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sexta-feira, 29 de maio de 2026

O Problema do Conhecimento

 


15 de Dezembro de 1910

Filósofos puseram em dúvida a certeza de nosso conhecimento do mundo exterior, porque, declara Berkeley, as informações fornecidas pelos sentidos são duvidosas e porque o espírito, ser imaterial, não pode perceber objetos materiais. Nosso conhecimento seria subjetivo, conheceríamos apenas as ideias que fazemos das coisas. 

A qualidade e a quantidade de uma coisa, as causas que a determinam, sua modalidade, suas relações com as outras coisas, seu deslocamento no espaço e sua sucessão no tempo seriam concepções de nossa inteligência, formas de nosso entendimento. A causalidade, o espaço e o tempo seriam igualmente concepções necessárias e universais de nossa razão, dizem Hume e Kant. As coisas do mundo exterior tais como as percebemos seriam criações de nosso espírito. Não conhecemos a substância das coisas, segundo Hume, a coisa em si segundo Kant. As coisas permanecem desconhecidas e irreconhecíveis.

Huet, o erudito bispo de Avranches, zombava de Descartes, "esse suposto inventor da verdade", porque, após ter começado, com louvável prudência, por duvidar de tudo, ele se extravia já no segundo passo e afirma tudo, quando o homem não pode afirmar nada, pois não tem certeza de nada, exceto das verdades reveladas por Deus e ensinadas por sua Igreja. O ceticismo pirrônico, argumento teológico! Encontra-se desempenhando esse papel em Charron, o ardente pregador da Liga: era, segundo ele, "um grande preparatório" para a fé; para "plantar e instalar o cristianismo em um povo incrédulo e infiel, seria um método muito belo começar por essas proposições e persuasões, que o mundo está todo impregnado, dilacerado e envilecido de opiniões fantásticas, forjadas em seu próprio cérebro; que Deus criou bem o homem para conhecer a verdade, mas que ele não pode conhecê-la por si mesmo, nem por nenhum meio humano, e que é preciso que o próprio Deus, em cujo seio ela reside, e que faz nascer no homem o desejo dela, a revele, como o fez"(1).

Mas chega Pascal, que desaloja a certeza de seu último refúgio: a verdade revelada por Deus.

"(...) As principais forças dos pirrônicos são que não temos nenhuma certeza da verdade fora da fé e da revelação; ... pois não há certeza fora da fé, se o homem é criado por um Deus bom, por um demônio mau ou ao acaso, está em dúvida se esses princípios (de certeza) nos são dados, ou verdadeiros, ou falsos, ou incertos, segundo nossa origem.

(...) Que fará o homem nesse estado? Duvidará de tudo? Duvidará se o beliscam, se o queimam? Duvidará se duvida? Duvidará se é? Não se pode chegar a isso; e afirmo que nunca houve um pirrônico efetivo perfeito." (Pensamentos, VIII, §1).

Filósofos afirmaram a realidade de nosso conhecimento. O idealista Hegel sustenta que, se se conhecem todas as qualidades de uma coisa, conhece-se a coisa em si; não resta mais que o fato de que a dita coisa existe fora de si e quando os sentidos apreenderam esse fato, captou-se o último resto da coisa em si, o inconhecível Ding an sich de Kant. O socialista Engels refuta como economista: "No tempo de Kant, nosso conhecimento dos objetos da natureza era tão fragmentário que ele podia crer-se no direito de supor, além do pouco que conhecíamos de cada um deles, uma misteriosa coisa em si. Mas essas coisas inapreensíveis foram umas após outras apreendidas, analisadas e, mais ainda, reproduzidas, graças aos progressos gigantescos da ciência: o que podemos produzir não podemos pretender considerar como inconhecível"(2).

Os mortais comuns não são atormentados por tais dúvidas, se sabem que os sentidos os enganam frequentemente; os filósofos com escrúpulos sobre a certeza de nossos conhecimentos não o são tampouco, quando descem das regiões da Razão pura e da especulação metafísica para o mundo da realidade. Os sábios os ignoram quando estudam os fenômenos da natureza. Contudo, desde o renascimento do kantismo, há homens de ciência que se inquietam com isso. Impacientes, mais que perturbados por essas dúvidas, eles os mandam às favas e, com Gustave Le Bon, declaram que "a ciência não tem de ocupar-se das coisas em si mesmas, isto é, dos noumena dos filósofos, e de opô-las às aparências, isto é, aos fenômenos revelados por nossas sensações... Visto que as refrações criadas por nossos sentidos são quase as mesmas para todos os espíritos construídos sobre o mesmo tipo, a ciência pode considerá-las como realidades e construir seu edifício com elas... Pouco lhe importa saber se o mundo tal como o percebemos é real ou irreal. Ela o aceita como aparece e procura adaptar-se a ele... Nossos conhecimentos estão à nossa medida e só nos interessam porque estão à nossa medida"(3). Le Bon põe de lado a dúvida kantiana, mas não a contesta; ao contrário, reconhece-a. 

Félix Le Dantec a ataca como naturalista e lhe desfere um golpe mortal: "O fato de estarmos vivos e de nossa espécie não ter desaparecido basta para nos permitir afirmar que nosso conhecimento do mundo exterior não é enganoso e que concerne a todos os acidentes ambientais que interessam à conservação de nossa existência"(4).

A dúvida sobre a certeza de nosso conhecimento, que há mais de dois mil anos preocupa o pensamento humano, que adquiriu tamanha importância filosófica e que está em recrudescência desde o renascimento do kantismo, é um dos problemas que deve resolver a filosofia das ciências.

Propus-me neste artigo pesquisar suas origens históricas e causas determinantes e tentar dar uma explicação e uma refutação.

O problema do conhecimento foi posto pelos sofistas da Grécia antiga com uma ousadia lógica que nunca tiveram os filósofos modernos que o recolocaram em discussão. Questionaram e puseram em dúvida os conhecimentos que nos chegam pela via dos sentidos e não respeitaram os conceitos da Razão pura.

Diziam eles: os sentidos não nos informam exatamente: um remo mergulhado na água parece quebrado; a lua parece diminuir de tamanho à medida que se eleva no horizonte; uma torre redonda torna-se plana vista à distância; as árvores de uma alameda aproximam-se à medida que nos afastamos de uma de suas extremidades; um perfume agradável ao olfato fere o paladar; uma pintura que tem relevo à vista não o tem ao tato; para quem está sobre um navio em movimento, as colinas da margem se movem; uma bola, rolada entre o indicador e o médio, cruzado sobre o indicador, dá a sensação de duas bolas etc.

Os sentidos fornecem não apenas dados errôneos, mas dessemelhantes segundo os indivíduos e segundo os estados de um mesmo indivíduo: tal perfume agradável para um é desagradável para outro; o mel parece doce a uns e amargo a outros; Demócrito pretendia que não é nem doce, nem amargo, e Heráclito que tem essas duas qualidades; tem-se frio quando, no inverno, vai-se a um banquete e calor quando se sai dele etc.

Os objetos não nos sendo conhecidos senão por nossas sensações, podemos dizer como nos aparecem e não como são: com que direito supor que nossas percepções são mais conformes à natureza das coisas que a dos animais, sustentava Enesidemo; os animais que têm a pupila alongada devem ter outra percepção que nós: o tato não é o mesmo para quem está revestido de uma concha, de escamas, ou de penas. A diversidade das sensações é atestada por fatos: o azeite, bom para o homem, mata as vespas e as abelhas; o heléboro, veneno mortal para o homem, engorda as codornizes e as cabras; a água do mar, condição de vida para os peixes, é nociva para o homem que nela prolonga sua permanência etc.

Já que só temos conhecimento das coisas por nossas sensações, concluía Aristipo, discípulo de Sócrates, não podemos saber se elas têm as qualidades que nos impressionam; temos as sensações do doce, do branco, do quente, mas ignoramos se os objetos que as causam são doces, brancos, quentes.

Protágoras, o sofista genial, de quem, infelizmente, só conhecemos as opiniões por algumas citações abreviadas, dizia: se o olho é cego quando não há objeto colorido que o impressione, o objeto é incolor enquanto não há olho para percebê-lo, portanto nenhum objeto é ou se torna em si e por si o que é ou se torna; só o é para o indivíduo que o percebe, e este naturalmente o percebe diferentemente segundo o estado em que se encontra. 

As coisas só são para cada um o que lhe aparecem e só lhe aparecem como devem lhe aparecer segundo seu próprio estado, por conseguinte "o homem é a medida de todas as coisas, das que são e das que não são, no que concerne a saber que não são". Não há verdade objetiva, mas apenas uma aparência subjetiva de verdade.

O célebre aforismo de Protágoras é todo o tema da filosofia subjetiva, a filosofia da Burguesia, a classe individualista por excelência, cujos indivíduos medem tudo a seus interesses e paixões(5).

O sofista não duvidava de suas próprias sensações, assim como Descartes de seu pensamento; tinha certeza de que vivia, via a luz, sentia o perfume da rosa; não duvidava de que a rosa lhe parecia perfumada e a neve branca; mas ignorava se a rosa tinha perfume e a neve brancura; ignorava igualmente se a rosa e a neve produziam exatamente a mesma sensação nos outros; provavelmente não, pois seu estado era diferente; como então ter certeza de que as mesmas coisas aparecem semelhantemente a todos os homens. 

As mesmas palavras são empregadas para expressar sensações diferentes, observava ele: quando dois homens pretendem sentir a mesma sensação, nenhum deles tem certeza de que a sensação do outro seja semelhante à sua, pois só sente segundo seu próprio estado e não segundo o do outro. Não se pode nem conhecer as coisas, nem comunicar a outrem as impressões que produzem em nossos sentidos; trocam-se palavras e não sensações. Por conseguinte não há conhecimento válido para todos, pois todo conhecimento só repousa sobre sensações; só há opiniões, declarava Protágoras, e não há opinião verdadeira e válida para todos.

Os sofistas, consequentemente, professavam que o indivíduo não deve aceitar sem exame as opiniões correntes, mesmo quando legadas pelos antepassados; que cada um deve fazer por si mesmo suas opiniões, não reconhecer como verdadeiro senão o que lhe parece verdadeiro e só atribuir valor ao que obtém sua convicção e lhe oferece um interesse pessoal qualquer. Lançaram assim as bases de uma nova filosofia, onde deveria predominar, como observa Hegel, o princípio da subjetividade. Prepararam sua vinda tornando-se educadores públicos: ensinaram o que era útil para chegar ao sucesso e preconizaram o abandono das pesquisas sobre a natureza das coisas, às quais se consagrara a filosofia primitiva, porque não rendem lucros.

A Igreja, ela também, fulminou seus raios contra as ciências físicas, essas invenções de Satanás. Os sofistas e a Igreja representavam nessa ocasião o espírito da Burguesia, que, não buscando em tudo senão o lucro, só encorajou o estudo dos fenômenos da natureza quando lhe foi provado que o conhecimento das forças naturais e sua aplicação industrial eram uma fonte inesgotável de riquezas.

Sócrates, o mais ilustre dos sofistas, segundo Grote, contribuiu, mais que qualquer outro, para o arranque da filosofia subjetiva e para sua definitiva separação de toda ciência: tomou como ponto de partida de seu ensino não o conhecimento das coisas, mas o conhecimento de si mesmo, o conhecimento de seu Eu. Platão, no Fédon, mostra-o disposto a explicar o mundo pelo homem; contrariamente à filosofia primitiva, que, por sua direção e conteúdo, era a filosofia da natureza e que procurava explicar o homem pelo mundo.

Sócrates só pedia às ciências o imediatamente útil à vida prática; à geometria, o que era necessário para medir os campos, à astronomia apenas o que bastava "para conhecer as horas da noite, os dias do mês e as estações do ano". Xenofonte relata que, "longe de pesquisar as causas dos fenômenos celestes, demonstrava a loucura daqueles que se entregavam a tais especulações. Aqueles que aprendem um ofício, dizia ele, esperam exercê-lo depois por si mesmos e para os outros; aqueles que procuram penetrar os segredos dos Deuses (isto é, os mistérios da natureza) creem que, quando conhecerem bem as causas de tudo o que é, farão a seu bel-prazer e segundo suas necessidades os ventos, a chuva, as estações e outras coisas semelhantes? ou, sem lisonjear-se de tanto poder, lhes basta saber como isso se faz" (Memórias de Sócrates, liv. I).

Sócrates considerava que havia perdido seu tempo estudando os fenômenos da natureza: recomendava deixar as coisas — πρχγματα (pragmata) —, pelas ideias — λόγοι (logoi) —, as realidades — όντα (onta) —, pela verdade das realidades — άλήθεια των όντων (aletheia ton onton). 

As ideias que o homem fazia das coisas eram essa verdade: o conhecimento da ideia da coisa dispensava toda pesquisa sobre sua natureza. O conhecimento do conceito do cavalo, dizia Platão, ensina as propriedades do cavalo. Os conceitos, segundo ele, possuíam a realidade; não é a matéria, mas a ideia de que ela recebe sua forma, que faz de cada coisa o que é: por conseguinte, a ideia representa a verdadeira realidade das coisas.

Mas nem todos os sofistas partilhavam essa alta opinião pelas ideias da Razão pura. Objetavam: não se pode expressar senão as sensações do estado em que se encontra, sem poder afirmar nada sobre o que está fora de si, nem enunciar nada que tenha um alcance geral, porque os sentidos se interpõem entre o mundo exterior e a razão, a qual está como aprisionada e não pode sair de si mesma. Submetiam a sua crítica paradoxal e implicante as ideias de movimento, de espaço, as definições da geometria e as operações da aritmética(6).

Sócrates abandonava as ciências físicas pela ética, o único estudo digno de um homem livre: a moral, os costumes, a legalidade, a justiça foram de fato a constante e geral preocupação dos sofistas; passaram-nas pelo crivo de sua implacável crítica.

Górgias vangloriava-se de haver descoberto que a aparência tem mais peso que a verdade e Pirro declarava que a aparência é rainha por toda parte onde se apresenta: a teoria da aparência é a que os sofistas vão aplicar à ética. Já que as coisas são para cada indivíduo o que lhe aparecem segundo suas sensações, a verdade só é uma opinião individual; cada um deve ter por verdadeiro o que lhe parece verdadeiro e por bem e justo o que lhe parece bem e justo; pois o homem é também a medida das coisas do mundo moral como das coisas do mundo físico. Os mais ousados, opondo a natureza à sociedade, o direito natural ao direito legal, concluíam que cada um deve seguir suas paixões e seus interesses: e se as leis e o costume a isso se opõem, atentam contra seu direito natural e lhe impõem um constrangimento ao qual não é obrigado a submeter-se e sem hesitação deve violá-las, se puder fazê-lo impunemente.

O rei da Pérsia, porque podia satisfazer todos os caprichos de seu Eu, possuía o soberano bem e Arquelau, porque se apoderara do trono da Macedônia pela traição e o assassinato, tornava-se um herói. O Eu único de Stirner e o pretensioso super-homem de Nietzsche são as caricaturas dessas ideias da sofística grega. O indivíduo devia conduzir-se, não segundo uma moral geral e válida para todos, mas segundo as conveniências de seu Eu. 

O Eu era o começo, o meio e o fim de tudo; tornou-se o ponto de partida da nova moral, cujo dogma fundamental: Faze a outrem o que gostarias que te fizessem, que reporta Hesíquio e que comenta assim o sofista Isócrates: "Não faças aos outros o que não gostarias que te fizessem... Sê para com os outros o que gostarias que eu fosse para contigo", foi retomado pelo cristianismo, que repete: "Não faças a outrem o que não gostarias que te fizessem. Ama teu próximo como a ti mesmo."

Os estoicos que ostentavam a pretensão de retornar à natureza, quando rejeitavam a primitiva filosofia da natureza, pela subjetiva filosofia da sofística, professavam que, para ser livre sob todos os aspectos, o sábio não deve aceitar nenhum encargo, nem nenhum dever para com os outros; não deve impor-se o cuidado de educar filhos; deve bastar-se a si mesmo e não submeter-se à servidão do casamento, quando há tantos outros meios de satisfazer as necessidades sexuais. O cínico, para retornar inteiramente à natureza, satisfazia-as em público. Zenão e Platão pregavam a comunidade das mulheres.

Os sofistas atacavam as instituições sociais; Licofron declarava que a superioridade da aristocracia é imaginária; Alcidas que a oposição entre homem livre e escravo é desconhecida à natureza; outros que a escravidão é contrária à natureza. A cidade, a nação, o Estado, diziam eles, são demasiado estreitos para quem tem o universo no lugar da pátria. O sábio é cidadão do mundo; não deve pertencer nem a uma cidade, nem a um Estado, pois a nenhum preço deve alienar sua liberdade e porque de todo lugar o caminho que leva ao Hades tem o mesmo comprimento. É ridículo sacrificar-se pela pátria: o sábio que tem o mundo no lugar da pátria não irá fazer o sacrifício de sua pessoa e da sabedoria em proveito dos loucos(7).

Sócrates não ousou levar a dúvida até suas últimas consequências lógicas, mas assim como Bentham, o teórico do utilitarismo burguês, fazia do útil a condição do bem e aconselhava ser virtuoso, por causa das vantagens que a virtude proporciona; evitar o adultério por causa dos perigos a que expõe; tomar parte nos negócios públicos porque o bem-estar da comunidade aproveita ao indivíduo; cultivar a amizade, idealizada pela sodomia mútua, (OBA!OBA!) por causa dos serviços que dela se podem esperar, etc.; contudo, contrariamente aos outros sofistas, identificava a legalidade ao conceito do justo, a ponto de recusar subtrair-se a um julgamento que considerava injusto para não violar a lei. Tinha por regra, assim como Pirro, de se ater ao senso comum e fazer como todo mundo; e é para não chocar a opinião pública que sacrificava aos deuses cuja existência para os sofistas era tão duvidosa quanto o conhecimento das coisas.

A dúvida dos sofistas quanto à veracidade do conhecimento e seu desdém por toda ciência da natureza levavam a reconhecer o senso comum como o guia do sábio e o garantidor universal do que o conhecimento humano pode ter de certo; contudo, era contra as opiniões correntes, que eram, em sua época, sobrevivências de uma ordem social esgotada que partiam para a guerra na sequência de Heráclito.

Os primeiros sofistas eram originários das cidades comerciais da Jônia e da Magna Grécia, onde, desde o VIIº século antes de Jesus Cristo, a indústria e o comércio davam o assalto à organização comunista da gens e da família patriarcal, substituindo a propriedade individual à comunidade dos bens e constituindo uma classe nova, a Burguesia.

A família patriarcal era uma providência para os numerosos lares, vivendo sob a autoridade despótica do Pai, que representava os antepassados: provia a todas as necessidades materiais e intelectuais. As colheitas de seus campos e o trabalho de seus escravos alimentavam todos os seus membros; o culto de seus antepassados, sua história, suas lendas, suas tradições e suas regras de conduta, que não se discutiam e que os aprisionavam, eram seu pasto intelectual e moral.

À medida que a classe dos traficantes e manufatureiros enriquecia e crescia, a classe dos aristocratas patriarcais empobrecia e se reduzia. Os nobres, para quem a guerra era o único meio de adquirir riquezas, só tinham ódio e desprezo pelos arrivistas do comércio e da indústria, de quem o poeta aristocrata, Teógnis, desejava "beber o sangue negro". Contudo esses indivíduos tão desprezados disputavam-lhes o governo da cidade, despojavam-nos de seus bens pela usura e aliavam-se com os nobres desclassificados, os artesãos e os escravos para expulsá-los do poder, exilá-los e expropriá-los. A guerra civil ensanguentou durante séculos as cidades antigas.

A sociedade individualista que a classe nova estabelecia sobre as ruínas da comunidade gentílica e patriarcal não tinha providência, e é para colmatar essa lacuna que se inventou a providência de Deus: em vez de esperar seu bem-estar de uma coletividade familiar, cada indivíduo só o esperava do sucesso de seus empreendimentos individuais: libertado do despotismo patriarcal e entregue a suas únicas forças, devia prover a suas necessidades materiais e intelectuais. Os sofistas encarregaram-se de dar-lhe a educação que recebia outrora no seio da família; abriram as primeiras escolas públicas e pagas; ensinaram tudo o que era preciso saber para fazer seu caminho na refrega social, sem ser incomodado pela moral e pelos costumes ultrapassados do patriarcado.

O homem, em vez de perder sua individualidade em uma comunidade gentílica ou patriarcal, erguia seu Eu diante da sociedade; em vez de tudo reportar a uma coletividade, reportava tudo a seu Eu; era a medida de tudo, segundo a palavra profunda de Protágoras. As novas condições sociais punham o princípio da subjetividade, donde os sofistas deduziram a filosofia subjetiva da Burguesia.

Aristófanes e Anytos acusaram Sócrates de desprezar os Deuses e os costumes legados pelos antepassados, de corromper os costumes e de desmoralizar a juventude; acusação semelhante foi dirigida contra os outros sofistas. Contudo seu ensino respondia às necessidades intelectuais e morais de seu meio; só lhes dava uma expressão filosófica. "O povo, diz Platão, é o grande sofista, que não quer ser contraditado nem em suas opiniões, nem em suas inclinações". Estava em plena decomposição moral. Permitiam-se todos os excessos, relata Tucídides. A má-fé era geral, não se podia confiar nos juramentos mais terríveis; a multidão aplaudia as mais descaradas e egoístas máximas dos oradores, eis alguns exemplos: cada um persegue seu interesse segundo seus meios, sem jamais se deixar deter pelo respeito ao direito; o triunfo do mais forte é a lei da natureza; cada um mede enfim o direito e a honra a seu proveito e prazer etc.

A colocação em dúvida do conhecimento das coisas e o impudico rejeitar das noções da moral privada e pública eram os reflexos intelectuais do transtorno das condições sociais que determinavam os eventos econômicos e políticos que transformavam a sociedade antiga.

A dúvida, nascida com a Burguesia, instalou-se definitivamente em sua filosofia. Descartes creu que seu axioma, penso, logo existo, a expulsaria: poderia ter dito, com igual justeza, sinto, logo existo. Batia à porta ao lado. Os sofistas nunca haviam duvidado de seu pensamento e de suas sensações, mas da certeza dos conhecimentos que elas proporcionavam. A dúvida invicta continua a florescer no pensamento filosófico: é fatal, pois a dúvida é uma das características intelectuais do indivíduo burguês, que vive na incerteza do sucesso de seus empreendimentos comerciais e industriais e da continuidade de sua prosperidade.

Em várias ocasiões no curso da história da Burguesia, viu-se reaparecer nas épocas de transição a devassidão moral dos sofistas gregos, mas jamais se exibiu com tanto cinismo.

A crítica sofística das impressões errôneas e variáveis dos sentidos não foi refutada e não pode sê-lo; todos os dias, numerosas e brilhantes provas da infidelidade sensorial a confirmam e reforçam. A sabedoria popular a apoia com seu provérbio: de gostos e cores não se discute.

Há alguns anos, Blondlot, o célebre físico de Nancy, anunciava ao mundo científico a descoberta dos raios N, cuja aparição se constatava por uma mancha luminosa sobre um écran fosforescente: numerosos sábios da Europa e da América, experimentadores igualmente hábeis, os viram; contudo tiveram de acabar por reconhecer que esses raios eram uma ilusão óptica dos que os haviam visto. Todo mundo vê o sol irradiando luz; os físicos afirmam que um aeronauta que conseguisse sair da atmosfera terrestre o veria negro. Um professor de psicologia, para demonstrar que o mesmo objeto impressiona diferentemente os indivíduos, fez entrar, ex abrupto, no meio de sua conferência, um arlequim que executou duas ou três piruetas e desapareceu ao fim de um minuto. Pediu às pessoas presentes que pusessem por escrito, sem se consultar, o que acabavam de ver; não houve duas narrativas de acordo sobre os gestos e o traje do palhaço. 

Os depoimentos judiciais das testemunhas oculares e auriculares são discordantes, quando não se concertaram; por ocasião do duplo assassinato do impasse Ronsin, dez testemunhas, das quais seis sargentos de cidade, gente do ofício, habituadas a fazer constatações nos locais dos crimes, não puderam concordar sobre a posição do cadáver do pintor Steinhel: o doméstico e um vizinho o perceberam estendido no chão; quatro policiais o encontraram de joelhos, apoiado contra uma porta; um quinto o viu encostado na parede, perto do lavatório, etc. Quando o historiador só possui um único testemunho, o fato é registrado como positivo, certo; mas quando existem vários documentos, torna-se duvidoso em seus detalhes e às vezes em seu conjunto. Quem poderá desembaraçar o caso Dreyfus, que tantos documentos embaraçam? A história não é uma ciência.

Os conceitos da Razão pura, que, para Platão, eram toda a verdade, não sendo senão interpretações cerebrais das sensações, são forçosamente errôneos, quando os sentidos fornecem ao cérebro dados incorretos. A Razão pura, em que Kant alojava a certeza, parece tão incerta que se controlam e verificam seus raciocínios pela experiência "a fonte única da verdade", diz Poincaré em A Ciência e a Hipótese. A Razão impura corrige a Razão pura. Os sentidos enganam a razão, que por sua vez os engana; e Charron triunfa: "Vede que bela ciência e certeza pode ter o homem, quando o dentro e o fora estão cheios de falsidades e de fraquezas e que essas partes principais, ferramentas essenciais da ciência, enganam-se uma à outra".

A opinião pública e o senso comum sobre os quais se apoiavam Sócrates e Pirro na antiguidade e Thomas Reid e Royer Collard nos tempos modernos não são muito tranquilizadores pois se formam com as sensações, tão frequentemente falhas: porque a vista ilude sobre a grandeza e o curso do sol, a opinião pública e o senso comum declararam que o sol girava em torno da terra, situada no centro do universo.

Os sofistas sustentavam que, já que as sensações produzidas por um objeto são diferentes segundo os indivíduos e os estados de um mesmo indivíduo, não se pode edificar uma ciência das coisas. Com efeito, uma ciência edificada com as únicas sensações não seria válida para todos, seria pessoal e variaria segundo os indivíduos e à medida que a idade transformasse os sentidos de seu edificador.

Contudo, como proclama Le Dantec, estamos vivos e nossa espécie não desapareceu; é preciso portanto que tenha tido um mínimo de conhecimentos do mundo exterior mais ou menos extenso e exato para adaptar-se aos meios naturais e sociais que atravessou. É preciso também que esse mínimo de conhecimentos fosse válido para todos, pois os homens de raça e países diversos instituíram organizações familiares e sociais, formas de propriedade e modos de produção semelhantes e evoluindo na mesma direção; elaboraram igualmente um senso comum semelhante, como o provam os provérbios populares, que, como observa Vico, são em todos os países da mesma substância, embora sejam expressos em formas diferentes. Para que tenha havido uma evolução econômica e social e um senso comum análogos em todos os povos da terra, foi preciso que esse mínimo de conhecimentos, válido para todos, se desenvolvesse à medida que o homem multiplicava suas experiências.

Essa analogia, acarretando as mesmas consequências, prolonga-se até os animais, pois "há uma grande vizinhança e parentesco entre o homem e os outros animais", diz Charron. É certo, assim como os sofistas pensavam, que os olhos de pupila alongada de certos vertebrados e os olhos de facetas dos insetos, assim como os olhos de córnea proeminente e cristalino fortemente convexo dos míopes e os olhos de córnea e cristalino achatados dos presbíopes têm uma percepção dessemelhante dos mesmos objetos; isso não os impede de fornecer aos animais e aos homens um conhecimento semelhante do mundo exterior suficientemente exato para permitir-lhes prover os meios de existência, defesa, proteção, e criação dos pequenos. 

Os animais e os homens, porque são formados da mesma matéria, porque têm uma idêntica estrutura celular de seus órgãos e porque, para viver e perpetuar-se, fizeram um número infinito de experiências mais ou menos semelhantes devem por conseguinte ter sentido sensações análogas e elaborado conhecimentos semelhantes. É, por exemplo, mais que provável que os animais possuam os primeiros axiomas da matemática: o asno, dizia Diógenes, sabe, tanto quanto um geômetra, que a linha reta é o caminho mais curto para ir ao cocho e ao bebedouro; os pombos só começam a chocar quando a fêmea botou dois ovos, como se soubessem que 1 mais 1 fazem 2; as ovelhas têm a noção do tempo, conhecem também tão bem quanto o pastor a hora de voltar ao aprisco; as galinhas sem que a Razão pura aí tenha parte, têm a noção do espaço e demonstram-no por sua hesitação em lançar-se de um poleiro elevado. Essa ideia do espaço não é inata, isto é, instintiva; pode-se observar facilmente sua aquisição em cães com alguns dias de idade. É forçoso reconhecer que, apesar da diversidade das sensações causadas pelos mesmos objetos nos animais e nos homens, elas dão lugar a uma representação intelectual semelhante porque uns e outros são amassados da mesma matéria.

Se é impossível recusar um mínimo de conhecimentos exatos aos animais e aos homens, é preciso constatar com Freycinet "a singular adequação entre o mundo exterior e a inteligência" que Parmênides pressentira quando dizia que, só o que pode ser, pode ser pensado, e que faz que "os algoritmos e suas combinações, isto é, a linguagem matemática, tal como os homens souberam criá-la, presta-se maravilhosamente a expressar as operações da natureza... Fórmulas imaginadas para especulações teóricas encontraram-se depois do fato em exata correspondência com os fenômenos naturais e tornaram-se sua tradução a mais bem apropriada". 

Quem poderia desconfiar que a lei das superfícies esféricas, reconhecidas proporcionais aos quadrados de seus raios, seria um dia a lei de decrescimento da gravidade e das outras forças irradiantes; que a série dos números ímpares representaria os espaços percorridos por um corpo caindo livremente no vácuo, durante os períodos sucessivos da queda; que as propriedades das curvas resultantes da intersecção de um cone por um plano diversamente inclinado sobre o eixo, expostas há mais de dois mil anos por Apolônio de Perga, tornar-se-iam as leis astronômicas de Kepler? E Freycinet acrescenta: "É difícil ver nesses fatos uma pura coincidência e atribuir ao acaso encontros tão frequentes. Encontro aí que a inteligência humana e a natureza entram em um plano geral, em virtude do qual a primeira está admiravelmente disposta a compreender a segunda"(8). O plano geral de Freycinet, que suporia um fabricante de planos, poderia bem não ser senão a composição material do universo, a mesma por toda parte; com efeito, a matéria pensante e a matéria bruta são formadas dos mesmos elementos e é por causa disso que a inteligência humana pode compreender a natureza. "O espírito, ser imaterial, dizia com razão Berkeley, não pode perceber os objetos materiais". A matéria pensante pode.

Esse mínimo de conhecimento, que não se pode negar ao homem, não é a ciência, mas é seu prelúdio: se, para conhecer o mundo exterior, se ativesse apenas ao serviço de seus sentidos, seu conhecimento mal teria ultrapassado o dos animais, cujos sentidos são mais perfeitos, se não o sentido tátil, extraordinariamente desenvolvido pelo uso da mão.

A geometria, por exemplo, não teria nascido, se o homem não tivesse inventado o bastão para conhecer o comprimento e a largura de seus campos, em vez de confiar ao olho para apreciá-los. O bastão, de que os povos primitivos se servem para medir as terras aráveis, distribuídas todos os anos às famílias da gens ou da aldeia, é-lhes de tamanha utilidade que adquire um caráter místico: os camponeses do mir russo o chamavam o bastão sagrado e o depositavam na igreja, e os Egípcios tinham tomado o côvado, unidade de medida das partilhas agrárias, por símbolo hieroglífico da Verdade e da Justiça; tudo o que medira era verdadeiro e justo.

Um pedaço de madeira, um bastão, substitui um sentido: desde então o comprimento de um campo não é mais uma sensação do olho, incerta e diferente segundo os indivíduos, mas um múltiplo do bastão invariável; o que mede, em vez de dar lugar a contestações, como as apreciações do olho, é declarado verdadeiro e justo.

Conhecemos as qualidades ou propriedades das coisas pelas impressões que fazem em nossos sentidos: a sensação é nossa primeira maneira de entrar em relações com o mundo exterior e enquanto dura a primeira idade ela é nossa única maneira de conhecer as coisas; os selvagens a empregam quase exclusivamente; daí, a superioridade de seus sentidos. Mas as propriedades das coisas impressionam também os corpos brutos. O peso de uma coisa se faz sentir sobre o prato de uma balança, como sobre nossa mão; sua dureza, seu calor, sua luz, etc., afetam os corpos brutos como nosso corpo vivo. Pode-se portanto definir a qualidade ou a propriedade de uma coisa, a potência que possui de produzir uma ação sobre os corpos animados e inanimados.

A sensibilidade dos corpos inanimados é mesmo mais delicada que a dos corpos animados: reage a propriedades das coisas, que, como, por exemplo, as ondas hertzianas da telegrafia sem fio, não abalam nossos sentidos, mas afetam um tubo de limalha metálica; não poderíamos apreciar a dureza dos diferentes aços, se nos servíssemos de nossos sentidos em vez de empregar a bola de Brinell e a broca de Keep. Segue-se que se pode utilizar a sensibilidade dos corpos brutos para conhecer as propriedades dos corpos, servir-se de uma coluna de mercúrio para medir a temperatura, do papel de tornassol para revelar a acidez de um líquido, etc. 

Kant e os neokantianos cometem um grave erro quando dizem que só conhecemos as propriedades das coisas por nossos sentidos. Não são mais as sensações incertas e dessemelhantes do homem, que fornecem os elementos do conhecimento científico, mas as sensações certas e sempre semelhantes a si mesmas dos corpos brutos: se, quando se recorria apenas às variáveis sensações humanas, era impossível conhecer com alguma exatidão a temperatura da atmosfera, conhece-se exatamente cientificamente, desde que a sensibilidade invariável do mercúrio a registrar. 

Dois astrônomos, instalados diante do mesmo astro, davam sempre esboços diferentes; enquanto a placa fotográfica, "essa retina do sábio", assim como a chama Jansen, reproduz sua imagem exata; como tem sobre o olho a vantagem de ser exclusiva de toda interpretação pessoal e de guardar fielmente o traço das impressões acumuladas, os astrônomos substituem cada vez mais a fotografia às observações oculares. O pequeno aparelho de Maneuvrier, fundado sobre a resistência elétrica proporcional à quantidade de água de uma mistura vínica, detecta o batismo dos vinhos, melhor que o paladar do mais fino degustador. A análise crioscópica permite apreciar a aguagem do leite por seu grau de congelação e diagnosticar à distância o estado de saúde da vaca leiteira, o que não saberia fazer o veterinário mais experimentado. O homem só conhece o som de sua própria voz desde que o fonógrafo a reproduz; e então não a reconhece, pois a ouve, como os outros a ouvem, sem a ressonância da cabeça.


O conhecimento exato e válido para todos, porque sempre idêntico, adquirido pela substituição dos corpos brutos aos sentidos do homem, induz o médico e o psicólogo a empregá-los para diagnosticar as doenças do corpo e estudar as qualidades psíquicas do Eu. Sócrates dizia: conhece-te a ti mesmo; o filósofo moderno acrescenta: com a ajuda da matéria não pensante.

A ciência substitui por toda parte onde é possível os sentidos do sábio por corpos brutos. Há ciências onde a substituição é quase completa: o químico não se serve de nenhum de seus sentidos para conhecer as propriedades do ácido sulfúrico e dos outros corpos que decompõe e recompõe. Poder-se-lhe-ia acrescentar ou retirar um sentido que não se modificaria seu conhecimento científico, pois não é um conhecimento sensorial, sujeito a erro e a variações, mas o conhecimento da matéria pela matéria inanimada, não sujeito a erro e a variações.

A produção industrial, que outrora precedia a ciência, hoje lhe segue o passo: enquanto para seu controle dependia dos sentidos do homem, era incerta e a rotina que nela presidia não podia fornecer nenhuma explicação plausível dos erros e das más fabricações; tornou-se certa quando se recorreu aos instrumentos registradores de toda sorte, desde os mais simples (termômetro, manômetro etc.) até os mais complicados (voltímetro, amperímetro, pirômetro, analisador de gás, calorímetro etc.).

A substituição da sensação da matéria humana pela sensibilidade da matéria bruta permitindo conhecer, por exemplo, a temperatura pelo número dos graus da coluna mercurial, o som pelo número das vibrações por segundo, etc., transforma o que é qualidade para o homem em quantidade para a matéria. Essa transformação permite estabelecer relações numéricas entre os fenômenos e muda a natureza do conhecimento. O conhecimento qualitativo de um objeto é seu conhecimento relativo ao homem, e o conhecimento quantitativo de um objeto é seu conhecimento relativo a outros objetos. O homem não é mais a medida de tudo, são os objetos que são as medidas dos objetos. O princípio de subjetividade, ponto de partida da filosofia subjetiva da classe burguesa, é substituído pelo princípio de objetividade.

Os sentidos, mesmo quando não extraviam, proporcionam um conhecimento das coisas extremamente limitado; só assinalam um número restrito de suas qualidades: o olho, por exemplo, não percebe a décima parte do espectro solar; seu poder de percepção é infinitamente inferior ao da matéria inanimada. Onde o olho do astrônomo não consegue furar as trevas, nesses lugares desertos, que Herschell qualificava de "saco de carvão", a placa de gelatino-brometo de prata faz surgir novos aglomerados de estrelas e de matéria cósmica difusa: à medida que as placas fotográficas se sensibilizam, os conhecimentos astronômicos estendem-se a abismos cada vez mais profundos.

Ignoramos os limites da sensibilidade da matéria bruta; a dos instrumentos científicos é limitada, mas aperfeiçoa-se e cresce todos os dias. O termômetro, que mal pode medir um centésimo de grau, nos deixava na ignorância de fenômenos que o bolômetro faz conhecer: esse instrumento, baseado na resistência elétrica dos metais, influenciados pelo calor, podendo medir o milionésimo de grau, revelou que o espectro solar era mais extenso do que se supunha. O conhecimento científico progride, não à medida que os sentidos se aperfeiçoam, mas à medida que os métodos de utilização da sensibilidade da matéria bruta se generalizam e que os instrumentos de pesquisa e controle se multiplicam e se sensibilizam.

Mas o conhecimento das coisas permanecerá sempre incompleto por causa da imperfeição dos sentidos e dos instrumentos que os substituem e por causa do método que devemos empregar para estudá-las.

Um objeto não é um produto espontâneo, é determinado por um concurso de inumeráveis fatos anteriores e concomitantes; nunca é idêntico a si mesmo: influenciado pelos inumeráveis objetos de seu meio, está em um eterno devir. Devemos, para estudá-lo, abstraí-lo de seu meio, considerá-lo como invariável e examinar suas propriedades separadamente umas após as outras e não levar em conta suas modificações e ações umas sobre as outras. As ciências abstratas não procederam diferentemente; proveram-se dos objetos de seus estudos, o ponto, a linha, o plano, os números, etc., extraindo-os, abstraindo-os do meio ambiente e despojando-os de suas qualidades para transformá-los em seres de razão, em seres imaginários não tendo realidade objetiva e existindo apenas nos cérebros que os pensam(9).

Por essa razão, as deduções especulativas dos matemáticos não relevam dos sentidos e não estão sujeitas a suas causas de erro; e quando são logicamente encadeadas, são válidas para todos, porque conformes à lei geral do espírito humano. Assim as geometrias de Euclides, de Riemann e de Lobatchevski, embora contraditórias, são tidas por verdadeiras pelos matemáticos porque suas proposições são logicamente ligadas umas às outras.

As ciências físicas, que substituem os sentidos humanos por corpos inanimados, são tão válidas para todos quanto as ciências abstratas, porque o sábio não analisa suas sensações; não estuda as impressões dos objetos sobre seus sentidos, mas sobre outros objetos; registra-as e classifica-as para delas deduzir consequências teóricas e práticas, que, podendo ser mais ou menos logicamente deduzidas, são mais ou menos verdadeiras e válidas para todos; não raciocina sobre os efeitos dos objetos sobre seus sentidos, mas sobre seus efeitos sobre outros objetos. 

O conhecimento, de subjetivo que era quando se fundava sobre os dados fornecidos pelos sentidos, torna-se objetivo porque se funda sobre os dados fornecidos pelos objetos. A crítica mordaz e irrefutável dos sofistas gregos, que mina os fundamentos do conhecimento subjetivo, não tem qualquer influência sobre o conhecimento objetivo.

Os sofistas, esses demolidores impávidos do conhecimento subjetivo, por uma inconcebível contradição, tomaram o homem, de que contestavam o conhecimento, por medida de tudo e abandonaram a primitiva filosofia da natureza para erguer a filosofia subjetiva da classe burguesa. Os homens de ciência, que criaram o conhecimento objetivo das coisas, retomando a antiga filosofia, desprezada pelos sofistas, elaboram hoje uma nova e grandiosa filosofia do universo.

- Paul Lafargue 

La Revue des Idées
15 de dezembro de 1910



(1) Charron, Discours chrétiens, 1600. O método é bom. Kant e outros o seguiram para retornar ao Cristianismo; Sócrates e Pirro o haviam aplicado para acomodar-se ao politeísmo pagão, pois, diz o fogoso católico do XVIº século, "com a dúvida nunca haverá heresias e opiniões triadas, particulares, extravagantes: nunca pirrônico, nem Acadêmico será herege, são coisas opostas". 

(2) F. Engels, Religion, philosophie, socialisme. Bibliothèque du parti socialiste.

(3) G. Le Bon, Edification de la connaissance scientifique. Revue scientifique, 1º de fevereiro de 1908. 

(4) F. Le Dantec, Les Sensations et le monisme scientifique. Rev. Scient. 20 de fevereiro de 1904. 

(5) Kant retoma a tese dos sofistas gregos, sobre a incapacidade dos sentidos de fornecer um conhecimento das coisas. "O fenômeno, diz ele, é algo que não se deve buscar no objeto em si mesmo, mas sempre na relação desse objeto com o sujeito, que é inseparável da representação que dele temos... Quando atribuo à rosa em si a vermelhidão e a todos os objetos exteriores a extensão em si, sem ter em conta a relação determinada desses objetos com o sujeito e sem restringir meu julgamento em consequência, é então que nasce a ilusão". Crítica da Razão pura, 2ª seção, § 8, tradução Barni. Dissera, em um trecho suprimido da primeira edição: "o gosto agradável do vinho não pertence às propriedades objetivas do vinho, isto é, às propriedades de um objeto, como tal, mas à natureza particular do sentido do sujeito que dele gozar. As cores não são as qualidades dos corpos aos quais as reportamos, mas apenas modificações do sentido da vista, afetado pela luz de certa maneira". Ib., 1ª seção, § 4. 

(6) Eis algumas amostras da crítica sofística.

Enquanto uma coisa está em um só e mesmo espaço, está em repouso; ora, uma flecha, que voa, está a cada instante no mesmo espaço, está portanto em repouso a cada instante de seu voo, por conseguinte, assim durante toda a duração de seu voo; o movimento da flecha é portanto aparente.

Se tudo o que existe está no espaço, o espaço ele mesmo deve estar em um espaço e assim por diante ao infinito; como isso é inconcebível, nada do existente está no espaço.

Os matemáticos zombam de nós quando falam em cortar uma linha reta em duas partes iguais. Sendo a linha segundo eles composta de pontos, como se haveriam para dividir em duas partes iguais uma linha formada por um número ímpar de pontos, de 9, por exemplo. Não se pode partilhar o quinto ponto, que não tem extensão, e se não o dividem, as duas partes são desiguais.

Não se pode subtrair um número de outro, por exemplo 5 de 6: pois para subtrair uma coisa de outra, é preciso que esteja contida nela; mas se 5 está contido em 6; 4 está em 5; 3 em 4; 2 em 3; 1 em 2; some-se o tudo e ter-se-á 15; ora 15 não está contido em 6. 

(7) Os cristãos dos primeiros séculos, como os sofistas gregos, preocupavam-se muito pouco com sua pátria; o bispo Prudêncio, do IV século, alegrava-se de que Roma houvesse vencido todos os povos e feito do universo uma única cidade. Os poetas cristãos dos livros sibilinos do IIº século nutriam ao contrário um ódio feroz contra os ricos e contra Roma "a cidade má que tanto fez sofrer o universo"; saudavam de antemão sua ruína e desejavam ser suas testemunhas. O Cristianismo, que, no início, só se dirigia aos deserdados da sociedade, modificava suas opiniões à medida que conquistava as classes ricas. 

(8) De Freycinet, Essai sur la philosophie des sciences, 1895. 

(9) O número e a coisa são pensados juntos pelo selvagem: o polegar é para ele um; o indicador dois; a mão cinco; o polegar da outra mão seis; as duas mãos dez: os algarismos romanos demonstram esse modo de numeração; I é o polegar; V a mão cujos dedos medianos estão dobrados, enquanto o polegar e o mínimo estão erguidos; X são as duas mãos opostas. Quando terminou de tocar e nomear os dedos, o selvagem passa aos artelhos: um pé e duas mãos são quinze; dois pés e duas mãos vinte ou um homem. O número é para ele uma propriedade das coisas, como a luz, o calor, a eletricidade etc., o são para o civilizado: é depois destacado das coisas para tornar-se um ser de razão, que é tratado como uma coisa. O ponto, a linha, o plano são igualmente destacados dos corpos, dos quais são as propriedades: o ponto é despojado das três dimensões dos corpos, a linha de duas e o plano de uma. Os matemáticos trabalham com esses seres imaginários, criados pelo pensamento no curso do tempo, combinam-nos entre si e analisam suas combinações, como os químicos combinam os corpos simples, dados pela natureza e analisam suas combinações. 


quarta-feira, 13 de maio de 2026

A Luta das Classes na História

30 de abril de 1872

Todas as sociedades humanas teem tido por base o antagonismo das classes. Em todos os tempos uma classe privilegiada, teocracia, aristocracia, ou mesocracia, viveu á custa do trabalho d’outra classe, escrava, serva, ou proletaria. E apenas nas tribos selvagens que vivem da caça e dos fructos naturaes é que se acha a igualdade social e individual.

Todas as classes reinantes foram uteis na sua origem. Na idade media os nobres eram os defensores dos seus servos. Mas pelo desenvolvimento mesmo da sociedade, a classe superior perde a sua utilidade, e deixando de exercer uma funcção social, não pensa mais do que em conservar os seus privilégios, que opprimem com o seu peso a classe produtora. 

Para os conservar, recorre á força brutal; organiza exercitos e policia, e não desdenha a força intelectual: a religião, produção espontânea do sentimento popular, adquire nas suas mãos uma forma dogmatica, e vira-se contra o povo; o mesmo acontece com a ciência, com a filosofia, com os preconceitos e as tradições. O poder politico é constituido pela união d’estas duas forças, de que se apossa a classe privilegiada, e que ella volta contra a classe opprimida. 

Porém, no seio da classe privilegiada existe a desorganização. A concorrência, as grandes empresas industriais e financeiras são as causas desorganisadoras da burguesia; as lutas intestinas dos senhores feudais, as cruzadas, as expedições feudais, foram as causas desorganisadoras da aristocracia. 

 medida que a classe reinante se desorganiza, cresce em numero e em força a classe opprimida. Enquanto o patriciado romano se gastava em rivalidades mesquinhas, a plebe engrandecia, a escravidão generalisava-se, invadia as cidades e os campos, e fazia tremer Roma pelas revoltas na Sicilia e no sul da Italia. Enquanto a nobreza europeia perdia a sua virilidade nas cortes dos reis, a burguesia enriquecia e invadia todas as funções uteis do estado. Nos nossos dias, enquanto a burguesia se atrofia nos prazeres e na ociosidade, o proletariado organisa-se, funda vastas associações internacionais, que abalam a velha sociedade até aos alicerces.

Ao passo que a classe dominante enfraquece, que o desenvolvimento da classe oprimida se torna um perigo para os seus privilégios, sente dominal-a o terror, e abre então os braços aos salvadores providenciais. De ordinario estes salvadores são aventureiros sem principios, servindo não o seu partido, mas apenas o seu proprio interesse. Produtos da luta das classes, não podem conservar a sua elevada posição, senão fomentando a luta das classes.

Napoleão III é um dos modernos aventureiros que melhor desempenhou o seu papel. Conhecendo a influencia do seu nome nas massas populares, disfarçou-se em reformador, e em nome dos sofrimentos populares atacou o governo burguês de Luiz Filippe. Quando a burguesia, aterrada pela terrivel insurreição proletaria de junho de 1848, implorava um salvador, apresentou-se como o campeão da ordem, da familia, da religião, da propriedade. Uma vez presidente, continuou a obra de Cavaignac e dos republicanos burgueses; assassinou e deportou os socialistas. Todo o seu reinado foi uma longa tactica: para refrear as aspirações liberais da burguesia, ameaçava-a com o proletariado: esmagava este com o exercito para se proclamar depois o protector da burguesia. Em todas as grandes grèves do império apparece a mão dos altos funccionarios. A greve da Creuzot foi em parte obra de Rouher. Logo na origem da Internacional, Bonaparte, compreendendo o alcance futuro d’esta associação, quis apoderar-se da sua direção. Rouher fez muitas tentativas com esse fim.

É isto o que os homens da ordem chamam Socialismo Cesareano. Digam-nos pois, que fizeram pelo povo os Cesares de Roma, e os Bonapartes de França? O papel que representou Bonaparte já fòra representado pelos reis feudais. Estes protegiam e animavam o movimento das comunas; muitas vezes excitavam até a luta à mão armada entre os senhores e os municipes, e aproveitavam-na para alargar a sua supremacia.

Em Inglaterra a luta das classes assume uma fórma diferente. Ha ali tres classes poderosamente constituidas: a aristocracia, proprietária do solo; a burguesia, tendo nas mãos a industria e o comércio; e o proletariado fortemente organizado nas trade's unions. A burguesia e a aristocracia, como classes proprietárias estão sempre unidas para combaterem as aspirações emancipadoras do proletariado; como classes distinctas, com interesses diversos, estão em perpetua luta, e chamam alternativamente em seu auxilio a classe proletaria.

A aristocracia, possuidora das terras, tinha o monopolio do comércio dos trigos, protegido por impostos exorbitantes sobre a importação. A burguesia pelo contrario, era livre cambista; para dar saída aos seus produtos precisava sempre de novos mercados; para os vender sem rivalidade carecia de reduzir ao minimo as despezas de produção, por conseguinte abaixar o preço da mão d’obra; para abaixar o salario é necessario diminuir o preço dos objetos necessarios á vida do operario; é indispensável dar-lhe o pão barato.

Tornava-se pois urgente tirar á aristocracia o monopolio do comércio de trigos. O ex-ministro Bright, um dos mais ardentes campeões d’esta luta economica, que teve também fases ensanguentadas, foi tão violento que poderia ser tomado por um agitador proletario. Amotinou o povo contra a nobreza. Foi então que a camara dos lords apresentou o bill que reduzia a dez horas o trabalho nas fabricas. Era terrivel o golpe: os Bright, os Cobden, que se proclamavam amigos do povo, levantaram se na camara dos commons para combater a lei das dez horas que, diziam elles, ia arruinar a industria inglesa.

Disraeli, o chefe atual do partido aristocratico, escreveu socialismo na sua mocidade. O seu romance, As duas raças, é uma pintura das lutas do proletariado e da burguesia, que verte sangue. Foi ele que ainda ultimamente quis estabelecer uma alliança entre o proletario e a nobreza.

A historia dos Estados Unidos da America oferece exemplos similhantes. O ultimo vice presidente Wade fez uma profissão de fé comunista. O general Butler, Thadeus, Stevens e outros membros eminentes do partido republicano, impellirarn o povo na senda revolucionária com a idéia de lhe servir de arma contra os obstáculos que se opposessem á sua politica.

Para ter o que os tartufos da burguesia chamam Socialismo Cesareano, não é preciso um Cesar. É uma das fatalidades da luta de classes.

Quando a luta se torna por tal forma intensa, que a burguesia sente em perigo os seus privilégios, recorre a um salvador; consente que o galope do cavalo de um soldado lhe salpique de lama as faces, com a condição que esse soldado sangre com a sua espada o proletariado; quando o ditador não cumpre a sua missão de carrasco, a burguesia acusa o proletariado de amar o despotismo, havendo sido ela que reclamou um braço forte para proteger os seus privilégios. Tal é a historia.

- Paul Lafargue

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Catecismo do Trabalhador

 


        PERGUNTA — Qual é o teu nome?

RESPOSTA — Assalariado.

P. — Quem são os teus pais?

R. — Meu pai era assalariado, o mesmo que o meu avô; porém os pais dos meus pais foram servos e escravos. Minha mãe chama-se Pobreza.

P. — Donde vens e onde vais?

R. — Venho da pobreza e vou à miséria, passando pelo hospital, onde o meu corpo servirá de campo de experiência para os novos medicamentos e de estudo para os doutores que curam os privilegiados do Capital.

P. — Onde nasceste?

R. — Numa mísera água furtada duma casa que meu pai e seus companheiros de trabalho tinham construído.

P. — Qual a tua religião?

R. — A religião do Capital.

P. — Que deveres te impõe a religião do Capital?

R. — Dois principalmente: o dever de renunciar a tudo e o dever do trabalho. A minha religião obriga-me a renunciar aos meus direitos de propriedade da terra, nossa mãe comum; à riqueza das suas entranhas, à fertilidade do seu solo, à sua misteriosa fecundação pelo calor e pela luz solar. Ela ordena-me que renuncie aos meus direitos de propriedade sobre a minha própria pessoa: desde o momento em que entrei as portas da oficina, já não me pertenço, deixo de ser homem e converto-me em coisa, em instrumento de meus amos. A minha religião ordena-me que trabalhe desde a infância até à morte; à luz do sol e à luz do gás; durante o dia e durante a noite; sobre a terra, debaixo da terra, e no mar; sempre e em todas as partes.

P. — Impõe-te ela alguns outros deveres?

R. — Sim; o de prolongar a quaresma durante todo o ano; viver de privações, comendo sempre insuficientemente, restringir todas as necessidades da minha carne e reprimir todas as aspirações do meu espírito.

P. — Proíbe-te certos alimentos?

R. — Sim; veda-me tocar no javali, nas aves, nas carnes de primeira, segunda e terceira classe; provar o salmão, a lagosta e os peixes de carnes delicadas, beber os vinhos naturais, a boa aguardente e o leite puro que sai da vaca.

P. — Que alimentos te permite?

R. — O pão, as batatas, as favas, o bacalhau, os carapaus salgados e os desperdícios dos talhos. Para que possa recompor rapidamente as minhas forças permite-me beber vinho falsificado e aguardente de batata ou de beterraba.

P. — Que deveres te impõe para contigo mesmo?

R. — Reduzir as minhas despesas, viver na pobreza e na miséria, trazer os fatos rotos e remendados, usá-los até que caiam aos pedaços, e andar descalço ou com os sapatos tão rotos que lhe entre pelos buracos a água suja e glacial das ruas.

P. — Que deveres te impõe para com a tua família?

R. — Impedir à minha mulher e aos meus filhos todo o alinho, todo o adorno e toda a gala; vesti-los com fatos ordinários para não ofender o pudor das "pessoas decentes"; ensiná-los a não tiritarem no inverno e a não sufocarem no verão; inculcar a meus filhos, desde pequenos, os sagrados princípios do trabalho, a fim de que, desde a mais tenra idade, possam ganhar a subsistência sem estarem a cargo da sociedade; ensiná-los a que se deitem sem ceia e sem luz, e a- costumá-los à miséria que é o seu destino na vida.

P. — Que deveres te impõe para com a sociedade?

R. — Acrescentar a fortuna social por meio do meu trabalho e das minhas economias.

P. — Que te ordena fazer das tuas economias?

R. — Depositá-las nas caixas económicas do Estado ou confiá-las às sociedades fundadas pelos filantropos da Bolsa, para eles as emprestarem a nossos amos e senhores.

P. — Permite-te dispor das tuas economias?

R. — O menos possível. Recomenda-nos que não insistamos quando o Estado se nega a devolvê-las, e ordena-nos a resignação para quando os filantropos da Bolsa nos anunciam a dissipação e a perda das nossas economias.

P. — Tens direitos políticos?

R. — O Capital concede-me a inocente distração de eleger os legisladores que fazem as leis com que nos castigam; porém proíbe-nos terminantemente que nos ocupemos de política, e que escutemos os propagandistas do Socialismo.

P. — Porquê?

R. — Porque a política é privilégio exclusivo dos ricos e porque os socialistas são uns pífios que nos roubam e enganam, dizendo-nos que o homem que não trabalha não tem direito a comer; que tudo pertence aos assalariados, porque são eles que tudo produzem; que o rico, o senhor, é um parasita o qual é necessário exterminar. A santa religião do Capital ensina — nos, pelo contrário, que o abuso dos ricos cria o trabalho que nos dá de comer; que os endinheirados mantêm os pobres, e que, se não houvesse ricos os pobres pereceriam.

P. — Qual é o teu deus?

R. — O Capital.

P. — É eterno?

R. — Nossos mais sábios sacerdotes, os economistas, dizem-nos que existiu desde o princípio do mundo; porém como então era muito pequeno, Júpiter, Jeová, Jesus e demais falsos deuses têm reinado em seu lugar e em seu nome porém, desde o ano de 1500, pouco mais ou menos, o seu culto foi-se tomando universal, não cessando de engrandecer-se e de crescer em força e poderio: hoje domina o mundo.

P. — É o teu deus todo poderoso?

R. — Sim. Sua posse proporciona todos os gozos da terra. Quando afasta o seu rosto duma família ou duma nação, uma e outra somem-se na miséria e na dor. O poder do deus- Capital aumenta à medida que a sua riqueza cresce; todos ,os dias conquista novos países'-; todos os dias faz engrossar o rebanho dos assalariados, os quais, com o seu constante trabalho, acrescentam o seu poderio.

P. — Quais são os eleitos do deus-Capital?

R. — Os patrões, os capitalistas e os accionistas.

P. — Como é que o Capital, teu deus, recompensa as tuas fadigas?

R. — Esmagando-me, tanto a mim como a minha esposa e filhos com o pesado jugo do trabalho.

P. — E essa a tua única recompensa?

R. — Não. Deus autorisa-nos a satisfazer a nossa fome saboreando com a vista as apetitosas amostras de carnes e provisões, que jamais provamos nem provaremos, e com as quais se alimentam os eleitos e os benditos sacerdotes. A sua bondade permite-nos aquecer os nossos membros, paralisados pelo frio, olhando para os casacos de peles e de lãs com que se cobrem esses mesmos eleitos e sacerdotes benditos, concedendo-nos além disso o delicado prazer de alegrar o nosso olhar com o belo espectáculo que apresenta o desfilar dos automóveis pelas avenidas e praças públicas, ocupadas pela tribo santa dos capitalistas, luxuosos, pançudos, lustrosos, rodeados duma tribo de engravatados serventes. Então, orgulhamo-nos ao pensar que, embora os eleitos gozem destas maravilhas, de que nos vemos privados, elas são obra das nossas mãos e das nossas inteligências.

P. — São os eleitos doutra raça diferente da tua?

R. — Os capitalistas estão formados do mesmo barro que os assalariados; porém foram escolhidos entre milhares e milhões»

P. — Que fizeram eles para merecer esse privilégio?

R. — Nada. Deus prova o seu infinito poder e sabedoria, colocando os seus favores sobre aqueles que nada fizeram para os merecer.

P. — É injusto o Capital?

R. — O Capital é a própria justiça; porém a sua justiça transpõe os limites do nosso débil entendimento. Se o Capital se visse obrigado a conceder os seus favores aos que os merecessem, não seria livre, a sua potência estaria limitada. O Capital não pode afirmar o seu poder senão tomando os seus eleitos, os patrões e os capitalistas, do montão dos incapazes., folgazões e rufiões.

P. — Como te castiga o teu deus?

R. — Condena-me a que não encontre trabalho; então estou excomungado; proíbe-me a carne, o vinho e o lume e mata-me de fome, assim como a minha mulher e a meus filhos.

p._ — Quais são as faltas que deves cometer para merecer a falta de trabalho?

R. — Nenhuma; o Capital decreta a seu prazer a paralisação do trabalho, sem que a nossa débil inteligência possa compreender a razão.

P. — Quais são as tuas preces?

R. — Eu não rezo por palavras: o trabalho é a minha oração.

P. — Onde rezas?

P. — Em toda a parte: no mar, sobre a terra e debaixo da terra, nos campos, nas minas, nas oficinas e nas lojas. Para que a nossa oração seja atendida e recompensada, devemos-pôr aos pés do capital a nossa vontade, liberdade e dignidade. Devemos acudir ao toque da sineta e ao silvo da máquina; e, uma vez orando, devemos, como os autómatos, mover braços e pernas, pés e mãos, soprar e suar, estender nossos músculos e esgotar nossos nervos. Devemos ser humildes de espírito e admitir docilmente os impropérios e injúrias do patrão e dos mestres, porque eles têm sempre razão embora nos pareça o contrário. Devemos dar graças ao amo quando nos rebaixar o salário e prolongar as horas de trabalho, pois tudo quanto ele faz é justo e para nosso bem. Devemos considerar-nos honrados quando o patrão ou os mestres acariciarem nossas mulheres e filhas, pois o nosso deus, o Capital, outorga-lhes o direito de vida e morte sobre nós. Antes de deixar escapar uma queixa dos nossos lábios, antes de permitir à cólera inflamar o nosso sangue antes de nos declararmos em greve, de nos sublevarmos, devemos suportar todos os sofrimentos, comer pão fabricado com gesso e beber água coberta de lodo, pois para castigar a nossa insolência o Capital arma o proprietário de canhões e sabres, de prisões e guilhotinas

P. — Recebereis alguma recompensa depois da morte?

R. — Sim, uma muito grande. Depois da morte, o Capital deixar-me-à descansar. Não sofrerei frio, nem calor, nem sede, nem fome; não terei motivos para me inquietar. Gozarei do repouso eterno da sepultura.

Os Ladrões

A MULTIDÃO. — Ladrão! ladrão!

SOCIALISTA. — Porque correis até perder o alento?

OPERÁRIO. — Para agarrar o ladrão!

S. — O que te roubou?

O. — A mim, nada.

S. — O que roubou?

O. — Não o sei de certeza; diz-se porém que roubou o cofre dum patrão.

S. — De tal maneira te indigna tanto o haver quem prejudique a propriedade, que chegas ao extremo de correr atrás de um ladrão, sem saber o que ele roubou. Mas diz-me então: porque não deténs o teu patrão?

O. — Porque nada me rouba!

S. — Acabas de cair da lua, meu amigo. Os grandes ladrões, os que roubam todos os dias, são os patrões e os capitalistas.

O. — Queres-me iludir, sem dúvida?

S. — Desgraçado! Os burgueses têm-te cerrado os olhos com a sua justiça, os seus direitos do homem e mais subterfúgios, para que não possas ver que vivem do roubo e que as suas fortunas não são mais do que acumulações de latrocínios. Se tens o bom costume de pensar com o cérebro, compreenderás sem grande dificuldade que o que digo é tão certo como dois e dois serem quatro.

O. — Não vejo as afirmações que fazes com a claridade que tu supões.

S. — Queres que te faça confessar que os patrões e os capitalistas são uns ladrões?

O. — Já se vê que sim! Não estimo os patrões e estou aborrecido de os ouvir difamar os socialistas, porque estes defendem a nossa causa.


S. — Ensinaram-te que a propriedade é o fruto do trabalho, e tu acreditaste-o?

O. — Sim.

S. — Logo, tu deves ser proprietário, porque há mais de quarenta anos que trabalhas. O que é que possuis?

O. — Absolutamente nada. As poucas economias que tinha, dispendi-as no tratamento de minha mulher, por ocasião dos últimos partos.

S. — E decerto que faltou muito pouco para que a tua companheira morresse, por ter estado a tecer mesmo até ao dia do parto. Os burgueses têm razão em dizer que a propriedade é o fruto do trabalho, porém guardam-se muito de acrescentar que, na nossa sociedade é a recompensa da ociosidade.

O. — Nunca pude compreender como nós, operários, não dispomos de um real, enquanto que os patrões e os que denominas capitalistas, que não trabalham, dispõem de milhões„

S„ — E não te fizeram crer que essa desigualdade era um mistério ainda maior do que o da Santa Virgem que teve um menino Jesus com o auxilio duma pomba, e depois de o ter dado à luz ficou tão virgem como no dia do seu nascimento. Não há tais mistérios; o que há são mentiras e ruindades. E senão, como procede o teu patrão, que não é pior nem melhor que os demais burgueses, para enriquecer sem trabalhar?

O. — Ora, como procede! Diz-se patriota e estabeleceu as fiações e tecidos na Polónia para poder competir vantajosamente com os produtos franceses que se exportam para a Rússia.

S. — Admites, sem dúvida, que não é por amor aos operários poloneses que ele lhes dá o seu trabalho?

O. — Tampouco é por carinho para connosco, seus compatriotas, pois nos obriga a trabalhar durante onze ou doze horas, todos dias, nas suas oficinas que parecem masmorras, e onde muitos companheiros têm perdido os seus membros e a sua vida.

S. — Então, porque motivo procede assim?

O. — Porque todo o seu interesse consiste em nos fazer trabalhar.

S. — E como é isso?

O. — Eu não o sei; porém o facto é assim e nada nem ninguém me convencerá do contrário.


S. — Se o não sabes, é porque não queres reflectir um pouco. Tu és tecelão; suponhamos que num dia de trabalho produzes 30 metros de tela de algodão, que o teu patrão vende por 150 escudos. Ele gasta em fio e algodão, 50 escudos; em gás, força motriz deterioração das máquinas e gastos gerais, 20 escudos, e dá-te de jorna 30 escudos; total 100 escudos. Fica, portanto, um lucro de 50 escudos. A quem julgas que deve pertencer, a ti ou ao patrão?

O. — A mim, com os diabos que sou quem fabrica a tela, e não ao meu patrão, que se entretém enquanto eu trabalho, a difamar os socialistas, ao mesmo tempo que bebe champagne para digerir as ostras e as trufas com que se regala!

S. — Já vês que, neste caso, o teu patrão te rouba 50 escudos.

O. — Bem o vejo! E como se mos tirasse da algibeira.

S. — De maneira que tu crês, como os socialistas que se o teu patrão faz trabalhar o operário não é para que ele ganhe a vida, mas sim para lhe roubar o fruto do seu trabalho. Quantos mais operários o burguês emprega na sua fábrica, mais rouba. Por isso ele a desenvolve cada vez mais e vai construindo outras no estrangeiro.

O. — Compreendo perfeitamente o roubo do patrão; mas o capitalista, que carece de oficinas e de fábricas, que processos emprega para roubar?

S. — O patrão não guarda para ele só os roubos que faz aos seus operários; não tem outro remédio senão ceder várias partes por aluguer aos proprietários do imóvel, por interesses aos capitalistas e banqueiros que lhe adiantara os fundos e lhes negoceiam as suas letras de cambio e suas firmas, por impostos ao Estado, que se empregam em pagar os interesses aos portadores da divida pública. Todo esse mundo, alegre e satisfeito, formado por proprietários, capitalistas, banqueiros e accionistas se entende, como os ladrões, para repartir com os patrões industriais e agrícolas os roubos que continuamente praticam com os trabalhadores assalariados da cidade e do campo.

O. — O que me estás a explicar recorda-me a história de uma quadrilha de bandidos que li há anos num livro velho e quase desprezado. Quando estes bandidos assaltavam um viajante distribuíam o produto por todos de forma que ninguém ficasse sem a sua parte; embora não tivesse contribuído para dar o golpe, o capitão recebia três partes e o seu lugar-tenente duas. Entre eles tudo estava regulamentado. Porém ocorre-me uma coisa: se os patrões, os capitalistas e o Estado formam tuna quadrilha de bandidos que roubam o operário, para que serve a justiça?

S. — Para nada que convenha aos trabalhadores. Tu nunca viste que os tribunais tenham condenado os patrões, os capitalistas ou o Estado, a restituir aos operários o que lhes tem roubado, porém, em troca, conhecerás muitos grevistas que tenham sido condenados a prisão por reclamarem aumento de salário.

O. — Eu mesmo estive dois meses preso, por causa da greve que tivemos há 5 anos. Resulta, pois, que a justiça não serve senão aos patrões e capitalistas.

S. — A justiça é a guarda das riquezas que roubam aos trabalhadores. Como na quadrilha de bandidos de que tu falas, nesta sociedade de ladrões tudo está legalizado. Os tribunais constituiram-se para impedir que os miseráveis roubem aos burgueses e que estes se roubem entre si. A isto se deve a criação de inspectores de produtos alimentícios, para evitar que os patrões se envenenem uns aos outros com as suas criminosas falsificações.

O. — De forma que a indignação moral provocada pela ladroeira dos 10 mil contos de Madame Humbert, não era mais do que ruído. Se essa senhora, em vez de roubar os capitalistas, tivesse arrebatado o fruto do seu trabalho aos camponeses e aos operários tê-la-iam deixado comer em paz uns milhões que se considerariam honradamente adquiridos.

S. — Então, tê-la-iam enaltecido, proclamando-a santa e benfeitora da humanidade. O teu patrão tê-la-ia apontado como exemplo de virtudes capitalistas, porque ele apenas tem podido roubar uns trinta milhões de trabalhadores da França e da Polónia. Os burgueses indignam-se ruidosamente contra os ladrões que os roubam, fazendo ver aos incautos que eles detestam o latrocínio e aquilo que possuem é fruto do seu trabalho.

O. — Fazem como o ladrão que se coloca à frente dos que gritam, dizendo em altos berros : "Ao ladrão! ao ladrão!" para fazer perder a pista aos que o perseguem.

S. — Chegará um dia em que os trabalhadores estarão dispostos a correr atrás do- capitalista que os rouba, como agora correm para agarrar o ladrão que rouba o burguês.

O Que Custam os Capitalistas aos Operários

O. — Admito contigo que o patrão da grande indústria, que se faz substituir na direcção por operários, pode ser suprimido sem inconveniente e até com vantagem.

S. — Observa, peço-te eu, que é o próprio patrão que se suprime e se torna desnecessário na produção. Agora não falta mais que suprimi-lo na divisão dos bens, dos quais ele leva a melhor parte.

O. — Estou de acordo, porém não vejo o que nós ganharemos com isso. O patrão far-nos-a trabalhar sempre para viver.

S. — E que não haverá capitalistas que possam viver sem trabalhar. Façamos a conta do que custam. Tu és mineiro, diz-me: é o mesmo queimar o carvão no forno da caldeira de vapor que no fogão da cozinha ao ar livre?

O. — Ah! não! Na caldeira, a combustão do carvão produz a força motriz que põe em movimento toda a oficina. No fogão, pela sua parte, não serve senão para nos corromper com o fumo que produz.

S. — Tu saberás que nós somos como máquinas e que o pão e os alimentos são o nosso carvão; o que come o produtor dá-lhe forças para o trabalho, reproduz o valor do consumido e alguma coisa mais que lhe rouba o patrão; porém como o capitalista não trabalha, o que consome perde-se como o carvão aceso ao ar livre.

O. — Tens razão; os capitalistas são bocas inúteis que os operários são obrigados a sustentar; porém se o que eles comem se unisse ao nosso alimento habitual, este não aumentaria muito.

S. — Entendo o que dizes; que para cada capitalista há centenas e milhares de associados e a sua parte repartida entre tantos, seria pequena» é certo. Encaremos a questão debaixo doutro aspecto: Não te dizem repetidas vezes que a preguiça é a mãe de todos os vícios?

O. — Raios do diabo! Essa é uma frase que não tem deixado de repercutir os meus ouvidos desde que uso calções: na Escola, no Catecismo, na oficina, em toda a parte, enfim; e o mais curioso dessa moral é que os patrões e os padres, que são os que mais a apregoam, são também os que mais enganam e os que pior procedem.

S. — Tens razão. São assim os que divulgam essa moral, e senão vê como a conduta dos capitalistas no-lo demonstra. As matérias que consomem não são empregadas em nenhum trabalho útil; só servem para desenvolver entre eles vícios que os operários desconhecem e que envenenam a sociedade do mesmo modo que o carvão que se queima inutilmente empesta a atmosfera.

O. — A preguiça é para os capitalistas um adorno! Eles e suas mulheres, filhos e filhas, enganam-nos duma maneira que nem se pode fazer uma ideia. Não querem fazer nada, nem a sã próprios são capazes de se servir. Têm necessidade de um exército de serviçais para engraxar o seu calçado escovar-lhes os fatos, varrer as habitações e preparar-lhes as refeições; e asseguraram — me que as damas têm donzelas que as penteiam, lhes apertam o espartilho e calçam as meias, as metem no banho e as enxugam depois.

S. — Quem alimenta os serviçais, que não trabalham senão para servir os capitalistas?

O. — Os seus amos, com certeza!

S, — Porém, quem é que produz o dinheiro que eles dispendem na manutenção e salário dos serviçais?

O. — Não são seguramente os capitalistas, que temem o trabalho mais que o fogo.

S. — Os trabalhadores são, portanto, os que produzem o dinheiro que os capitalistas gastam com os seus serviçais, lacaios e cocheiros, com os cavalos e cães que são os seus domésticos de quatro patas; numa palavra, a conta de numerosos servos da classe capitalista, corre a cargo da classe assalariada.

O. — Diabo! Como o mundo está mal feito!

S. — Não é isso somente. Ao capitalista fica-lhe muito tempo livre, em que não se aborrece nem tem de pensar que é explorado, para enriquecer outros, o que acontece aos assalariados, mas ocupa-se a procurar todos os prazeres possíveis e imagina- veis. Para se divertir, o capitalista necessita de cortesãs, cantoras e bailarinas de Óperas literatos, pintores e músicos; todo um exército de mulheres e homens, que passa a vida trabalhando, para o distrair; e toda essa gente tem ao seu serviço grande número de criados, para ela se poder consagrar dia e noite a procurar prazeres para o capitalista. São também os assalariados que mantém todas essas bocas inúteis.

O. — Estou de acordo em que os criados o sejam, porém os artistas e escritores são úteis.

S. — Para quem? Não para ti nem para teus companheiros de certeza; vós não tendes tempo para ler os seus livrecos, nem dinheiro para ouvir os seus trinados nem admirar as suas cabriolas, o que não impede que sejais vós os que satisfazeis as suas necessidades. Tudo o que o capitalista emprega em manter aqueles que lhes subministram distracções materiais e intelectuais é gasto que se desperdiça de igual forma ao que ele consome.

O. — Já vejo onde vais parar. Os indivíduos que servem e entreteem os capitalistas, de qualquer forma que eles se chamem, ou sejam tenores de ópera, ou cronistas de Fígaro, são seus domésticos pessoais, e portanto bocas inúteis, visto que não prestam nenhum serviço aos operários, que são os que realmente os mantêm. O capitalista é um parasita, à custa do qual vivem outros parasitas.

S. — O raciocínio é simples como um dia bom. Porém, há outros parasitas além dos citados. Os prazeres dos ricos formam um elemento muito favorável para o culto do parasitismo. Imagina, pois, a florescente população parasitária de prostitutas, chulos, rufiões e escroques que a libertinagem dos ricos cria nas grandes capitais da civilização; esses parasitas convertem-se por sua vez em degenerados, chegando a atentar contra a pessoa e propriedade dos capitalistas. Para se livrarem desses atentados, empregam a policia, os magistrados e os carcereiros, os quais constituem uma nova espécie parasitária.

O. — Começo a ver as coisas!

S. — Escuta-me um pouco mais, que vou terminar: os milhões que custa o exército a que chamam nacional, porque proporciona os vigilantes e guardas da ordem capitalista, donde se tiram?

O. — Dos impostos.

S. — Quem paga os impostos?

O. — Todo o mundo; os capitalistas e os operários.

S. — Porém, como os capitalistas não possuem um único real que não tenha sido produzido pelos assalariados, resulta que o sustentamento de todos esses instrumentos de opressão, que utiliza unicamente a classe dominante, são pagos pelos trabalhadores. Continuemos. Tu admites que tudo quanto o capitalista consome se inutiliza?

O. — Sim, como o carvão queimado ao ar livre.

S. — Pela mesma razão, é inútil o trabalho que se emprega em edificar os seus palácios e casas de campo,, em construir os seus automóveis e barcos de recreio, em tecer os seus fatos, etc.

O. — E com muito mais motivo o trabalho que se gasta em fabricar objectos de luxo; e é o cúmulo da exploração o que sucede nestas indústrias; os operários que a elas se dedicam figuram entre os mais mal pagos. Eu nasci num povo onde o fabrico das rendas constituía uma indústria; e, no entanto, conheci muitas dessas desgraçadas que não tinham ganho em sua vida mais do que o indispensável para se alimentarem com pão duro, e sem embargo, tinham perdido a vista fazendo rendas, tão inúteis e difíceis como as de Aleçon e de Malinas, para que se engalanassem as grandes senhoras.

S. — Quanto mais se enriquecem os capitalistas, mais se multiplicam os operários de luxo. A classe capitalista retira da produção útil um número considerável de mulheres e de homens para que a sirva, a entretenha, defenda a sua propriedade, prolongue a sua dominação, produza o que eles consomem e inutiliza num luxo imbecil e criminoso.

O. — Compreendo-te: ao serviço privado e social de cada capitalista há uma centena de trabalhadores, um milhar, ou talvez mais ainda; suprimindo a classe capitalista, restituir-se-ia à produção esse colossal exército de trabalhadores improdutivos; quer dizer, dum golpe poderia reduzir-se a nossa jornada de trabalho a uma metade.

Para que Servem os Patrões?

O. — Porém se não houvesse patrões, quem me daria trabalho?

S. — Com frequência, alguns companheiros me apresentam essa questão. Queres que a examinemos? Para trabalhar, necessitamos uma fábrica, máquinas e matéria prima.

O. — Perfeitamente.

S. — Quem construiu a fábrica?

O. — Os pedreiros.

S. — Quem construiu as máquinas?

O. — Os mecânicos.

S. — Quem semeou o algodão que tu teces, quem cuidou da lã que tua mulher fia, quem extraiu o mineral de ferro que forja teu filho?

O. — Os cultivadores, os pastores, os mineiros, os operários como eu.

S. — Por conseguinte, tu, tua mulher e teu filho só podeis trabalhar porque estes diferentes operários vos forneceram fábrica, máquinas e matéria prima.

O. — Justo; eu não posso tecer sem algodão e sem tear.

S. — Logo, não é o patrão que te dá trabalho, mas sim o pedreiro, o mecânico, o cultivador. Tu sabes como o teu patrão pôde obter tudo o que tu necessitas para trabalhar?

O. — Comprou-o.

S.— Quem lhe deu dinheiro?

O. — Eu não o sei, seu pai ter-lhe-à deixado alguma coisa; ele acha-se agora milionário.

S. — Ganhou ele o seu milhão fazendo girar as suas máquinas e tecendo o seu algodão?

O. — Nada disso. Foi fazendo-nos trabalhar a nós.

S. — Enriqueceu, pois na ociosidade; é a única maneira de fazer fortuna; os que trabalham ganham só o preciso para viver» Porém, diz-me, se tu e os teus companheiros de oficina não trabalhassem, não se oxidariam as máquinas do patrão e não se estragaria o algodão?

O. — Tudo se arruinaria na fábrica se não trabalhássemos nela.

S. — Por conseguinte, trabalhando conservas as máquinas e a matéria prima que te são necessárias para trabalhar.

O. — É verdade, e nunca tinha pensado em tal.

S. — Teu patrão ocupa-de do que se passa na fábrica?

O. — Não muito: todos os dias dá a sua voltazinha para nos ver trabalhar, porém guarda as mãos nas algibeiras para as não sujar. Na fábrica de fios, onde trabalham minha mulher e minha filha, nunca se vêm os patrões, apesar deles serem quatro; porém o facto ainda mais ressalta na oficina de metalurgia de meu filho: ali nunca se vêm nem se conhecem os patrões, nem há meio de ver sequer a sua sombra; é uma sociedade anónima o patrão: por exemplo, se tu e eu tivessemos quinhentos escudos no bolso, poderíamos comprar uma acção e convertermo-nos em patrões, sem nunca ter posto os pés na oficina e sem necessidade de os pôr jamais.

S. — Quem, pois, vigia e dirige o trabalho nessa oficina de patrões accionistas, nessa fábrica de fiação de quatro patrões associados e na tua mesma fábrica com um só, se não aparecem por ali ou se vão e não fazem nada?

O. — Os directores e os contramestres.

S. — Porém se são os operários os que edificaram a fábrica, os que construiram as máquinas e produziram a matéria prima;se são os operários os que trabalham com as máquinas, e os directores e os contramestres que regulamentam o trabalho, o que faz o patrão?

O. — Nada.

S. — E se houvesse um caminho de ferro daqui à Lua, poderiam enviar-se para ali, sem bilhete de volta, todos os patrões, sem que a oficina metalúrgica de teu filho, a fábrica de fiação de tua mulher e a de tecidos onde trabalhas deixassem de forjar, fiar ou tecer, como à sua partida. Sabes quanto ganhou o teu patrão o ano passado?

O. — Calculamos que tenha ganho dez mil contos.

S. — Quantos operários emprega, entre homens mulheres e crianças?

O. — Um milhar.

S. — Que salários vos dá?

O. — Uns por outros, cerca de dez contos ao ano, contando com os ordenados dos directores e dos contramestres.

S. — De modo que os mil trabalhadores da fábrica receberam dez mil contos de salários, o preciso para não morrerem de fome, enquanto que o teu patrão embolsou dez mil contos por não ter feito nada. De onde veem estes vinte mil contos?

O. — Do céu não é seguramente pois eu nunca vi chover dinheiro.

S. — São pois os operários da fábrica que produziram os dez mil contos que receberam de salários, e além disso os dez mil contos de benefícios para o patrão, o qual empregou uma parte deles em comprar novas máquinas.

O. — É incontestável.

S. — Visto isso, são os operários que produzem o dinheiro que o patrão consagra a comprar máquinas para a produção! são os directores e contramestres, quer dizer os assalaria — dos como tu, os que dirigem esta; pois então, para que serve o patrão?

O. — Para explorar o trabalho.

S. — Diz melhor para explorar o trabalhador; é mais claro e mais exacto.

Liberdade Patronal e Escravidão Operária

— Companheiro de trabalho, assegura-se-nos que desde a Revolução de 89 e a Declaração dos Direitos do Homem todos somos livres. Tu és livre?

— Eu? Creio que sim!

— Vejamos se é verdade; Quem te concede o direito de trabalhar?

— O patrão.

— Quem fixa a tua jornada de trabalho?

— O patrão.

— Quem fixa o teu salário?

— O patrão.

— Quem vende o produto do teu trabalho e guarda os lucros?

— O patrão.

— Quem te concede ou te tira um dia de descanso?

— O patrão.

— Então, não ter nenhum direito sobre o produto do teu trabalho, sofrer de manhã à noite a lei do patrão, não poder trabalhar, quer dizer, não poder comer, tu tua mulher e os teus filhos, sem licença do patrão, chamas a isso ser livre? Que grande liberdade te "fabricaram” a Revolução de 89 e os Direitos do Homem! Continuemos: quem tem a liberdade de enriquecer, fazendo trabalhar o operário, a sua mulher e filhos?

— O patrão.

— Quem tem a liberdade de impor ao operário, a sua mulher e a seus filhos, o género de trabalho que lhe produza a maior quantidade de benefícios?

— O patrão.

— Quem tem a liberdade de pôr na rua o operário quando não necessita dele?

— O patrão.

— Quem tem a liberdade de deixar morrer de fome nas ruas os operários velhos que durante a sua juventude e virilidade o enriqueceram?

— O patrão.

— Quem tem liberdade de fazer sentir a fome aos operários que pela greve reclamam um pouco mais de jorna e um pouco menos de trabalho?

— O patrão.

— Quem tem a liberdade de se servir dos polícias, dos soldados, dos juízes, para refrear as iras grevistas que ele expulsou das suas oficinas?

— O patrão.

— Pois, camarada a Revolução de 89 e os Direitos do Homem deram todas as liberdades ao patrão e a escravidão ao operário.



A Oficina Pior do que a Prisão

MINEIRO — Acaba de dar-se a liberdade a Gabriella Bompard depois de dezassete anos de prisão. É coisa dura estar encerrada todo o dia durante tantos anos.

SOCIALISTA — É horrível, com efeito. Porém a tua existência é acaso mais agradável?

M. — Isso é *chalaça...

S. — A que horas te levantas?

M. — Ao amanhecer, muito antes de sair o sol, e este tem — se posto já quando saio da mina.

S. — Então passas a jornada debaixo da terra como uma toupeira, pois não vês o sol?

M. — Vejo-o, sim, aos domingos e dias de festa; porém nesses dias não há pão em casa, e por um bocado dele renunciaria ao sol e voltaria a entrar debaixo da terra.

S. — O prisioneiro não tem necessidade de renunciar ao sol para ter pão; todos os dias lho põem na mesa, quer trabalhe ou não. Sabes tu que a sua jornada é mais curta do que a tua? Ele levanta-se mais tarde e deita-se mais cedo; não teme explosões de grisu, nem as engrenagens e as correias das máquinas, como os teus companheiros da mina e da oficina. É o único que te atormenta o ter de pagar ao padeiro?

M. — Qual! Estão também o senhorio, e.. .

S. — O prisioneiro tem a casa grátis e está mais seguro do que tu e a tua família. Não é preciso ter preocupações, porque o Estado toma conta de tudo a seu cargo: habitação, alimentos, vestidos, lavagem, aquecimento.... Quantas economias tens?

M. — Quererás dizer dividas? Nós devemos a semana ao padeiro e ao tendeiro, antes de haver recebido a féria. Quando eu me casei tinha ainda umas pequenas economias; depois vieram os filhos e não me ficou nem um tostão. Há dezoito anos que trabalho na mina; os meus dois filhos mais velhos trabalham também, e sem embargo, hão temos economias de espécie alguma. Se eu amanhã caísse enfermo teríamos de estender a mão. Aconselham-nos a economia, porém, sangue de cristo! donde querem que eu economize, quando apenas temos o pão que necessitamos?

S. — Gabriella Bompard economizou 1.250 escudos, que lhe entregaram à saída do cárcere.

M. — Pois então está — se melhor no cárcere que na oficina!

S. — É como dizes.

M. — Porém, como pode ser uma coisa assim?

S. — A vida dos presos é dura, encerram — nos como bestas ferozes; porém a do operário é pior. O governo encerra os criminosos para proteger e assegurar os burgueses, porém não pensa em realizar benefícios mediante o seu trabalho; não tem, pois, interesse em os tornar duplamente mais desgraçados do que são. Porém o patrão já é outra coisa: tem grande interesse em nos fazer sofrer a miséria o mais possível; cada hora que acrescenta à nossa jornada e cada real que escamoteia ao nosso salário, convertem-se em dinheiro que ele embolsa largamente. E quanto mais miseráveis nos encontramos, mais barato temos de vender o nosso trabalho! A miséria dos trabalhadores faz a riqueza dos capitalistas!

Dinheiro

Nasci — logo a meus pais custou dinheiro
o baptismo que Deus nos dá de graça.
Fui crescendo — e lá estava o mealheiro
na Igreja onde eu ia pedir graças.

Quis casar com uma moça — mais dinheiro
Brinquei com ela — não brinquei de graça,
que aos nove meses me custou a graça
casamento na Igreja — mais dinheiro

Morreu minha mulher — não lhe achei graça.
E menos graça ao raio do dinheiro
p’ro enterro que o prior não vai de graça,
e pede mais dinheiro que o coveiro.

Se ser cristão requer sempre dinheiro
porque dizem que as graças são de graça,
os que as graças nos vendem por dinheiro?

E de tanto latim me terem dito
língua que caro me tem custado,
não estranhem que eu esteja tão magrito,
e, quem vende esse latim, tão anafado.

Poema de Filinto Elísio


- Paul Lafargue 

Edição de Anhangá