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terça-feira, 26 de maio de 2026

Por que Renzo Novatore?


Falar de Renzo Novatore não precisa ser apenas evocar a chama solitária que desafia o mundo — pode ser também reconhecer, nessa chama, a possibilidade de iluminar outros. Pois, se em sua essência há ruptura, há também intensidade de vida, e toda vida intensa tende a transbordar.

Novatore foi um cantor do indivíduo, mas não de um indivíduo vazio ou isolado — e sim de um ser que, ao se afirmar plenamente, torna-se capaz de encontros verdadeiros. Aqui, sua rebeldia encontra um eco inesperado em Peter Kropotkin, para quem a vida floresce não na competição, mas na ajuda mútua, no calor das relações livres, na solidariedade que nasce sem coerção.

À primeira vista, eles parecem opostos: Novatore, o insurrecional estético; Kropotkin, o naturalista da cooperação. Mas talvez essa oposição seja apenas superficial. Pois o que ambos recusam é o mesmo mundo cinzento — o mundo que reduz o ser humano a peça, função, engrenagem.

O século XXI herdou essa engrenagem e a aperfeiçoou. Hoje, a dominação raramente se impõe pela força bruta: ela se infiltra nos desejos, nas relações, nas formas de amar e de sonhar. Somos conectados, mas frequentemente solitários; livres em aparência, mas moldados em profundidade.

É aqui que Novatore pode ser reencontrado — não como um apóstolo da destruição isolada, mas como alguém que nos lembra que a vida deve ser vivida com intensidade poética. E essa intensidade, quando não é sufocada, busca naturalmente outras intensidades.

A liberdade, então, deixa de ser apenas ruptura e se torna também encontro.

Não o encontro mediado por instituições, normas ou expectativas — mas aquele que nasce entre indivíduos que se escolheram livremente. Um encontro que não anula, mas exalta. Que não exige sacrifício, mas celebra a singularidade de cada um.

Neste sentido, o romantismo não é fraqueza — é força criadora.

É o reconhecimento de que amar, criar, compartilhar e viver intensamente são atos profundamente subversivos em um mundo que nos quer dóceis, previsíveis e intercambiáveis. O romantismo aqui não é fuga, mas afirmação: a recusa em aceitar uma existência empobrecida.

Se Kropotkin nos fala da beleza da cooperação, Novatore nos lembra que essa cooperação só pode ser verdadeira entre indivíduos que não foram quebrados.

E talvez seja esse o ponto de encontro entre ambos:

uma comunidade de indivíduos livres, não uma massa de seres adaptados.

A importância de Novatore para o nosso século, sob essa luz, não está apenas em sua negação — mas na sua capacidade de reacender o desejo por uma vida mais plena. Ele nos chama não só a destruir o que nos oprime, mas a criar relações que não reproduzam essa opressão.

Ele nos convida a viver como artistas de nós mesmos — e, ao mesmo tempo, a reconhecer que nenhuma obra é mais bela do que aquela que se entrelaça livremente com outras.

Assim, a pergunta “por que Renzo Novatore?” ganha uma nova tonalidade.

Não apenas porque ele rompe — mas porque ele nos lembra que há algo que vale a pena construir depois da ruptura.

E esse algo não é um sistema.

É a vida, compartilhada entre indivíduos que ousaram ser livres —

e que, justamente por isso, puderam finalmente se encontrar.

Apêndice — O indivíduo, a luta e o comum

Para Novatore, o indivíduo não é um ponto de partida abstrato, nem uma categoria sociológica: é uma realidade viva, irrepetível e indomesticável. Ele não nasce para cumprir uma função, nem para se dissolver em um todo — nasce para afirmar-se, criar-se e, se necessário, colocar-se em conflito com tudo aquilo que tenta reduzi-lo.

Sua luta é, antes de tudo, interior.

É a luta contra as formas invisíveis de domesticação: moralidades herdadas, identidades impostas, ideais que se apresentam como superiores à própria vida. O inimigo, para Novatore, não é apenas o Estado ou a autoridade visível — mas toda abstração que exige sacrifício do indivíduo em nome de algo maior.

É nesse ponto que sua crítica ao coletivismo se torna mais incisiva.

Não porque ele rejeite a convivência ou o encontro, mas porque desconfia profundamente de qualquer “coletivo” que se erga como entidade superior ao indivíduo. Para ele, há sempre o risco de que o coletivo — mesmo quando nascido de ideais libertários — se transforme em nova forma de tirania: uma moral comum, uma expectativa compartilhada, uma pressão silenciosa para conformidade.

O coletivo, quando cristalizado, pode tornar-se apenas outra máscara do domínio.

Assim, Novatore afirma: melhor a solidão orgulhosa de quem se possui do que a comunhão obtida ao preço da própria negação. Melhor o conflito honesto do que a harmonia imposta.

Mas essa posição, levada ao extremo, levanta uma questão inevitável:

é possível uma vida plenamente humana sem algum tipo de vínculo, de partilha, de construção comum?

É aqui que a reflexão de Kropotkin se apresenta — não como negação de Novatore, mas como um contraponto fértil.

Kropotkin parte de uma observação diferente: a de que a cooperação não é uma imposição externa, mas uma tendência natural da vida. Em sua visão, os seres não prosperam apesar uns dos outros, mas com os outros. A ajuda mútua não seria um ideal moral a ser imposto, mas uma força espontânea que emerge quando as estruturas de dominação são removidas.

Diferente dos coletivismos autoritários que Novatore teme, Kropotkin imagina formas de convivência onde o comum não sufoca o singular — mas o sustenta.

Aqui, o coletivo não é uma entidade superior, mas uma rede viva de relações livres.

A diferença, então, não está necessariamente no valor da liberdade — ambos a afirmam com intensidade — mas na confiança depositada no encontro entre indivíduos.

Novatore permanece atento ao perigo: mesmo relações livres podem degenerar em novas formas de pressão. Sua postura é a do vigilante permanente, daquele que nunca se entrega completamente sem preservar sua autonomia radical.

Kropotkin, por outro lado, aposta na possibilidade de que indivíduos livres, não deformados pela dominação, tenderão a criar relações igualmente livres — baseadas no afeto, na reciprocidade e na cooperação espontânea.

Entre esses dois polos, não há necessidade de escolha absoluta.

Há, talvez, uma tensão criadora.

De um lado, Novatore nos lembra que nenhuma comunidade vale o preço da nossa singularidade.

De outro, Kropotkin nos lembra que a singularidade pode florescer ainda mais quando encontra outras em liberdade.

Se o primeiro nos ensina a dizer “não” —

o segundo nos ensina a dizer “sim”.

E talvez a vida mais intensa se construa exatamente nesse movimento:

a firme recusa de tudo que nos diminui,

e a abertura generosa a tudo que pode nos expandir.


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- JonniX

A Arte Livre de um Espírito Livre

Fileira após fileira daqueles que são mais consumptivos crônicos moralmente do que fisicamente, cabeças-de-alfinete, aleijados, corcundas, cegos; rostos horríveis esculpidos pelo vício, pela sífilis, pelo álcool.

Cujas bocas desdentadas, amarelas, babosas vomitam contra meus insultos horríveis.

Todo o ódio que borbulha em sua garganta, formando dois filetes de baba que escorrem dos cantos de sua boca, não me move da minha indiferença.

Ainda assim vocês sacodem o punho, treinado para arremessar esterco. E vocês, mulheres, também me insultam — vocês em cujo ventre a miséria humana se perpetua. Vocês são todos vis, vis! Seres desprezíveis, dignos do chicote! Répteis rastejantes em busca de uma crosta imunda de pão, cães que lambem a mão de qualquer um que os espanque! É por vocês, realmente por vocês, que eu devo me erguer em revolta?

Por vocês, por seus filhos e suas mães?

Carcaças apodrecendo na resignação, múmias comidas por vermes de uma sociedade decadente, vocês se enganam. Eu não daria a menor gota pela sua causa, nem sequer desperdiçaria um cigarro com vocês.

Continuem sua descida à lama. Enquanto vocês se rebaixam, eu subirei. Eu me regozijarei ao ver a degeneração que avança dentro de vocês. Eu me regozijo. Eu me regozijo.

Dia após dia, sua testa recua, sua boca se torna mais sinistra. Dia após dia, os estigmas da putrefação se tornam visíveis sob sua pele amarelada.

E eu rio, eu rio!

Que alegria estar presente no colapso de um mundo, ver sangue, cadáveres, podridão por toda parte!

Enquanto isso, a burguesia e o povo se enganam mutuamente e se massacram.

Eu estou aqui, divertindo-me com toda essa agitação.

Aqui um Kaiser, ali um Wilson, e por toda parte pessoas que gemem e não se levantam.

Para a lama, réptil!

Eu não quero me unir à multidão daqueles que bajulam o proletariado, desculpando-o, elogiando-o, adornando-o com coroas. Não, ó distintos falastrões, sua verve não disfarça nada. O “povo” está sempre lá — idiota, covarde, resignado. E eu, que me considero superior, desejo sê-lo, e tanto a burguesia quanto o proletariado pagarão pela minha superioridade. Vocês definham na fome e nas dificuldades, vegetam, fertilizando bestialmente ventres com um enxame de pirralhos esfarrapados, imundos, escrofulosos, atrofiados.


Força! Vocês elevam seu lamento covarde em coro! Dizem que estão com fome. Estendem a mão diante da vitrine cheia de joias. Façam isso — peguem! Vocês reclamam entre si da guerra quando vocês mesmos são seus autores, e ela continua porque vocês a suportam! Mas eu fujo da sua putrefação que me mancharia. Orgulhosamente só, eu quebro as correntes que me ligam a vocês e me separo da matilha de cães sarnentos, submissos ao pastor. Vagarei pelo mundo sozinho, carregando meu ódio e meu desprezo por toda parte. Sozinho na luta. Um só na vitória e na derrota. Minhas ideias serão o veneno que deve acabar por intoxicar vocês — e vocês tremem diante de mim como diante do Rei, o supremo!...

E enquanto isso, eu rio de sua turba grotesca e sangrenta, rio tanto que já não vejo ninguém, e me parece que a humanidade é uma imensa chaga gangrenosa que continuamente expele pus espesso e putrescente. E essa chaga se move, se agita, se cobre de crostas que depois desaparecem para dar lugar a outra expulsão de matéria putrescente.

E eu rio e rio!...

As raízes mais antigas de um sentimentalismo que já terminou,

por que vocês persistem em suas ideias mofadas? Vocês não ouvem a vida estrondosa que persegue e ensina?

Absorvidos até agora em um sonho plácido de paz, em um futuro brilhante, vocês lutaram assim, com os olhos perdidos em suas ilusões. Mas agora colocamos um problema, e vocês devem ter a coragem de enfrentá-lo e discuti-lo.

A vocês colocamos o problema: ser ou não ser. Até agora, o seu sonho foi o altruísmo, o sacrifício pela humanidade, pelo futuro. E assim vocês sacrificaram todo o seu ser nessa inversão. Por que vocês deveriam se importar com o futuro? Por que deveriam se importar com o progresso do povo? Já que vocês, que se chamam anarquistas, estão certos de se engajar em uma batalha que já está perdida para vocês antes mesmo de começar, já que certamente não verão a sociedade com a qual sonham — e mesmo que o povo se rebele, as condições sociais não mudariam para vocês e sua rebelião teria de continuar.

Então, qual é o sentido de descer até uma massa que não pode compreendê-los, já que suas condições são tais que tornam vocês ininteligíveis para ela? Se vocês são gênios rebeldes como afirmam, não deveriam substituir a abnegação cristã e a servidão patriótica pelo altruísmo do anarquista que se sacrifica por um futuro que não verá — e isso por pessoas que não o compreendem. Vocês devem reconhecer que, tendo nascido em uma sociedade que nos é prejudicial, nós, rebeldes, somos na realidade os melhores escravos. Sendo escravos da evolução, por meio do nosso sacrifício permitimos que a humanidade dê um pequeno passo. Se ao menos isso fosse suficiente, mas como o progresso nunca termina e é, portanto, inútil, já que uma vez que a sociedade tenha alcançado a forma social pela qual lutamos ela não irá parar, mas precisará continuar em direção a um objetivo que hoje não podemos sequer imaginar, devemos admitir que toda a nossa agitação é completamente sem propósito. Assim, observamos que as energias mais fortes e melhores de cada época são exploradas por essa sanguessuga imensa que é a humanidade.

Sócrates, Cristo, Bruno e uma vasta multidão de grandes pensadores foram vítimas desse movimento ascendente, que é prejudicial para qualquer um que se submeta a ele. Pois é natural que os escravos em Roma, tendo nascido naquela época, estivessem contentes com sua condição, assim como os escravos assalariados estão hoje.

Contentamento relativo, sejamos claros, formado de resignação, covardia, ignorância, etc., etc. Defeitos que a massa sempre terá em maior ou menor grau, porque coletividades são sempre inferiores aos indivíduos.

O povo é conservador: está satisfeito com a sociedade que encontra. A minoria é inovadora e, portanto, se rebela. A massa freia a ação revolucionária com seu peso bruto e, ao mesmo tempo, submete-se a ela.

Ela se acostuma ao novo estado de coisas. Apodrece nele até que a minoria se rebele novamente.

E eu tenho que sofrer todo esse jogo de equilíbrio? Eu, que tenho a força e a consciência para ser minha própria força motriz, não serei a pequena engrenagem esmagada, aniquilada pelas pesadas engrenagens sociais.

Rebelde, porque hoje a sociedade me oprime e tenta impedir a livre expressão do meu ser, uso toda arma para combatê-la.

Rebelde contra a massa que também é minha inimiga com suas superstições, moralidades, degradações, etc. Eu também luto contra a massa. Em luta apenas pela MINHA redenção, pela MINHA liberdade, pelo MEU presente.

Eu não dou a mínima para todo o resto.

O padre triunfa, o álcool mata, o governo massacra; isso não significa nada para mim porque não me toca.

Eu, eu defendo apenas a mim mesmo contra ataques.

E se eu cair nessa luta desigual, certamente não sozinho [* Ai, você de fato caiu sozinho! (nota do editor italiano) ], terei a satisfação sublime de ter me erguido contra um mundo e de ter vencido intelectualmente, se não materialmente.


Eruditos, cientistas, poetas, romancistas, pintores — é por isso que o seu gênio não vale nada diante de mim. Vocês são um reflexo da vida; eu sou sua essência. E vocês certamente sentem uma dor atroz em seus corações ao ver castelos retóricos desmoronarem, e apesar de tudo continuam a sustentá-los por ódio a qualquer coisa nova. E, afinal, fazem bem. Vocês nasceram para rastejar; eu voo. Para vocês, a lama; para mim, os picos. Para vocês, a aniquilação covarde; para mim, a sublimação do ser. E certamente, se a vida é para os mais fortes, eu a terei. Eu a tomarei à força e, pela força, roubarei — o ser e o gozo.

E vocês, paródias de seres humanos, continuem sua marcha pela escuridão. A luz brilha no meu caminho. Vocês têm medo de ser: esta é a verdade. O verdadeiro ser humano os assusta. Apesar de toda a sua fanfarronice retórica, a realidade os apavora. Vocês sonham, vocês sonham. Eu vivo. Vocês não são; eu sou.

Eu resolvi o problema. Vocês uivam para mim por trás.

“Eu gostaria de me deitar sobre um leito macio e perfumado de rosas...”

“Cuidado com os espinhos”, gritam-me.

“E que me importam eles? Já que espinhos não faltam na vida, prefiro os das rosas que dão alegria com a dor.”

E muito bem. Vocês que estão lendo isto podem dizer que minha prosa é louca, anormal, assim como chamaram minhas ações de loucas e anormais. Mas o julgamento de vocês não me interessa de forma alguma, nem o solicito.

Desejo apenas que mentes superiores saibam por que me lancei na escuridão devido a um sentimento indescritível; quero que a pena mercenária oposta não seja capaz de cobrir meu nome com o lixo que carrega em sua bagagem. Eu sou o único relator de mim mesmo: fujo dos intermediários que, de boa ou má-fé, deformariam minhas ideias. E como provavelmente não poderei revelá-las, desejo que, após meu desaparecimento, seja conhecido como determinei esta luta contra a sociedade. Portanto, confio estes pensamentos a uma pessoa que não conhece meu projeto e que os revelará quando a cortina cair.

É a nebulosidade do universo que ainda me entristece com sua névoa turva? É um destino sombrio que me ameaça? Não sei o que causa essa melancolia que me deprime, deleitando-se em me atormentar, arrancando de mim tudo aquilo que me iludo em amar e em acreditar.

Oh! A fé alegre de tempos passados, quando eu lutava de bom grado o bom combate pela Ideia, sem medos, sem dúvidas. Agora, porém, tudo me parece vão; pois em toda parte percebo uma escuridão densa e impenetrável.

Eu destruí tudo, tudo, e agora me restam meus pensamentos tristes, duvidando de tudo, de tudo. E sinto essa necessidade de espalhar meus pensamentos nesta folha em branco que não estremeceu ao saber da tempestade que me atormenta. Quem lerá estas linhas? Talvez ninguém. Permanecerão desconhecidas, assim como nada se sabe daqueles que estão familiarizados com o cansaço do meu pensamento.

Esta noite, como de costume, eu estava lendo quando uma passagem da obra me atingiu vividamente e então parei de ler para refletir. Eu estava então divagando quando, voltando meus olhos distraidamente pelo quarto, olhei — e mais — vi a mim mesmo sentado na cama. Não eu, mas ainda assim era eu, porque ele era absolutamente igual a mim. Espantado, observei em silêncio, e ele, o outro eu, também me olhava, mas com um certo sorriso irônico.

“Quem é você?”, perguntei-lhe.

“Sua sombra”, respondeu. “Vim aqui para um pouco de discussão.”

“Então discutamos”, respondi.

“Bem: por que você é anarquista?”

“Porque, atualmente, somos explorados, pisoteados pelos governantes.”

“Retórica, retórica, meu caro. Escute: você é anarquista e nem sabe por quê. Sempre notei isto: que em toda sociedade houve inovadores que acabam na fogueira, na cruz, e assim por diante, e assim por diante. Portanto, esses inovadores, com todos os seus sonhos e sacrifícios, fracassaram miseravelmente, porque qualquer renovação, antecipada por qualquer indivíduo que seja, ocorre muito tempo após a morte desse indivíduo. E é isso que acontecerá com vocês, anarquistas. Vocês morrerão sem ver nenhum de seus ideais realizados, e a geração depois de vocês, que talvez viva em uma sociedade anarquista, aspirará a um ideal mais elevado e morrerá por sua vez sem alcançar nada. É um círculo vicioso, uma perseguição eterna de si mesmo.”

Hoje, mais do que nunca, as sombras me cercaram. E de fato acontece que, após viver por algum tempo envolto pelo calor do sol, quando ele se eclipsa, é-se sacudido por um frio súbito.

O frio entrou em minha mente que sonha com um futuro de calor e o vê ao longe, ou, como alguém me disse, quase fora de alcance. Quão tristes são essas palavras. Você diz à andorinha que parte em busca da primavera que ela jamais a alcançará; você a verá recolher as asas, perdida, desanimada. Eu não paro, eu não recolho minhas asas. Quem sabe que a aurora distante não possa ser alcançada? Quem sabe?


Meu espírito está seco como um deserto, meus olhos ardem como se em febre. E parece que a cada golpe algo dentro de mim se quebra com um estrondo fúnebre. Quem, quem poderia descrever o que sinto? Nem mesmo eu posso fazê-lo. Às vezes sinto minha mente se expandir, se alargar, alegre, confiante. E então, de repente, ela se contrai subitamente com uma dor agudíssima. O que me importa o mundo, o que me importa a humanidade? Já não vejo ninguém. Meus olhos veem apenas uma coisa: um amanhecer distante. Todo o resto é sombra.

A natureza risonha me irrita, pois entra em choque com meus pensamentos dolorosos e quase parece zombar de mim. Eu preferiria que o céu estivesse escuro e fulgurante como eu nesses momentos. Como o náufrago que se encontra na vastidão desolada do oceano e treme diante da solidão funesta, mantendo os olhos no horizonte na esperança de ver surgir uma vela amiga, assim também eu me sinto só, dolorosamente só, perdido em uma vastidão temível. Mas não me deixarei vencer pelas ondas. Sulcarei o mar com meus braços vigorosos em minha busca, um viandante incansável e audaz.

Fluctuat in porto. O lema latino me incita, e eu fito, como o timoneiro, o farol ao longe que perfura a névoa com seu feixe de luz. E eu quero alcançar essa luz. Eu irei, eu irei! Nenhum obstáculo me deterá, nem recifes nem ventos tempestuosos. Serei forte, eu chegarei. Como as caravanas árabes que se preparam para atravessar o Saara e observam a vastidão arenosa que terão de cruzar com medo, com a ansiedade de se perderem pelo caminho, e ainda assim seguem e seguem e seguem, sob o sol abrasador, em meio à fúria do simoom, sedentas, famintas, cansadas, ao lado de camelos corcundas que alargam as narinas para roubar um pouco de frescor do ar seco, com a visão urgente e fixa de uma esguia mesquita branca de onde o muezim saúda Meca ao entardecer, de uma aldeia fresca onde descansar — assim também eu sigo e sigo e sigo com uma única visão em meus olhos. Incansável, prossigo, sufocado por uma tempestade inteira dentro de mim. Se o que sinto pudesse ser transformado em vento, eu passaria como uma tempestade devastadora, destruindo tudo sob meus golpes violentos. E sigo, sigo. Minha mente sofre, minhas pálpebras se fecham; sinto necessidade de paz, de repouso, a tentação de permanecer assim na areia, desaparecer, dissolver-me sob o sol, retornar ao vazio. Os chacais viriam e fariam um banquete do meu corpo, deixando apenas meu esqueleto embranquecido como um escárnio mudo da vida. Mas eu me levanto, eu mato o germe da paz e sigo. Eu chegarei porque o desejo. E se eu não chegar? Então o deserto tomará posse de mim.

Adoeci da mesma doença que Nietzsche, e me desagrada admitir ter qualquer coisa em comum com este ou aquele mundo. Sou inquieto e neurastênico. Tenho um aro de ferro na cabeça que esmaga meu crânio, e meus olhos latejam nas órbitas, inchados e ensanguentados, cansados de sonhos. Estou destinado a atravessar este mundo, vagando como um meteoro invisível. Precisamente porque sou superior, terei de esvaziar por completo o cálice da dor e da aflição, sem alegria que me anime. Mas a dura embriaguez de beber do cálice da dor é um prazer soberbo que só aquele que dilacera sua alma em pedaços por si mesmo, com suas próprias mãos, tem a chance de provar. Ainda assim, às vezes cobiço o outro cálice, o cálice da alegria, para umedecer meus lábios ávidos com ele, mas ele foge — e agora, dia após dia, o abismo que me separa dos outros me assusta. Quem virá comigo? Quem terá a coragem de voar sobre o abismo para ouvir minha verdade, para dispersar um pouco da minha tristeza? Quem? ... Ontem, no auge do meu cansaço, recebi um cartão-postal de uma mulher desconhecida. Três violetas que me alegraram um pouco com a minha alegria do pensamento e do símbolo: doze palavras que me fizeram sonhar agradavelmente.

Agradeço à mulher desconhecida por seu pensamento e por seu mistério, que me permite elevar-me em voo sobre o cavalo alado do devaneio. Doce mulher desconhecida, onde estás? Talvez na apaixonada Andaluzia ou na alegre França? Quem sabe? Qualquer um sabe que ela, a mulher desconhecida, é o raio de luz! ... Não, impossível! Dentro de mim reside uma escuridão espessa. Eu não penso, eu não falo, mas desejo o sol, a luz.


Vago pela cidade voraz, mergulhando-me no estrondo da vida a fim de matar um germe de melancolia que se desenvolve dentro de mim. Vago sem rumo e observo o incessante vai-e-vem, o desfile contínuo de rostos estereotipados e indiferentes. Mulheres chamativas passam, e em todos os seus movimentos e nos seus gestos mais simples vê-se o esforço, a ostentação, voltados apenas a despertar o desejo. E os homens param, seguem a figura vistosa e de seios fartos com um olhar ávido e fazem comentários vulgares. Eis uma multidão de órfãos, mal enfiados em roupas mal feitas. Passam guiados por um padre atarracado e vulgar. Pobres crianças! Criadas no fanatismo, na atmosfera corrupta do internato, estão resignadas, os hilotas de amanhã. Vejo uma igreja. Um pastor grosseiro fala com mulheres devotas que o escutam, arrependidas e atentas, e o pequeno padre sacode mãos peludas e desvia o olhar, lançando olhares de soslaio. O bem alimentado, à sombra do templo da mentira, escuta os uivos do trabalho e da miséria que parecem pairar sobre a grande cidade com fúria. “Uma esmola, senhor”, geme um ser imundo e esfarrapado... “Uma esmola, senhor...” E a multidão passa, indiferente, pensando na sopa da noite, na taverna, no jogo de boliche. E o chamado do mendigo continua, irritante e implacável, fazendo minha cabeça latejar, fazendo meu cérebro pulsar.

Acelero o passo; estou no bairro rico. Carruagens, automóveis, criados de libré com rostos idiotas abrem portas de carros e se curvam. Vejo mulheres maquiadas e perfumadas, dândis afetados com luvas de pelica, monóculos, bengalas, cocardas tricolores. Essas pessoas se chocam e se misturam: falam de jantar e de dançarinas. Um odor nauseante se eleva, que me toma pela garganta e me sufoca. Mas permaneço, quase enfeitiçado, ouvindo o farfalhar da seda, o chilrear das damas. As notas de um hino patriótico irrompem de um café: há um aleijado ao meu lado, apoiado em muletas, que observa o fluxo interminável com espanto.

Eu fujo. Caminho por ruas solitárias, mal iluminadas: saio em praças, em becos.

Crianças esfarrapadas e sujas, mulheres grávidas, pessoas enegrecidas pela fumaça e fedendo a pontas de cigarro. Lixões, casas em ruínas, cantos cheirando a urina, tavernas cheias de clientes bêbados e barulhentos. Eis os soldados: passos pesados, em ritmo, suados, empoeirados, rostos sulcados, costas curvadas. O povo sai, olha, comenta, se compadece e depois volta a beber, gritar, cantar.

Novamente fujo. Nas esquinas vejo anúncios de várias operetas e cantoras de café: ouço um grupo de jovens discutindo futebol e ciclismo. Pobre humanidade que se eleva!

Deixo as ruas, aprofundo-me nos prados. Quero esquecer, sonhar. Uma figura sai de um grupo de árvores e se aproxima de mim. Sinto o cheiro de vinho atingir minhas narinas. “Venha, você me dará trinta centavos!”

Sonhei com um mundo em chamas, rolando no infinito e arremessando meteoros incandescentes e faíscas através dos espaços estrelados.

Tenho um deus como todos os outros; mas esse deus sou eu.

[Em italiano há um jogo de palavras que não se traduz diretamente: “deus” é dio e “eu” é io. Uma tradução literal seria: “Tenho um deus (dio) como todos; mas é sem o ‘d’”.


Decadência.

Hoje, várias nações chocam suas cabeças umas contra as outras como enormes carneiros, cada qual desejando a supremacia sobre as demais.

As terras latinas românticas e a Albion mercantil contra a Alemanha imperial, enquanto as pequenas terras balcânicas seguem atrás com a bagagem pitoresca de seus costumes orientais atrasados. E a Rússia arde no horizonte ao entrar em uma nova fase de sua vida.

No Oriente, civilizações renovadas e revigoradas por energias frescas olham para o norte, onde o fino odor de cadáveres pode ser sentido, e as pequenas crianças do sol esperam poder espalhar aqui sua população superabundante em uma renovada expansão da civilização asiática.

E, no entanto, esse espetáculo, esse louco desperdício de energia, essa luta implacável pela vida, não me revela nenhum ardor por força real e consciente. Vejo apenas uma imensa decomposição, uma demolição de castelos, uma colisão mortal entre nações, enquanto a terra indiferente abre seu seio para receber a carne jovem que a fertilizará. Essa decadência magnificamente terrível ocorre sob a luz titânica de um fogo colossal, adequado ao colapso desta civilização.

Assim, vejo esse vasto emaranhado de pessoas, vejo morte pelo álcool, pela tuberculose, pelos canhões. Vejo aleijados, consumidos, idiotas, delinquentes.

A literatura, a arte, a ciência — o influxo dessa invasão monstruosa substitui tudo. O mundo inteiro não passa de uma putrefação fervilhante que se eleva, se eleva e invade tudo e tudo engole.

A humanidade considera a si mesma nobre. Fala de heroísmo, de progresso e não tem consciência de sua infecção. O abismo se abriu e a humanidade cai nele cantando, uivando, brigando, com seu deus, sua pátria, sua civilização assassina, sua elegante degeneração.

Tudo cai, tudo desmorona. Moralidades mofadas, filosofias tortas e mentirosas, retórica ultrapassada não redimem a situação. A doença avançou e já não há mais como evitá-la. Os ornamentos que adornavam a velha estrutura tornaram-se o lar de micróbios infecciosos. Tudo já está condenado a desaparecer, esmagado sob a enorme pilha de velhos escombros. A história encerra essa curiosa fase, que apresentou o espetáculo incompreensível de inércia em membros devotados a uma multidão de fantasmas diversos e inexistentes, e que viu uma construção contínua e ridícula para depois destruir, o sofrimento paciente e contínuo das multidões e a farra de poucos, tudo formando um conjunto de covardia, inversão, perversidade que tentariam fazer passar por heroísmo — tudo uma mentalidade ressequida que chamam de inspirada.

Assim, esta era terminou. Ainda bem. Diante de tais ruínas, canto o desastre, um novo Nero. Regozijo-me ao vê-lo. Então, sobre essas ruínas, construirei meu edifício, minha civilização, meu mundo. Portanto, eu canto...

“ELE”

Aquele imbecil era um enigma vivo. Nunca se sabia o que ele tinha dentro do crânio.

Feio, com uma cabeleira como a de Absalão, parecia um Rasputin que tivesse tomado banho. Dois olhos claros que nunca cintilavam, mas que em certos momentos sopravam um vento gelado.

Se quiser saber mais sobre ele, entre no túnel. Você verá um grande cachecol de lã com um chapéu acima. É ele. Pare-o. Cumprimente-o. Mesmo que ele não o conheça, não ficará surpreso em vê-lo. Ofereça-lhe um cigarro (caso contrário, ele lhe pedirá um!) e ele falará com você com graça. Depois, se você lhe pagar uma garrafa do sangue de Judas [nome de um tipo de vinho tinto na Itália — tradutor], então ele esclarecerá algum paradoxo que o perturbava. Mas não se engane pensando que entendeu sua ideia. Em um quarto de hora, ele será anarquista, burguês, aristocrata, ocultista, futurista, etc., etc. Ele estourará seus tímpanos com as palavras que despeja; zombará de você impiedosamente com um ar de seriedade.

E não se ofenda, porque, afinal, naquele momento ele sentirá uma grande afeição por você. Pode até beijá-lo. Ele é horrivelmente neurastênico. Se você notar que ele ficou em silêncio e está fumando furiosamente, conseguirá apenas arrancar palavras inconclusivas de sua boca. Nesse momento ele deseja duas pessoas; a mais desejada não lhe diz respeito, a outra é sua querida pequena idiota.

Se ele a encontra, se a toma nos braços, se parte com ela — que carnificina então!

Eles são capazes de quebrar janelas de casas, tentar descarrilar bondes, cuspir nos casacos de velhos...

Criaturas de outro mundo, digo-lhe... patifes maravilhosos. Este é “Ele”!


- Bruno Filippi

segunda-feira, 25 de maio de 2026

O Temperamento Anarquista no Turbilhão da História

No anarquismo, para além dos dois conceitos filosóficos que o dividem — o comunista e o individualista — existem dois instintos espirituais e físicos (ou melhor, duas formas de vida vivida, concreta e materialmente) que distinguem dois temperamentos, comuns a ambas as correntes teóricas.

Filhos de um mesmo sofrimento social, é certo — mas dotados de impulsos diversos, que nos conduzem a duas maneiras distintas de sofrer, ambas de origem hedonista.

Há aqueles (comunistas e individualistas) que sofrem — como diria Friedrich Nietzsche — por excesso de vida; e há os que sofrem por sua pobreza.

Entre estes últimos estão os amantes da quietude, da paz, do silêncio e da solidão. Já entre os primeiros — e é aqui que a pena parece aquecer-se — estão aqueles que sentem o próprio íntimo como um poderoso estremecimento dionisíaco, transbordante de força, e a vida como manifestação heroica da vontade.

São estes que trazem em si a necessidade instintiva — irresistível, quase fatal — de arremessar a chama do seu “eu” contra os muros do mundo exterior, para demolir… e viver a tragédia.

Nós estamos entre estes.

Estamos no anarquismo, antes de tudo, por instinto originário e sentimento apaixonado. Nossas ideias não passam — ouso dizer — de criaturas audazes e luminosas, nascidas do abraço primitivo entre a unidade do ser e a razão teórica que nega.

Hoje, a história da humanidade atingiu um de seus muitos turbilhões — talvez o maior — onde o espírito humano é chamado a renovar-se radicalmente sobre as ruínas magníficas e horrendas de fogo e sangue, catástrofe e destruição… ou, o que é mais triste, cristalizar-se covardemente na concepção de vida cadavérica e decrépita que a sociedade burguesa, já fora de época, nos legou como herança.

Se um punhado vigoroso de rebeldes — homens superiores, heróis — fosse capaz de saltar além das duas correntes do anarquismo, impulsionados por esse excesso vital, e se reunisse sob a bandeira negra da revolta, incendiando os corações das nações europeias… o velho mundo ruiria.

Pois ao redor dos Heróis tudo tende, fatalmente, à tragédia — e é somente na tragédia que nascem os espíritos renovadores, aqueles capazes de ouvir, com mais nobreza e altura, o canto festivo de sua vida livre.

Mas, se esse punhado de temerários não emergir da sombra para lançar a luva negra do desafio no rosto pútrido da sociedade burguesa, então os répteis da demagogia política, os acrobatas especuladores e os hipócritas da dor humana continuarão senhores do campo.


E sobre o sol trágico que tenta iluminar o turbilhão sombrio desta história em curso, lançarão a máscara obscena do chumbo branco, carregada sobre o horizonte livre do pensamento humano por aquele palhaço dissoluto chamado Karl Marx.

E tudo terminará numa comédia vil e grotesca — diante da qual, talvez, o anarquista digno sentiria vergonha suficiente para desaparecer.

Para aquela parcela de anarquistas italianos que sofre por excesso de vida — para aqueles, individualistas ou comunistas, para quem a luta, o perigo e a tragédia são necessidades tanto espirituais quanto materiais — o momento chegou.

A hora de impor-se. A hora de dominar.

Pois a verdadeira liberdade e o verdadeiro direito do ser humano residem apenas em sua capacidade de querer.

Direito e liberdade — são força.

Aquilo que para outros é sacrifício doloroso deve ser, para nós, dádiva e holocausto jubiloso.

É preciso lançar-se na onda do tempo passado, pisar os cumes arredondados dos séculos, regressar virilmente na história para beber nas fontes virgens, onde ainda jorra — quente e fumegante — o sangue dos primeiros sacrifícios humanos livres.

É preciso retornar, descalços e nus, entre as pedras vivas da floresta mítica e lendária, e nutrir-nos, como nossos ancestrais remotos, do tutano do leão e da natureza selvagem.


Só assim — como diria Maria Vesta — poderemos dizer ao primeiro Herói que soube oferecer sua carne, serena e estoicamente, às chamas vermelhas de um incêndio hostil e crepitante:

Agora nós também, como tu, sabemos cantar sob a tortura.

A vida que a sociedade nos oferece não é plena, nem livre, nem alegre.

É uma vida esmagada, mutilada, humilhada.

Devemos recusá-la.

E, se não tivermos força ou capacidade para arrancar violentamente de suas mãos a vida alta e vigorosa que sentimos pulsar em nós, então lancemos esse espectro sobre o altar trágico do sacrifício — e da renúncia final.

Pelo menos, poderemos coroar com um diadema heroico de beleza o rosto ensanguentado da arte que ilumina e cria.

Melhor erguer-se nas chamas de um incêndio e tombar, o crânio partido sob a rajada de um pelotão inconsciente, do que aceitar esse espectro de vida irônica — que não passa de uma paródia sinistra da própria vida.

Basta, ó amigos, de covardia. Basta, ó companheiros, da ingênua ilusão do “ato generoso das massas”.

A massa é palha — palha que o socialismo deixou apodrecer no estábulo da burguesia.

Errico Malatesta, Pasquale Binazzi, Dante Carnesecchi — e milhares de outros desconhecidos que apodrecem nesses manicômios miasmáticos e mortais que são as prisões da monarquia de Saboia — prisões cuja ampliação foi reclamada, nos chiqueiros parlamentares, pelos pequenos medalhões do Partido Socialista Italiano — devem ser, para nós, como espectros de remorso.

Devem caminhar, em formas terríveis, pelos desvios incertos de nossas mentes hesitantes; devem ser jorros ardentes de sangue que irrompem de nossos corações, atravessam as linhas do rosto e o cobrem de uma vergonha sombria.

Eu sei — nós sabemos — que cem SERES HUMANOS, dignos desse nome, seriam capazes de realizar aquilo que quinhentos mil “organizados” inconscientes jamais conseguirão.

Não vedes, ó amigos, a sombra de Bruno Filippi que nos observa, sorrindo com desdém?


Já não existem, então, CEM ANARQUISTAS na Itália dignos desse nome? Já não existem cem “eus” capazes de caminhar com pés em chamas sobre os picos vertiginosos de nossas ideias?

Errico Malatesta e os milhares que caíram nas mãos do inimigo ao primeiro sinal desta tempestade social aguardam, com nobre e febril expectativa, o relâmpago que derrube o edifício em ruínas, que ilumine a história, que eleve os valores da vida, que acenda o caminho da humanidade…

Mas o relâmpago brilhante e fatal não pode nascer do coração das massas.

As massas, que pareciam ardentes admiradoras de Malatesta, são covardes e impotentes.

O governo e a burguesia o sabem — e sorriem.

Sabem: “O Partido Socialista Italiano está conosco. É a peça indispensável para o desfecho funesto de nosso jogo. É o abracadabra que toma forma na voz encantatória de nossa feitiçaria milenar. As massas covardes são suas escravas, e Malatesta está velho e doente. Deixá-lo-emos morrer na escuridão úmida de uma cela — e depois lançaremos seu cadáver ao rosto de seus companheiros anarquistas…”

Sim — é isso que o governo e a burguesia pensam, nos recantos ocultos de suas mentes estúpidas e maliciosas.

E nós? Suportaremos esse desafio vil com indiferença? Suportaremos esse insulto sangrento e brutal em silêncio? Somos, então, tão covardes assim?

Espero que estes três enormes pontos de interrogação — solenes e terríveis — encontrem, nas fileiras do anarquismo, uma resposta viril que diga: NÃO! E que o diga com um trovão ainda mais terrível…

É dos cumes ardentes, dos picos luminosos, que deve irromper o relâmpago libertador.

O VELHO forte espera. Companheiros heroicos: a nós!

O cadáver de um velho agitador custa sempre mais caro do que a vida de mil idiotas maliciosos.

Irmãos e irmãs, lembrai-vos disso.

Agi de tal modo que a mais profunda de todas as vergonhas humanas não recaia sobre nós.


- Renzo Novattore 


Il Libertario 

vol. XVIII, nº 793

La Spezia

8 de dezembro

O Individualismo Anarquista na Revolução Social

1

O individualismo anarquista, tal como o compreendemos — e digo “compreendemos” porque não sou o único a pensar assim, havendo ainda um punhado de espíritos afins — é hostil a toda escola e a todo partido, a toda moral eclesiástica e dogmática, bem como a toda imbecilidade mais ou menos acadêmica.

Toda forma de disciplina, regra ou pedantismo repugna à nobreza sincera de nossa inquietação errante e rebelde.

O individualismo é, para nós, força criadora, juventude imortal, beleza exaltante, guerra redentora e fecunda. É a apoteose maravilhosa da carne e a epopeia trágica do espírito. Nossa lógica — se assim se pode chamar — é precisamente a de não possuir nenhuma. 

Nosso ideal consiste na negação categórica de todos os ideais, para o triunfo supremo da vida real, concreta, instintiva, temerária — e, por que não?, alegre!

Para nós, a perfeição não é sonho, nem ideal, nem enigma, nem mistério, nem esfinge: é uma realidade vigorosa, pulsante, luminosa. Todo ser humano é perfeito em si mesmo; o que lhe falta, quando falta, é apenas a coragem heroica de assumir sua própria perfeição.

Desde o instante em que o homem acreditou que a vida fosse dever, vocação ou missão, começou a envergonhar-se de sua potência de ser. E, seguindo fantasmas, negou-se a si mesmo, afastando-se do real.

Quando Jesus Cristo disse aos homens: “sede vós mesmos, a perfeição está em vós!”, lançou uma frase soberba — síntese suprema da vida.

Inútil é que beatos, teólogos e filósofos se esforcem, com sofismas astutos e dialéticos, por deturpar tais palavras. Pois, ao falar assim, Cristo renega toda sua doutrina de renúncia, missão e fé; e o restante de seu edifício doutrinário desaba, miseravelmente, na lama — derrubado por ele mesmo.

Eis aqui — e somente aqui — a grande tragédia de Cristo.

Que os homens abram seus olhos enevoados sob o sol ofuscante dessa verdade, e encontrar-se-ão face a face com sua verdadeira e risonha redenção.

Eis a parte ética do individualismo: não romântica nem mística, tampouco idealista ou monástica; nem moral, nem imoral — mas amoral. Selvagem, furiosa, guerreira, ela mantém suas raízes luminosas cravadas voluptuosamente no cálice fosforescente da natureza pagã, enquanto sua folhagem verdejante repousa sobre os lábios púrpura da vida virgem.

2

A toda forma de Sociedade humana que pretenda impor renúncias e dores artificiais ao nosso Eu anárquico e rebelde — sedento de expansão livre e jubilosa — responderemos com um uivo rugidor e sacrílego de dinamite.

A todos esses demagogos da política e da filosofia, que trazem no bolso um belo sistema construído à custa de hipotecar um pedaço do futuro, respondemos com Mikhail Bakunin: imbecis e fracos!

Todo dever que intentarem impor-nos será furiosamente esmagado sob nossos pés profanos. Todo fantasma sombrio que ousarem colocar diante de nossos olhos — ávidos de luz — será dilacerado por nossas mãos ousadas e sacrílegas.

Cristo envergonhou-se de sua própria doutrina e foi o primeiro a quebrá-la. Friedrich Nietzsche temeu seu além-do-homem e o deixou morrer entre seus animais agonizantes, suplicando piedade ao homem superior.

Mas nós — nós não tememos nem nos envergonhamos do Ser humano libertado.

Exaltamos Prometeu, o ladrão sacrílego que roubou a centelha eterna do céu de Júpiter para animar o homem de barro; e glorificamos Hércules, o herói poderoso e libertador.

3

A natureza pagã depositou um Prometeu na mente de cada mortal e um Hércules no cérebro de todo pensador.

Mas a moral — essa feiticeira abjeta, tão cara a filósofos, povos e à própria humanidade — tratou de glorificar o abutre, elevando-o à condição de justiça divina. E essa justiça divina, que Auguste Comte ousou humanizar, acabou por condenar o Herói.

O homem do sulco e o pensador tremeram diante desse espectro funesto, e a coragem, esmagada sob o peso descomunal do medo, permaneceu vencida.

Mas o individualismo anarquista é uma tocha brilhante — e fatal — que lança sua luz nas trevas do reino do medo e põe em fuga os fantasmas da justiça divina que Comte pretendeu domesticar.

O individualismo é o canto livre e indomado que reconduz o indivíduo ao eterno e universal pan-dinamismo — esse fluxo que não é moral nem imoral, mas tudo. Natureza — e Vida!

E o que é a Vida? Abismos e cumes, instinto e razão, luz e treva, lodo e beleza, júbilo e dor. Negação do passado, domínio do presente, ânsia e desejo do futuro.

A vida é tudo isso. E tudo isso, também, é o individualismo.

Quem ousa fugir da Vida? Quem se atreve a negá-la?

4

A Revolução Social é o súbito despertar de Prometeu após um desmaio de dor causado pelo abutre imundo que lhe dilacera o coração. É uma tentativa de auto-libertação.

Mas as correntes com que o sinistro deus Júpiter o acorrentou ao Cáucaso — por intermédio do repugnante servo Vulcano — não podem ser rompidas senão pelo herói rebelde titânico, filho do próprio Júpiter.

Nós, filhos rebeldes desta humanidade pútrida, que acorrentou o homem no lodo dogmático das superstições sociais, não deixaremos de fazer descer o golpe tremendo de nosso machado sobre os elos enferrujados dessa cadeia odiosa.

Sim, nós, individualistas anarquistas, somos pela Revolução Social — mas à nossa maneira, bem entendido!

5

A revolta do indivíduo contra a sociedade não se confunde com a das massas contra os governos. Mesmo quando as massas se submetem, vivendo na paz — sagrada e vergonhosa — de sua resignação, o individualista anarquista vive contra a sociedade, pois está com ela em guerra incessante e irreconciliável.

Mas, quando em algum ponto de inflexão da história ele se encontra lado a lado com as massas em revolta, ergue com elas sua bandeira negra — e com elas arremessa sua dinamite.

O individualista anarquista está na Revolução Social não como demagogo, mas como elemento de incitação; não como apóstolo, mas como força viva, eficaz e destruidora...

Todas as revoluções passadas foram, no fim, burguesas e conservadoras. Aquela que cintila no horizonte rubro de nosso tempo magnificamente trágico terá por meta um feroz humanismo socialista.

Nós, individualistas anarquistas, entraremos na revolução por uma necessidade exclusivamente nossa: incendiar e inflamar os espíritos. Para que, como diria Max Stirner, não se trate de uma nova revolução, mas de um crime imenso, orgulhoso, temerário, despudorado e sem consciência — um crime que troveja no horizonte como relâmpago, sob o qual o céu, grávido de presságios, se torna escuro e silencioso.

E Henrik Ibsen acrescentaria:

“Só reconheço uma revolução verdadeiramente radical — o antigo Dilúvio! Aquela sim foi séria. Mas mesmo ali o diabo perdeu o que lhe cabia: Noé tomou a ditadura. Façamos novamente essa revolução — porém de modo mais completo. São necessários homens de verdade, não apenas oradores. Tu trazes as águas rugidoras; eu fornecerei o barril de pólvora para fazer explodir a arca.”

Ora, se a ditadura será — ai de nós! — inevitável na sombria revolução global que já lança seu brilho pálido do Oriente sobre nossa negra covardia, então a tarefa última de nós, individualistas anarquistas, será fazer explodir a arca final com bombas — e o ditador final com disparos de Browning.

E quando a nova sociedade estiver erguida, retornaremos às suas margens para viver perigosamente — como nobres criminosos e pecadores audazes.

Porque o individualismo anarquista ainda significa renovação eterna no campo da arte, do pensamento e da ação.

Significa ainda a revolta eterna contra a dor eterna — e a busca incessante de novas fontes de vida, de alegria e de beleza.

E assim continuaremos sendo — mesmo na Anarquia.

- Renzo Novatore, escrito sob o nome de Mario Ferrento