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terça-feira, 2 de junho de 2026

Ação


25 de dezembro de 1880

Não há motivo para que os estudiosos deem tantos de ombros, como se tivessem de carregar o peso do mundo inteiro: não foram eles que inventaram a ideia revolucionária. Foram os oprimidos que, por meio de suas tentativas — muitas vezes inconscientes — de sacudir o jugo de seus opressores, chamaram a atenção dos estudiosos para a moral social; e só mais tarde alguns poucos pensadores perceberam que isso era insuficiente, e mais tarde ainda outros concordaram em considerá-lo completamente falso.

Sim, é o sangue derramado pelo povo que acaba por formar ideias na cabeça dos estudiosos. “Os ideais nascem dos fatos, e não o contrário”, disse Carlo Pisacane em seu testamento político — e ele estava certo. É o povo que realiza o progresso, assim como a revolução: os aspectos construtivo e destrutivo de um mesmo processo. É o povo que é sacrificado todos os dias para manter a produção universal, e é novamente o povo que alimenta com seu sangue a tocha que ilumina o destino humano.

Quando um pensador que estudou cuidadosamente o livro dos sofrimentos da humanidade define a fórmula das aspirações populares, conservadores e reacionários de todos os tipos, em todo o mundo, começam a gritar a plenos pulmões: “É um escândalo!”

Sim, é um escândalo — e precisamos de escândalos; pois é pela força do escândalo que a ideia revolucionária abre caminho. Que escândalo não provocou Proudhon quando bradou: “A propriedade é um roubo!” Mas hoje não há homem sensato ou sensível que não pense que o capitalista é o pior dos patifes entre os ladrões; mais do que isso — o único verdadeiro ladrão. 

Armado com o mais terrível instrumento de tortura, a fome, ele atormenta sua vítima não por um momento, mas por toda a vida: atormenta não apenas a vítima, mas também a esposa e os filhos do homem que mantém sob seu poder. O ladrão arrisca a liberdade e frequentemente a vida, mas o capitalista, o verdadeiro ladrão, nada arrisca — e, quando rouba, não toma apenas uma parte, mas a totalidade da riqueza do trabalhador.

Mas não basta encontrar uma fórmula teórica. Assim como a ação deu origem à ideia revolucionária, é novamente a ação que deve colocá-la em prática.

No primeiro Congresso da Internacional, havia apenas alguns trabalhadores do proletariado francês que aceitavam a ideia de propriedade coletiva. Foi preciso a luz lançada sobre o mundo inteiro pelos incendiários da Comuna para dar vida e difundir a ideia revolucionária, conduzindo-nos ao Congresso de Haia, que, pelos votos de 48 representantes dos trabalhadores franceses, reconheceu o comunismo livre como objetivo. E, no entanto, ainda nos lembramos de que certos dogmáticos autoritários, cheios de seriedade e sabedoria, repetiam há poucos anos que a Comuna havia freado o movimento socialista ao dar origem à mais desastrosa das reações. Os fatos demonstraram a solidez das opiniões desses “socialistas científicos” (a maioria deles sem conhecer ciência alguma), que tentaram difundir entre os socialistas a conhecida “política dos resultados”.

Assim, é a ação que se faz necessária — ação, e mais ação. Ao agir, trabalhamos ao mesmo tempo para a teoria e para a prática, pois é a ação que dá origem às ideias e também é responsável por difundi-las pelo mundo.

Mas que tipo de ação devemos tomar?

Devemos ir — ou enviar outros em nosso lugar — ao Parlamento, ou mesmo aos conselhos municipais?

Não, mil vezes não! Nada temos a ver com as intrigas da burguesia. Não precisamos nos envolver nos jogos de nossos opressores, a menos que queiramos participar de sua opressão. “Ir ao Parlamento é negociar; e negociar é fazer a paz”, disse um ex-revolucionário alemão, que depois disso negociou bastante.


Nossa ação deve ser a rebelião permanente — pela palavra, pela escrita, pelo punhal, pela arma de fogo, pela dinamite, e às vezes até pelo voto, quando se trata de votar em um candidato inelegível como Blanqui ou Trinquet. Somos coerentes e utilizaremos toda arma que possa servir à rebelião. Tudo é legítimo para nós, desde que não seja legal.

“Mas quando devemos começar a agir, e abrir o ataque?”, às vezes nos perguntam os amigos. “Não deveríamos esperar até que nossa força esteja organizada? Atacar antes de estar pronto é se expor e arriscar o fracasso.”

Amigos, se continuarmos esperando até sermos fortes o bastante antes de atacar — nunca atacaremos, e seremos como o homem prudente que jurou não entrar no mar antes de aprender a nadar. É precisamente a ação revolucionária que desenvolve nossa força, assim como o exercício desenvolve a força de nossos músculos. É verdade que, no início, nossos golpes não serão mortais; talvez até façamos os socialistas sérios e sábios rirem, mas sempre poderemos responder: “Vocês riem de nós porque são tão estúpidos quanto aqueles que riem de uma criança que cai ao aprender a andar. Diverte-os nos chamar de crianças? Muito bem, somos crianças, pois o desenvolvimento de nossa força ainda está em sua infância. Mas, ao tentar caminhar, mostramos que estamos tentando nos tornar homens — isto é, organismos completos, saudáveis e fortes, capazes de fazer uma revolução — e não editores rabiscadores, envelhecidos antes do tempo, sempre remoendo uma ciência que jamais conseguem digerir, e sempre preparando, no espaço e no tempo infinitos, uma revolução que já se dissipou nas nuvens.”

Como devemos começar nossa ação?

Basta observar uma oportunidade — e ela logo aparecerá. Em toda parte onde se possa sentir a rebelião e ouvir o som da luta, é ali que devemos estar. Não espere participar apenas de um movimento que venha rotulado como socialismo oficial. Todo movimento popular já traz em si as sementes do socialismo revolucionário: devemos participar dele para garantir seu crescimento. Um ideal claro e preciso de revolução é formulado apenas por uma minoria ínfima; e, se esperarmos para entrar em uma luta que corresponda exatamente àquilo que imaginamos em nossas mentes — esperaremos para sempre. Não imitem os dogmáticos que exigem a fórmula antes de tudo: o povo carrega a revolução viva em seu coração, e devemos lutar e morrer com ele.

E quando os defensores da ação legal ou parlamentar vierem nos criticar por não termos nada a ver com o povo quando ele vota, responderemos: “Certamente, recusamo-nos a ter qualquer relação com o povo quando ele está de joelhos diante de seu deus, de seu rei ou de seu senhor; mas estaremos sempre com ele quando estiver de pé contra seus poderosos inimigos. Para nós, a abstenção da política não é abstenção da revolução; nossa recusa em participar de qualquer ação parlamentar, legal ou reacionária é a medida de nossa devoção a uma revolução violenta e anarquista — à revolução da ralé e dos pobres.”

- Carlo Cafiero, ano de 1880

Bandeiras Negras

 


I

Bandeiras negras ao vento
manchadas de sangue e sol
Bandeiras negras ao sol
uivando de glória ao vento

Precisamos retornar às origens. Beber nas fontes antigas.

Precisamos retornar ao anarquismo heroico, à audácia individual, violenta, imprudente, poética, descentradora...

E precisamos retornar com cada fibra do nosso instinto moderno, com cada traço da nossa nova concepção de vida e de beleza, com cada parcela do nosso pessimismo saudável e lúcido — que não é renúncia nem impotência, mas uma flor exuberante de vida transbordante. Somos os verdadeiros niilistas da realidade e os construtores espirituais de mundos ideais.

Somos filósofos destrutivos e poetas criadores.

Caminhamos na noite
com um sol na mente
e com duas imensas estrelas douradas
em nossos olhos em chamas

Caminhamos...



II

Há vários anos, todos os reis da terra, todos os tiranos do mundo atravessaram o limiar do tempo e — voltando as costas à aurora — invocaram, em grande voz, os fantasmas do passado, do passado mais sombrio!

Às vozes dos tiranos e reis uniram-se as vozes roucas de todos os grandes avarentos do espírito, da arte, do pensamento e da ideia! — E, nessas vozes, tiranos, reis e avarentos ergueram fantasmas e espectros de seus túmulos, que vieram dançar entre nós...

O “Estado”, a “raça”, a “pátria” eram nuvens tempestuosas macabras assaltando os céus, fantasmas hediondos obscurecendo o sol; lançaram-nos de volta à noite escura de tempos medievais distantes.


III

Morte!

Quem ainda recorda a dança macabra do deus da guerra, funesto e monstruoso?

Quem ainda recorda a guerra?

Muito tempo passou entre então e agora, mas sobre esta terra miserável e, ainda assim, nobre — fertilizada por cadáveres estéreis e inchada de sangue infecundo — não brota hoje uma única flor ideal, virgem, feita de espiritualidade e pureza.

Não, as flores que nascem agora nos torrões secos desta terra, tão inutilmente banhada em sangue, não são flores de vida florescente, capazes de grande esperança, luta viril, pensamento vigoroso; são antes flores de morte, nascidas na sombra, crescendo na angústia do inconsciente, varridas pelo furacão, levadas pela corrente do rio do esquecimento...

...

Não sou um sentimentalista... mas guardo uma memória horrível da guerra.

Foi isso que me levou a odiar e depois desprezar os homens. Antes, porém, de desprezá-los e odiá-los, recolhi todas as lágrimas da humanidade em meu coração e encerrei todas as dores do mundo na vasta síntese da minha mente...

...

Até mesmo o espírito do grande Zaratustra — o mais verdadeiro amante da guerra e o mais sincero amigo do guerreiro — deve ter sentido um nojo horrível desta guerra...

Deve ter sentido um nojo horrível, pois eu o ouvi clamar: “Deveis buscar o vosso próprio inimigo, lutar a vossa própria guerra, e por vossas próprias ideias!”

E, se a vossa ideia sucumbir, que a vossa retidão grite em triunfo.

Mas, ai! a pregação heroica do grande libertador não deu em nada!

O rebanho humano não soube distinguir seu próprio inimigo nem travar sua própria guerra por suas próprias ideias. (O rebanho não tem ideias próprias!)

E, não conhecendo suas próprias ideias pelas quais poderia triunfar, Abel morreu mais uma vez pelas mãos de Caim.

Foi chamado para morrer — e foi, como sempre. Assim!

Sem saber dizer nem Sim nem Não! Vai como um covarde, como um autômato, como sempre.

Se ao menos tivesse a capacidade de dizer o Sim da obediência entusiástica — já que não possuía a força heroica de pronunciar o titânico Não da negação trágica — ao menos teria mostrado que acreditava na “causa” pela qual morreu, lutando...

mas não soube dizer nem sim nem não!

Ele foi!

Como um covarde, como sempre!

Assim...

E quando partiu, foi em direção à morte.

Foi em direção à morte sem saber por quê.

Como sempre!

E a morte não esperou...

Ela veio!...

Veio e dançou.

Dançou e riu!

Por cinco longos anos...

Riu e dançou sobre as trincheiras enlameadas de todas as pátrias do mundo.

Uma dança macabra!

Oh, quão idiota e vulgar — quão selvagem e brutal — é esta morte que dança sem as asas de uma ideia às costas.

Sem uma ideia violenta que esmague e destrua.

Sem uma ideia fecunda que gere e crie.

Que coisa estúpida e horrenda é morrer como covardes, sem saber por quê.

Nós a vimos — enquanto dançava — a Morte.

Era uma Morte negra, opaca, sem qualquer transparência de luz.

Era uma Morte sem asas!...

Quão feia e vulgar ela era.

Quão desajeitada era sua dança!

E como ceifava — dançando — todos os supérfluos, aqueles que eram em maior número!

Aqueles para os quais — como diz o grande libertador — o Estado foi inventado.

Mas, ai, não ceifou apenas esses...

Sim! A Morte — para vingar o Estado — ceifou também aqueles que não eram inúteis, aqueles que eram necessários...

Ceifou também aqueles para quem a vida era um poema profundo, onde a dor sublimada entoava um refrão brincalhão...

Mas aqueles que não eram muitos, aqueles que não eram supérfluos, aqueles que tombaram gritando o rebelde e poderoso Não titânico: esses serão vingados.

Nós os vingaremos!

Nós os vingaremos porque eram nossos irmãos; porque morreram com estrelas nos olhos; porque, ao morrer, beberam o sol.

O sol do Sonho.

O sol da Batalha.

O sol da Vida.

O sol da Ideia!

IV

A guerra!...

O que a guerra renovou?

Onde está a transfiguração heroica do espírito?

Onde foram penduradas as tábuas fosforescentes dos novos valores humanos?

Em que templo sagrado se encontram as ânforas de ouro milagrosas, contendo os corações flamejantes dos gênios criadores e dos heróis dominadores, que os frenéticos defensores da grande guerra prometeram?

Onde brilha o sol majestoso da grande nova aurora?

Rios pavorosos de sangue lavaram toda a relva do mundo e correram uivando por todos os caminhos da terra.

Torrentes aterradoras de lágrimas fizeram ecoar seu lamento dilacerante e angustiado pelos redemoinhos mais sombrios e remotos de todos os continentes.

Montanhas de ossos e carne humana apodreceram por toda parte na lama — e por toda parte gritaram ao sol.

Mas nada mudou — foi inútil!

O ventre burguês, carcomido de vermes, apenas arrotou de saciedade! E o do proletário uivou de fome excessiva!

E basta!

Se com Cristo e o cristianismo o espírito humano foi suspenso no vazio frio e oco do além, com Karl Marx e o socialismo ele foi feito descer às entranhas...

O rugido que soou pelo mundo após a guerra, sacudindo a humanidade, não foi senão um rugido de ventre — que o socialismo traiu, esmagou, sufocou, estrangulou, assim que percebeu que esse rugido começava a tomar um pouco da cor de um conteúdo ideal...

Consumada essa suprema e inominável covardia, nasceu e cresceu imensamente a reação mais negra, mais sombria, mais funesta.

Era lógico — natural — fatal!

Era humano...


V

O nosso tempo — apesar das aparências vazias e contrárias — já se encontra de quatro sob as pesadas rodas de uma nova História.

A moral bestial da nossa civilização bastarda — cristã-liberal-burguesa-plebeia — inclina-se para o ocaso...

A nossa falsa organização social desmorona fatalmente — inexoravelmente!

O fenômeno fascista é a prova mais segura, mais incontestável disso.

Na Itália como em outros lugares...

Para demonstrá-lo, bastaria recuar no tempo e interrogar a história. Mas nem isso é necessário! — O presente fala com eloquência suficiente...

O fascismo nada mais é do que um espasmo cruel e convulsivo de uma sociedade em decomposição, que se afoga tragicamente no pântano de suas próprias mentiras.

Pois ele — o fascismo — celebra, sim, suas bacanais com piras flamejantes e orgias malignas de sangue; mas o crepitar opaco de seus fogos lívidos não desprende uma única centelha de espiritualidade inovadora e viva; enquanto isso, que o sangue derramado se transforme em vinho, para que nós — os precursores do tempo — o recolhamos silenciosamente em cálices vermelhos de ódio, reservando-o como bebida heroica a ser transmitida aos filhos da noite e da dor, na comunhão fatal da grande revolta.

Tomaremos esses nossos irmãos pela mão para marchar juntos e escalar juntos rumo a novas auroras espirituais, a novas alvoradas da vida, a novas conquistas do pensamento, a novos festins de luz; novos meios-dias solares.

Porque somos amantes da luta libertadora.

Somos filhos da dor que se eleva e do pensamento que cria.

Somos vagabundos inquietos.

Os mais ousados em toda empreitada; os tentadores de toda prova.

E a vida é uma “prova”! Um tormento! Um voo trágico. — Um instante fugaz!


VI

A nossa vontade é heroica!

Agitaremos tudo num turbilhão de ódio no coração do mundo, e transmutaremos tudo numa tempestade do abismo.

Num furacão dos picos.

Em gritos da mente.

Em uivos de liberdade!

Celebrando o evensong social, tentaremos realizar plenamente a vida individual, do eu livre e grandioso.

Para que a noite não mais triunfe.

Para que a sombra não mais se enrosque em nós.

Para que o fogo incessante do sol se torne eterno e perpetue seu festim de luz sobre a terra e o mar!

Porque somos sonhadores ardentes do impossível, perigosos conquistadores das estrelas!

VII

O fascismo — apesar das aparências vazias e contrárias — é algo demasiado efêmero e impotente para impedir o curso livre e desenfreado do pensamento rebelde, que transborda e se expande, irrompendo impetuosamente para além de toda barreira e se difundindo furiosamente além de todo limite — como uma força poderosa, animadora e motriz — arrastando atrás de seus passos gigantescos a ação vigorosa e titânica do duro músculo humano.

O fascismo é impotente, porque é força bruta.

É matéria sem espírito.

É corpo sem mente.

É noite sem aurora!

Ele — o fascismo — é a outra face do socialismo...

São espelhos sem luz. Duas estrelas exauridas!

O socialismo é a força numérica — material — que, ao agir à sombra de um dogma, resolve-se e dissolve-se num miserável “não” espiritual que o esvazia de toda resiliência ideal, indomada, voluntariosa e heroica. O fascismo é um filho epiléptico desse “não” espiritual, brutalizado ao aspirar — em vão — a um vulgar “sim” material.

No campo dos valores morais, são iguais. Fascismo e socialismo são dois dignos irmãos. Ainda que se chame um de Abel e o outro de Caim. Um mesmo Sonho os une. E esse sonho chama-se Poder.



VIII

Bandeiras negras ao vento
manchadas de sangue e sol
Bandeiras negras ao sol
uivando de glória ao vento

O que a guerra não fez — e não pôde fazer — a revolução pode e deve fazer!

Ó, bandeiras negras erguidas
no punho rebelde de um homem
enquanto fixa o olhar intensamente
para além da mentira dominante
— tremulando ao sol e ao vento
tremulando ao vento e ao sol
A vitória sorri ao longe!
Ao longe — ao longe — ao longe!
Na glória do sol e do vento!



IX

Fascismo e socialismo são ataduras do tempo, adiadores do ato!

São fósseis cristalizados em fúria, que o dinamismo voluntarioso — com o qual animamos a história em seu curso — varrerá para a vala comum dos tempos. — Porque, no campo dos valores espirituais e éticos, os dois inimigos são o mesmo.

São duas faces da mesma moeda.

Ambos carecem da luz da eternidade!

Somente os grandes vagabundos intelectuais — portadores da bandeira negra — podem ser o fulcro luminoso e animador da revolução eterna que impulsiona o mundo adiante.


X

Nossa alma voluntariosa é multiforme...

A pulsação ardente do sol e os tremores trêmulos das estrelas a atravessam!

Somos poetas rebeldes e filósofos da destruição.

Somos anarquistas.

Iconoclastas!

Individualistas,

ateus,

niilistas!

Somos os portadores das bandeiras negras.

Caminhamos na noite
com um sol na mente,
e com duas imensas estrelas douradas
brilhando em nossos olhos em chamas!

Seguimos caminhando!...

E, no teatro da humanidade, o nosso lugar está na mais extrema de todas as extremas esquerdas.



XI

Por trás da gigantesca nuvem negra que ainda cobre o céu, cintila um crepúsculo vermelho.

A trágica celebração do entardecer vermelho se aproxima.

A última noite negra tornar-se-á vermelha de sangue.

De sangue e de fogo.

Porque o sangue exige sangue.

É uma velha história...

E então nossos filhos — os filhos da Aurora — deverão nascer do sangue e ser forjados pelo fogo.

Porque novas ideias individuais devem nascer, mais virginais e mais belas, das grandes tragédias sociais, do tumulto de novos furacões!

E é somente da grande catástrofe ardente e sangrenta que nascerá o verdadeiro e profundo Anticristo da humanidade e do pensamento. O verdadeiro filho da terra e do sol, capaz de escalar os picos e sondar os abismos.

Porque o Anticristo é Águia e Serpente.

Ele habita os picos e as profundezas.

Ele — o espírito do novo homem — atravessará as ruínas fumegantes do velho mundo destruído para erguer-se em direção ao magnífico mistério da aurora virgem que vem.

Belo e soberbo — ele se erguerá no limiar da nova manhã, saturado da força selvagem e cintilante da beleza sobre-humana, dizendo aos homens hesitantes: Avante, avante!

Arremetemos para além de todo sistema
Arremetemos para além de toda forma
Voamos em direção à mais alta liberdade
Rumo à ANARQUIA extrema!



XII

Nós — espíritos livres — vagabundos da ideia — ateus da solidão — demônios do deserto invisível.

Nós — monstros luminosos da noite — já alcançamos os picos.

Caminhamos na noite
com um sol na mente,
e com duas imensas estrelas douradas
brilhando em nossos olhos em chamas!

E — conosco — tudo deve ser levado às suas últimas consequências.

Até o ódio.

Até a violência.

Até o “crime”!

Porque o ódio dá a força que ousa.

A violência e o “crime” são o gênio que destrói e a beleza que cria.

E nós queremos ousar.

Destruir — renovar — criar!

Porque tudo o que é baixo e vulgar deve ser despedaçado e destruído.

Somente o que é grande deve permanecer.

Porque o que é grande pertence à beleza.

E a vida deve ser bela.

Mesmo na dor.

Mesmo no furacão!...


XIII

Matamos o “dever” da solidariedade, para que o nosso livre ímpeto de amor espontâneo e de paternidade voluntária adquira um valor heroico na vida.

Matamos a piedade, porque é uma falsa emoção cristã e porque queremos criar um egoísmo generoso, nobre e não reconhecido.

Estrangulamos os falsos direitos sociais — criadores de humildes mendigos covardes — para que o homem escave o seu “eu” mais profundo e secreto e encontre a força do Único.

Porque nós mesmos o sabemos.

A vida está cansada de amantes atrofiados.

Porque a terra está cansada de ser inutilmente pisoteada por enormes hordas de anões cristãos, estúpidos, que cantam e rezam.

E, por fim, porque também estamos cansados desses nossos “irmãos” carniceiros, incapazes de paz ou de guerra. Inferiores no ódio e no amor.

Sim! Estamos fartos!

A humanidade deve ser renovada.

É preciso que um canto épico e bárbaro de vida nova e virgem ressoe pelo mundo.

Somos os portadores
de tochas flamejantes.
Somos os acendedores
de piras crepitantes.
Nossa bandeira é negra.
Nosso caminho é o infinito.
E o nosso ideal supremo
é o cume e o abismo.

Seguimos caminhando!...

Caminhamos na noite
com um sol na mente,
e com duas imensas estrelas douradas
brilhando em nossos olhos em chamas!

Seguimos caminhando...

E se o nosso sonho for uma ilusão?

E se as nossas lutas forem inúteis e vãs? E se a renovação da humanidade for impossível?

Ah, não! Seguiremos caminhando assim mesmo.

Por nossa própria dignidade.

Pelo amor às nossas ideias.

Pela liberdade dos nossos espíritos.

Pela paixão da nossa mente.

Pela necessidade da nossa vida.

Melhor morrer como heróis, num esforço de libertação e elevação de si, do que vegetar como covardes impotentes nesta realidade repugnante.

Ó bandeiras negras,
ó troféus negros,
emblemas e símbolos
da revolta eterna.

Vós, que sois a prova sangrenta de toda audácia humana:

Vós, que sois os destruidores de todo preconceito:

Vós, que sois os únicos verdadeiros inimigos de toda vergonha humana — de todas as mentiras sinistras!

Vós, que cantais a revolta eterna, encharcados de dor e de sangue!

Eu a aperto em meu punho forte
e, em meio às tempestades de vento,
eu a ergo na glória do sol.
Na glória do sol e do vento...
Do vento, do sol e da luz.

- Renzo Novatore 

quinta-feira, 28 de maio de 2026

O Que Significa Revolução


Nós dizemos, em nosso artigo precedente, que uma grande revolução está crescendo na Europa. Nós nos aproximamos de um tempo em que evolução lenta que vem acontecendo ao longo da segunda parte do nosso século, por mais que ainda impedida de vicejar, vai romper com os obstáculos que se encontram em seu caminho e vai tentar remodelar a sociedade de acordo com as novas necessidades e tendências. Tanto que, até agora, a lei do desenvolvimento nas sociedades, e a atual relutância das classes privilegiadas em reconhecer a justiça das reivindicações dos sem privilégios, suficientemente mostra que as lições do passado não lhes foram proveitosas. A Evolução vai assumir sua forma febricitante - A Revolução.

Mas o que uma é revolução? Se perguntarmos aos nossos historiadores, o que se entenderia é que significa muito barulho nas ruas; oradores bravios perorando em associações; motins quebrando janelas e destruindo casas; pilhagem, conflitos urbanos, e assassinatos; contendas exasperadas entre partidos; deposição violenta de governos vigentes, e denominação de novos tão impotentes em resolver os grandes problemas iminentes quanto os antigos; e então, o descontentamento geral, o crescimento da miséria; disseminação do reacionarismo sob a bandeira manchada de sangue do Terror Branco; e finalmente, a reformulação de um governo pior que o anterior. 

Esse é o quadro traçado pela maioria dos historiadores. Mas isso não é uma revolução. Existe nesse quadro alguns dos aspectos acidentais das revoluções, mas falta a sua essência. Quebra de janelas e conflitos urbanos podem ser também característicos de um tumulto; e uma mudança violenta de governo pode ser o resultado de uma simples insurreição. Como aconteceu, por exemplo, em toda Europa em 1848. Uma revolução tem um significado muito mais profundo. Pode haver conflitos urbanos ou não; pode haver destruição de casas ou não. Mas em uma revolução, deve haver modificação abrupta de instituições econômicas e políticas já superadas, uma derrubada das injustiças acumuladas nos séculos passados, uma transposição da riqueza e do poder político.

Quando percebemos, por exemplo, que durante anos de 1789 a 1793 os últimos resquícios das instituições feudais foram abolidos da França; o camponês que formalmente era - economicamente, se não mais legalmente - um servo do senhorio, se transformou em um homem livre; que o bem comum retomou a posse do solo cercado pelos proprietários de terra; que o poder absoluto do Rei, ou melhor, dos seus vassalos, foi rompido para sempre no decurso de apenas alguns anos; e que o poder político foi transferido das mãos de alguns poucos vassalos para as mãos das classes médias(1), - então dizemos que, foi uma Revolução.

E nós sabemos que nem o Movimento de Restauração nem o Terror Branco poderiam reconstituir os direitos feudais da nobreza, nem os da aristocracia latifundiária, nem o poder absoluto do Rei. Foi tanto uma revolução que, embora pareça derrotada, compeliu a Europa em sua extensão a seguir o seu programa - que é, abolir a servidão e introduzir o governo representativo. E para encontrá-lo, não devemos olhar para as pequenas eclosões dos nossos tempos; nós devemos regressar ao século XVII - à Revolução que tomou forma nesse país, com aproximadamente o mesmo programa, as mesmas tendências e consequências.

Quanto aos conflitos urbanos e as execuções, que preocupa tanto os historiadores, são incidentais ao aspecto grandioso da luta. Elas não constituem a sua essência e provavelmente não teriam ocorrido se as classes dominantes tivessem compreendido de vez a nova força que havia crescido entre elas e ao invés de maquinar contra, tivesse trabalhado de maneira franca a fim de contribuir para que a nova ordem das coisas tome forma na vida. 

Uma revolução não é uma mera mudança de governo, pois um governo, não obstante poderoso, não pode derrubar instituições através de meros decretos. Os seus decretos permaneceriam como letras mortas se ao redor do território uma demolição de instituições em decadência, econômica e política, não estivesse acontecendo espontaneamente.

Novamente, não é o trabalho de um dia. Significa um período inteiro, duradouro por muitos anos, durante os quais o país esteja é um estado de efervescência; quando milhares de espectadores a princípio indiferentes tomarem parte viva em assuntos públicos; quando a mentalidade pública, jogando fora os os limites que a restringe, livremente discuta, critique e repudie as instituições que são um entrave ao desenvolvimento livre; quando ela ousadamente abarcar problemas que outrora parecessem insolúveis. 

O problema principal que o nosso século impõe sobre nós é um problema econômico, e problemas econômicos implicam uma mudança tão profunda em todos os aspectos da vida pública que eles não podem ser resolvidos através de leis. As leis formuladas até mesmo por órgãos revolucionários têm sancionado principalmente fatos consumados.

A classe trabalhadora em toda Europa ruidosamente afirma que as riquezas produzidas pelos esforços coletivos de gerações passadas e presentes não pode ser apropriado por uma minoria. Eles consideram injusto que os milhões dispostos a trabalhar dependam da boa vontade, ou melhor da ganância, de uma minoria, para conseguir trabalho. Eles clamam por uma reorganização completa da produção; eles negam ao capitalista o direito de embolsar os lucros da produção porque o Estado o reconhece como proprietário do solo, do campo, da casa, da mina de carvão, ou da maquinaria, que, sem o usufruto destes, a maioria não pode fazer nenhum trabalho útil. Eles ruidosamente requerem uma organização de distribuição mais igualitária.

Mas esse imenso problema - a reorganização da produção, redistribuição de riqueza e da permuta, de acordo com os novos princípios - não pode ser resolvido por comissões parlamentares nem por nenhum tipo de governo. Deve ser um desenvolvimento natural resultado dos esforços combinados de todos aqueles que têm interesse, liberto das amarras das instituições vigentes. Deve desenvolver-se naturalmente passando de simplórias à complexas federações, e não pode ser algo esquematizado por poucos e ordenado pelos de cima. Nessa forma final isso certamente não teria qualquer chance de existir.

Mas essa reorganização econômica significa também a reformulação de todas estas instituições que são agora acostumadas a apelar a organização política de uma nação. Uma nova organização econômica necessariamente clama por uma nova organização política. Os direitos feudais se acomodaram perfeitamente às monarquias absolutistas; a exploração soberana das classes médias tem prosperado sob o governo representativo. Mas novas formas de vida econômica vão requerer também novas formas de vida política, e estas novas formas não podem ser um reforço do poder do Estado cedendo às suas mãos a produção e distribuição de riqueza, e seu produto.

O progresso humano está avançando em uma direção oposta; mirando na limitação do poder do Estado sobre o indivíduo. E a revolução não pode senão seguir a mesma vertente. 

Se os tempos são maduros o suficiente para remodelações substanciais da vida, tais remodelações serão resultado de inúmeras ações espontâneas de milhões de indivíduos; irá em uma direção anarquista, e não em uma governamental; e vai resultar em uma sociedade proporcionadora de recreação livre para o indivíduo e o livre agrupamento de indivíduos, ao invés de consolidar a submissão ao Estado. Se a Revolução vindoura não estiver fadada a perecer antes de realizar os seus propósitos, ela será anarquista, não autoritária.


- Peter Kropotkin 

(1) “as classes médias” significam a burguesia nesse período porque eles são a classe que está entre trabalhadores e aristocratas.

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Justiça, Administração, Polícia


Ano de 1851

Justiça

Justiça, Autoridade, termos incompatíveis, mas que o homem comum obstina-se em fazer sinônimos. Ele diz autoridade de justiça, assim como governo do povo, por hábito do poder, e sem perceber a contradição. De onde vem essa depravação de idéias?

A justiça começou como a ordem, pela força. Lei do príncipe na origem, não da consciência; obedecida por temor, não por amor, ela se impõe em vez de expor: assim como o governo, não é outra coisa senão distribuição mais ou menos calculada do arbítrio.

Sem ir além de nossa história, a justiça era na Idade Média uma propriedade senhorial, cuja exploração ora se fazia pelo senhor em pessoa, ora era confiada a arrendatários ou intendentes. Estava-se à mercê da justiça do senhor como se estava sujeito à corveia, como ainda hoje se é contribuinte. Pagava-se para se fazer julgar, assim como para moer seu trigo e assar seu pão: é óbvio que aquele que pagava mais tinha maior chance de ter razão. Dois camponeses convictos de fechar um acordo diante de um árbitro teriam sido tratados como rebeldes, e o árbitro perseguido como usurpador. Pronunciar a justiça alheia, que crime abominável!...

Pouco a pouco, agrupando-se o país em volta do primeiro barão, que era o rei da França, presumiu-se que toda a justiça dele dependia, fosse como concessão da coroa aos feudatários, fosse como delegação a companhias executoras de justiça, cujos membros pagavam seus impostos, assim como hoje fazem os escrivães procuradores, mediante uma polpuda soma.

Enfim, desde 1789, a Justiça é exercida diretamente pelo Estado, que sozinho pronuncia julgamentos executórios , e fatura, sem contar as multas, uma soma fixa de 27 milhões. O que ganhou o povo com essa mudança? Nada. A Justiça permanece o que era antes, uma emanação da autoridade, isto é, uma fórmula de coerção radicalmente nula, e em todas as suas disposições, recusável. Não sabemos o que é a justiça.

Amiúde ouvi discutirem essa questão: tem a sociedade o direito de punir com a morte? Um italiano, gênio de resto assaz medíocre, Beccaria, construiu no século passado uma reputação pela eloquência com a qual refutou os partidários da pena de morte. E o Povo em 1848 acreditou ter feito maravilha, enquanto aguarda algo melhor, ao abolir essa pena em matéria política.

Mas nem Beccaria, nem os revolucionários de fevereiro abordaram o fundamental da questão. A aplicação da pena de morte é apenas um caso particular da justiça criminal. Ora, trata-se de saber se a sociedade tem o direito, não de matar, não de infligir uma pena, por mais leve que seja, nem mesmo de absolver e agraciar, mas de julgar.

Que a sociedade se defenda, quando é atacada, é seu direito.

Que ela se vingue, com risco de represálias, isso pode ser de seu interesse.

Mas que ela julgue, e, depois de ter julgado, puna, eis o que não aceito; não aceito porque recuso toda autoridade, qualquer que seja.

Só o homem tem o direito de se julgar, e se ele se sente culpado, se crê que a expiação é-lhe boa, de reivindicar para si um castigo. A justiça é um ato de consciência, essencialmente voluntário: ora, a consciência não pode ser julga condenada ou absolvida senão por si mesma: o resto é guerra, regime de autoridade e barbárie, abuso de força.

Vivo em companhia de infelizes – é o nome que eles se dão -, que a justiça arrasta diante dela por causa de roubo, falsificação, falência, atentado ao pudor, infanticídio, assassinato.


Compreendo que esses homens, em guerra com seus semelhantes, sejam intimados, obrigados a reparar o dano que causam, a suportar as conseqüências de seus atos, e até um certo ponto, ainda pagar a multa pelo escândalo e pela insegurança com maior ou menor premeditação, de que são sujeitos. Compreendo, eu dizia, e aplicação do direito da guerra entre inimigos. A guerra também pode ter, não digo sua justiça, seria profanar esse santo nome, mas sua balança.

Todavia, fora disso, que esses mesmos indivíduos sejam trancafiados, sob pretexto de penitência, em estabelecimentos de força, estigmatizados, acorrentados, torturados em seus corpos e suas almas, guilhotinados ou, o que é pior, colocados para cumprir suas penas sob a vigilância de uma polícia cujas inevitáveis revelações perseguem-nos no fundo de seu refúgio; mais uma vez nego, da maneira mais absoluta, que nada, nem na sociedade, nem na consciência, nem na razão, autoriza semelhante tirania. O Código não faz justiça, mas vingança, a mais iníqua e a mais atroz, último vestígio do antigo ódio das classes patrícias contra as classes servis.

Que pacto fizestes com esses homens, para que vos arrogueis o direito de torná-los responsáveis por seus crimes, pelo grilhão, pelo sangue, pelo ferrete? Que garantias ofereceste-lhes, pelas quais podeis vos gabar? Que condições eles tinham aceitado e que violaram? Que limite, imposto ao transbordamento de suas paixões e reconhecido por eles, excederam’? O que fizestes por eles, enfim, que eles devam ter feito por vós, e o que vos devem? Procuro o contrato livre e voluntário que os une, e só percebo a espada de justiça suspensa sobre suas cabeças, o gládio do poder. Exijo o compromisso textual e recíproco, assinado por suas mãos, que pronuncia sua decadência: só encontro as prescrições cominatórias e unilaterais de um pretenso legislador, que não pode ter autoridade a seus olhos senão pela assistência do carrasco.

Lá onde não há convenção, não pode haver, no foro exterior, nem crime nem delito. E pego-vos aqui por vossas próprias máximas: tudo o que não é proibido pela lei é permitido e A lei só dispõe para o futuro e não tem feito retroativo.

Pois bem! a lei – isso está escrito há sessenta anos em toda as vossas constituições – é a expressão da soberania do Povo, isto é, o contrato social, o engajamento pessoal do homem e do cidadão. Visto que não a desejei, que não consenti, não votei, não assinei, essa lei não me obriga a nada, ela não existe. Prejulgá-la antes de reconhecê-la, e beneficiar-vos dela contra mim malgrado minha protestação, é dar-lhe um efeito retroativo e violá-la. Todos os dias acontece-vos de anular um julgamento por um vício de forma. Mas não há sequer um de vossos atos que não esteja maculado de nulidade, e da mais monstruosa das nulidades, a suposição da lei. Soufflard, Lacenaire, todos os celerados que enviasses ao suplício, agitam-se em seus túmulos e acusam-vos de falsificação judiciária. O que tendes a responder-lhes?

Não falemos de consentimento tácito, de princípios eternos da sociedade, de moral das nações, de consciência religiosa. É precisamente porque a consciência universal reconhece um direito, uma moral, uma sociedade, que se deveria exprimir seus preceitos, e propô-los à adesão de todos. Vós o fizestes? Não! Editastes o que vos aprouve; e chamais esse édito de regra das consciências, ditame do consentimento universal. Oh! Há demasiada parcialidade em vossas leis, muitas coisas subentendidas, equivocadas, sobre as quais não estamos absolutamente de acordo. Protestamos contra vossas leis e contra vossa justiça.

Consentimento universal! Isso lembra o pretenso princípio, que nos apresentais também como uma conquista, segundo o qual todo acusado deve ser enviado diante de seus pares, que são seus juízes naturais. *Derrisão! Esse homem, que não foi chamado para discutir a lei, que não a votou, que sequer a leu, que não a compreenderia se pudesse lê-Ia, que nem mesmo foi consultado quanto à escolha do legislador, tem ele juízes naturais? Ora, capitalistas, proprietários, pessoas felizes, que se puseram de acordo com o governo, que gozam de sua proteção e de seu favor, estes são os juízes naturais do proletário! Esses são homens probos e livres que, sobre sua honra e sua consciência – que garantia para um acusado! -, diante de Deus – que nunca entendeu; diante dos homens, dentre os quais ele não está incluído, o declararão culpado; e se ele protesta contra as más condições que a sociedade lhe deu, se se recorda das misérias de sua vida e de todas as amarguras de sua existência, opor-lhe-ão o consentimento tácito e a consciência da espécie humana!

Não, não, magistrados, não sustentareis mais esse papel de violência e hipocrisia. Já é bastante que ninguém conteste vossa boa-fé, e que em consideração por essa boa-fé o futuro vos absolva, mas não ireis mais adiante. Não tendes valor par julgar; e essa falta de valor, essa nulidade de vossa investidura, ela vos foi implicitamente notificada no dia em que foi proclamado, diante do mundo, numa federação de toda a França, o princípio da soberania do Povo, que não é outro senão o da soberania individual.

Só há, lembrai-vos bem disso, uma única maneira de fazer justiça: que o acusado, ou simplesmente o intimado, o faça por si mesmo. Ora, ele o fará quando cada cidadão tiver aderido ao pacto social; quando, nessa convenção solene, os direitos as obrigações e as atribuições de cada um tiverem sido definidos, as garantias intercambiadas e a sanção subscrita.

Então a justiça, procedendo da liberdade, não será mais vingança, será reparação. Como não existirá mais oposição entre a lei da sociedade e a vontade do indivíduo, a recriminação ser-lhe-á estranha, ele só terá como refúgio a confissão.

Aí também a instrução dos processos se reduzirá a uma simples convocação de testemunhas, entre o queixoso e o acusado, entre o demandante e sua parte não será necessário outro intermediário senão os amigos aos quais solicitarão a arbitragem (...)

A abolição completa, imediata, sem transição, nem qualquer substituição que seja, das cortes e dos tribunais, é uma das primeiras necessidades da revolução. Qualquer prazo que se tome para as outras reformas (... ), em todos os casos, a supressão das autoridades judiciárias não pode sofrer adiamento. Do ponto de vista dos princípios, a justiça constituída é apenas uma fórmula do despotismo, por conseqüência, uma negação da liberdade e do direito. Lá onde deixarmos subsistir uma jurisdição, lá teremos erigido um monumento de contrarevolução, do qual ressurgirá cedo ou tarde uma autocracia política ou religiosa.

Do ponto de vista político, recolocar nas mãos das antigas magistraturas, imbuídas de idéias nefastas, a interpretação do novo pacto, seria tudo comprometer. Constatamos isso com grande facilidade: se os homens da justiça mostram-se impiedosos em relação a socialistas, é que o socialismo é a negação da função jurídica, assim como da lei que a determina. Quando o juiz sentencia um cidadão acusado, segundo a lei, por idéias, palavras ou escritos revolucionários, não é mais um acusado que ele golpeia, é um inimigo. Por respeito à justiça, suprimamos esse funcionário que, exercendo o direito, combate por sua toga e seu tribunal.

Administração, Polícia

Tudo é contradição em nossa sociedade: é por isso que não conseguimos nos entender e estamos sempre prontos à luta. A administração pública e a polícia vão oferecer-nos uma nova prova disso.

Se há hoje algo que pareça a todo mundo inconveniente, sacrílego, atentatório aos direitos da Razão e da Consciência, é um governo que, usurpando o campo da fé, teria a pretensão de regulamentar os deveres espirituais de seus subordinados. Mesmo aos olhos dos cristãos, semelhante tirania seria intolerável: na falta de insurreição, o martírio se encarregaria de responder. A Igreja, instituída do alto e inspirada, afirma seu direito de governar as almas; todavia, coisa extraordinária, e que da parte dela é um começo de liberalismo, recusa esse direito ao Estado. Não toquem no incensório, exclama aos príncipes. Sois os bispos de fora; somos os bispos de dentro. Diante de vós a fé é livre; a religião não provém de vossa autoridade.

Sobre esse ponto a opinião, ao menos na França, é unânime. O Estado ainda quer pagar o culto, e a Igreja aceitar a subvenção; quanto ao fundo do dogma e às cerimônias, o Estado não se imiscui de modo algum. Crede ou não, adorai ou não adorai nada, é ad libitiun . O Governo decidiu não mais intervir nos assuntos de consciência.

Ora, das duas uma: ou o Governo, fazendo esse sacrifício de iniciativa, caiu num grave erro; ou então, quis dar um passo para trás e nos dar uma primeira garantia de seu recuo. Por que, com efeito, se o Governo não se vê no direito de nos impor a religião, pretenderia em contrapartida nos impor a lei? Por que, não contente com essa autoridade de legislação, exerceria ainda uma autoridade de justiça? Por que uma autoridade de polícia? Por que, enfim, uma autoridade administrativa?...

Ora o Governo entrega-nos a direção de nossas almas – a parte mais séria de nosso ser – o governo da qual depende inteiramente – com nossa felicidade na outra vida – a ordem nesta aqui; e, tão logo se trata de nossos interesses materiais, assuntos comerciais, relações de boa vizinhança, as coisas mais vis, o Poder se mostra, intervém. 

O Poder é como a criada do padre, entrega a alma ao demônio; o que ele quer é o corpo. Desde que tenha a mão em nossos bolsos, zomba de nossos pensamentos. Ignomínia! Não podemos administrar nossos bens, acertar nossas contas, transigir sobre nossas diferenças, assegurar nossos interesses comuns, da mesma forma que não podemos sequer zelar por nosso bem-estar e cuidar de nossas almas? O que temos a ver com a legislação do Estado, a justiça do Estado, a polícia do Estado e a administração do Estado, mais do que com a religião do Estado? Que razão, que pretexto o Estado fornece dessa exceção à liberdade local e individual?

Dir-se-á que a contradição é apenas aparente; que a autoridade é, com efeito, geral e nada exclui; mas que, para seu mais perfeito exercício, ela teve de se dividir em dois poderes iguais e independentes: um, a Igreja, a quem é confiada a responsabilidade das almas; o outro, o Estado, a quem pertence o governo dos corpos.

A isso respondo, de início, que a separação do Estado e da Igreja não foi feita de modo algum com vistas a essa melhor organização, senão em conseqüência da incompatibilidade dos interesses que eles regem; em segundo lugar, que os resultados dessa separação foram os mais deploráveis, visto que a Igreja, tendo perdido a direção do temporal, acabou por não ser mais ouvida, mesmo no espiritual; enquanto o Estado, fingindo só se envolver com questões materiais e só as resolvendo pela força, perdeu o respeito e provocou por toda a parte a reprovação dos povos. E é precisamente por isso que o Estado e a Igreja, convictos, mas demasiado tarde, de sua indiscernibilidade, tentam hoje, por uma fusão impossível, reerguer-se, no momento mesmo em que a Revolução pronuncia simultaneamente sua dupla falência.

Mas nem a Igreja, faltando-lhe sanção política, poderia conservar a direção das idéias; nem o Estado, desprovido de princípios superiores, pode aspirar à dominação dos interesses; quanto à sua fusão, ela é ainda mais quimérica do que aquela entre a monarquia absoluta e a monarquia constitucional. O que a liberdade separou, a autoridade não reunirá.

Minha pergunta subsiste por completo: em virtude de que direito o Estado, indiferente às idéias e aos cultos, ateu como a lei, tenciona administrar os interesses?

A essa pergunta, inteiramente de direito e moralidade, opõem-nos:

1º Que os cidadãos e as comunas, não podendo conhecer interesses gerais, visto que não poderiam estar de acordo, necessitam de um árbitro soberano;

2º Que as coisas também não podendo caminhar em sua globalidade, unitariamente, se cada localidade, cada companhia, cada grupo de interesses fosse abandonado à sua própria inspiração, se os funcionários públicos recebessem tantas ordens diferentes, contraditórias, quanto há de interesses particulares, seria indispensável que a impulsão partisse de um motor único, conseqüentemente que os funcionários fossem nomeados pelo Governo.

Não se sai disso: antagonismo inevitável, fatal, dos interesses, eis o motivo; centralização ordenadora e hierárquica, eis a conclusão.

Foi segundo esse raciocínio que nossos pais, em 93, após terem destruído o direito divino, o regime feudal, a distinção de classes, as justiças senhoriais etc., reformaram um governo que tinha sua fonte no mandato eleitoral, e condenaram o partido da Gironda, que, sem poder dizer como tencionava conservar a unidade, não queria, contudo, segundo sustentam, centralização.

Podemos julgar os frutos dessa política.

(...)

Assim como a religião de Estado é o estupro da consciência, a centralização administrativa é a castração da liberdade. Instituições fúnebres, emanadas do mesmo furor de opressão e intolerância, e cujos frutos envenenados mostram muito bem a analogia! A religião de Estado produziu a Inquisição, a administração de Estado engendrou a polícia.

É verdade, compreendemos que o sacerdócio – que foi de início, assim como o corpo dos mandarins chineses, apenas uma casta de homens sábios e letrados tenha conservado pensamentos de centralização religiosa: a ciência, intolerante ao erro, como o gosto ao ridículo, aspira legitimamente ao privilégio de instruir a razão. O sacerdócio goza dessa prerrogativa desde que teve por programa a ciência, cuja característica é ser experimental e progressiva; ele a perdeu tão logo se pôs em contradição com o progresso e a experiência.

Mas que o Estado – cuja única ciência é a força, que só tem por doutrina, com as fórmulas de seus meirinhos, a teoria do pelotão e do batalhão -, tratando eternamente a nação como menor de idade, tencione, às suas custas e malgrado ela, sob pretexto de desacordo entre suas faculdades e suas tendências, gerir, administrar seus bens, julgar o que convém melhor a seus interesses, regular-lhe o movimento, a liberdade, a vida: eis o que seria inconcebível, o que revelaria uma maquinação infernal, se não soubéssemos, pela história uniforme de todos os governos, que se o poder em todos os tempos dominou o povo, é que em todos os tempos igualmente o povo, ignorante das leis da ordem, foi cúmplice do poder.

Se eu falasse a homens tendo amor pela liberdade e pelo respeito a eles próprios, e quisesse incitá-los à revolta, eu me limitaria, por toda arenga, a enumerar-lhes as atribuições de um prefeito.

Segundo os autores:

“O prefeito é agente do poder central; ele é intermediário entre o governo e o departamento; proporciona a ação administrativa; assegura diretamente, por seus próprios atos, as necessidades do serviço público.”

“Como agente do poder central, o prefeito exerce as ações que concernem os bens do Estado ou do departamento, e desempenha as funções de polícia.”

“Como intermediário entre o poder e o departamento, faz publicar e executar as leis que lhe são transmitidas pelos ministros; dá força executiva aos papéis das contribuições; vice-versa, faz chegar ao poder as reivindicações, informações etc.”

Funções muito diversas que são a instrução, a direção, a impulsão, a inspeção, a vigilância, a estimação ou apreciação, o controle, a censura, a reforma, a recuperação, enfim a correção ou a punição.

“Como assegurador das necessidades do serviço público, o prefeito age ora como revestido de uma autoridade de tutela; ora como revestido de um comando; ora como exercendo uma jurisdição.”

Encarregado de negócios do departamento e do Estado, oficial de polícia judiciária, intermediário, plenipotenciário, instrutor, diretor, impulsor, inspetor, vigilante, apreciador, controlador, censor, reformador, recuperador, corregedor, tutor, comandante, intendente, edil, juiz. Eis o prefeito, eis o governo! E que venham me dizer que um povo submetido a semelhante regência, um povo assim tutelado, in chamo et freno, in baculo et virga , é um povo livre! que esse povo compreende a liberdade, que é capaz de experimentá-la e recebê-la! Não, não! Tal povo é menos que um escravo, é um cavalo de combate. Antes de libertá-lo, é necessário elevá-lo à dignidade de homem, refazendo seu entendimento. 

Ele próprio vos diz, na ingenuidade de sua consciência: o que me tornarei quando não tiver mais rédeas nem sela? Não conheço outra disciplina, outro estado. Desembaracem minhas idéias; regulem minhas afeições; equilibrem meus interesses, então não precisarei mais de senhor, poderei dispensar o cavaleiro!

Assim, a sociedade, por sua própria revelação, gira em círculo. Esse Governo, do qual ela se faz um princípio diretor, não é outra coisa, ela concorda com isso, senão o suplemento de sua razão. Assim como, entre a inspiração de sua consciência e a tirania de seus instintos, o homem se deu um moderador místico, que foi o padre, assim também entre a sua liberdade e a liberdade de seu semelhante, ele se impôs um árbitro que foi o juiz, e ainda, entre seu interesse privado e o interesse geral, supostos por ele tão inconciliáveis quanto seu instinto e sua razão, buscou um novo conciliador, que foi o príncipe. O homem, assim, despojou-se de seu caráter moral e de sua dignidade judiciária; abdicou a sua iniciativa, e por essa alienação de suas faculdades, fez-se o escravo impuro dos impostores e dos tiranos.

Todavia, desde Jesus Cristo, Isaías, Davi, o próprio Moisés, é admitido que o justo não necessita nem de sacrifício, nem de padre; e provamos há pouco que a instituição de uma justiça superior a alguém sujeito a ela é por princípio uma contradição, uma violação do pacto social. Ser-nos-á, então, mais difícil livrarmo-nos, para a realização de nossos deveres sociais e cívicos, da elevada intervenção do Estado?

O regime industrial, já o demonstramos, é o acordo dos interesses resultando da liquidação social, da gratuidade da circulação e do crédito, da organização das forças econômicas, da criação das companhias operárias, da constituição do valor e da propriedade.

Nesse estado de coisas, para que pode ainda servir o Governo? Para que a expiação? Para que a justiça? O CONTRATO resolve todos os problemas. O produtor trata com o consumidor, o associado com sua companhia, o camponês com sua comuna, a comuna com o cantão, o cantão com o departamento etc., etc. É sempre o mesmo interesse que transige, liquida-se, equilibra-se, repercute-se ao infinito; sempre a mesma ideia que se movimenta, de cada faculdade da alma, como de um centro para a periferia de suas atrações.

O segredo dessa equação entre o cidadão e o Estado, do mesmo modo que entre o crente e o padre, entre o demandante, e o juiz, está na equação econômica que desenvolvemos anteriormente, pela abolição do lucro capitalista, entre o trabalhador e o patrão, o arrendatário e o proprietário. Fazei desaparecer, pela reciprocidade das obrigações, esse último vestígio da antiga servidão, e os cidadãos e as comunas não mais necessitarão da intervenção do Estado para gerir seus bens, administrar suas propriedades, construir seus portos, suas pontes, seus cais, seus canais, suas estradas. (...)

- Pierre-Joseph Proudhon, ano de 1851

* Derrisão é o ato ou efeito de zombar, caçoar ou ridicularizar algo ou alguém.