terça-feira, 28 de abril de 2026

A miséria dos cidadãos no paraíso proletário

 


(Crônica de um século que prometeu o sol e distribuiu névoa)

Há, nas ruas largas e disciplinadas desse novo mundo, um silêncio curioso — não o silêncio da paz, mas o da resignação. O bonde amarelo avança carregado de corpos comprimidos, e não é difícil perceber que ali se transporta mais do que carne fatigada: transporta-se uma promessa em ruína.

O cidadão, outrora chamado operário, hoje atende por muitos nomes — camarada, construtor, elemento produtivo —, mas nenhum deles logra esconder a antiga condição que o acompanha como uma sombra mal paga. Mudaram-se os títulos; a servidão, essa senhora persistente, apenas trocou de chapéu.

Diante da estátua austera que observa a cidade, ergue-se a imagem de um ideal petrificado. Ali, onde se esperava o triunfo da igualdade, ergueu-se também uma vigilância moral que não tolera desvios, como se a liberdade fosse um luxo burguês a ser abolido em nome de uma liberdade futura. E assim se constrói o paradoxo: reprime-se o presente para libertar um amanhã que jamais chega.

Não ignoro — e seria leviandade ignorar — que houve, na gênese deste arranjo, uma esperança legítima. O protesto contra a exploração, a recusa do salário humilhante, o desejo de dissolver a hierarquia que transforma homens em engrenagens: tudo isso encontrou eco nas páginas generosas de Piotr Kropotkin, que sonhava com uma sociedade de auxílio mútuo, onde a cooperação substituiria a coerção. Mas o que se vê, décadas depois, é antes uma máquina do que uma comunidade.

Talvez Mikhail Bakunin tivesse previsto o desfecho com amarga lucidez. Advertia ele que o Estado, mesmo vestido de vermelho, conservaria sua vocação para o domínio; que a autoridade central, ainda que nascida de uma revolução, acabaria por reproduzir os vícios daquilo que pretendia destruir. E, com efeito, não é difícil reconhecer na disciplina férrea, na planificação implacável e na vigilância difusa, ecos familiares — quase domésticos — dos antigos regimes que se jurara superar.

O trabalhador, esse protagonista anunciado, encontra-se agora cercado por uma nova espécie de necessidade. Já não vende sua força a um patrão visível, mas a uma entidade mais abstrata e, por isso mesmo, mais onipresente. O capital, outrora concentrado em mãos privadas, dissolve-se no corpo do Estado; e o Estado, por sua vez, assume a feição de um patrão sem rosto — que não negocia, não dorme e não erra, ao menos em teoria.

E contudo, há algo de profundamente irônico — quase machadiano, se me permitem a irreverência — em tudo isso. Pois o mesmo sistema que denuncia a alienação fabrica, com método e zelo, um novo tipo de alienado: aquele que não pode sequer nomear sua condição sem incorrer em suspeita. A crítica, que outrora fora o motor da mudança, converte-se em delito; e o dissenso, em desvio.

Nas imagens que nos chegam — o bonde abarrotado, a rua disciplinada, o canteiro de obras onde o futuro se levanta em concreto cinzento — percebe-se menos a construção de um paraíso do que a administração de uma escassez. A abundância prometida cede lugar à organização da falta; e a igualdade, tão proclamada, manifesta-se sobretudo na uniformidade da privação.

Dir-se-á, em defesa do sistema, que toda obra humana é imperfeita, que as circunstâncias históricas impuseram durezas inevitáveis, que a transição exige sacrifícios. E não faltará razão a quem assim argumente. Mas também não falta razão a quem observe que tais sacrifícios recaem, invariavelmente, sobre os mesmos ombros — aqueles que, ironicamente, deveriam ter sido aliviados.

No fim, resta ao cidadão uma espécie de dupla consciência: a de viver numa sociedade que se declara emancipada, e a de sentir, no íntimo, a persistência de antigas correntes, agora polidas e legitimadas. Entre o ideal e o real, abre-se um intervalo onde se instala essa figura silenciosa — talvez um homem, talvez um desenho — que caminha cabisbaixo pelas ruas do progresso.

E assim se cumpre, com elegância trágica, a mais sutil das contradições: a de um paraíso que, ao abolir o inferno anterior, teve o cuidado de preservá-lo sob nova administração.

- Anhangá 

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