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domingo, 3 de maio de 2026

O não civilizado e o anti civilização


A conversa não aconteceu num lugar marcado no mapa.

Se alguém tentasse localizar, erraria por princípio: era uma margem — de rio, de linguagem e de entendimento. A água corria lenta, não por preguiça, mas por não ver urgência em obedecer expectativas humanas.

O indígena estava sentado como quem não “ocupa” o espaço, mas pertence a ele sem negociação. Não havia pose, nem sistema. Apenas presença. Seus olhos não buscavam argumento — observavam.

O outro chegou como quem vem de muito longe não só no espaço, mas na forma de pensar. Falava de civilização como quem carrega um diagnóstico pronto antes mesmo de ver o paciente.

— Tudo isso — disse o anarco-primitivista — é uma longa queda. Agricultura, linguagem complexa, técnica… cada camada nos afastou do mundo real. Precisamos retornar ao imediato. À vida sem mediação.

O indígena ficou em silêncio por um tempo que não era vazio — era escuta sem pressa.

Então respondeu, devagar:

— Você fala “retornar” como se já tivesse estado lá.

O outro sorriu, como quem acha a objeção previsível.

— Todos estivemos. Antes da civilização.

O indígena inclinou a cabeça, não em concordância nem discordância, mas como quem observa um animal estranho tentando descrever a própria floresta sem nunca tê-la tocado.

— Você lembra do começo? — perguntou.

A pergunta não era acusação. Era literal demais para ser retórica.

O outro hesitou por meio segundo — o suficiente para o rio continuar sem ele.

— Não pessoalmente — disse ele — mas como espécie, sim. A condição humana original…

O indígena interrompeu com suavidade:

— “Original” é uma palavra perigosa. Ela faz o tempo virar linha reta.

Silêncio.

O vento passou entre as folhas como se não tivesse sido consultado.

O anarco-primitivista retomou:

— Mas você não vê o problema da tecnologia, da dominação, da domesticação da vida?

O indígena olhou para a água.

— Eu vejo pessoas tentando viver bem ou mal. Vejo relações que crescem e se quebram. Vejo equilíbrio difícil. Mas você fala como se tudo tivesse sido uma coisa só antes de virar erro.

O outro se agitou um pouco, como quem sente o chão conceitual ceder.

— Não é isso. Há evidências antropológicas…

O indígena levantou a mão levemente. Não para interromper a fala — mas para desacelerar o mundo.

— Evidência é o que vocês usam quando não estão aqui.

Silêncio mais longo.

Dessa vez, o anarco-primitivista não respondeu de imediato.

O indígena continuou:

— Você quer um mundo sem mediação. Mas você fala dele usando muitas mediações. Você quer apagar o caminho depois de caminhar por ele.

A frase não tinha agressividade. Tinha constatação.

O outro respirou fundo.

— Não é sobre apagar. É sobre libertar.

O indígena finalmente olhou direto para ele.

— Libertar quem?

A pergunta ficou parada no ar.

Não tinha resposta automática disponível.

O anarco-primitivista tentou:

— O humano… da máquina social, da alienação…

O indígena balançou a cabeça levemente.

— Você fala como se o humano estivesse preso num lugar só. Mas eu não vejo isso. Vejo formas diferentes de viver, algumas difíceis, outras sustentáveis, outras quebradas. Mas não vejo uma queda única.

O rio continuava indiferente à discussão.

O outro insistiu, agora com menos firmeza:

— Mas há perda. Há afastamento da natureza.

O indígena olhou ao redor — não como quem busca “natureza”, mas como quem estranha a separação da palavra.

— Eu estou aqui — disse ele. — E isso também é natureza.

Silêncio.

Essa frase não era argumento. Era dissolução do argumento.

O anarco-primitivista parecia desconfortável, não com hostilidade, mas com a falta de onde apoiar a própria crítica.

— Então você não vê problema nenhum na civilização?

O indígena demorou mais uma vez.

— Eu vejo problema em esquecer como viver com o lugar. Vejo problema em destruir relações que sustentam vida. Mas isso não começou num único momento. Não há um antes puro e um depois caído.

O outro baixou o olhar por um instante.

— Então o que você chama de progresso?

O indígena respondeu simples:

— Movimento sem escuta vira queda. Movimento com escuta vira caminho.

Essa frase ficou mais tempo no ar do que todas as outras.

O anarco-primitivista não discordou imediatamente. Nem concordou.

Porque naquele ponto, a ideia de “retorno” já parecia menos uma solução e mais uma nostalgia teórica tentando imitar algo que nunca viveu.

O rio seguiu.

E a conversa, sem vencedor, ficou suspensa entre duas formas de imaginar a vida:

uma que queria voltar a um começo ideal,

outra que nunca saiu de lugar nenhum para precisar de retorno.


-Anhangá 

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Última visita — ou advertência tardia

Nos derradeiros dias, quando o corpo já não acompanha o ímpeto da convicção, encontrava-se Vladimir Lenin reduzido àquela condição que os médicos descrevem com precisão e os homens evitam nomear: a de presença incompleta.

A cadeira de rodas, que outrora seria instrumento indigno para quem movera multidões, tornara-se agora seu mais fiel meio de locomoção — e, talvez, de contenção.

Era noite. Não dessas noites profundas e metafísicas, mas de uma banalidade quase ofensiva. Um silêncio doméstico, interrompido apenas pelo leve ranger de madeira e pelo esforço discreto da respiração.

Foi então que, sem cerimônia — como convém às verdades tardias —, fez-se notar uma presença.

Não houve clarão, nem vento súbito. Apenas uma alteração quase imperceptível na atmosfera, como se o ar tivesse decidido pensar.

— Sempre apressado, Vladimir Ilitch.

Lenin não se sobressaltou. Se houve surpresa, ela foi interna, contida, como tantas outras que já não encontravam expressão no corpo debilitado.

Diante dele — ou talvez ao lado, pois essas distinções tornam-se frágeis em tais circunstâncias — delineava-se a figura de Georgi Plekhanov, com aquela compostura que a morte, ao que parece, não se dá ao trabalho de corrigir.

— Não sabia — disse Lenin, com esforço controlado — que os mortos ainda se ocupavam dos vivos.

Plekhanov esboçou um sorriso breve, mais intelectual do que cordial.

— Não nos ocupamos. Observamos. O que, convenhamos, é menos cansativo… e frequentemente mais instrutivo.

Houve um silêncio. Lenin ajustou levemente a posição na cadeira, gesto mínimo que carregava, ainda assim, uma obstinação antiga.

— Veio cobrar algo?

— Cobrar? — repetiu Plekhanov, como quem experimenta a palavra. — Não. Advertir, talvez. Embora receie que seja tarde para ambas as coisas.

Lenin sustentou o olhar — ou aquilo que restava dele.

— Sempre acreditou que era cedo demais.

— E o senhor — replicou o espectro com suavidade — sempre acreditou que a história se curva à vontade.

— A história não se curva — disse Lenin, com um lampejo de energia. — Ela é forçada.

— Ah — murmurou Plekhanov —, aí está uma bela frase. Teria feito sucesso em vida.

— E não faz agora?

— Faz, certamente — respondeu o outro. — Mas já não produz os mesmos efeitos.

O ar pareceu mais pesado. Ou talvez fosse apenas a consciência que se adensava.

— O senhor dizia — continuou Vladmir — que não havia condições. Que a Rússia não estava madura. Que se saltava etapas.

Lenin permaneceu em silêncio por um instante.

— E estava enganado — disse, por fim.

Plekhanov inclinou ligeiramente a cabeça.

— Estava?

A pergunta não vinha carregada de ironia, mas de algo mais incômodo: uma curiosidade sem urgência.

— Fizemos o que era necessário — insistiu Lenin.

— Necessário — repetiu o espectro. — Eis outra palavra interessante. Costuma justificar muito… sobretudo quando os resultados ainda não podem ser avaliados por completo.

Lenin apertou levemente os braços da cadeira.

— O senhor fala como quem nunca teve de decidir.

— Pelo contrário — respondeu Plekhanov. — Falo como quem decidiu… não avançar.

Essa frase pairou entre ambos com uma densidade quase material.

— A prudência — continuou ele — é uma virtude pouco celebrada em tempos revolucionários. Talvez por parecer covardia.

— Ou por ser, de fato — retrucou Lenin.

Plekhanov sorriu, dessa vez com algo próximo da indulgência.

— E ainda assim, Vladimir Ilitch… diga-me com franqueza — agora que já não precisa convencer ninguém —: tudo ocorreu como esperava?

O silêncio que se seguiu não foi breve.

Lá fora, um ruído distante — talvez um passo, talvez o vento — insinuava que o mundo continuava, indiferente àquela conversa.

Lenin desviou o olhar, não por fraqueza, mas por economia.

— A história é longa — disse.

— E a vida — respondeu Plekhanov —, nem tanto.

Não houve réplica imediata.

— Eu lhe disse — acrescentou o espectro, com uma suavidade que beirava a melancolia — que as condições não estavam dadas. Que a pressa poderia custar caro.

Lenin voltou os olhos para ele, agora com uma intensidade silenciosa.

— E o senhor estava disposto a esperar quanto tempo?

Plekhanov não respondeu de pronto.

— O suficiente — disse, enfim — para que o necessário não precisasse parecer inevitável.

Lenin deixou escapar algo que poderia ter sido um riso, não fosse o cansaço.

— A história não oferece garantias.

— Nem perdões — completou o outro.

A presença começou a rarear — não desaparecer, mas tornar-se menos insistente, como uma ideia que se afasta sem ser refutada.

— Não vim para acusar — disse Plekhanov, já quase indistinto. — Apenas para lembrar.

— Não esqueço — respondeu Lenin.

— Eu sei — murmurou o espectro. — Esse é, talvez, o ponto.

E então já não estava.

Restou apenas o quarto, a cadeira, e um homem que, tendo apressado o curso da história, via-se agora incapaz de apressar sequer o próprio tempo.

Quanto a mim, que não estava lá — mas poderia ter estado, não fosse a indiscrição dos vivos —, fico com a impressão de que certas advertências não falham por serem incorretas, mas por chegarem sempre no único momento em que já não podem ser úteis.


- Anhangá 

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Uma conversa sobre fantasmas — com um materialista à mesa

Dizem que os encontros decisivos raramente se anunciam; chegam como uma tosse discreta ou um tropeço mal calculado. Assim se deu que Karl Marx, mergulhado em papéis e certezas, viu sua concentração interrompida por um homem de aspecto despreocupado, quase leviano, que se sentou à sua frente sem convite e com a naturalidade de quem não reconhece propriedades — nem mesmo as das cadeiras.

Era Max Stirner.

— Espero não incomodar — disse este, já incomodando.

Marx ergueu os olhos com visível contrariedade.

— Isso depende — respondeu, seco — do que o senhor pretende.

Stirner sorriu, como quem encontra precisamente o que buscava.

— Pretendo nada. É justamente essa a minha vantagem.

Houve um breve silêncio, desses que não são vazios, mas carregados de avaliação mútua. Marx fechou o caderno com firmeza, como quem delimita território.

— O senhor é daqueles que confundem ausência de propósito com liberdade.

— E o senhor — replicou Stirner, inclinando-se ligeiramente — é daqueles que confundem propósito com destino.

Marx apoiou os cotovelos na mesa.

— Falo de condições materiais, não de abstrações.

— Curioso — disse Stirner —, porque nunca vi algo mais abstrato do que “condições materiais” quando usadas para explicar o homem inteiro.

Marx franziu o cenho.

— A história é movida por forças reais: produção, trabalho, relações econômicas—

— Fantasmas — interrompeu Stirner, com delicadeza quase cortês.

— Perdão?

— Fantasmas — repetiu. — O senhor apenas trocou Deus por História, e o Espírito por Economia. Continua ajoelhado, só mudou o altar.

Marx soltou um riso curto, sem humor.

— Isso é uma caricatura.

— Toda verdade, quando bem colocada, parece uma caricatura — respondeu Stirner.

O ambiente, até então apenas tenso, começou a adquirir certa eletricidade. Não dessas que explodem, mas das que persistem.

— O senhor ignora — continuou Marx — que o indivíduo é produto de seu meio. Não existe esse “eu” soberano que o senhor tanto celebra.

Stirner cruzou as pernas, confortável.

— Ignoro não. Recuso. São coisas diferentes. O senhor dissolve o indivíduo em estruturas; eu dissolvo as estruturas no indivíduo.

— Isso é solipsismo.

— Isso é propriedade — corrigiu Stirner. — Eu sou meu. O resto… negocia-se.

Marx levantou-se ligeiramente, como se o corpo precisasse acompanhar o argumento.

— E o coletivo? A exploração? A injustiça?

Stirner ergueu uma sobrancelha.

— Palavras grandes. Muito úteis para quem gosta de mobilizar os outros.

— O senhor é cínico.

— Não — disse Stirner, quase gentil —, apenas econômico. Uso menos ilusões.

Marx voltou a sentar-se, agora mais contido. Havia, em seu olhar, não apenas irritação, mas algo próximo da curiosidade — o que, em certas naturezas, é já uma concessão.

— Suponhamos — disse ele — que todos pensassem como o senhor. O que restaria?

Stirner sorriu, dessa vez sem ironia.

— Finalmente, algo que não foi pensado por outro.

Marx permaneceu em silêncio por um instante mais longo do que os anteriores.

— Isso não constrói nada.

— Nem destrói por dever — replicou Stirner.

— O mundo exige transformação.

— O mundo exige muito — disse Stirner, levantando-se com a mesma facilidade com que chegara. — Eu, por minha vez, exijo pouco.

Já de pé, ajeitou o casaco com um desinteresse estudado.

— Foi um prazer, senhor Marx. Raramente encontro fantasmas tão bem articulados.

Marx não respondeu de imediato. Observou o outro afastar-se, com uma expressão que oscilava entre o desprezo e o reconhecimento — esse último, sempre mais difícil de admitir.

Quando enfim voltou aos seus papéis, algo parecia ligeiramente deslocado. Não o suficiente para alterar suas conclusões, é claro — mas o bastante para que, por um breve momento, lhe ocorresse a incômoda hipótese de que, talvez, até as convicções mais sólidas tenham o hábito pouco digno de projetar sombras.

Quanto a mim, que assisti à cena com a discrição de quem prefere não ser incluído nas teorias alheias, saí convencido de que há debates em que ninguém vence — mas um dos lados ri melhor ao final.

- Anhangá 

O encontro, pouco edificante, de dois profetas


Não sei se foi o calor, que naquele dia parecia querer dissolver não só o asfalto, mas também as boas maneiras, ou se foi mero capricho dessas forças invisíveis que governam os encontros humanos; o fato é que Peter Kropotkin, homem de barbas já respeitáveis e compostura de quem acreditava sinceramente na dignidade do gênero humano, viu-se subitamente abalroado por um sujeito de modos inquietos e olhar febril, que atendia pelo nome de John Zerzan.

— Olhe por onde anda! — disse este último, com uma impaciência que não pedia desculpas a ninguém, como se o mundo lhe devesse passagem.

Kropotkin, que fora empurrado com uma violência desnecessária, recompôs o chapéu com uma calma quase didática, dessas que parecem mais uma resposta moral do que um gesto físico.

— Perdão, meu caro — disse ele, com voz mansa —, creio que ambos temos o direito de caminhar, ainda que por direções distintas.

Zerzan lançou-lhe um olhar enviesado, como quem examina não um homem, mas um sintoma.

— Direito? — replicou, com um meio sorriso que não chegava a ser cordial. — Eis uma palavra já bastante comprometida.

Havia ali, devo confessar, um contraste que saltava aos olhos: de um lado, o velho russo, que ainda guardava em si certa fé — talvez ingênua, talvez heroica — na possibilidade de uma ordem sem opressão; de outro, o americano, que parecia já ter passado por todas as desilusões possíveis e decidido não deixar pedra sobre pedra.

— Se me permite — continuou Kropotkin, ajeitando o casaco com dignidade —, as palavras não são culpadas de nossos fracassos. Antes, são vítimas deles.

Zerzan riu, mas não com alegria; era um riso seco, quase técnico.

— Eis aí o seu problema, senhor...?

— Kropotkin.

— Pois bem, senhor Kropotkin: o senhor ainda acredita que há algo a salvar. Eu, francamente, não vejo grande coisa que mereça tal esforço.

Sentaram-se — não por cortesia, mas por cansaço — num banco próximo, desses que acolhem tanto filósofos quanto desempregados, o que já diz muito sobre a democracia do mobiliário urbano.

— O senhor fala como quem perdeu a esperança — observou Kropotkin.

— E o senhor — respondeu Zerzan prontamente — fala como quem ainda não a examinou com o devido rigor.

Houve um silêncio breve. Um vendedor ambulante passou, indiferente à gravidade do encontro.

— Diga-me — retomou o russo —, se tudo está corrompido, como sugere, o que resta ao homem?

Zerzan apoiou os cotovelos nos joelhos, olhando o chão como se ali estivesse enterrada alguma verdade incômoda.

— Resta-lhe recusar — disse. — Recusar o progresso, recusar as estruturas, recusar essa mania de organizar o mundo como se ele fosse uma máquina.

Kropotkin inclinou a cabeça, pensativo.

— Curioso — murmurou. — Eu também critiquei tais estruturas. Mas o fiz para libertar o homem; o senhor parece fazê-lo para abandoná-lo.

— Talvez — respondeu Zerzan, sem levantar os olhos — porque o homem, tal como se tornou, não queira ser libertado.

Essa frase ficou suspensa no ar, como aquelas dívidas morais que ninguém sabe exatamente como pagar.

Kropotkin, com uma paciência que beirava a teimosia, tentou ainda uma última investida:

— Não creio que a humanidade seja irrecuperável. Há, em sua base, uma inclinação natural para a cooperação.

Zerzan ergueu o olhar, agora com certo brilho — não de entusiasmo, mas de desafio.

— Inclinação natural? Meu caro, o que o senhor chama de natureza já foi tão mediado, tão domesticado, que mal se reconhece. O homem moderno é uma construção — e uma construção bastante mal acabada, diga-se.

— E o senhor? — perguntou Kropotkin, com suavidade. — Julga-se fora dessa construção?

Zerzan hesitou — um instante apenas, mas suficiente para denunciá-lo.

— Não — admitiu, por fim. — Mas ao menos não a confundo com destino.

Kropotkin sorriu, não com vitória, mas com compreensão.

— Nesse ponto — disse ele —, talvez não estejamos tão distantes quanto parece.

Zerzan não respondeu. Limitou-se a encostar-se no banco, cruzando os braços, como quem aceita uma trégua que não pretende transformar em paz.

E ali ficaram, lado a lado, dois críticos do mundo: um ainda disposto a reconstruí-lo com delicadeza; o outro inclinado a abandoná-lo com franqueza. Entre ambos, não havia conciliação — mas havia, o que já não é pouco, uma espécie de reconhecimento silencioso.

Quanto a mim, que observei tudo com a modéstia de quem nada pode resolver, saí dali convencido de que o desequilíbrio, quando articulado com convicção, pode ser tão perturbador quanto o equilíbrio — e, por vezes, até mais convincente.


-Anhangá 


terça-feira, 28 de abril de 2026

Uma conversação à mesa, entre o ócio e a filosofia

 


Numa dessas tardes que parecem ter sido inventadas apenas para justificar o repouso, achavam-se sentados, frente a frente, Paul Lafargue e o espirituoso Zé Carioca. Entre eles, uma garrafa discreta, dois copos e um silêncio que não era incômodo — desses que convidam à palavra, mas não a exigem.

— Diga-me, meu caro — começou Lafargue, girando lentamente o copo como quem revolve uma ideia —, não lhe parece que o homem moderno trabalha demasiadamente?

Zé Carioca, que até então examinava a ponta do próprio guarda-chuva com notável interesse filosófico, ergueu os olhos com um sorriso enviesado.

— Demasiadamente? Meu amigo, isso depende muito do ponto de vista. Para quem trabalha, sempre é demais. Para quem observa... bem, é quase um espetáculo.

Lafargue sorriu, reconhecendo ali uma afinidade.

— Escrevi certa vez — prosseguiu ele — que o direito ao trabalho era, na verdade, o direito à miséria. O que o homem deveria reivindicar, antes de tudo, era o direito ao ócio.

— Ah! — exclamou Zé, com entusiasmo sincero — então o senhor é, por assim dizer, um homem de bom senso.

— Ou de má reputação — corrigiu Lafargue, com leve ironia.

Houve uma pausa. O pássaro inclinou-se para trás, cruzando as pernas com uma elegância que não pedia licença à dita realidade.

— Sabe qual é o problema do ócio, doutor? — disse ele, num tom mais baixo. — É que ele exige coragem. Trabalhar é, muitas vezes, mais fácil. Dá a impressão de utilidade... e ainda rende elogios.

Lafargue pousou o copo.

— O senhor sugere, então, que o trabalho é uma espécie de... fuga?

— Não digo fuga — respondeu Zé, pensativo. — Digo distração. O sujeito trabalha, trabalha, trabalha... e, quando vê, já não precisa mais pensar no que faria se estivesse livre.

O filósofo inclinou a cabeça, como quem reconhece uma verdade incômoda.

— Curioso — murmurou. — Eu quis libertar o homem do trabalho excessivo, mas talvez não tenha considerado suficientemente o que ele faria com essa liberdade.

— Pois é — disse Zé, acendendo um cigarro com a solenidade de um pequeno ritual. — A liberdade é uma coisa muito bonita no papel. Na prática... dá um certo trabalho.

Riram ambos, mas não com o mesmo motivo.

— Ainda assim — retomou Lafargue —, não posso deixar de pensar que há algo de profundamente errado numa sociedade que transforma o descanso em culpa.

— Concordo — assentiu Zé. — Mas veja bem: a culpa também é uma espécie de companhia. Tem gente que prefere isso ao silêncio.

— O senhor é um cético, meu caro.

— Não — corrigiu o outro, com delicadeza —, apenas um observador. O cético duvida; eu apenas noto.

Lafargue ergueu o copo, como se brindasse à frase.

— E o que nota, neste momento?

Zé Carioca sorriu, olhando ao redor, depois para o filósofo.

— Que estamos dois homens discutindo o valor do ócio... enquanto o praticamos com admirável competência.

Lafargue não respondeu de imediato. Limitou-se a rir — um riso breve, mas honesto — e a inclinar levemente o copo.

— Nesse caso — disse ele —, talvez estejamos mais próximos da verdade do que supúnhamos.

— Ou mais distantes — replicou Zé, já relaxado na cadeira. — Mas, convenhamos... a distância também pode ser agradável.

E assim permaneceram, entre um gole e outro, sustentando com leveza uma conversa que, não fora o cuidado de ambos, poderia facilmente ter se tornado séria demais — o que, como se sabe, seria um desperdício imperdoável de uma boa tarde.

- Anhangá 




A miséria dos cidadãos no paraíso proletário

 


(Crônica de um século que prometeu o sol e distribuiu névoa)

Há, nas ruas largas e disciplinadas desse novo mundo, um silêncio curioso — não o silêncio da paz, mas o da resignação. O bonde amarelo avança carregado de corpos comprimidos, e não é difícil perceber que ali se transporta mais do que carne fatigada: transporta-se uma promessa em ruína.

O cidadão, outrora chamado operário, hoje atende por muitos nomes — camarada, construtor, elemento produtivo —, mas nenhum deles logra esconder a antiga condição que o acompanha como uma sombra mal paga. Mudaram-se os títulos; a servidão, essa senhora persistente, apenas trocou de chapéu.

Diante da estátua austera que observa a cidade, ergue-se a imagem de um ideal petrificado. Ali, onde se esperava o triunfo da igualdade, ergueu-se também uma vigilância moral que não tolera desvios, como se a liberdade fosse um luxo burguês a ser abolido em nome de uma liberdade futura. E assim se constrói o paradoxo: reprime-se o presente para libertar um amanhã que jamais chega.

Não ignoro — e seria leviandade ignorar — que houve, na gênese deste arranjo, uma esperança legítima. O protesto contra a exploração, a recusa do salário humilhante, o desejo de dissolver a hierarquia que transforma homens em engrenagens: tudo isso encontrou eco nas páginas generosas de Piotr Kropotkin, que sonhava com uma sociedade de auxílio mútuo, onde a cooperação substituiria a coerção. Mas o que se vê, décadas depois, é antes uma máquina do que uma comunidade.

Talvez Mikhail Bakunin tivesse previsto o desfecho com amarga lucidez. Advertia ele que o Estado, mesmo vestido de vermelho, conservaria sua vocação para o domínio; que a autoridade central, ainda que nascida de uma revolução, acabaria por reproduzir os vícios daquilo que pretendia destruir. E, com efeito, não é difícil reconhecer na disciplina férrea, na planificação implacável e na vigilância difusa, ecos familiares — quase domésticos — dos antigos regimes que se jurara superar.

O trabalhador, esse protagonista anunciado, encontra-se agora cercado por uma nova espécie de necessidade. Já não vende sua força a um patrão visível, mas a uma entidade mais abstrata e, por isso mesmo, mais onipresente. O capital, outrora concentrado em mãos privadas, dissolve-se no corpo do Estado; e o Estado, por sua vez, assume a feição de um patrão sem rosto — que não negocia, não dorme e não erra, ao menos em teoria.

E contudo, há algo de profundamente irônico — quase machadiano, se me permitem a irreverência — em tudo isso. Pois o mesmo sistema que denuncia a alienação fabrica, com método e zelo, um novo tipo de alienado: aquele que não pode sequer nomear sua condição sem incorrer em suspeita. A crítica, que outrora fora o motor da mudança, converte-se em delito; e o dissenso, em desvio.

Nas imagens que nos chegam — o bonde abarrotado, a rua disciplinada, o canteiro de obras onde o futuro se levanta em concreto cinzento — percebe-se menos a construção de um paraíso do que a administração de uma escassez. A abundância prometida cede lugar à organização da falta; e a igualdade, tão proclamada, manifesta-se sobretudo na uniformidade da privação.

Dir-se-á, em defesa do sistema, que toda obra humana é imperfeita, que as circunstâncias históricas impuseram durezas inevitáveis, que a transição exige sacrifícios. E não faltará razão a quem assim argumente. Mas também não falta razão a quem observe que tais sacrifícios recaem, invariavelmente, sobre os mesmos ombros — aqueles que, ironicamente, deveriam ter sido aliviados.

No fim, resta ao cidadão uma espécie de dupla consciência: a de viver numa sociedade que se declara emancipada, e a de sentir, no íntimo, a persistência de antigas correntes, agora polidas e legitimadas. Entre o ideal e o real, abre-se um intervalo onde se instala essa figura silenciosa — talvez um homem, talvez um desenho — que caminha cabisbaixo pelas ruas do progresso.

E assim se cumpre, com elegância trágica, a mais sutil das contradições: a de um paraíso que, ao abolir o inferno anterior, teve o cuidado de preservá-lo sob nova administração.

- Anhangá