorver e uniformizar. Deve antes demonstrar que é capaz de conviver com a diferença sem destruí-la, de integrar sem dissolver, de aproximar sem subjugar - devemos demonstrar que evoluímos não apenas tecnicamente mais eticamente e não nos cabe mais a vil lógica da narrativa do "civilizado contra o selvagem".
Eis, pois, o verdadeiro desafio que se apresenta ao espírito público: construir uma sociedade em que o encontro entre culturas não resulte na vitória de uma sobre a outra, mas na possibilidade de coexistência digna — onde o indígena não seja um vestígio a ser superado, nem um elemento a ser neutralizado, mas parte viva e atuante de um todo que, justamente por isso, se torna mais rico e mais humano.
Os Indigenas e os ReligionistasSe, como já se afirmou, a integração dos povos indígenas à vida nacional não deve confundir-se com sua dissolução, cumpre agora examinar um dos meios pelos quais, não raro, tal dissolução tem sido levada a efeito: a ação das missões religiosas e dos religionistas.
Contudo, é forçoso reconhecer que, na prática, a catequese ou a doutrinação petencostalista frequentemente se apresenta não apenas como transmissão de princípios religiosos, mas como veículo de transformação profunda — e, por vezes, de substituição — das formas de vida indígenas.
Procura-se transformar o indígena no "novo homem", que de novo não há nada,é mera absorção e corruptela.
Sob o pretexto de "elevar,civilizar e salvar", introduzem-se novos hábitos, novos valores e novas autoridades, que pouco a pouco se sobrepõem às tradições locais, enfraquecendo os vínculos comunitários e alterando modos de existência que se haviam mantido por gerações. Se destrói a passo de cinco anos o que perdurou por milênios por uma dita narrativa de salvação, uma vez que, o recém convertido torna os dogmas dos religionistas como convicções pessoais e fundamentais a própria salvação.
A língua é abandonada, os ritos são desestimulados, as crenças ancestrais passam a ser vistas como erro,superstição e "cousa" do demônio, e assim, aquilo que constituía a base simbólica e social dessas comunidades vai sendo, gradativamente, relegado ao esquecimento no nome de um dito Messias do mediterraneo.
Pergunta-se, então, se tal processo pode ser verdadeiramente qualificado como integração, ou se não se trata antes de uma forma mais sutil — e talvez mais eficaz — de absorção. Pois, ao invés de reconhecer e dialogar com a diferença, busca-se substituí-la por um modelo único, considerado superior por definição.
À luz das reflexões de Peter Kropotkin, que tanto enfatizou a importância das formas espontâneas de organização social e cultural, tal tendência não pode deixar de suscitar reservas. A imposição de estruturas externas, ainda que "revestida de intenções elevadas", tende a romper equilíbrios delicados e a reduzir a autonomia das comunidades.
A narrativa do salvador branco e do barbaro indigena já não cola mais, estamos estudados e sabemos que isso não passa de mera absorção e tentativa de aumentar os quadros das denominações religiosas, que veem nas tribos campo fertil para espalhar suas pragas.
Não se ignora que o contato entre culturas produz inevitáveis transformações; mas há diferença substancial entre a troca e a imposição, entre o encontro e a substituição.
Se a sociedade nacional deseja verdadeiramente integrar os povos indígenas sem os anular, deverá também repensar o papel de suas instituições — entre elas as religiosas —, de modo que estas não atuem como agentes de uniformização, mas como possíveis mediadoras de um convívio respeitoso.
A fé, quando livremente abraçada, pode constituir elemento de enriquecimento espiritual; quando imposta ou associada à negação das identidades preexistentes, converte-se em instrumento de apagamento.
Eis, pois, mais um aspecto da questão que não pode ser ignorado: saber se a expansão das chamadas forças civilizadoras, ao pretender iluminar, não tem, por vezes, obscurecido aquilo que deveria antes compreender — contribuindo, assim, para a perda irreparável de formas de vida que, uma vez destruídas, não podem ser restituídas.
Os indígenas versus os indigenistas
Se, por um lado, a absorção indiscriminada dos povos indígenas pelas forças ditas civilizadoras deve ser objeto de uma crítica severa, não menor censura merece uma tendência oposta que, sob o manto de zelo e respeito, incorre em equívocos de não menor gravidade.
Referimo-nos àqueles que, em nome da preservação, pretendem erguer em torno do indígena uma espécie de barreira moral, como se lhe coubesse permanecer intocado, apartado do convívio mais amplo, a fim de conservar, em estado quase imutável, suas chamadas “características originais”- como se os mesmos se tratassem de animais em extinção
Tal posição, frequentemente sustentada por vozes exteriores a essas comunidades, muitas vezes academicistas, não deixa de revelar um certo romantismo exagerado, que, ao invés de reconhecer o indígena como sujeito pleno, o transforma em objeto de contemplação — quase como uma peça viva de museu, cuja integridade deveria ser mantida à custa de sua própria liberdade de escolha e autonomia - o índio não é um cidadão pleno a eles, e um fenômeno.
Levada às últimas consequências, essa perspectiva conduz a ideias ainda mais problemáticas, como a de que o contato, o convívio e mesmo as relações afetivas entre indígenas e não indígenas deveriam ser evitados, sob pena de se perder uma suposta “pureza” cultural.
Aplica-se a lógica racialista oriunda do mais abjeto racismo e eugenia - hoje aplicada de maneira deleteria tanto aos indígenas quanto à comunidade negra, o mestiço, nesse caso o "mameluco", e fruto de uma impureza racial e até moral, da fusão de duas raças que deveriam pela loja estapafúrdia dos mesmos, perpetuar-se com outros semelhantes.
Ora, tal raciocínio, ainda que revestido de intenções aparentemente nobres, não deixa de guardar inquietante semelhança com concepções que classificam, separam e fixam os homens segundo critérios rígidos, negando-lhes precisamente aquilo que constitui um dos fundamentos da dignidade humana: a liberdade de dispor de si mesmos.
À luz de uma perspectiva que valoriza a autonomia e o auxílio mútuo, como a defendida por Peter Kropotkin, torna-se evidente que a convivência entre diferentes não deve fundar-se nem na imposição, nem na separação artificial, mas na livre interação entre indivíduos e comunidades.
Culturas não são peças imóveis, destinadas a uma conservação absoluta; são realidades vivas, que se transformam, se adaptam e se recriam no contato com o mundo. Pretender fixá-las a qualquer custo é, em última instância, negar-lhes essa vitalidade.
Assim, entre a absorção que anula e o isolamento que fossiliza, impõe-se reafirmar o caminho já indicado: o da integração sem absorção — um convívio em que o indígena possa participar da vida comum sem renunciar àquilo que o define, mas também sem ser privado do direito de escolher seus próprios vínculos, afetos e destinos.
Eis, pois, o ponto em que se revela a verdadeira medida do respeito: não na distância imposta, nem na uniformidade forçada, mas no reconhecimento pleno da liberdade do outro — liberdade esta que não se conserva enclausurando, mas se afirma permitindo viver.
Que todos nós possamos possuir a autonomia e liberdade, tão cara e essencial a todos os homens do mundo, e que possamos dessa forma nos tornarmos cada vez mais unidos e juntos, faremos uma sociedade mais justa e equitativa, onde o índio possa ser respeitado, sua cultura mantida mais que ele possa se integrar conosco e assim de maneira mutual construir uma relação profunda onde todos possam se enxergar como indivíduos livres.Texto e edição de Anhangá



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