Ano de 1880
Em um congresso realizado em Paris pela região do Centro, um orador, que se destacou por sua ferocidade contra os anarquistas, disse: “O comunismo e a anarquia gritariam ao se verem juntos.”
Outro orador, que também falou contra os anarquistas, embora com menos dureza, exclamou, ao tratar da igualdade econômica: “Como pode a liberdade ser violada, se existe igualdade?”
Pois bem! Creio que ambos estão errados.
Pode haver perfeitamente igualdade econômica sem que exista a mínima liberdade. Certas comunidades religiosas são prova viva disso, pois nelas coexistem a mais completa igualdade e o despotismo. Igualdade completa, porque o chefe se veste com o mesmo tecido e come à mesma mesa que os demais; ele não se distingue de outra forma senão por seu direito de mandar. E os partidários do “Estado popular”? Se não encontrassem qualquer obstáculo, estou certo de que acabariam por alcançar uma igualdade perfeita, mas ao mesmo tempo um despotismo perfeito; pois, não esqueçamos, ao despotismo do Estado atual se somaria o despotismo econômico de todo o capital que passasse pelas mãos do Estado, e tudo isso seria multiplicado por toda a centralização necessária a esse novo Estado. Eis por que nós, anarquistas, amigos da liberdade, propomos contra eles um ataque sem tréguas.
Assim, ao contrário do que foi dito, temos pleno motivo para temer pela liberdade, mesmo onde exista igualdade; ao passo que não há motivo algum para temer pela igualdade onde exista a verdadeira liberdade — isto é, a anarquia.
Por fim, anarquia e comunismo, longe de gritarem ao se encontrarem juntos, gritariam por não se encontrarem, pois esses dois termos, sinônimos de liberdade e igualdade, são os dois termos necessários e indivisíveis da revolução.
Nosso ideal revolucionário é muito simples, como veremos: ele é composto, como o de todos os nossos predecessores, desses dois termos: liberdade e igualdade. Apenas há uma pequena diferença.
Instruídos pelas evasivas que reacionários de todos os tipos e de todos os tempos fizeram em relação à liberdade e à igualdade, fomos prudentes ao colocar ao lado desses dois termos uma expressão de seu valor exato.
Assim, colocamos, ao lado desses dois termos — liberdade e igualdade — dois equivalentes cujo significado claro não pode dar margem à ambiguidade, e dizemos: “Queremos liberdade, isto é, anarquia; e igualdade, isto é, comunismo.”
O comunismo, questão que nos ocupa mais diretamente hoje, é o segundo ponto de nosso ideal revolucionário.
O comunismo hoje ainda é ataque; não é a destruição da autoridade, mas a tomada, em nome da humanidade, de toda a riqueza existente no globo. Na sociedade do futuro, o comunismo será o usufruto de toda a riqueza existente por todos os homens, segundo o princípio: de cada um conforme suas capacidades, a cada um conforme suas necessidades — isto é, de cada um a cada um conforme sua vontade.
É preciso observar — e isso responde aos nossos adversários, comunistas autoritários e estatistas — que a tomada de posse e o usufruto de toda a riqueza existente devem ser, segundo nós, obra do próprio povo. O povo, a humanidade, não sendo um indivíduo capaz de se apoderar da riqueza com as próprias mãos, dever-se-ia concluir, é verdade, que seria necessário, por essa razão, instituir uma classe dirigente de representantes e agentes da riqueza comum. Mas não compartilhamos dessa opinião. Nenhum intermediário, nenhum representante que acaba sempre por representar apenas a si mesmo! Nenhum moderador da igualdade — e tampouco da liberdade! Nenhum novo governo, nenhum novo Estado, seja qual for o nome que assuma: popular, democrático, revolucionário ou provisório.
Estava, portanto, bastante equivocado aquele orador que acusava os anarquistas de quererem estabelecer a propriedade pertencente a corporações. Não seria maravilhoso se, depois de destruir o Estado, o substituíssemos por uma multidão de pequenos Estados? Matar o monstro de uma só cabeça para entreter o monstro de mil cabeças!
Não, já o dissemos — e não cessaremos de dizer: nenhum intermediário, nenhum corretor ou servidor prestativo que acaba sempre por se tornar o verdadeiro senhor. Queremos que toda a riqueza existente seja tomada diretamente pelo próprio povo e mantida em suas mãos poderosas, e que o próprio povo decida a melhor forma de usufruí-la, seja para a produção, seja para o consumo.
Mas nos perguntam: o comunismo é aplicável? Haverá produtos suficientes para permitir que todos tenham o direito de tomar conforme desejarem, sem exigir dos indivíduos mais trabalho do que estão dispostos a oferecer?
Respondemos: sim. Certamente podemos aplicar este princípio: de cada um segundo sua capacidade, a cada um segundo sua necessidade, porque, nas sociedades futuras, a produção será tão abundante que não haverá necessidade de limitar o consumo, nem de exigir das pessoas mais trabalho do que estejam dispostas ou sejam capazes de dar.
Hoje, não podemos sequer começar a imaginar esse imenso crescimento da produção, mas podemos vislumbrá-lo ao examinar as causas que o provocarão. Essas causas podem ser resumidas em três princípios:
A harmonia da cooperação entre os diferentes ramos da atividade humana substituirá a luta atual que se expressa na concorrência.
A introdução em larga escala de todo tipo de máquinas.
A considerável conservação das forças de trabalho e das matérias-primas, facilitada pela abolição das produções nocivas ou inúteis.
Pois bem! Imaginem quando, na sociedade futura, esse princípio individualista da produção capitalista — cada um por si contra todos os outros, todos contra todos — for substituído pelo verdadeiro princípio da sociedade humana: todos por um e um por todos. Que mudanças imensas não obteremos nos resultados da produção? Imaginem quão grande será o crescimento da produção quando cada homem, longe de ter de lutar contra todos os outros, for auxiliado por eles; quando não os tiver como inimigos, mas como cooperadores. Se o trabalho coletivo de dez homens já produz resultados absolutamente impossíveis para um homem sozinho, quão grandiosos serão os resultados obtidos pela cooperação em larga escala de todos os homens que hoje trabalham de forma hostil uns contra os outros?
E as máquinas? O surgimento desses poderosos auxiliares do trabalho, por mais grandioso que hoje nos pareça, é bastante modesto em comparação com o que será nas sociedades futuras.
Hoje, a máquina frequentemente encontra contra si a ignorância do capitalista, mas, mais frequentemente ainda, seu interesse. Quantas máquinas deixam de ser utilizadas apenas porque não trazem um benefício imediato ao capitalista?
Uma companhia de mineração de carvão, por exemplo, gastaria grandes somas para proteger os interesses dos trabalhadores e construir aparelhos custosos para facilitar a descida dos mineiros aos poços? Um município introduziria uma máquina para quebrar pedras, quando esse trabalho lhe serve de meio para distribuir esmolas baratas aos famintos? Quantas descobertas, quantas aplicações da ciência permanecem ignoradas apenas porque não rendem o suficiente ao capitalista!
O próprio trabalhador é hoje inimigo das máquinas — e com razão — pois elas são, para ele, o monstro que vem expulsá-lo do trabalho, condená-lo à fome, degradá-lo, torturá-lo, esmagá-lo. E, no entanto, que imenso interesse teria ele, ao contrário, em aumentar seu número, quando já não estivesse a serviço das máquinas; quando, ao contrário, elas estivessem a seu serviço, ajudando-o e trabalhando por seu bem-estar!Por fim, é preciso levar em conta a enorme economia que será feita sobre os três elementos do trabalho: a força, os instrumentos e a matéria-prima, hoje horrivelmente desperdiçados, pois são empregados na produção de coisas absolutamente inúteis — quando não nocivas à humanidade.
Quantos trabalhadores, quanta matéria e quantas ferramentas são hoje utilizados pelos exércitos de terra e mar para construir navios, fortalezas, canhões e todos esses arsenais de armas ofensivas e defensivas! Quantas dessas forças são desperdiçadas para produzir objetos de luxo que não servem senão às necessidades da vaidade e da corrupção!
E quando toda essa força, todos esses materiais, todas essas ferramentas forem aplicados à indústria, à produção de objetos que por sua vez servirão para produzir, que crescimento prodigioso da produção não veremos surgir!
Sim, o comunismo é aplicável! Podemos, certamente, deixar que cada um tome conforme sua vontade, pois haverá o suficiente para todos. Não precisaremos mais exigir de ninguém mais trabalho do que esteja disposto a dar, porque sempre haverá produtos suficientes para o dia de amanhã.
E é graças a essa abundância que o trabalho perderá seu caráter terrível de escravidão, conservando apenas o encanto de uma necessidade moral e física — como a de estudar, como a de viver em contato com a natureza.
E não se trata apenas de dizer que o comunismo é possível; podemos afirmar que ele é necessário. Não apenas podemos ser comunistas; devemos sê-lo, sob pena de perder o sentido da revolução.
De fato, após a coletivização das ferramentas e das matérias-primas, se conservarmos a apropriação individual dos produtos do trabalho, seremos forçados a conservar o dinheiro — e, em seguida, a acumulação de riquezas maiores ou menores, conforme o mérito — ou, antes, conforme a habilidade — dos indivíduos.
A igualdade desapareceria assim, pois aqueles que conseguissem acumular mais riqueza já se elevariam acima do nível dos demais. Restaria apenas um passo para que os contrarrevolucionários estabelecessem o direito de herança. E, de fato, ouvi um socialista renomado, dito revolucionário, que defendia a atribuição individual dos produtos, terminar afirmando que não via inconveniente algum em uma sociedade que aceitasse a transmissão desses produtos por herança: isso, segundo ele, dificilmente teria consequências. Para nós, que conhecemos de perto os resultados a que a sociedade chegou com essa acumulação de riquezas e sua transmissão hereditária, não pode haver dúvida alguma sobre esse ponto.
Há socialistas que insistem em sustentar a ideia da atribuição individual dos produtos do trabalho, invocando o senso de justiça.
Estranha ilusão! Com o trabalho coletivo, que nos impõe a necessidade da produção em larga escala e do uso igualmente amplo das máquinas, com essa tendência cada vez maior do trabalho moderno de servir-se do trabalho das gerações precedentes — como poderemos determinar que parte do produto pertence a cada um? Isso é absolutamente impossível, e os próprios adversários sabem disso tão bem que acabam dizendo: “Muito bem, tomaremos como base de distribuição as horas de trabalho.” Mas, ao mesmo tempo, admitem que isso seria injusto, pois três horas de trabalho de Pedro podem produzir tanto quanto cinco horas de trabalho de Paulo.
Antigamente, chamávamo-nos “coletivistas” porque era essa a palavra que nos distinguia dos individualistas e dos comunistas autoritários; mas, no fundo, éramos todos simplesmente comunistas anti-autoritários, e, ao nos chamarmos “coletivistas”, julgávamos exprimir, por esse nome, a ideia de que tudo deve ser posto em comum, sem distinguir entre instrumentos e matérias de trabalho e os produtos do trabalho coletivo.
Mas, um dia, vimos surgir uma nova tonalidade de socialistas que, ressuscitando erros do passado e comprazendo-se em filosofar, quiseram distinguir-se nessa questão e acabaram por se tornar os apóstolos da seguinte tese:
“Existem”, dizem eles, “valor de uso e valor de produção. Valor de uso é aquilo que utilizamos para satisfazer nossas necessidades pessoais: a casa em que habitamos, o alimento que consumimos, as roupas, os livros etc.; enquanto valor de produção é aquilo que utilizamos para produzir: a oficina, os galpões, o estábulo, o armazém, as máquinas e ferramentas de todo tipo de trabalho, o sol, as matérias-primas etc. Os primeiros, que servem para satisfazer as necessidades do indivíduo”, dizem eles, “devem ser atribuídos ao indivíduo, enquanto os segundos, que ajudam todos a produzir, devem ser de propriedade comum.”
Eis a teoria econômica recém-descoberta — ou, melhor dizendo, renovada conforme a necessidade.
Mas eu lhes pergunto: vós que concedeis o título favorável de “valor de produção” ao carvão que alimenta as máquinas, ao óleo que as lubrifica, ao combustível que ilumina o trabalho — por que recusais esse mesmo título ao pão que como, à carne que me alimenta, ao óleo com que tempero minha salada, ao gás que ilumina meu trabalho, a tudo aquilo que auxilia o funcionamento da mais perfeita de todas as máquinas, a mãe de todas as máquinas: o homem?
Classificais como valor de produção o prado e o estábulo que abrigam vacas e cavalos — e excluís as casas e os jardins que servem ao mais nobre de todos os animais: o homem?
Onde está a vossa lógica?
Além disso, vós mesmos, que vos imaginais apóstolos dessa teoria, sabeis perfeitamente que essa demarcação não existe na realidade, e que, se hoje já é difícil traçá-la, desaparecerá completamente no dia em que todos formos produtores ao mesmo tempo em que consumidores.
Assim, não é essa teoria, como se vê, que poderia dar nova força aos partidários da atribuição individual dos produtos do trabalho. Ela produziu apenas um resultado: o de desmascarar o jogo desses poucos socialistas que gostariam de limitar o alcance do pensamento revolucionário; abriu-nos os olhos e mostrou a necessidade de afirmar claramente que somos comunistas.
Mas, finalmente, enfrentemos a única objeção séria que nossos adversários levantaram contra o comunismo.
Todos concordamos que caminhamos necessariamente em direção ao comunismo, mas observamos que, no início, os produtos não serão suficientemente abundantes; será preciso estabelecer racionamento e repartir os recursos, e que a melhor parte dos produtos do trabalho deveria basear-se na quantidade de trabalho que cada um tiver realizado.
A isso respondemos que, numa sociedade futura, mesmo quando formos obrigados a racionar os recursos, devemos permanecer comunistas: isto é, o racionamento deve ser feito não segundo os méritos, mas segundo as necessidades.
Tomemos a família, esse pequeno modelo de comunismo (de um comunismo mais autoritário do que anarquista, é verdade — o que, aliás, em nosso exemplo, nada altera).
Na família, suponhamos que o pai traga para casa cem centavos por dia, o filho mais velho três francos, um mais novo quarenta centavos, e o mais jovem apenas cinco centavos por dia. Cada um entrega esse dinheiro à mãe, que guarda o caixa e os alimenta. Todos ganham quantias diferentes, mas, à mesa, cada um se serve conforme deseja, segundo seu apetite; não há racionamento. Mas vêm os dias ruins, e a falta total de recursos obriga a mãe a não mais se guiar pelo apetite e pelo gosto de cada um na distribuição da refeição. Torna-se necessário racionar, e, seja por iniciativa da mãe, seja por um acordo tácito de todos à mesa, as porções são reduzidas. Mas vede: essa partilha não se faz segundo os ganhos, pois são as crianças menores que recebem as porções mais generosas, e o melhor pedaço de carne é reservado à velha, que não ganha absolutamente nada. Mesmo em tempos de escassez, a família funciona segundo o princípio do racionamento conforme as necessidades. Poderia ser diferente na grande família humana do futuro?
É evidente que haveria muito mais a dizer sobre esse assunto, se eu não estivesse falando diante de anarquistas.
Não podemos ser anarquistas sem sermos comunistas. Com efeito, a menor ideia de limitação já contém em si o germe do autoritarismo. Ela não poderia realizar-se sem criar imediatamente a lei, o juiz, o policial.
Devemos ser comunistas porque é no comunismo que realizaremos a verdadeira igualdade. Devemos ser comunistas porque o povo, que não compreende os sofismas coletivistas, compreende perfeitamente o comunismo, como já observaram nossos amigos Reclus e Kropotkin. Devemos ser comunistas porque somos anarquistas — porque anarquia e comunismo são os dois termos necessários da revolução.
- Carlo Cafiero




















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