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terça-feira, 2 de junho de 2026

Ação


25 de dezembro de 1880

Não há motivo para que os estudiosos deem tantos de ombros, como se tivessem de carregar o peso do mundo inteiro: não foram eles que inventaram a ideia revolucionária. Foram os oprimidos que, por meio de suas tentativas — muitas vezes inconscientes — de sacudir o jugo de seus opressores, chamaram a atenção dos estudiosos para a moral social; e só mais tarde alguns poucos pensadores perceberam que isso era insuficiente, e mais tarde ainda outros concordaram em considerá-lo completamente falso.

Sim, é o sangue derramado pelo povo que acaba por formar ideias na cabeça dos estudiosos. “Os ideais nascem dos fatos, e não o contrário”, disse Carlo Pisacane em seu testamento político — e ele estava certo. É o povo que realiza o progresso, assim como a revolução: os aspectos construtivo e destrutivo de um mesmo processo. É o povo que é sacrificado todos os dias para manter a produção universal, e é novamente o povo que alimenta com seu sangue a tocha que ilumina o destino humano.

Quando um pensador que estudou cuidadosamente o livro dos sofrimentos da humanidade define a fórmula das aspirações populares, conservadores e reacionários de todos os tipos, em todo o mundo, começam a gritar a plenos pulmões: “É um escândalo!”

Sim, é um escândalo — e precisamos de escândalos; pois é pela força do escândalo que a ideia revolucionária abre caminho. Que escândalo não provocou Proudhon quando bradou: “A propriedade é um roubo!” Mas hoje não há homem sensato ou sensível que não pense que o capitalista é o pior dos patifes entre os ladrões; mais do que isso — o único verdadeiro ladrão. 

Armado com o mais terrível instrumento de tortura, a fome, ele atormenta sua vítima não por um momento, mas por toda a vida: atormenta não apenas a vítima, mas também a esposa e os filhos do homem que mantém sob seu poder. O ladrão arrisca a liberdade e frequentemente a vida, mas o capitalista, o verdadeiro ladrão, nada arrisca — e, quando rouba, não toma apenas uma parte, mas a totalidade da riqueza do trabalhador.

Mas não basta encontrar uma fórmula teórica. Assim como a ação deu origem à ideia revolucionária, é novamente a ação que deve colocá-la em prática.

No primeiro Congresso da Internacional, havia apenas alguns trabalhadores do proletariado francês que aceitavam a ideia de propriedade coletiva. Foi preciso a luz lançada sobre o mundo inteiro pelos incendiários da Comuna para dar vida e difundir a ideia revolucionária, conduzindo-nos ao Congresso de Haia, que, pelos votos de 48 representantes dos trabalhadores franceses, reconheceu o comunismo livre como objetivo. E, no entanto, ainda nos lembramos de que certos dogmáticos autoritários, cheios de seriedade e sabedoria, repetiam há poucos anos que a Comuna havia freado o movimento socialista ao dar origem à mais desastrosa das reações. Os fatos demonstraram a solidez das opiniões desses “socialistas científicos” (a maioria deles sem conhecer ciência alguma), que tentaram difundir entre os socialistas a conhecida “política dos resultados”.

Assim, é a ação que se faz necessária — ação, e mais ação. Ao agir, trabalhamos ao mesmo tempo para a teoria e para a prática, pois é a ação que dá origem às ideias e também é responsável por difundi-las pelo mundo.

Mas que tipo de ação devemos tomar?

Devemos ir — ou enviar outros em nosso lugar — ao Parlamento, ou mesmo aos conselhos municipais?

Não, mil vezes não! Nada temos a ver com as intrigas da burguesia. Não precisamos nos envolver nos jogos de nossos opressores, a menos que queiramos participar de sua opressão. “Ir ao Parlamento é negociar; e negociar é fazer a paz”, disse um ex-revolucionário alemão, que depois disso negociou bastante.


Nossa ação deve ser a rebelião permanente — pela palavra, pela escrita, pelo punhal, pela arma de fogo, pela dinamite, e às vezes até pelo voto, quando se trata de votar em um candidato inelegível como Blanqui ou Trinquet. Somos coerentes e utilizaremos toda arma que possa servir à rebelião. Tudo é legítimo para nós, desde que não seja legal.

“Mas quando devemos começar a agir, e abrir o ataque?”, às vezes nos perguntam os amigos. “Não deveríamos esperar até que nossa força esteja organizada? Atacar antes de estar pronto é se expor e arriscar o fracasso.”

Amigos, se continuarmos esperando até sermos fortes o bastante antes de atacar — nunca atacaremos, e seremos como o homem prudente que jurou não entrar no mar antes de aprender a nadar. É precisamente a ação revolucionária que desenvolve nossa força, assim como o exercício desenvolve a força de nossos músculos. É verdade que, no início, nossos golpes não serão mortais; talvez até façamos os socialistas sérios e sábios rirem, mas sempre poderemos responder: “Vocês riem de nós porque são tão estúpidos quanto aqueles que riem de uma criança que cai ao aprender a andar. Diverte-os nos chamar de crianças? Muito bem, somos crianças, pois o desenvolvimento de nossa força ainda está em sua infância. Mas, ao tentar caminhar, mostramos que estamos tentando nos tornar homens — isto é, organismos completos, saudáveis e fortes, capazes de fazer uma revolução — e não editores rabiscadores, envelhecidos antes do tempo, sempre remoendo uma ciência que jamais conseguem digerir, e sempre preparando, no espaço e no tempo infinitos, uma revolução que já se dissipou nas nuvens.”

Como devemos começar nossa ação?

Basta observar uma oportunidade — e ela logo aparecerá. Em toda parte onde se possa sentir a rebelião e ouvir o som da luta, é ali que devemos estar. Não espere participar apenas de um movimento que venha rotulado como socialismo oficial. Todo movimento popular já traz em si as sementes do socialismo revolucionário: devemos participar dele para garantir seu crescimento. Um ideal claro e preciso de revolução é formulado apenas por uma minoria ínfima; e, se esperarmos para entrar em uma luta que corresponda exatamente àquilo que imaginamos em nossas mentes — esperaremos para sempre. Não imitem os dogmáticos que exigem a fórmula antes de tudo: o povo carrega a revolução viva em seu coração, e devemos lutar e morrer com ele.

E quando os defensores da ação legal ou parlamentar vierem nos criticar por não termos nada a ver com o povo quando ele vota, responderemos: “Certamente, recusamo-nos a ter qualquer relação com o povo quando ele está de joelhos diante de seu deus, de seu rei ou de seu senhor; mas estaremos sempre com ele quando estiver de pé contra seus poderosos inimigos. Para nós, a abstenção da política não é abstenção da revolução; nossa recusa em participar de qualquer ação parlamentar, legal ou reacionária é a medida de nossa devoção a uma revolução violenta e anarquista — à revolução da ralé e dos pobres.”

- Carlo Cafiero, ano de 1880

segunda-feira, 25 de maio de 2026

O Temperamento Anarquista no Turbilhão da História

No anarquismo, para além dos dois conceitos filosóficos que o dividem — o comunista e o individualista — existem dois instintos espirituais e físicos (ou melhor, duas formas de vida vivida, concreta e materialmente) que distinguem dois temperamentos, comuns a ambas as correntes teóricas.

Filhos de um mesmo sofrimento social, é certo — mas dotados de impulsos diversos, que nos conduzem a duas maneiras distintas de sofrer, ambas de origem hedonista.

Há aqueles (comunistas e individualistas) que sofrem — como diria Friedrich Nietzsche — por excesso de vida; e há os que sofrem por sua pobreza.

Entre estes últimos estão os amantes da quietude, da paz, do silêncio e da solidão. Já entre os primeiros — e é aqui que a pena parece aquecer-se — estão aqueles que sentem o próprio íntimo como um poderoso estremecimento dionisíaco, transbordante de força, e a vida como manifestação heroica da vontade.

São estes que trazem em si a necessidade instintiva — irresistível, quase fatal — de arremessar a chama do seu “eu” contra os muros do mundo exterior, para demolir… e viver a tragédia.

Nós estamos entre estes.

Estamos no anarquismo, antes de tudo, por instinto originário e sentimento apaixonado. Nossas ideias não passam — ouso dizer — de criaturas audazes e luminosas, nascidas do abraço primitivo entre a unidade do ser e a razão teórica que nega.

Hoje, a história da humanidade atingiu um de seus muitos turbilhões — talvez o maior — onde o espírito humano é chamado a renovar-se radicalmente sobre as ruínas magníficas e horrendas de fogo e sangue, catástrofe e destruição… ou, o que é mais triste, cristalizar-se covardemente na concepção de vida cadavérica e decrépita que a sociedade burguesa, já fora de época, nos legou como herança.

Se um punhado vigoroso de rebeldes — homens superiores, heróis — fosse capaz de saltar além das duas correntes do anarquismo, impulsionados por esse excesso vital, e se reunisse sob a bandeira negra da revolta, incendiando os corações das nações europeias… o velho mundo ruiria.

Pois ao redor dos Heróis tudo tende, fatalmente, à tragédia — e é somente na tragédia que nascem os espíritos renovadores, aqueles capazes de ouvir, com mais nobreza e altura, o canto festivo de sua vida livre.

Mas, se esse punhado de temerários não emergir da sombra para lançar a luva negra do desafio no rosto pútrido da sociedade burguesa, então os répteis da demagogia política, os acrobatas especuladores e os hipócritas da dor humana continuarão senhores do campo.


E sobre o sol trágico que tenta iluminar o turbilhão sombrio desta história em curso, lançarão a máscara obscena do chumbo branco, carregada sobre o horizonte livre do pensamento humano por aquele palhaço dissoluto chamado Karl Marx.

E tudo terminará numa comédia vil e grotesca — diante da qual, talvez, o anarquista digno sentiria vergonha suficiente para desaparecer.

Para aquela parcela de anarquistas italianos que sofre por excesso de vida — para aqueles, individualistas ou comunistas, para quem a luta, o perigo e a tragédia são necessidades tanto espirituais quanto materiais — o momento chegou.

A hora de impor-se. A hora de dominar.

Pois a verdadeira liberdade e o verdadeiro direito do ser humano residem apenas em sua capacidade de querer.

Direito e liberdade — são força.

Aquilo que para outros é sacrifício doloroso deve ser, para nós, dádiva e holocausto jubiloso.

É preciso lançar-se na onda do tempo passado, pisar os cumes arredondados dos séculos, regressar virilmente na história para beber nas fontes virgens, onde ainda jorra — quente e fumegante — o sangue dos primeiros sacrifícios humanos livres.

É preciso retornar, descalços e nus, entre as pedras vivas da floresta mítica e lendária, e nutrir-nos, como nossos ancestrais remotos, do tutano do leão e da natureza selvagem.


Só assim — como diria Maria Vesta — poderemos dizer ao primeiro Herói que soube oferecer sua carne, serena e estoicamente, às chamas vermelhas de um incêndio hostil e crepitante:

Agora nós também, como tu, sabemos cantar sob a tortura.

A vida que a sociedade nos oferece não é plena, nem livre, nem alegre.

É uma vida esmagada, mutilada, humilhada.

Devemos recusá-la.

E, se não tivermos força ou capacidade para arrancar violentamente de suas mãos a vida alta e vigorosa que sentimos pulsar em nós, então lancemos esse espectro sobre o altar trágico do sacrifício — e da renúncia final.

Pelo menos, poderemos coroar com um diadema heroico de beleza o rosto ensanguentado da arte que ilumina e cria.

Melhor erguer-se nas chamas de um incêndio e tombar, o crânio partido sob a rajada de um pelotão inconsciente, do que aceitar esse espectro de vida irônica — que não passa de uma paródia sinistra da própria vida.

Basta, ó amigos, de covardia. Basta, ó companheiros, da ingênua ilusão do “ato generoso das massas”.

A massa é palha — palha que o socialismo deixou apodrecer no estábulo da burguesia.

Errico Malatesta, Pasquale Binazzi, Dante Carnesecchi — e milhares de outros desconhecidos que apodrecem nesses manicômios miasmáticos e mortais que são as prisões da monarquia de Saboia — prisões cuja ampliação foi reclamada, nos chiqueiros parlamentares, pelos pequenos medalhões do Partido Socialista Italiano — devem ser, para nós, como espectros de remorso.

Devem caminhar, em formas terríveis, pelos desvios incertos de nossas mentes hesitantes; devem ser jorros ardentes de sangue que irrompem de nossos corações, atravessam as linhas do rosto e o cobrem de uma vergonha sombria.

Eu sei — nós sabemos — que cem SERES HUMANOS, dignos desse nome, seriam capazes de realizar aquilo que quinhentos mil “organizados” inconscientes jamais conseguirão.

Não vedes, ó amigos, a sombra de Bruno Filippi que nos observa, sorrindo com desdém?


Já não existem, então, CEM ANARQUISTAS na Itália dignos desse nome? Já não existem cem “eus” capazes de caminhar com pés em chamas sobre os picos vertiginosos de nossas ideias?

Errico Malatesta e os milhares que caíram nas mãos do inimigo ao primeiro sinal desta tempestade social aguardam, com nobre e febril expectativa, o relâmpago que derrube o edifício em ruínas, que ilumine a história, que eleve os valores da vida, que acenda o caminho da humanidade…

Mas o relâmpago brilhante e fatal não pode nascer do coração das massas.

As massas, que pareciam ardentes admiradoras de Malatesta, são covardes e impotentes.

O governo e a burguesia o sabem — e sorriem.

Sabem: “O Partido Socialista Italiano está conosco. É a peça indispensável para o desfecho funesto de nosso jogo. É o abracadabra que toma forma na voz encantatória de nossa feitiçaria milenar. As massas covardes são suas escravas, e Malatesta está velho e doente. Deixá-lo-emos morrer na escuridão úmida de uma cela — e depois lançaremos seu cadáver ao rosto de seus companheiros anarquistas…”

Sim — é isso que o governo e a burguesia pensam, nos recantos ocultos de suas mentes estúpidas e maliciosas.

E nós? Suportaremos esse desafio vil com indiferença? Suportaremos esse insulto sangrento e brutal em silêncio? Somos, então, tão covardes assim?

Espero que estes três enormes pontos de interrogação — solenes e terríveis — encontrem, nas fileiras do anarquismo, uma resposta viril que diga: NÃO! E que o diga com um trovão ainda mais terrível…

É dos cumes ardentes, dos picos luminosos, que deve irromper o relâmpago libertador.

O VELHO forte espera. Companheiros heroicos: a nós!

O cadáver de um velho agitador custa sempre mais caro do que a vida de mil idiotas maliciosos.

Irmãos e irmãs, lembrai-vos disso.

Agi de tal modo que a mais profunda de todas as vergonhas humanas não recaia sobre nós.


- Renzo Novattore 


Il Libertario 

vol. XVIII, nº 793

La Spezia

8 de dezembro

O Individualismo Anarquista na Revolução Social

1

O individualismo anarquista, tal como o compreendemos — e digo “compreendemos” porque não sou o único a pensar assim, havendo ainda um punhado de espíritos afins — é hostil a toda escola e a todo partido, a toda moral eclesiástica e dogmática, bem como a toda imbecilidade mais ou menos acadêmica.

Toda forma de disciplina, regra ou pedantismo repugna à nobreza sincera de nossa inquietação errante e rebelde.

O individualismo é, para nós, força criadora, juventude imortal, beleza exaltante, guerra redentora e fecunda. É a apoteose maravilhosa da carne e a epopeia trágica do espírito. Nossa lógica — se assim se pode chamar — é precisamente a de não possuir nenhuma. 

Nosso ideal consiste na negação categórica de todos os ideais, para o triunfo supremo da vida real, concreta, instintiva, temerária — e, por que não?, alegre!

Para nós, a perfeição não é sonho, nem ideal, nem enigma, nem mistério, nem esfinge: é uma realidade vigorosa, pulsante, luminosa. Todo ser humano é perfeito em si mesmo; o que lhe falta, quando falta, é apenas a coragem heroica de assumir sua própria perfeição.

Desde o instante em que o homem acreditou que a vida fosse dever, vocação ou missão, começou a envergonhar-se de sua potência de ser. E, seguindo fantasmas, negou-se a si mesmo, afastando-se do real.

Quando Jesus Cristo disse aos homens: “sede vós mesmos, a perfeição está em vós!”, lançou uma frase soberba — síntese suprema da vida.

Inútil é que beatos, teólogos e filósofos se esforcem, com sofismas astutos e dialéticos, por deturpar tais palavras. Pois, ao falar assim, Cristo renega toda sua doutrina de renúncia, missão e fé; e o restante de seu edifício doutrinário desaba, miseravelmente, na lama — derrubado por ele mesmo.

Eis aqui — e somente aqui — a grande tragédia de Cristo.

Que os homens abram seus olhos enevoados sob o sol ofuscante dessa verdade, e encontrar-se-ão face a face com sua verdadeira e risonha redenção.

Eis a parte ética do individualismo: não romântica nem mística, tampouco idealista ou monástica; nem moral, nem imoral — mas amoral. Selvagem, furiosa, guerreira, ela mantém suas raízes luminosas cravadas voluptuosamente no cálice fosforescente da natureza pagã, enquanto sua folhagem verdejante repousa sobre os lábios púrpura da vida virgem.

2

A toda forma de Sociedade humana que pretenda impor renúncias e dores artificiais ao nosso Eu anárquico e rebelde — sedento de expansão livre e jubilosa — responderemos com um uivo rugidor e sacrílego de dinamite.

A todos esses demagogos da política e da filosofia, que trazem no bolso um belo sistema construído à custa de hipotecar um pedaço do futuro, respondemos com Mikhail Bakunin: imbecis e fracos!

Todo dever que intentarem impor-nos será furiosamente esmagado sob nossos pés profanos. Todo fantasma sombrio que ousarem colocar diante de nossos olhos — ávidos de luz — será dilacerado por nossas mãos ousadas e sacrílegas.

Cristo envergonhou-se de sua própria doutrina e foi o primeiro a quebrá-la. Friedrich Nietzsche temeu seu além-do-homem e o deixou morrer entre seus animais agonizantes, suplicando piedade ao homem superior.

Mas nós — nós não tememos nem nos envergonhamos do Ser humano libertado.

Exaltamos Prometeu, o ladrão sacrílego que roubou a centelha eterna do céu de Júpiter para animar o homem de barro; e glorificamos Hércules, o herói poderoso e libertador.

3

A natureza pagã depositou um Prometeu na mente de cada mortal e um Hércules no cérebro de todo pensador.

Mas a moral — essa feiticeira abjeta, tão cara a filósofos, povos e à própria humanidade — tratou de glorificar o abutre, elevando-o à condição de justiça divina. E essa justiça divina, que Auguste Comte ousou humanizar, acabou por condenar o Herói.

O homem do sulco e o pensador tremeram diante desse espectro funesto, e a coragem, esmagada sob o peso descomunal do medo, permaneceu vencida.

Mas o individualismo anarquista é uma tocha brilhante — e fatal — que lança sua luz nas trevas do reino do medo e põe em fuga os fantasmas da justiça divina que Comte pretendeu domesticar.

O individualismo é o canto livre e indomado que reconduz o indivíduo ao eterno e universal pan-dinamismo — esse fluxo que não é moral nem imoral, mas tudo. Natureza — e Vida!

E o que é a Vida? Abismos e cumes, instinto e razão, luz e treva, lodo e beleza, júbilo e dor. Negação do passado, domínio do presente, ânsia e desejo do futuro.

A vida é tudo isso. E tudo isso, também, é o individualismo.

Quem ousa fugir da Vida? Quem se atreve a negá-la?

4

A Revolução Social é o súbito despertar de Prometeu após um desmaio de dor causado pelo abutre imundo que lhe dilacera o coração. É uma tentativa de auto-libertação.

Mas as correntes com que o sinistro deus Júpiter o acorrentou ao Cáucaso — por intermédio do repugnante servo Vulcano — não podem ser rompidas senão pelo herói rebelde titânico, filho do próprio Júpiter.

Nós, filhos rebeldes desta humanidade pútrida, que acorrentou o homem no lodo dogmático das superstições sociais, não deixaremos de fazer descer o golpe tremendo de nosso machado sobre os elos enferrujados dessa cadeia odiosa.

Sim, nós, individualistas anarquistas, somos pela Revolução Social — mas à nossa maneira, bem entendido!

5

A revolta do indivíduo contra a sociedade não se confunde com a das massas contra os governos. Mesmo quando as massas se submetem, vivendo na paz — sagrada e vergonhosa — de sua resignação, o individualista anarquista vive contra a sociedade, pois está com ela em guerra incessante e irreconciliável.

Mas, quando em algum ponto de inflexão da história ele se encontra lado a lado com as massas em revolta, ergue com elas sua bandeira negra — e com elas arremessa sua dinamite.

O individualista anarquista está na Revolução Social não como demagogo, mas como elemento de incitação; não como apóstolo, mas como força viva, eficaz e destruidora...

Todas as revoluções passadas foram, no fim, burguesas e conservadoras. Aquela que cintila no horizonte rubro de nosso tempo magnificamente trágico terá por meta um feroz humanismo socialista.

Nós, individualistas anarquistas, entraremos na revolução por uma necessidade exclusivamente nossa: incendiar e inflamar os espíritos. Para que, como diria Max Stirner, não se trate de uma nova revolução, mas de um crime imenso, orgulhoso, temerário, despudorado e sem consciência — um crime que troveja no horizonte como relâmpago, sob o qual o céu, grávido de presságios, se torna escuro e silencioso.

E Henrik Ibsen acrescentaria:

“Só reconheço uma revolução verdadeiramente radical — o antigo Dilúvio! Aquela sim foi séria. Mas mesmo ali o diabo perdeu o que lhe cabia: Noé tomou a ditadura. Façamos novamente essa revolução — porém de modo mais completo. São necessários homens de verdade, não apenas oradores. Tu trazes as águas rugidoras; eu fornecerei o barril de pólvora para fazer explodir a arca.”

Ora, se a ditadura será — ai de nós! — inevitável na sombria revolução global que já lança seu brilho pálido do Oriente sobre nossa negra covardia, então a tarefa última de nós, individualistas anarquistas, será fazer explodir a arca final com bombas — e o ditador final com disparos de Browning.

E quando a nova sociedade estiver erguida, retornaremos às suas margens para viver perigosamente — como nobres criminosos e pecadores audazes.

Porque o individualismo anarquista ainda significa renovação eterna no campo da arte, do pensamento e da ação.

Significa ainda a revolta eterna contra a dor eterna — e a busca incessante de novas fontes de vida, de alegria e de beleza.

E assim continuaremos sendo — mesmo na Anarquia.

- Renzo Novatore, escrito sob o nome de Mario Ferrento