segunda-feira, 25 de maio de 2026

O Individualismo Anarquista na Revolução Social

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O individualismo anarquista, tal como o compreendemos — e digo “compreendemos” porque não sou o único a pensar assim, havendo ainda um punhado de espíritos afins — é hostil a toda escola e a todo partido, a toda moral eclesiástica e dogmática, bem como a toda imbecilidade mais ou menos acadêmica.

Toda forma de disciplina, regra ou pedantismo repugna à nobreza sincera de nossa inquietação errante e rebelde.

O individualismo é, para nós, força criadora, juventude imortal, beleza exaltante, guerra redentora e fecunda. É a apoteose maravilhosa da carne e a epopeia trágica do espírito. Nossa lógica — se assim se pode chamar — é precisamente a de não possuir nenhuma. 

Nosso ideal consiste na negação categórica de todos os ideais, para o triunfo supremo da vida real, concreta, instintiva, temerária — e, por que não?, alegre!

Para nós, a perfeição não é sonho, nem ideal, nem enigma, nem mistério, nem esfinge: é uma realidade vigorosa, pulsante, luminosa. Todo ser humano é perfeito em si mesmo; o que lhe falta, quando falta, é apenas a coragem heroica de assumir sua própria perfeição.

Desde o instante em que o homem acreditou que a vida fosse dever, vocação ou missão, começou a envergonhar-se de sua potência de ser. E, seguindo fantasmas, negou-se a si mesmo, afastando-se do real.

Quando Jesus Cristo disse aos homens: “sede vós mesmos, a perfeição está em vós!”, lançou uma frase soberba — síntese suprema da vida.

Inútil é que beatos, teólogos e filósofos se esforcem, com sofismas astutos e dialéticos, por deturpar tais palavras. Pois, ao falar assim, Cristo renega toda sua doutrina de renúncia, missão e fé; e o restante de seu edifício doutrinário desaba, miseravelmente, na lama — derrubado por ele mesmo.

Eis aqui — e somente aqui — a grande tragédia de Cristo.

Que os homens abram seus olhos enevoados sob o sol ofuscante dessa verdade, e encontrar-se-ão face a face com sua verdadeira e risonha redenção.

Eis a parte ética do individualismo: não romântica nem mística, tampouco idealista ou monástica; nem moral, nem imoral — mas amoral. Selvagem, furiosa, guerreira, ela mantém suas raízes luminosas cravadas voluptuosamente no cálice fosforescente da natureza pagã, enquanto sua folhagem verdejante repousa sobre os lábios púrpura da vida virgem.

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A toda forma de Sociedade humana que pretenda impor renúncias e dores artificiais ao nosso Eu anárquico e rebelde — sedento de expansão livre e jubilosa — responderemos com um uivo rugidor e sacrílego de dinamite.

A todos esses demagogos da política e da filosofia, que trazem no bolso um belo sistema construído à custa de hipotecar um pedaço do futuro, respondemos com Mikhail Bakunin: imbecis e fracos!

Todo dever que intentarem impor-nos será furiosamente esmagado sob nossos pés profanos. Todo fantasma sombrio que ousarem colocar diante de nossos olhos — ávidos de luz — será dilacerado por nossas mãos ousadas e sacrílegas.

Cristo envergonhou-se de sua própria doutrina e foi o primeiro a quebrá-la. Friedrich Nietzsche temeu seu além-do-homem e o deixou morrer entre seus animais agonizantes, suplicando piedade ao homem superior.

Mas nós — nós não tememos nem nos envergonhamos do Ser humano libertado.

Exaltamos Prometeu, o ladrão sacrílego que roubou a centelha eterna do céu de Júpiter para animar o homem de barro; e glorificamos Hércules, o herói poderoso e libertador.

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A natureza pagã depositou um Prometeu na mente de cada mortal e um Hércules no cérebro de todo pensador.

Mas a moral — essa feiticeira abjeta, tão cara a filósofos, povos e à própria humanidade — tratou de glorificar o abutre, elevando-o à condição de justiça divina. E essa justiça divina, que Auguste Comte ousou humanizar, acabou por condenar o Herói.

O homem do sulco e o pensador tremeram diante desse espectro funesto, e a coragem, esmagada sob o peso descomunal do medo, permaneceu vencida.

Mas o individualismo anarquista é uma tocha brilhante — e fatal — que lança sua luz nas trevas do reino do medo e põe em fuga os fantasmas da justiça divina que Comte pretendeu domesticar.

O individualismo é o canto livre e indomado que reconduz o indivíduo ao eterno e universal pan-dinamismo — esse fluxo que não é moral nem imoral, mas tudo. Natureza — e Vida!

E o que é a Vida? Abismos e cumes, instinto e razão, luz e treva, lodo e beleza, júbilo e dor. Negação do passado, domínio do presente, ânsia e desejo do futuro.

A vida é tudo isso. E tudo isso, também, é o individualismo.

Quem ousa fugir da Vida? Quem se atreve a negá-la?

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A Revolução Social é o súbito despertar de Prometeu após um desmaio de dor causado pelo abutre imundo que lhe dilacera o coração. É uma tentativa de auto-libertação.

Mas as correntes com que o sinistro deus Júpiter o acorrentou ao Cáucaso — por intermédio do repugnante servo Vulcano — não podem ser rompidas senão pelo herói rebelde titânico, filho do próprio Júpiter.

Nós, filhos rebeldes desta humanidade pútrida, que acorrentou o homem no lodo dogmático das superstições sociais, não deixaremos de fazer descer o golpe tremendo de nosso machado sobre os elos enferrujados dessa cadeia odiosa.

Sim, nós, individualistas anarquistas, somos pela Revolução Social — mas à nossa maneira, bem entendido!

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A revolta do indivíduo contra a sociedade não se confunde com a das massas contra os governos. Mesmo quando as massas se submetem, vivendo na paz — sagrada e vergonhosa — de sua resignação, o individualista anarquista vive contra a sociedade, pois está com ela em guerra incessante e irreconciliável.

Mas, quando em algum ponto de inflexão da história ele se encontra lado a lado com as massas em revolta, ergue com elas sua bandeira negra — e com elas arremessa sua dinamite.

O individualista anarquista está na Revolução Social não como demagogo, mas como elemento de incitação; não como apóstolo, mas como força viva, eficaz e destruidora...

Todas as revoluções passadas foram, no fim, burguesas e conservadoras. Aquela que cintila no horizonte rubro de nosso tempo magnificamente trágico terá por meta um feroz humanismo socialista.

Nós, individualistas anarquistas, entraremos na revolução por uma necessidade exclusivamente nossa: incendiar e inflamar os espíritos. Para que, como diria Max Stirner, não se trate de uma nova revolução, mas de um crime imenso, orgulhoso, temerário, despudorado e sem consciência — um crime que troveja no horizonte como relâmpago, sob o qual o céu, grávido de presságios, se torna escuro e silencioso.

E Henrik Ibsen acrescentaria:

“Só reconheço uma revolução verdadeiramente radical — o antigo Dilúvio! Aquela sim foi séria. Mas mesmo ali o diabo perdeu o que lhe cabia: Noé tomou a ditadura. Façamos novamente essa revolução — porém de modo mais completo. São necessários homens de verdade, não apenas oradores. Tu trazes as águas rugidoras; eu fornecerei o barril de pólvora para fazer explodir a arca.”

Ora, se a ditadura será — ai de nós! — inevitável na sombria revolução global que já lança seu brilho pálido do Oriente sobre nossa negra covardia, então a tarefa última de nós, individualistas anarquistas, será fazer explodir a arca final com bombas — e o ditador final com disparos de Browning.

E quando a nova sociedade estiver erguida, retornaremos às suas margens para viver perigosamente — como nobres criminosos e pecadores audazes.

Porque o individualismo anarquista ainda significa renovação eterna no campo da arte, do pensamento e da ação.

Significa ainda a revolta eterna contra a dor eterna — e a busca incessante de novas fontes de vida, de alegria e de beleza.

E assim continuaremos sendo — mesmo na Anarquia.

- Renzo Novatore, escrito sob o nome de Mario Ferrento



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