Mostrando postagens com marcador Marx. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Marx. Mostrar todas as postagens

sábado, 30 de maio de 2026

Capital, Riqueza e Salários — sobre Henry George


Há livros que se leem como quem atravessa um corredor bem iluminado: tudo parece claro, bem ordenado, e ao final imagina-se ter compreendido o mundo. E há outros — mais honestos ou mais teimosos — que, ao invés de esclarecer imediatamente, começam por perturbar o chão sob os nossos pés.

Henry George pertence a esta segunda espécie.

Seu pensamento econômico não se apresenta como um sistema que se impõe pela autoridade, mas como uma espécie de revisão paciente de palavras antigas, dessas que usamos todos os dias sem desconfiar de que, nelas mesmas, podem estar escondidos os maiores equívocos. Riqueza, capital, salários — termos aparentemente sólidos, quase naturais — revelam-se, sob sua análise, menos como coisas e mais como relações; menos como objetos do mundo, e mais como maneiras de olhar o mundo.

É justamente aí que começa a dificuldade — e o interesse.

Pois o autor não pretende, ao menos em sua intenção declarada, inventar novas entidades econômicas, mas corrigir o modo como se distribuem as antigas. E essa correção começa por um gesto simples, quase ingênuo: perguntar o que, de fato, queremos dizer quando dizemos “capital”.

A resposta habitual, como se sabe, oscila entre máquinas, dinheiro, estoques e toda sorte de objetos úteis. Mas essa enumeração, embora confortável, não resiste por muito tempo à observação mais paciente. O mesmo objeto pode ser capital ou não ser, dependendo menos de sua forma do que de sua função. 

Um casaco é riqueza; mas pode ser capital ou simples consumo, conforme esteja em uso produtivo ou em uso pessoal. O dinheiro pode repousar como riqueza ou circular como capital. Nada, por si só, garante sua posição.

Dessa instabilidade nasce a primeira tese fundamental: capital não é uma classe fixa de coisas, mas uma condição funcional da riqueza — aquilo que está em movimento, destinado a produzir mais riqueza, ainda não encerrado no consumo final.

Mas, uma vez aberto esse caminho, o autor não se detém. Porque redefinir o capital implica redefinir também a riqueza — e, por consequência, os salários. Assim, o que parecia uma discussão técnica sobre vocabulário revela-se, pouco a pouco, uma investigação sobre o funcionamento inteiro da vida econômica.

A riqueza deixa de ser tudo aquilo que possui preço e passa a ser apenas aquilo que resulta do trabalho humano aplicado à natureza, produzindo bens tangíveis. O capital, por sua vez, torna-se a porção dessa riqueza que permanece em trânsito produtivo. E os salários, finalmente, deixam de ser retirados de um suposto fundo fixo para aparecerem como expressão direta do produto do próprio trabalho, conforme as condições de acesso às oportunidades de produção.

O que se esboça, portanto, não é apenas uma teoria econômica, mas uma inversão de perspectiva: aquilo que parecia derivar do capital passa a derivar do trabalho; aquilo que parecia fixo revela-se móvel; aquilo que parecia natural revela-se definido por relações sociais.

Convém, entretanto, não imaginar que se trata de um sistema fechado e triunfal. George escreve como quem contesta um erro persistente, não como quem proclama uma verdade absoluta. E talvez por isso seu pensamento conserve uma espécie de tensão saudável: ele não elimina completamente os modelos anteriores, mas os desloca, obrigando-os a mostrar onde, exatamente, começam a falhar.

É nesse deslocamento que se situam as páginas que seguem. Entre a definição de capital, a depuração do conceito de riqueza e a teoria dos salários, desenha-se uma tentativa de tornar mais nítido aquilo que, na prática cotidiana da economia, permanece frequentemente embaralhado.

O leitor, ao acompanhá-las, talvez perceba algo curioso: não se trata apenas de aprender novos conceitos, mas de desaprender certas evidências antigas. E isso, como já se notou em outras matérias menos econômicas, costuma ser o verdadeiro preço do entendimento.

Se ao final permanecer alguma dúvida, tanto melhor. Em economia — como em certas conversas da vida — a clareza absoluta é muitas vezes apenas uma forma elegante de simplificação excessiva. E Henry George, ao menos aqui, prefere o desconforto lúcido à paz enganosa.


Do Capital, ou de como as coisas trabalham sem saber que trabalham

Há ideias que, de tanto circularem entre os homens, acabam por adquirir um ar de evidência tão sólido que ninguém mais se dá ao trabalho de examiná-las. Entre essas respeitáveis senhoras da opinião comum está o capital — palavra grave, de aspecto bancário, e que costuma inspirar mais reverência do que compreensão.

Pergunte-se ao primeiro transeunte o que seja capital, e ele, se não fugir, responderá com segurança: dinheiro, máquinas, fábricas, talvez até um cofre bem nutrido. Não estará de todo errado; mas também não estará certo. E é precisamente nesse meio-termo — tão caro à ignorância confiante — que reside o equívoco.

Henry George, espírito metódico e pouco inclinado a idolatrias conceituais, propõe que comecemos por uma distinção simples, dessas que parecem banais até que se perceba que ninguém as fez com rigor: capital não é uma coisa; é uma condição.

Sim, leitor, não estranhe. A mesma realidade material pode ser capital hoje e deixar de sê-lo amanhã, sem que tenha perdido um parafuso ou ganho uma polegada. Um casaco pendurado no armário de seu dono é mero objeto de uso; posto à venda na vitrine, torna-se capital. Um pão sobre a mesa é destino final; no balcão do padeiro, é meio de produção. A diferença não está na substância, mas no destino.

E aqui começa a vantagem de George sobre seus predecessores, esses veneráveis arquitetos da economia política que, por vezes, confundiam o edifício com as sombras projetadas na parede. Ao invés de definir o capital pelo que ele é fisicamente, define-o pelo papel que desempenha no processo social. Capital é riqueza em trânsito — riqueza que ainda não encontrou repouso no consumo.

Convém, entretanto, não perder de vista o que seja riqueza, essa outra palavra que costuma passear de mãos dadas com o capital, embora nem sempre com a devida cerimônia. Riqueza, para George, não é tudo aquilo que tem preço; é aquilo que resulta do trabalho humano aplicado à natureza e que aumenta o estoque de bens úteis. 

Uma dívida pode valer muito no papel, mas não alimenta, não veste, não abriga — apenas muda de bolso. Confundi-la com riqueza é tomar o recibo pela mercadoria.

Estabelecida essa base, o capital aparece com mais nitidez. Ele é, por assim dizer, a riqueza que ainda não cumpriu sua missão final. Não serve diretamente ao prazer ou à necessidade de quem o possui, mas se encontra empenhado em produzir mais riqueza. Está no mercado, na oficina, na estrada, no navio — sempre em movimento, sempre a caminho de outro estado.


Dir-se-á, talvez, que tal definição é ampla demais. Não o é. Pelo contrário, ela apenas restitui à produção um sentido que havia sido indevidamente estreitado. Produzir não é somente fabricar; é também transportar, distribuir, tornar acessível. O comerciante, esse personagem por vezes tratado como intermediário supérfluo, revela-se aqui tão produtor quanto o operário ou o agricultor. Sem ele, as coisas existiriam, mas não chegariam a quem delas precisa — e, nesse caso, seria como se não existissem.

Há ainda um último ponto, que o leitor prudente não deixará escapar. Termos como riqueza, capital e salários não são coisas que se possam apontar com o dedo, como quem indica um chapéu ou uma cadeira. São abstrações — e, como tais, exigem cuidado. Dizer algo sobre o capital é dizer algo sobre toda uma classe de fenômenos, não sobre um objeto isolado. Muitos erros, alguns até respeitáveis, nasceram de esquecer esse pequeno detalhe.

Se quisermos, pois, encerrar a questão com uma fórmula — vício humano de reduzir o mundo a sentenças — diremos que capital é a riqueza em estado de expectativa. Não repousa, não se consome, não se satisfaz: trabalha. E, trabalhando, faz trabalhar os homens, que por sua vez o confundem com moedas e máquinas, sem suspeitar que, na verdade, estão lidando com uma ideia — uma ideia que muda de forma conforme muda de função.

E assim se explica por que o capital, esse ente tão sólido na aparência, escapa às definições apressadas: não é uma coisa que exista por si, mas um papel que as coisas representam. Hoje ator principal, amanhã figurante — conforme o cenário da vida econômica exige.

Se isto parecer ao leitor um tanto sutil, console-se: também o é a própria realidade. E não há maior erro do que querer que ela seja simples apenas para que a possamos compreender sem esforço.


Pequenas cenas edificantes para distinguir riqueza de capital

Se o leitor chegou até aqui sem declarar falência intelectual, merece uma recompensa: alguns exemplos práticos, desses que a vida oferece com generosidade e que, uma vez bem observados, valem mais que tratados inteiros.

Comecemos pelo pão, esse modesto herói da subsistência. Enquanto repousa na mesa de uma família, pronto a ser consumido, é riqueza — pura e simplesmente. Cumpre seu destino final: alimentar. Mas, observe-o na prateleira da padaria: ali já não é repouso, é promessa. Está à venda, isto é, em trânsito para o consumo. Nesse estado, o mesmo pão — sem alterar sua farinha ou seu peso — é capital.

Passemos ao dinheiro, essa entidade que facilmente ilude os espíritos mais apressados. Guardado numa gaveta, esquecido ou reservado para um prazer futuro, ele é riqueza. Mas entregue a um comerciante para adquirir mercadorias que serão revendidas, transforma-se em capital. Não por virtude intrínseca, mas pelo papel que desempenha na engrenagem econômica.

Considere agora uma casa. Habitada por seu proprietário, servindo-lhe de abrigo e conforto, é riqueza. Todavia, se alugada a terceiros, torna-se instrumento de obtenção de renda; entra no circuito das trocas e assume a dignidade — ou a inquietação — do capital.

Tomemos ainda o caso das ferramentas. Um homem que cultiva seu jardim por deleite possui instrumentos que são, para ele, riqueza. Outro, que utiliza ferramentas idênticas para produzir bens destinados à venda, possui capital. Não é o ferro que muda; é a finalidade.

E, para não deixar de fora o leitor moderno, consideremos um objeto mais recente: um computador. Usado para entretenimento pessoal, repousa no domínio da riqueza. Empregado para produzir serviços, programas ou conteúdos que serão vendidos ou trocados, ingressa no reino do capital. A máquina é a mesma; o espírito de sua utilização, outro.

Há ainda os casos que confundem pela aparência. Um estoque de roupas em uma loja é capital; o mesmo número de roupas no guarda-roupa de um indivíduo é riqueza. Um carro utilizado para passeios é riqueza; o mesmo carro, empregado no transporte remunerado, é capital. 

Em suma, o mundo não muda — muda o papel que nele desempenham as coisas.

Se o leitor desejar uma regra simples, dessas que se podem guardar no bolso sem muito incômodo, eis uma:

— Pergunte sempre: isto está sendo usado para satisfazer diretamente uma necessidade, ou para gerar outra riqueza?

No primeiro caso, trata-se de riqueza em repouso. No segundo, de capital em movimento.

Não se iluda, porém, com a simplicidade da fórmula. O que ela resolve em clareza, complica em vigilância. É preciso olhar não apenas para o objeto, mas para sua função no instante considerado. E isso, como tantas coisas na vida, exige mais atenção do que estamos habituados a conceder.

Mas, uma vez aprendido o truque, o leitor verá que o capital, longe de ser um monstro abstrato ou uma divindade financeira, é apenas um papel — representado, alternadamente, pelas mesmas coisas que nos cercam. E talvez sorria, com certa indulgência, ao lembrar quantas vezes tomou por essência aquilo que era apenas circunstância.


Dos salários, ou de como o trabalho recebe (e às vezes não recebe) o que lhe cabe

Há um equívoco antigo, respeitável pela idade e persistente como certas doenças de família, segundo o qual os salários dependem do capital. Diz-se, com ar de autoridade, que o trabalhador é pago por um fundo previamente acumulado — uma espécie de cofre invisível, do qual saem as moedas que lhe chegam às mãos.

A teoria tem sua elegância: tudo já estaria decidido antes mesmo que o trabalho comece. O operário apenas retira, pouco a pouco, aquilo que o capitalista já havia separado para ele. É uma ideia confortável, sobretudo para quem não trabalha.

Henry George, com a delicadeza de quem desmonta um relógio alheio, mostra que essa construção, embora engenhosa, não resiste a um exame mais atento.

Comecemos por uma observação simples: o trabalho não é pago com o que já foi produzido, mas com o que está sendo produzido. O padeiro não remunera seus ajudantes com pães de ontem, guardados em segredo; paga-os com o valor que surge da produção corrente. O agricultor não depende de uma reserva mística para pagar seus trabalhadores; depende da colheita — presente ou esperada.

O que se chama “adiantamento de salários” não passa, em muitos casos, de uma conveniência prática. O capitalista pode pagar antes de vender o produto final, é verdade; mas isso não significa que o salário venha do capital. Significa apenas que alguém antecipou, por sua conta e risco, uma riqueza que será confirmada (ou não) pelo resultado da produção.

O erro, portanto, está em tomar o intermediário pela fonte. O capital pode facilitar o pagamento dos salários — suavizar o tempo, por assim dizer — mas não é o seu criador. A origem real dos salários é o próprio trabalho, aplicado às oportunidades que a natureza oferece.

E aqui entramos no ponto decisivo, aquele que distingue George de muitos de seus predecessores: o nível dos salários não é determinado pela quantidade de capital disponível, mas pela relação entre trabalho e acesso à terra — ou, para falar com mais generalidade, às oportunidades naturais.


Imaginemos dois cenários. No primeiro, há abundância de terras livres ou acessíveis. O trabalhador, se não encontrar condições satisfatórias, pode recorrer à produção por conta própria. Nesse caso, os salários tenderão a ser altos, pois ninguém aceitará trabalhar para outrem por menos do que poderia obter por si mesmo.

No segundo cenário, a terra está toda apropriada, cercada, monopolizada. O trabalhador não tem alternativa senão vender sua força de trabalho a quem detenha o acesso aos meios naturais. Aqui, os salários tenderão a cair — não por falta de capital, mas por falta de opções.

Assim, o verdadeiro regulador dos salários não é um fundo acumulado, mas uma fronteira: a margem de produção disponível ao trabalhador. Onde essa margem é alta, os salários sobem; onde é baixa ou inexistente, descem.

Convém notar que isso não elimina o papel do capital; apenas o recoloca em seu devido lugar. O capital auxilia o trabalho, aumenta sua produtividade, encurta caminhos. Mas não decide, por si só, quanto o trabalhador receberá. Pode haver muito capital e baixos salários, se o acesso às oportunidades estiver restrito; pode haver pouco capital e salários relativamente altos, se esse acesso for amplo.

Se o leitor desejar, mais uma vez, uma fórmula portátil, ei-la:

— Os salários não vêm do capital; vêm do trabalho, conforme as oportunidades que lhe são abertas.

O capital pode adiantar, acelerar, organizar — mas não criar, do nada, aquilo que pertence ao esforço humano em contato com o mundo.

E talvez seja essa a lição mais incômoda: a questão dos salários não é, em sua raiz, uma questão de poupança ou de estoque, mas de liberdade — liberdade de acesso, de escolha, de ação. Onde essa liberdade se estreita, estreitam-se também os salários, ainda que os cofres estejam cheios e as máquinas reluzentes.

Se isto parecer ao leitor uma inversão ousada, lembre-se de que muitas verdades têm esse hábito: chegam de cabeça para baixo, obrigando-nos a rever o chão sobre o qual estávamos tão comodamente assentados.

Em que se põem frente a frente George e Marx, e se descobre que discordam até quando parecem concordar

Há encontros que não se deram, mas que ainda assim produzem faíscas. Tal é o caso de Henry George e Karl Marx: dois espíritos que olharam para a mesma paisagem — a pobreza em meio à riqueza — e, escandalizados, recusaram-se a aceitá-la como natural.

À primeira vista, poderiam ser tomados por aliados. Ambos denunciam a injustiça da distribuição, ambos percebem que o trabalhador não colhe integralmente o fruto de seu esforço, ambos suspeitam que há algo de profundamente errado na ordem econômica. Mas basta avançar alguns passos para que a aparente concordância se desfaça como névoa ao sol.

Marx começa pela produção e pela estrutura. Para ele, o segredo está na relação entre capital e trabalho. O capitalista, dono dos meios de produção, compra a força de trabalho do operário e extrai dela um valor maior do que aquele que paga — a famosa mais-valia. É nesse excedente que reside a exploração. O problema, portanto, não está apenas na distribuição, mas no próprio mecanismo de produção capitalista.

George, por sua vez, segue outro caminho. Não nega que haja injustiça, nem que o trabalhador receba menos do que poderia. Mas recusa a ideia de que o capital, em si, seja o vilão da história. Para ele, o capital é auxiliar do trabalho, não seu antagonista. A origem do problema deve ser buscada em outro lugar: na apropriação privada da terra.

E aqui se abre o abismo.

Para Marx, a propriedade dos meios de produção — incluindo a terra — deve ser abolida ou coletivizada, pois é ela que permite a extração da mais-valia. Para George, a terra ocupa um lugar singular: não é produto do trabalho humano e, portanto, não pode ser legitimamente apropriada como propriedade privada absoluta. O capital, ao contrário, sendo fruto do trabalho, é legítimo.

Em termos mais diretos:
— Marx acusa o capital de explorar o trabalho.
— George acusa a propriedade da terra de explorar ambos.

Essa diferença não é pequena; é, por assim dizer, uma mudança de eixo.

Tomemos os salários, esse ponto sensível. Marx os vê como resultado de uma relação de força dentro do sistema capitalista: tendem a gravitar em torno do necessário à reprodução do trabalhador, enquanto o excedente é apropriado pelo capitalista. George, como já vimos, atribui o nível dos salários à disponibilidade de oportunidades — à margem de produção acessível ao trabalhador. Onde a terra é monopolizada, os salários caem; onde é livre, sobem.

Assim, o que para Marx é um problema de classe, para George é um problema de acesso.


E quanto ao capital? Aqui, novamente, divergem. Marx o vê como uma relação social de dominação, que se reproduz ampliando a exploração. George o vê como uma forma de riqueza em movimento, essencial à produção e potencialmente benéfica, desde que não esteja acorrentada por monopólios naturais.

Se o leitor se sente inclinado a escolher um lado, convém prudência. Ambos têm suas razões, e ambos iluminam aspectos que o outro deixa na sombra. Marx revela a dinâmica interna do sistema produtivo com uma profundidade que poucos igualaram; George, por sua vez, aponta para um elemento frequentemente negligenciado — a terra — e mostra como sua apropriação pode distorcer toda a estrutura econômica.

Talvez a diferença mais sutil — e mais decisiva — esteja no horizonte de cada um. Marx vislumbra uma transformação radical da ordem social, na qual o sistema vigente é superado. George propõe uma reforma específica, quase cirúrgica: capturar para a sociedade o valor da terra, preservando, no mais, a liberdade econômica.

Um quer reconstruir o edifício; o outro, corrigir seus alicerces.

E assim permanecem, lado a lado e em desacordo, como dois médicos que, diante do mesmo paciente, discordam sobre a natureza da doença — e, consequentemente, sobre o remédio. O leitor, se for prudente, não se apressará em descartar nenhum dos diagnósticos. Pois há casos em que a verdade, essa senhora esquiva, prefere habitar não em um sistema fechado, mas no espaço tenso entre duas interpretações rivais.

Se isto lhe parecer inconclusivo, não se aflija. Em matéria de economia — como na vida — as conclusões definitivas são raras, e quase sempre suspeitas. O importante, talvez, não seja decidir de imediato, mas aprender a ver melhor. E nisso, convenhamos, tanto George quanto Marx são mestres exigentes, ainda que discordem sobre quase tudo que realmente importa.


- JonniX

segunda-feira, 25 de maio de 2026

O Temperamento Anarquista no Turbilhão da História

No anarquismo, para além dos dois conceitos filosóficos que o dividem — o comunista e o individualista — existem dois instintos espirituais e físicos (ou melhor, duas formas de vida vivida, concreta e materialmente) que distinguem dois temperamentos, comuns a ambas as correntes teóricas.

Filhos de um mesmo sofrimento social, é certo — mas dotados de impulsos diversos, que nos conduzem a duas maneiras distintas de sofrer, ambas de origem hedonista.

Há aqueles (comunistas e individualistas) que sofrem — como diria Friedrich Nietzsche — por excesso de vida; e há os que sofrem por sua pobreza.

Entre estes últimos estão os amantes da quietude, da paz, do silêncio e da solidão. Já entre os primeiros — e é aqui que a pena parece aquecer-se — estão aqueles que sentem o próprio íntimo como um poderoso estremecimento dionisíaco, transbordante de força, e a vida como manifestação heroica da vontade.

São estes que trazem em si a necessidade instintiva — irresistível, quase fatal — de arremessar a chama do seu “eu” contra os muros do mundo exterior, para demolir… e viver a tragédia.

Nós estamos entre estes.

Estamos no anarquismo, antes de tudo, por instinto originário e sentimento apaixonado. Nossas ideias não passam — ouso dizer — de criaturas audazes e luminosas, nascidas do abraço primitivo entre a unidade do ser e a razão teórica que nega.

Hoje, a história da humanidade atingiu um de seus muitos turbilhões — talvez o maior — onde o espírito humano é chamado a renovar-se radicalmente sobre as ruínas magníficas e horrendas de fogo e sangue, catástrofe e destruição… ou, o que é mais triste, cristalizar-se covardemente na concepção de vida cadavérica e decrépita que a sociedade burguesa, já fora de época, nos legou como herança.

Se um punhado vigoroso de rebeldes — homens superiores, heróis — fosse capaz de saltar além das duas correntes do anarquismo, impulsionados por esse excesso vital, e se reunisse sob a bandeira negra da revolta, incendiando os corações das nações europeias… o velho mundo ruiria.

Pois ao redor dos Heróis tudo tende, fatalmente, à tragédia — e é somente na tragédia que nascem os espíritos renovadores, aqueles capazes de ouvir, com mais nobreza e altura, o canto festivo de sua vida livre.

Mas, se esse punhado de temerários não emergir da sombra para lançar a luva negra do desafio no rosto pútrido da sociedade burguesa, então os répteis da demagogia política, os acrobatas especuladores e os hipócritas da dor humana continuarão senhores do campo.


E sobre o sol trágico que tenta iluminar o turbilhão sombrio desta história em curso, lançarão a máscara obscena do chumbo branco, carregada sobre o horizonte livre do pensamento humano por aquele palhaço dissoluto chamado Karl Marx.

E tudo terminará numa comédia vil e grotesca — diante da qual, talvez, o anarquista digno sentiria vergonha suficiente para desaparecer.

Para aquela parcela de anarquistas italianos que sofre por excesso de vida — para aqueles, individualistas ou comunistas, para quem a luta, o perigo e a tragédia são necessidades tanto espirituais quanto materiais — o momento chegou.

A hora de impor-se. A hora de dominar.

Pois a verdadeira liberdade e o verdadeiro direito do ser humano residem apenas em sua capacidade de querer.

Direito e liberdade — são força.

Aquilo que para outros é sacrifício doloroso deve ser, para nós, dádiva e holocausto jubiloso.

É preciso lançar-se na onda do tempo passado, pisar os cumes arredondados dos séculos, regressar virilmente na história para beber nas fontes virgens, onde ainda jorra — quente e fumegante — o sangue dos primeiros sacrifícios humanos livres.

É preciso retornar, descalços e nus, entre as pedras vivas da floresta mítica e lendária, e nutrir-nos, como nossos ancestrais remotos, do tutano do leão e da natureza selvagem.


Só assim — como diria Maria Vesta — poderemos dizer ao primeiro Herói que soube oferecer sua carne, serena e estoicamente, às chamas vermelhas de um incêndio hostil e crepitante:

Agora nós também, como tu, sabemos cantar sob a tortura.

A vida que a sociedade nos oferece não é plena, nem livre, nem alegre.

É uma vida esmagada, mutilada, humilhada.

Devemos recusá-la.

E, se não tivermos força ou capacidade para arrancar violentamente de suas mãos a vida alta e vigorosa que sentimos pulsar em nós, então lancemos esse espectro sobre o altar trágico do sacrifício — e da renúncia final.

Pelo menos, poderemos coroar com um diadema heroico de beleza o rosto ensanguentado da arte que ilumina e cria.

Melhor erguer-se nas chamas de um incêndio e tombar, o crânio partido sob a rajada de um pelotão inconsciente, do que aceitar esse espectro de vida irônica — que não passa de uma paródia sinistra da própria vida.

Basta, ó amigos, de covardia. Basta, ó companheiros, da ingênua ilusão do “ato generoso das massas”.

A massa é palha — palha que o socialismo deixou apodrecer no estábulo da burguesia.

Errico Malatesta, Pasquale Binazzi, Dante Carnesecchi — e milhares de outros desconhecidos que apodrecem nesses manicômios miasmáticos e mortais que são as prisões da monarquia de Saboia — prisões cuja ampliação foi reclamada, nos chiqueiros parlamentares, pelos pequenos medalhões do Partido Socialista Italiano — devem ser, para nós, como espectros de remorso.

Devem caminhar, em formas terríveis, pelos desvios incertos de nossas mentes hesitantes; devem ser jorros ardentes de sangue que irrompem de nossos corações, atravessam as linhas do rosto e o cobrem de uma vergonha sombria.

Eu sei — nós sabemos — que cem SERES HUMANOS, dignos desse nome, seriam capazes de realizar aquilo que quinhentos mil “organizados” inconscientes jamais conseguirão.

Não vedes, ó amigos, a sombra de Bruno Filippi que nos observa, sorrindo com desdém?


Já não existem, então, CEM ANARQUISTAS na Itália dignos desse nome? Já não existem cem “eus” capazes de caminhar com pés em chamas sobre os picos vertiginosos de nossas ideias?

Errico Malatesta e os milhares que caíram nas mãos do inimigo ao primeiro sinal desta tempestade social aguardam, com nobre e febril expectativa, o relâmpago que derrube o edifício em ruínas, que ilumine a história, que eleve os valores da vida, que acenda o caminho da humanidade…

Mas o relâmpago brilhante e fatal não pode nascer do coração das massas.

As massas, que pareciam ardentes admiradoras de Malatesta, são covardes e impotentes.

O governo e a burguesia o sabem — e sorriem.

Sabem: “O Partido Socialista Italiano está conosco. É a peça indispensável para o desfecho funesto de nosso jogo. É o abracadabra que toma forma na voz encantatória de nossa feitiçaria milenar. As massas covardes são suas escravas, e Malatesta está velho e doente. Deixá-lo-emos morrer na escuridão úmida de uma cela — e depois lançaremos seu cadáver ao rosto de seus companheiros anarquistas…”

Sim — é isso que o governo e a burguesia pensam, nos recantos ocultos de suas mentes estúpidas e maliciosas.

E nós? Suportaremos esse desafio vil com indiferença? Suportaremos esse insulto sangrento e brutal em silêncio? Somos, então, tão covardes assim?

Espero que estes três enormes pontos de interrogação — solenes e terríveis — encontrem, nas fileiras do anarquismo, uma resposta viril que diga: NÃO! E que o diga com um trovão ainda mais terrível…

É dos cumes ardentes, dos picos luminosos, que deve irromper o relâmpago libertador.

O VELHO forte espera. Companheiros heroicos: a nós!

O cadáver de um velho agitador custa sempre mais caro do que a vida de mil idiotas maliciosos.

Irmãos e irmãs, lembrai-vos disso.

Agi de tal modo que a mais profunda de todas as vergonhas humanas não recaia sobre nós.


- Renzo Novattore 


Il Libertario 

vol. XVIII, nº 793

La Spezia

8 de dezembro

domingo, 10 de maio de 2026

A Luta de Classes (Programa de Erfurt) - Capítulo II


 II. O PROLETARIADO

1. De Aprendiz a Proletário

Vimos que o sistema capitalista de produção implica a separação do trabalhador dos meios de produção. De um lado está o capitalista, que possui a máquina, e do outro o proletário, que realiza o trabalho.

Originalmente, foram necessários métodos coercitivos para garantir o fornecimento de proletários necessários a esse sistema. Hoje, porém, tais métodos já não são necessários. O poder econômico do sistema tornou-se suficiente para alcançar o resultado desejado sem violar a lei da propriedade privada. De fato, é pela operação dessa lei que, a cada ano, um número suficiente de camponeses e artesãos independentes é colocado diante da escolha entre a fome e o trabalho nas fábricas.

Que o número do proletariado esteja aumentando continuamente é um fato tão evidente que ninguém tenta negá-lo, nem mesmo aqueles que gostariam de nos fazer acreditar que a sociedade atual repousa sobre a mesma base de cem anos atrás, e que tentam pintar em cores rosadas o quadro do pequeno produtor. De fato, uma mudança ocorreu na composição da sociedade, assim como ocorreu no sistema de produção. 

A forma capitalista de produção derrubou todas as outras e tornou-se a dominante no campo da indústria; de modo semelhante, o trabalho assalariado é hoje a forma dominante de trabalho. Há cem anos, o campesinato ocupava o primeiro lugar; depois, os pequenos industriais urbanos; hoje, é o assalariado.

Em todos os países civilizados, os proletários são hoje a maior classe; são suas condições e modos de pensamento que tendem a influenciar os de todas as outras divisões do trabalho. Isso implica uma completa revolução na condição e no pensamento da maioria da população. As condições do proletariado diferem radicalmente das de todas as categorias anteriores de trabalho. 

O pequeno agricultor, o artesão, os pequenos produtores em geral, eram proprietários do produto de seu trabalho em razão de sua posse dos meios de produção. O produto do trabalho do proletário não lhe pertence, pertence ao capitalista, ao proprietário dos instrumentos necessários de produção. É verdade que o proletário é pago pelo capitalista, mas o valor de seus salários é muito inferior ao de seu produto.

Quando o capitalista na indústria compra a única mercadoria que o proletário pode oferecer à venda — isto é, sua força de trabalho — ele o faz com o único propósito de utilizá-la de maneira lucrativa. Quanto mais o trabalhador produz, maior é o valor de seu produto. Se o capitalista fizesse seus empregados trabalharem apenas o tempo suficiente para produzir o equivalente aos salários que lhes paga, não obteria lucro algum. Mas seu capital exige lucros e encontra nele um ouvinte disposto. 

Quanto mais se prolonga o tempo durante o qual os trabalhadores laboram a serviço dos capitalistas, além do tempo necessário para cobrir seus salários, maior é o valor de seu produto, maior é o excedente além do gasto capitalista com salários, e maior é a porcentagem de exploração à qual esses trabalhadores são submetidos. Essa exploração do trabalho encontra limite apenas na capacidade de resistência dos trabalhadores e na resistência que eles possam oferecer aos seus exploradores.

Na produção capitalista, o capitalista e o assalariado não são companheiros de trabalho, como eram o empregador e o empregado em épocas industriais anteriores. O capitalista logo se transforma, e permanece, essencialmente um comerciante. Sua atividade, na medida em que ele é ativo, limita-se, como a do comerciante, às operações do mercado. 

Seus esforços consistem em comprar o mais barato possível as matérias-primas, a força de trabalho e outros elementos necessários, e vender os produtos acabados pelo preço mais alto possível. No próprio campo da produção, ele nada faz além de assegurar a maior quantidade de trabalho dos operários pelo menor salário possível, e assim extrair deles a maior quantidade possível de mais-valia. 

Em sua relação com seus empregados, ele não é um companheiro de trabalho; é apenas um condutor e explorador. Quanto mais eles trabalham, melhor para ele; ele não se cansa se as horas de trabalho são excessivamente prolongadas; ele não perece se o método de produção se torna mortal. O capitalista é muito mais imprudente com a vida e a segurança de seus operários do que o mestre-artesão de tempos passados. A extensão da jornada de trabalho, a abolição de feriados, a introdução do trabalho noturno, fábricas úmidas e superaquecidas cheias de gases venenosos — tais são os “melhoramentos” que o modo de produção capitalista introduziu para o benefício da classe trabalhadora.


A introdução das máquinas aumenta ainda mais o perigo à vida e à integridade física do trabalhador. O sistema de máquinas o prende a um monstro que se move perpetuamente com força gigantesca e velocidade insana. Apenas a atenção mais rigorosa e constante pode proteger o trabalhador ligado a tal máquina de ser capturado e destruído por ela. Dispositivos de proteção custam dinheiro; o capitalista não os introduz a menos que seja forçado a fazê-lo. Sendo a economia a tão exaltada virtude do capitalista, ele é compelido a economizar espaço e a comprimir o máximo possível de máquinas na oficina. Que lhe importa que os membros de seus trabalhadores sejam colocados em perigo? Trabalhadores são baratos, mas oficinas amplas e arejadas são caras.

Há ainda outro aspecto em que o uso capitalista das máquinas rebaixa a condição da classe trabalhadora. É o seguinte: a ferramenta do mecânico de tempos passados era barata e sofria poucas mudanças que a tornassem inútil. Com a máquina, ocorre o contrário: em primeiro lugar, ela custa dinheiro, muito dinheiro; em segundo lugar, se por melhorias no sistema ela se torna obsoleta, ou se não é utilizada em sua plena capacidade, trará prejuízo em vez de lucro ao capitalista. Além disso, a máquina se desgasta não apenas pelo uso, mas também pela ociosidade. Ademais, a introdução da ciência na produção constantemente faz com que novas descobertas e invenções substituam as antigas. Assim, por não poderem competir com máquinas aperfeiçoadas, ora esta máquina, ora aquela, e frequentemente fábricas inteiras de uma só vez, tornam-se inúteis antes de terem sido plenamente utilizadas. 

Portanto, toda máquina corre o risco de tornar-se inútil antes de se esgotar; isso é razão suficiente para que o capitalista a utilize o mais rapidamente possível desde o momento em que a coloca em operação. Em outras palavras, a aplicação capitalista do sistema de máquinas é um estímulo que leva o capitalista a prolongar ao máximo a jornada de trabalho, a manter a produção sem interrupção, a introduzir o sistema de turnos diurnos e noturnos e, consequentemente, a transformar o insalubre trabalho noturno em um sistema permanente.

Na época em que o sistema de máquinas começou a se desenvolver, alguns idealistas declararam que a idade de ouro estava próxima; a máquina libertaria o trabalhador e o tornaria livre. Nas mãos do capitalista, porém, a máquina tornou o fardo do trabalho insuportável.

Mas, também no que diz respeito aos salários, a condição do assalariado é pior do que a do aprendiz medieval. O proletário, o trabalhador de hoje, não se alimenta à mesa do capitalista; ele não vive na mesma casa. Por mais miserável que seja sua moradia, por mais precária que seja sua alimentação — e mesmo que passe fome — o bem-estar do capitalista não é perturbado por essa visão repugnante. 

As palavras salário e fome costumavam ser mutuamente excludentes; o trabalhador livre antigamente só podia morrer de fome quando não tinha trabalho. Quem trabalhava recebia salário; tinha o suficiente para comer; a fome não era seu destino. Ao sistema capitalista coube a ingrata distinção de reconciliar esses dois opostos — salário e fome — elevando os salários de fome a uma instituição permanente, até mesmo a um sustentáculo do sistema social atual.

2. Salários

Os salários nunca podem subir tão alto a ponto de tornar impossível ao capitalista continuar seu negócio e viver dos lucros dele; em tais circunstâncias, seria mais lucrativo para o capitalista abandonar sua atividade. Consequentemente, os salários do trabalhador nunca podem subir o suficiente para igualar o valor de seu produto. Devem sempre permanecer abaixo dele, de modo a deixar um excedente; é apenas a perspectiva desse excedente que leva o capitalista a comprar a força de trabalho. Portanto, é evidente que, sob o sistema capitalista, os salários dos trabalhadores nunca podem subir o suficiente para pôr fim à exploração do trabalho.

O excedente que a classe capitalista se apropria é maior do que geralmente se imagina. Ele cobre não apenas os lucros do fabricante, mas muitos outros itens que geralmente são creditados ao custo de produção e de troca. Ele cobre, por exemplo, a renda da terra, os juros de empréstimos, salários administrativos, lucros comerciais, impostos, etc. Todos esses devem ser subtraídos do excedente, isto é, do excesso do valor do produto sobre os salários do trabalhador. 

É evidente que esse excedente deve ser considerável para que um empreendimento seja “rentável”. É claro que os salários do trabalhador não podem subir o suficiente para se aproximarem sequer do valor de seu produto. O sistema capitalista significa, em todas as circunstâncias, a exploração dos trabalhadores assalariados. É impossível abolir essa exploração sem abolir o próprio sistema. E a exploração deve ser grande mesmo onde os salários são altos.

Mas os salários raramente atingem o ponto mais alto que essas circunstâncias permitiriam; com mais frequência, encontram-se próximos do ponto mais baixo possível. Esse ponto é atingido quando os salários não fornecem ao trabalhador nem mesmo as necessidades mais básicas. Quando o trabalhador não apenas passa fome, mas passa fome rapidamente, todo trabalho chega ao fim.

Os salários oscilam entre esses dois extremos. Quanto menores as necessidades do trabalhador, maior a oferta de trabalho no mercado, e menor a capacidade de resistência do trabalhador, mais baixos os salários caem.

Em geral, os salários devem ser altos o suficiente para manter o trabalhador em condições de trabalhar, ou, mais precisamente, devem ser altos o suficiente para assegurar ao capitalista a quantidade de força de trabalho de que ele necessita. Em outras palavras, os salários devem ser suficientemente altos não apenas para manter os trabalhadores aptos ao trabalho, mas também aptos a produzir filhos que os substituam.

Ora, o desenvolvimento industrial revela uma tendência, muito agradável ao capitalista, de reduzir as necessidades do trabalhador e de diminuir seus salários proporcionalmente.

Houve um tempo em que habilidade e força eram requisitos para um trabalhador. O período de aprendizagem era longo, o custo de formação considerável. Agora, porém, o progresso na divisão do trabalho e a introdução das máquinas tornam a habilidade e a força cada vez mais supérfluas; tornam possível substituir trabalhadores qualificados por trabalhadores não qualificados e baratos; e, consequentemente, colocar mulheres frágeis e até mesmo crianças no lugar dos homens. Nos estágios iniciais da manufatura essa tendência já é perceptível; mas somente com a introdução das máquinas na produção encontramos a exploração em massa de mulheres e crianças — os mais indefesos entre os indefesos.


Originalmente, o assalariado precisava ganhar salários suficientemente altos para cobrir não apenas suas próprias despesas, mas também as de sua família, a fim de permitir sua reprodução e a transmissão de sua força de trabalho a outros. Sem esse processo, os herdeiros dos capitalistas não encontrariam proletários prontos para exploração.

Quando, porém, a esposa e os filhos pequenos do trabalhador são capazes de se sustentar, os salários do trabalhador masculino podem ser reduzidos com segurança ao nível de suas necessidades pessoais, sem o risco de interromper o fluxo contínuo de força de trabalho.

O trabalho de mulheres e crianças, além disso, oferece a vantagem adicional de que estes são menos capazes de resistência do que os homens; e sua introdução nas fileiras dos trabalhadores aumenta enormemente a quantidade de trabalho oferecida à venda no mercado.

Assim, o trabalho de mulheres e crianças não apenas reduz as necessidades do trabalhador, mas também diminui sua capacidade de resistência ao saturar o mercado; devido a ambas as circunstâncias, reduz os salários do trabalhador.


3. Dissolução da Família Proletária

A participação das mulheres nas atividades industriais significa a destruição total da vida familiar do trabalhador, sem substituí-la por uma forma mais elevada de relação familiar. O sistema capitalista de produção não destrói, na maioria dos casos, o domicílio individual do trabalhador, mas o priva de tudo, exceto de seus aspectos desagradáveis. 

A atividade da mulher hoje na indústria não significa para ela libertação das tarefas domésticas; significa o acréscimo de um novo fardo aos anteriores. Mas ninguém pode servir a dois senhores. O lar do trabalhador sofre sempre que sua esposa precisa ajudar a ganhar o pão diário. A sociedade atual oferece, no lugar do lar individual que destrói, apenas substitutos miseráveis: cozinhas de sopa e creches, onde migalhas da subsistência física e mental dos ricos são lançadas às classes inferiores.

Os socialistas são acusados de pretender abolir a família. Sabemos que todo sistema de produção teve uma forma específica de domicílio à qual corresponde um sistema particular de relações familiares. Não consideramos a forma atual da família como a mais elevada possível, e esperamos que um novo e melhor sistema social desenvolva uma forma nova e superior de relações familiares. Mas sustentar essa visão é algo muito diferente de tentar dissolver todos os laços familiares.

Aqueles que de fato destroem os laços familiares — que não apenas pretendem fazê-lo, mas efetivamente o fazem diante de nossos olhos — não são os socialistas, mas os capitalistas. Muitos senhores de escravos, no passado, separaram maridos de esposas e pais de filhos, mas os capitalistas aperfeiçoaram as abominações da escravidão; eles arrancam o bebê do seio de sua mãe e a obrigam a confiá-lo a mãos estranhas. E, no entanto, uma sociedade na qual centenas de milhares de tais casos ocorrem diariamente, uma sociedade cujas classes superiores promovem instituições “beneficentes” com o objetivo de facilitar a separação das mães de seus bebês, tal sociedade tem a ousadia de acusar os socialistas de querer abolir a família, porque estes, baseando sua opinião no fato de que a família sempre foi um reflexo do sistema de produção, preveem que novas mudanças nesse sistema também resultarão em uma relação familiar mais perfeita.


4. Prostituição

De mãos dadas com a acusação sobre os laços familiares vem a acusação de que os socialistas pretendem a comunidade de mulheres. Essa acusação é tão falsa quanto a outra. Os socialistas, ao contrário, sustentam que o amor ideal, justamente o oposto da comunidade de mulheres e de toda opressão e licenciosidade sexual, será a base das relações matrimoniais em uma comunidade socialista, e que o amor puro só pode prevalecer em tal sistema social. O que, por outro lado, vemos hoje?

Mulheres desamparadas, forçadas a ganhar a vida em fábricas, lojas e minas, tornam-se presa da cobiça capitalista. O capitalista tira proveito de sua inexperiência, oferece-lhes salários insuficientes para sua subsistência e sugere, de forma velada ou mesmo descarada, a prostituição como meio de complementar sua renda. Em toda parte, o aumento do trabalho feminino na indústria é acompanhado por um aumento da prostituição. 

No Estado moderno, onde o cristianismo é tão devotamente pregado, existem muitos ramos prósperos da indústria em que as trabalhadoras recebem salários tão baixos que seriam obrigadas a morrer de fome se não se prostituíssem. E os capitalistas declaram que a capacidade de competir, a prosperidade de sua indústria, dependem desses baixos salários. Salários mais altos os arruinariam.

A prostituição é tão antiga quanto o contraste entre ricos e pobres. Houve um tempo, porém, em que as prostitutas constituíam uma camada intermediária entre mendigos e ladrões; eram então um artigo de luxo no qual a sociedade se permitia indulgir, mas cuja perda não colocaria em risco sua existência. Hoje, porém, não são apenas as mulheres das favelas que são compelidas a vender seus corpos por dinheiro, mas também trabalhadoras. Essa venda já não é simplesmente uma questão de luxo; tornou-se um dos fundamentos sobre os quais a produção se sustenta. Sob o sistema capitalista, a prostituição torna-se um pilar da sociedade.

 Aquilo de que os defensores desse sistema social falsamente acusam os socialistas é precisamente aquilo de que eles próprios são culpados. A comunidade de mulheres é uma característica do capitalismo. De fato, esse sistema criou raízes tão profundas na sociedade moderna que seus representantes chegam a declarar a prostituição como algo necessário. Eles não conseguem compreender que a abolição do proletariado implica a abolição da prostituição. Tão profundamente estão afundados na estagnação intelectual que não conseguem conceber um sistema social sem comunidade de mulheres.

A comunidade de mulheres é uma invenção das classes superiores da sociedade, nunca do proletariado. A comunidade de mulheres é uma das formas de exploração do proletariado; não é socialismo, é exatamente o oposto do socialismo.

5. O Exército Industrial de Reserva

Vimos que a introdução do trabalho feminino e infantil na indústria é um dos meios mais poderosos pelos quais os capitalistas reduzem os salários dos trabalhadores. Há, porém, outro meio que, periodicamente, é igualmente poderoso. Trata-se da introdução de trabalhadores provenientes de regiões atrasadas, cuja população tem poucas necessidades, mas cuja força de trabalho ainda não foi esgotada pelo sistema fabril. O desenvolvimento das máquinas torna possível não apenas o emprego desses trabalhadores não qualificados no lugar dos qualificados, mas também seu transporte barato e rápido até o local onde são necessários. 

De mãos dadas com o desenvolvimento da produção segue o sistema de transporte; à produção colossal corresponde um transporte colossal, não apenas de mercadorias, mas também de pessoas. Navios a vapor e ferrovias, esses tão exaltados pilares da civilização, não apenas levam armas, álcool e sífilis aos bárbaros, como também trazem os bárbaros e sua barbárie até nós. O fluxo de trabalhadores agrícolas para as cidades torna-se constantemente mais intenso; e de regiões cada vez mais distantes aproximam-se multidões daqueles que têm menos necessidades, são mais pacientes e oferecem menor resistência. Há um fluxo constante de emigração de um país europeu para outro, da Europa para a América e até mesmo do Oriente para terras ocidentais. Esses trabalhadores estrangeiros são, em parte, pessoas expropriadas — pequenos agricultores e produtores — que o sistema capitalista de produção arruinou, lançou à rua e privou não apenas de um lar, mas também de um país. Olhai para esses inúmeros emigrantes e perguntai se é o socialismo que os priva de sua pátria.

Por meio da expropriação dos pequenos produtores, pela importação de grandes massas de trabalho de terras distantes, pelo uso do trabalho de mulheres e crianças, pela redução do tempo necessário para aprender um ofício — por todos esses meios o sistema capitalista de produção é capaz de aumentar enormemente a quantidade de forças de trabalho à sua disposição. E, lado a lado com isso, ocorre um aumento constante na produtividade do trabalho humano como resultado do progresso ininterrupto das técnicas.

Simultaneamente a essas tendências, a máquina tende constantemente a substituir trabalhadores e torná-los supérfluos. Toda máquina economiza força de trabalho; se não o fizesse, seria inútil. Em cada ramo da indústria, a transição do trabalho manual para o trabalho mecânico é acompanhada do maior sofrimento para os trabalhadores afetados por ela. Sejam operários de fábrica ou artesãos independentes, eles se tornam supérfluos diante da máquina e são lançados às ruas. Foi esse efeito das máquinas que os trabalhadores sentiram primeiro. Muitas revoltas durante os primeiros anos do século XIX testemunham o sofrimento que a transição do trabalho manual para o trabalho mecânico, ou a introdução de novas máquinas, inflige à classe trabalhadora e o desespero ao qual ela é levada por isso. A introdução das máquinas, assim como seu aperfeiçoamento posterior, é sempre prejudicial a certos setores do trabalho. É verdade que, sob certas condições, outros trabalhadores — por exemplo, aqueles que fabricam as máquinas — podem se beneficiar disso. Mas pode-se duvidar que a consciência desse fato traga grande consolo àqueles que estão passando fome.


Cada nova máquina faz com que se produza tanto quanto antes com menos trabalhadores, ou uma produção maior sem aumento no número de trabalhadores. Daí decorre que, se o número de trabalhadores empregados em um país não diminui com o desenvolvimento do sistema de máquinas, o mercado deve se expandir proporcionalmente ao aumento da produtividade desses trabalhadores. Mas, como o desenvolvimento econômico aumenta a produtividade do trabalho ao mesmo tempo em que aumenta a quantidade de trabalho disponível, segue-se que, para evitar o desemprego forçado, o mercado deve expandir-se a um ritmo muito mais rápido do que aquele em que a produtividade do trabalho é aumentada pela máquina. Tal expansão rápida do mercado, porém, raramente ocorreu sob o domínio da produção capitalista. 

Portanto, o desemprego forçado é um fenômeno permanente sob o sistema capitalista de produção, e é inseparável dele. Mesmo nos melhores períodos, quando o mercado se expande repentinamente e os negócios prosperam, a produção não é capaz de fornecer trabalho para todos os desempregados. Nos períodos de crise, porém, quando os negócios entram em estagnação, seu número atinge proporções enormes. Eles constituem, juntamente com os trabalhadores de pequenos empreendimentos tornados supérfluos, um grande exército — o “exército industrial de reserva”, como o chamou Karl Marx — um exército de forças de trabalho sempre pronto à disposição do capitalista, um exército do qual ele pode extrair suas reservas sempre que a campanha industrial se intensifica.

Para o capitalista, esse exército de reserva é inestimável. Ele coloca em suas mãos uma arma poderosa com a qual pode conter o exército dos empregados. Depois que o trabalho excessivo de alguns produziu falta de trabalho para outros, o desemprego destes é usado como meio para manter, e até aumentar, o excesso de trabalho daqueles. E, no entanto, há pessoas que afirmam que as coisas hoje estão organizadas da melhor maneira possível!

Embora o tamanho do exército industrial de reserva aumente e diminua com os altos e baixos dos negócios, no conjunto ele revela uma tendência constante de crescimento. Isso é inevitável. O desenvolvimento técnico avança em ritmo cada vez mais acelerado e amplia continuamente seu campo de ação, enquanto, por outro lado, a expansão dos mercados é limitada por barreiras naturais.

Qual é, então, o pleno significado da falta de trabalho? Ela significa não apenas necessidade e miséria para os desempregados, não apenas servidão intensificada e exploração para os empregados; significa também incerteza de subsistência para toda a classe trabalhadora. Quaisquer que tenham sido as dificuldades que os modos anteriores de exploração impuseram aos explorados, um benefício lhes restava: a certeza de subsistência. A sobrevivência do servo e do escravo estava assegurada ao menos durante a vida de seu senhor. Somente quando o senhor morria é que a vida de seus dependentes ficava em perigo. Por maior que fosse a miséria e a carência sob sistemas anteriores de produção, ela nunca resultava da própria produção; era consequência de perturbações na produção, causadas por más colheitas, secas, inundações, invasões de exércitos inimigos, etc.

Hoje, a existência do explorador não está vinculada à do explorado. A qualquer momento, o trabalhador, com sua esposa e filhos, pode ser lançado à rua e entregue à fome, sem que o explorador, a quem ele enriqueceu, sofra qualquer prejuízo por isso.

A miséria do desemprego forçado hoje raramente é resultado de perturbações externas na produção; é o resultado necessário do desenvolvimento do sistema atual de produção. O oposto ocorre em relação aos sistemas anteriores: perturbações na produção frequentemente melhoram as oportunidades de trabalho em vez de reduzi-las; lembre-se dos efeitos da guerra de 1870 sobre a vida industrial da Alemanha e da França nos anos imediatamente seguintes.

Sob o antigo sistema de produção em pequena escala, a renda do trabalhador era proporcional à sua diligência. A preguiça o arruinava e acabava por lançá-lo fora do trabalho. Hoje, ao contrário, o desemprego aumenta quanto mais arduamente e por mais tempo o trabalhador labuta; ele produz o desemprego forçado por meio de seu próprio trabalho. Entre as muitas máximas do mundo da pequena produção que a grande produção capitalista inverteu está esta: “A diligência de um homem é sua fortuna”.

A força de trabalho não é mais um escudo contra a necessidade e a miséria do que a propriedade. Assim como o espectro da falência paira sempre sobre o pequeno agricultor e o artesão, o espectro do desemprego paira sempre sobre o assalariado. De todos os males que acompanham o sistema atual de produção, o mais doloroso — aquele que mais profundamente fere a alma e arranca pela raiz todo instinto de conservação — é a incerteza permanente da subsistência. Essa incerteza constante quanto à própria condição abala a crença na permanência da ordem existente e o interesse em sua preservação. Quem é mantido em medo eterno pela ordem vigente perde todo o medo de uma nova.

Trabalho excessivo, falta de trabalho, destruição da família — estes são os “presentes” que o sistema capitalista de produção traz ao proletariado, ao mesmo tempo em que força cada vez mais a população a entrar nas condições de vida proletárias.



6. O Aumento do Proletariado. Proletariado Comercial e Intelectual

Não é apenas pela expansão da grande produção que o sistema capitalista faz com que a condição do proletariado se torne cada vez mais a condição de toda a população. Ele também realiza isso pelo fato de que a condição do assalariado empregado na grande produção estabelece o padrão para a condição dos assalariados em todos os outros ramos. As condições sob as quais estes últimos trabalham e vivem são revolucionadas; as vantagens que eles possam ter tido sobre aqueles empregados na indústria capitalista são transformadas em desvantagens sob a influência desta. Para ilustrar: onde, por exemplo, o artesão ainda se alimenta e vive com seu mestre, esse arranjo torna-se um meio de forçá-lo a contentar-se com alimentação e alojamento ainda piores do que os do assalariado que mantém seu próprio lar.

Há outro domínio, muito extenso, no qual o sistema capitalista de grande produção tende a transformar a população em proletários — o domínio do comércio. As grandes lojas já pesam fortemente sobre as menores. O número de pequenas lojas não diminui por isso. Pelo contrário, aumenta. A pequena loja é o último refúgio do pequeno produtor arruinado. Se as pequenas lojas fossem de fato eliminadas, o chão seria completamente retirado de sob os pés dos pequenos comerciantes; eles seriam imediatamente empurrados para baixo da classe do proletariado — para os cortiços; seriam transformados em mendigos, vagabundos e candidatos ao cárcere — uma maravilhosa reforma social!

Mas não é na redução do número de pequenas lojas, e sim na degradação de seu caráter, que a influência da grande produção se manifesta no comércio. O pequeno comerciante passa a lidar com mercadorias cada vez piores e mais baratas; sua vida torna-se mais precária, mais proletária. Nas grandes lojas, ao contrário, há um aumento constante no número de empregados — verdadeiros proletários sem perspectiva de jamais se tornarem independentes. Trabalho infantil, trabalho feminino, com seu acompanhamento de prostituição, trabalho excessivo, falta de trabalho, salários de fome — todos os sintomas da grande produção — aparecem também em quantidade crescente no domínio do comércio. Gradualmente, a condição dos empregados nesse setor aproxima-se da dos proletários na produção. A única diferença perceptível entre ambos é que os primeiros mantêm as aparências de uma vida melhor, que exigem sacrifícios desconhecidos pelos proletários industriais.

Existe ainda uma terceira categoria de proletários que avançou bastante no caminho de seu pleno desenvolvimento — os proletários instruídos. A educação tornou-se um ofício especial em nosso sistema atual. A quantidade de conhecimento aumentou enormemente e cresce diariamente. A sociedade capitalista e o Estado capitalista necessitam cada vez mais de homens instruídos e capazes para conduzir seus negócios e para submeter as forças da natureza ao seu domínio. Mas não são apenas o pequeno agricultor trabalhador, o mecânico ou o proletário em geral que não têm tempo para se dedicar à ciência e à arte; o comerciante, o industrial, o banqueiro, o especulador, o proprietário de terras — todos estão na mesma situação. Todo o seu tempo é absorvido por seus negócios e seus prazeres. 

Na sociedade moderna não são, como ocorria em ordens sociais anteriores, os próprios exploradores — ou ao menos uma parte deles — que promovem as artes e as ciências. Os exploradores atuais, nossa classe dominante, deixam essas atividades a uma classe especial que mantêm assalariada. Sob esse sistema, a educação torna-se uma mercadoria.

Há cerca de cem anos, essa mercadoria era rara. Havia poucas escolas; estudar implicava despesas consideráveis. Enquanto a pequena produção podia sustentá-lo, o trabalhador permanecia nela; apenas talentos especiais ou circunstâncias favoráveis levavam os filhos dos trabalhadores a dedicar-se às artes e às ciências. Embora houvesse uma demanda crescente por professores, artistas e outros profissionais, a oferta era claramente limitada.

Enquanto essa situação persistiu, a educação tinha alto valor. Sua posse proporcionava, ao menos para aqueles que a aplicavam a fins práticos, uma vida confortável; não raramente trazia honra e fama. O artista, o poeta, o filósofo eram, em países monárquicos, companheiros da realeza. A aristocracia do intelecto sentia-se superior à aristocracia de nascimento ou de riqueza. A única preocupação desses indivíduos era o desenvolvimento de seu intelecto. Assim, não é de surpreender que pessoas cultas pudessem ser, e frequentemente fossem, idealistas. Esses aristocratas da educação e da cultura colocavam-se acima das outras classes, de suas aspirações materiais e de seus antagonismos. Educação significava poder, felicidade e valor. Parecia inevitável concluir que, para tornar todos os homens felizes e dignos, para eliminar todos os antagonismos de classe, toda pobreza, toda maldade e mesquinhez do mundo, bastava difundir a educação e a cultura.


Desde então, o desenvolvimento da educação superior fez progressos imensos. O número de instituições de ensino aumentou extraordinariamente, e, em grau ainda maior, o número de estudantes. Ao mesmo tempo, a base da pequena produção foi destruída. O pequeno proprietário hoje não conhece outro meio de impedir que seus filhos afundem no proletariado senão enviá-los à universidade; e faz isso sempre que seus recursos permitem. 

Além disso, deve considerar o futuro não apenas de seus filhos, mas também de suas filhas. O desenvolvimento da divisão do trabalho invade rapidamente o lar; transforma uma tarefa doméstica após outra em uma indústria especializada, reduzindo continuamente o trabalho doméstico. Tecelagem, costura, tricô, panificação e muitas outras ocupações que outrora preenchiam o cotidiano doméstico foram total ou parcialmente retiradas da esfera do lar. Como resultado, o casamento em que a esposa é apenas dona de casa torna-se cada vez mais um luxo.

 Mas ocorre que o pequeno proprietário e produtor está ao mesmo tempo em declínio e empobrecimento; perde cada vez mais os meios de sustentar tal luxo. Como consequência, aumenta o número de mulheres solteiras, e cresce o número de famílias em que mãe e filha precisam tornar-se assalariadas. Assim, o número de mulheres assalariadas aumenta não apenas na produção e no comércio, mas também nos serviços públicos, no telégrafo e telefone, nas ferrovias e bancos, nas artes e nas ciências. Por mais que interesses pessoais e preconceitos se oponham, o trabalho feminino avança cada vez mais nas profissões. Não é vaidade, ousadia ou arrogância que leva as mulheres a essas atividades, mas a força do desenvolvimento econômico. Se os homens conseguiram impedir a concorrência feminina em certos ramos intelectuais ainda organizados como ofícios, as mulheres tendem a se concentrar ainda mais nos campos não organizados dessa forma, como a literatura, a pintura e a música.

O resultado de todo esse desenvolvimento é que o número de pessoas instruídas aumentou enormemente. Contudo, os efeitos benéficos que os idealistas esperavam desse aumento não se concretizaram. Enquanto a educação for uma mercadoria, sua expansão equivale ao aumento da quantidade dessa mercadoria e, consequentemente, à queda de seu valor e à deterioração da condição daqueles que a possuem. O número de pessoas instruídas cresceu a tal ponto que excede as necessidades dos capitalistas e do Estado capitalista. O mercado de trabalho intelectual está hoje tão saturado quanto o mercado de trabalho manual. Já não são apenas os trabalhadores manuais que possuem seu exército de reserva de desempregados; os trabalhadores instruídos também têm o seu, e entre eles o desemprego também se tornou permanente. Aqueles que buscam cargos públicos encontram esse caminho saturado. Os que procuram outras ocupações experimentam alternâncias entre ociosidade e excesso de trabalho, assim como os trabalhadores manuais, e, como eles, são vítimas da escravidão salarial.

A condição dos trabalhadores instruídos deteriora-se visivelmente; antes falava-se da “aristocracia do intelecto”, hoje fala-se do “proletariado intelectual”.

O tempo está próximo em que a maioria desses proletários se distinguirá dos demais apenas por suas pretensões. Muitos ainda imaginam ser algo melhor do que proletários. Julgam pertencer à burguesia, assim como o lacaio se identifica com a classe de seu senhor. Deixaram de ser líderes da classe capitalista e tornaram-se seus defensores. A busca por cargos consome cada vez mais suas energias. Sua principal preocupação já não é o desenvolvimento de seu intelecto, mas sua venda. A prostituição de sua individualidade tornou-se seu principal meio de ascensão. Como os pequenos produtores, deixam-se fascinar pelos poucos prêmios brilhantes da loteria da vida; fecham os olhos para os inúmeros fracassos e trocam alma e corpo pela mera chance de obter tal prêmio. A venda de convicções e o casamento por dinheiro são, aos olhos da maioria desses proletários instruídos, meios tão naturais quanto necessários de “fazer fortuna”.

Ainda assim, a oferta dessa classe cresce tão rapidamente que pouco se pode obter com a educação, mesmo sacrificando a própria individualidade. A queda da massa dos instruídos à condição proletária já não pode ser detida.

Resta saber se esse desenvolvimento levará os instruídos a unir-se em massa ao proletariado em luta, e não apenas individualmente, como até agora. Isso, porém, é certo: o fato de que os instruídos estão sendo empurrados para o proletariado fechou aos proletários o único caminho pelo qual seus membros podiam, por esforço próprio, ascender à classe superior.


A possibilidade de o assalariado tornar-se capitalista é, na prática comum, inexistente. 

Pessoas sensatas não consideram a chance de ganhar na loteria ou herdar uma fortuna inesperada ao analisar a condição da classe trabalhadora. Em circunstâncias muito favoráveis, já ocorreu que um trabalhador, por grandes sacrifícios, conseguisse economizar o suficiente para iniciar um pequeno negócio, abrir uma loja ou proporcionar a seu filho estudos que lhe dessem uma posição “melhor”. Mas sempre foi ilusório apresentar tais possibilidades como solução para a condição do trabalhador. Em geral, ele já pode considerar-se afortunado se conseguir economizar algo para não ficar completamente desamparado quando o trabalho escassear. Hoje, porém, alimentar tais esperanças é mais ilusório do que nunca. 

O desenvolvimento econômico não apenas dificulta a poupança, mas torna impossível ao trabalhador, mesmo economizando, sair da condição proletária. Investir suas economias em um pequeno negócio seria cair de um problema em outro pior; é muito provável que acabe retornando à sua condição anterior, com a amarga experiência de que o pequeno produtor não pode mais sobreviver — experiência adquirida ao custo de suas economias.

Hoje, qualquer caminho que o proletário escolha leva às mesmas condições de vida proletária. Essas condições permeiam cada vez mais a sociedade. Em todos os países, a massa da população desceu ao nível do proletariado. Para o indivíduo proletário, desapareceu a perspectiva de libertar-se por esforço próprio do estado em que o sistema atual de produção o colocou. A redenção individual do proletário só pode ocorrer com a redenção de toda a sua classe.

- Karl Kautsky 


Próximo capítulo em breve

Capitulo I

sábado, 9 de maio de 2026

O Materialismo de Plekanov

Há ideias que caminham com a solenidade de um magistrado, e há outras que, embora menos vistosas, sustentam o próprio edifício em que o magistrado se assenta. O materialismo de Georgi Plekanov pertence a esta segunda ordem: discreto na aparência, mas estrutural na essência.

Imaginemos, leitor, que o mundo é um grande palco — metáfora já um tanto fatigada, concedo, mas útil. Muitos, ao longo dos séculos, creram que o enredo se escrevia nas alturas, por mãos invisíveis, caprichosas ou providenciais, conforme o gosto do filósofo de plantão. Plekanov, porém, com a serenidade de quem não se impressiona com cortinas de veludo, desce do camarote e aponta para o chão: “É aqui”, parece dizer, “que a peça se decide.”

Seu materialismo, herdado e desenvolvido a partir de Karl Marx e Friedrich Engels, parte de uma premissa quase desconcertante em sua simplicidade: não é a consciência que molda a vida, mas a vida — concreta, material, histórica — que molda a consciência. 

Em termos menos solenes, não pensamos o mundo primeiro para depois vivê-lo; vivemo-lo, e desse viver brota o pensar.


Plekanov, com um rigor que beira o pedagógico — e aqui se nota sua preocupação quase didática — insiste que as ideias, por mais elevadas que se apresentem, não flutuam no éter como balões filosóficos. Elas têm raízes. E essas raízes mergulham no solo das condições materiais: o modo como os homens produzem, trocam, trabalham, organizam suas necessidades. A filosofia, a arte, a moral — todas essas senhoras de ar respeitável — seriam, para ele, reflexos (não espelhos perfeitos, note-se, mas reflexos ainda assim) desse fundo material.

Mas não se apresse o leitor em acusá-lo de reduzir o espírito humano a um simples autômato das circunstâncias. Plekanov não é um fatalista de gabinete. Ele admite — e aqui reside um de seus méritos — que a consciência, uma vez formada, também reage sobre o mundo. Há, portanto, um jogo de influências, uma espécie de dança entre o ser e o pensar. Todavia, e eis o ponto decisivo, o compasso inicial não é dado pela ideia, mas pela realidade concreta.

Tal concepção se insere no que se convencionou chamar de materialismo histórico — expressão que, sob a pena de Karl Marx, ganha contornos mais amplos, mas que em Plekanov encontra um de seus mais zelosos intérpretes. Ele dedica boa parte de sua obra a explicar — quase como um professor paciente diante de alunos distraídos — que as transformações sociais não são fruto de caprichos individuais ou de súbitas iluminações morais, mas resultado de contradições objetivas nas condições de vida.


Assim, quando uma sociedade muda — e ela muda, ainda que alguns insistam em negá-lo — não é porque um punhado de homens teve uma ideia particularmente brilhante ao acordar. É porque as bases materiais que sustentavam aquela ordem já não a comportam. As ideias vêm depois, como intérpretes — às vezes fiéis, às vezes equivocados — de uma realidade que já se deslocou.

Se há, porém, algo de verdadeiramente interessante em Plekanov, não é apenas o que ele afirma, mas o modo como combate seus adversários. Contra os idealistas — esses arquitetos do invisível — ele ergue a solidez do mundo concreto. Contra os voluntaristas — que creem na força quase mágica da vontade — ele opõe a teimosia das condições materiais. E, no entanto, não abdica de reconhecer que o homem, esse curioso animal pensante, não é mero espectador, mas também ator da história.

Dir-se-ia, portanto, que seu materialismo não é uma prisão, mas uma moldura: delimita, condiciona, orienta — mas não elimina o movimento interno da vida humana.

E aqui, se me permite uma última confidência, leitor: o que talvez mais incomode no pensamento de Plekanov não é sua complexidade, mas sua franqueza. Ele nos retira o consolo de crer que somos senhores absolutos de nossas ideias, autores soberanos de nossos destinos intelectuais. Em seu lugar, oferece algo menos lisonjeiro — e, por isso mesmo, mais honesto: somos, em larga medida, filhos do mundo que habitamos.

Se isso diminui o homem ou o esclarece, deixo à sua consciência — que, como diria o próprio Plekanov, não surgiu do nada — o trabalho de julgar.


A Concepção Materialista da História

Convém, leitor paciente — que já atravessou as veredas do materialismo com a cautela de quem pisa em terreno alheio — acrescentar agora um pequeno apêndice, não como ornamento supérfluo, mas como chave de leitura. Falemos, pois, de A Concepção Materialista da História, obra em que Georgi Plekanov deixa de ser apenas intérprete e assume, com alguma autoridade, o papel de expositor sistemático.

Se no corpo de seu pensamento encontramos princípios dispersos como estrelas, é nesta obra que ele tenta desenhar a constelação.

Plekanov escreve, antes de tudo, contra a confusão — essa velha senhora que insiste em sentar-se à mesa dos debates filosóficos. Seu objetivo é esclarecer o que, afinal, significa dizer que a história possui uma base material. E, para tanto, começa pelo ponto mais terreno possível: a vida prática dos homens.

Não há sociedade — insiste ele, com a firmeza de um professor que já repetiu a lição demasiadas vezes — sem produção. Antes de filosofar, amar ou guerrear, o homem precisa comer, vestir-se, abrigar-se. Essas necessidades elementares dão origem ao que Plekanov, seguindo Karl Marx, chama de modo de produção: o conjunto de forças e relações através das quais os homens garantem sua existência.

E aqui se encontra o eixo de sua argumentação: é esse modo de produção que condiciona, em última instância, a organização social, política e espiritual de uma época.

Mas Plekanov não se contenta com a fórmula — ele a disseca.

Ele distingue, com certo gosto pela precisão, dois elementos fundamentais: as forças produtivas (instrumentos, técnicas, capacidades humanas) e as relações de produção (as formas pelas quais os homens se organizam para produzir).

Quando estas duas instâncias entram em desacordo — quando, por exemplo, novas formas de produzir já não cabem nas velhas estruturas sociais — instala-se a tensão histórica.

E é dessa tensão, não de súbitos lampejos de genialidade, que nascem as grandes transformações.

Tal ideia, que em mãos apressadas poderia parecer um determinismo rígido, ganha em Plekanov uma nuance curiosa. Ele reconhece o papel das ideias, das personalidades, dos chamados “grandes homens”. Não os nega — seria ingênuo fazê-lo — mas os reinscreve em seu devido lugar: o de produtos e agentes de condições históricas específicas.

Assim, um reformador, um revolucionário, um pensador — todos esses personagens que a história costuma vestir com mantos heroicos — só podem agir porque encontram um terreno propício. São, por assim dizer, sementes que necessitam de solo adequado. Sem ele, não germinam; com ele, tornam-se quase inevitáveis.

Plekanov dedica especial atenção a esse ponto, talvez por saber o quanto o espírito humano aprecia atribuir à vontade individual aquilo que pertence ao curso mais vasto das coisas. Ele não destrói o indivíduo — mas o relativiza. Retira-lhe o trono, sem expulsá-lo do palco.

Outro aspecto digno de nota — e aqui peço licença para sublinhar com alguma ênfase — é sua preocupação em diferenciar o materialismo histórico de um materialismo vulgar. Plekanov não reduz a história a uma sequência mecânica de causas e efeitos, como quem descreve o movimento de engrenagens. Há mediações, há complexidades, há tempos distintos entre base material e formas ideológicas.

A consciência social, por exemplo, não muda com a mesma velocidade que as condições econômicas. Há um atraso, uma resistência, uma espécie de inércia do espírito — fenômeno que ele observa com a lucidez de quem já viu ideias sobreviverem ao mundo que as produziu.

E talvez aqui resida um dos méritos mais elegantes de sua obra: a recusa tanto do idealismo ingênuo quanto do materialismo simplório. Plekanov caminha entre ambos, como quem evita dois abismos distintos.

Por fim, cabe notar que A Concepção Materialista da História não é apenas um texto explicativo — é também uma defesa. Plekanov escreve para afirmar a legitimidade do método materialista diante de seus críticos, muitos dos quais o acusavam de empobrecer a experiência humana.

Sua resposta, contudo, é de uma sobriedade quase irônica: compreender as raízes materiais da vida não diminui o homem — antes, permite compreendê-lo em sua totalidade concreta.

E assim, leitor, encerramos este apêndice com uma impressão que talvez lhe seja familiar: a de que, sob a pena de Plekanov, a história deixa de ser um romance de intenções e passa a ser um drama de condições.

Se isso a torna menos poética, é questão de gosto. Se a torna mais inteligível, é questão de método.


O Papel do Indivíduo na História

Há, no espírito humano, uma inclinação quase irresistível ao heroísmo. Gostamos de crer — talvez por economia de imaginação — que os grandes acontecimentos do mundo são obra de grandes homens. Um gesto de Napoleão Bonaparte, um discurso inflamado, uma decisão tomada sob a luz vacilante de uma vela — e eis que a história muda de rumo.

Plekanov, porém, convida-nos a um exercício menos romântico e mais paciente: observar não apenas o gesto, mas o terreno sobre o qual ele se torna possível.

Sua tese central, exposta com clareza quase pedagógica, é a seguinte: o indivíduo desempenha, sim, um papel na história — mas esse papel é condicionado pelas circunstâncias materiais e sociais de sua época.

Dito de outro modo, o homem age, mas não escolhe livremente o palco, o enredo ou mesmo o idioma em que sua ação será compreendida.

O indivíduo como possibilidade histórica

Plekanov não nega a importância dos indivíduos — seria, como já disse, uma ingenuidade. Ele reconhece que certas figuras possuem capacidades extraordinárias: inteligência, vontade, carisma, visão estratégica.

Mas acrescenta, com um leve sorriso filosófico: tais qualidades só se tornam historicamente eficazes quando encontram condições adequadas.

Um grande general, por exemplo, nada pode fazer sem um exército; um reformador, sem uma sociedade em crise; um revolucionário, sem contradições que exijam resolução.

Assim, Napoleão Bonaparte não criou a França pós-revolucionária — ele emergiu dela. Foi, ao mesmo tempo, produto e agente de uma situação histórica específica.

Sem a Revolução Francesa, sua genialidade talvez tivesse permanecido no anonimato, como tantas outras que a história jamais registrou.

A ilusão do acaso e da vontade soberana

Plekanov dedica especial atenção àquilo que poderíamos chamar de “ilusão biográfica”: a tendência de explicar os acontecimentos históricos a partir das intenções, decisões ou traços psicológicos de indivíduos.

Ele não descarta esses elementos, mas os recoloca em perspectiva.

O que parece ser fruto do acaso — uma escolha, um erro, uma oportunidade — muitas vezes se revela, sob análise mais cuidadosa, como expressão de necessidades históricas mais profundas.

Se um indivíduo não realiza determinada ação, outro, em condições semelhantes, provavelmente o fará. A história, nesse sentido, não depende de uma única vontade, mas de um conjunto de possibilidades abertas por circunstâncias objetivas.


Liberdade e necessidade: uma convivência incômoda

Aqui, leitor, tocamos talvez no ponto mais delicado — aquele em que o pensamento de Plekanov se aproxima de uma filosofia da existência.

Se tudo é condicionado, onde fica a liberdade?

Plekanov responde sem dramatizações: a liberdade não desaparece, mas muda de natureza. Não é a capacidade de agir fora das condições, mas de agir dentro delas, compreendendo-as.

O indivíduo livre, nesse sentido, não é aquele que ignora a necessidade, mas aquele que a reconhece e atua de acordo com ela.

Há, nessa formulação, algo de sóbrio — e talvez um pouco desconcertante. A liberdade deixa de ser um voo irrestrito e torna-se uma navegação: há ventos, correntes, limites. O mérito do navegante não está em anulá-los, mas em saber utilizá-los.

Os “grandes homens” revisados

Plekanov propõe, portanto, uma revisão do conceito de “grande homem”.

Grandes não são aqueles que criam a história a partir do nada, mas aqueles que melhor expressam e realizam as necessidades de seu tempo. São intérpretes privilegiados de uma realidade que já se encontra em movimento.

E, nesse sentido, sua ausência não impediria o curso da história — apenas o modificaria em seus detalhes, em sua velocidade, em sua forma específica.

A história seguiria adiante, ainda que por caminhos ligeiramente distintos.

Consideração final (quase um sussurro ao leitor)

Talvez, ao fim desta leitura, reste uma inquietação — e não seria mau sinal.

Se não somos senhores absolutos da história, tampouco somos suas marionetes. Habitamos um espaço intermediário, onde agir é possível, mas nunca absoluto.

Plekanov, com sua habitual franqueza, retira-nos o consolo do heroísmo fácil, mas oferece algo em troca: a compreensão.

E compreender — ainda que não seja tão glorioso quanto conquistar — é, por vezes, o primeiro passo para agir com verdadeira eficácia.

Se isso diminui o homem ou o engrandece, deixo, mais uma vez, à sua reflexão. Afinal, como diria o próprio Georgi Plekanov, até mesmo nossas dúvidas têm uma história.

Convém, leitor atento — já iniciado nas engrenagens do pensamento — que nos detenhamos agora não apenas nas ideias, mas no homem. Porque há momentos em que a teoria, essa dama austera, é posta à prova pela história viva; e nem todos os filósofos resistem ao exame.

No caso de Georgi Plekanov, tal prova assume contornos particularmente dramáticos nos anos que cercam a Revolução Russa. E é aí que encontramos não apenas o teórico do materialismo histórico, mas o homem que, coerente — ou teimoso, conforme o gosto do leitor — se recusa a trair o próprio método.


Plekanov diante de 1917 — coerência e recusa

Há, na história, certos instantes em que o tempo parece acelerar — como se os séculos, cansados de sua própria lentidão, resolvessem correr. O ano de 1917 foi um desses momentos.

A Rússia, esse vasto organismo social, encontrava-se em convulsão: guerra, fome, crise política, colapso das instituições. Para muitos, era o prenúncio da revolução socialista. Para outros — e aqui entra Plekanov — tratava-se de algo mais ambíguo, talvez até prematuro.

Plekanov, formado na tradição de Karl Marx, sustentava uma convicção que já conhecemos: as transformações sociais profundas exigem determinadas condições materiais. Não bastam a vontade, o entusiasmo ou mesmo a miséria — é preciso que as forças produtivas e as relações sociais tenham amadurecido o suficiente para sustentar uma nova ordem.

E, a seus olhos, a Rússia de 1917 ainda não havia atingido tal ponto.

Entre duas revoluções

Para compreender sua posição, é necessário distinguir — como ele próprio fazia — entre duas tarefas históricas distintas.

A primeira: a revolução burguesa, destinada a superar estruturas arcaicas, desenvolver o capitalismo, expandir as forças produtivas e criar as bases de uma sociedade moderna.

A segunda: a revolução socialista, que pressupõe justamente o amadurecimento dessas condições.

Plekanov acreditava que a Rússia ainda se encontrava no primeiro estágio. Saltar diretamente ao segundo seria, em sua leitura, não um avanço, mas uma espécie de atalho ilusório — desses que prometem encurtar o caminho, mas acabam por desorientar o viajante.


A ruptura com os bolcheviques

É nesse ponto que sua trajetória cruza, de modo tenso e decisivo, com a de Vladimir Lenin e os bolcheviques.

Enquanto estes defendiam a tomada imediata do poder pelos sovietes — interpretando a crise como oportunidade histórica — Plekanov via nessa pressa um erro teórico e um risco político.

Ele se opõe à insurreição de Revolução de Outubro, considerando-a uma antecipação artificial do socialismo em um terreno ainda não preparado.

Sua crítica não era apenas estratégica, mas profundamente enraizada em seu materialismo: a história não pode ser forçada sem consequências. Quando se tenta impor uma forma social para a qual não há base material suficiente, o resultado tende à distorção — ou, em termos menos elegantes, ao fracasso disfarçado.

A acusação implícita: voluntarismo

Embora raramente entregue a ataques simplistas, Plekanov via no bolchevismo um traço que sempre combateu: o voluntarismo — a crença de que a vontade política pode substituir as condições objetivas.

Para ele, essa posição não apenas contrariava o materialismo histórico, como também arriscava produzir um regime que, embora se proclamasse socialista, careceria das bases reais para sê-lo.

Em outras palavras, temia que se construísse uma aparência de socialismo sem sua substância.


Coerência ou isolamento?

Tal postura custou-lhe caro.

Enquanto a maré revolucionária avançava, Plekanov permanecia, por assim dizer, na margem — fiel a seus princípios, mas cada vez mais distante do curso efetivo dos acontecimentos.

Foi criticado, marginalizado e, em certa medida, superado pela própria história que tanto buscou compreender.

Mas há, nesse isolamento, algo que merece reflexão.

Plekanov preferiu manter-se coerente com sua leitura das condições históricas a aderir a um movimento que julgava teoricamente equivocado. Não cedeu ao entusiasmo coletivo, nem ao apelo da ação imediata.

Se estava certo ou errado — eis uma questão que os historiadores ainda discutem, muitas vezes com mais paixão do que método.


Consideração final (entre a lucidez e o tempo)

Talvez o que mais impressione, leitor, não seja a posição em si, mas o dilema que ela revela.

Plekanov nos coloca diante de uma pergunta incômoda: deve o pensador seguir a lógica de sua teoria, mesmo quando a história parece tomar outro rumo? Ou deve ajustar sua teoria ao movimento dos fatos, ainda que isso implique certa concessão?

Ele escolheu o primeiro caminho.

E, ao fazê-lo, tornou-se uma figura quase trágica — não por ter falhado, mas por ter permanecido fiel a um método que exige paciência em um mundo que, por vezes, prefere a pressa.

Se sua recusa foi um erro ou uma advertência, deixo — como de costume — à sua consideração.

Afinal, entre a urgência dos homens e o tempo das estruturas, a história raramente oferece respostas simples.

Chegamos, enfim, leitor — e como em todo bom término que se preze, não há propriamente um fim, mas uma inflexão do olhar. Depois de atravessarmos ideias, obras e dilemas, resta-nos a pergunta que talvez tenha motivado todo o percurso, ainda que silenciosamente:

por que Georgi Plekanov?

Por que Plekanov?

Vivemos tempos curiosos — não pela novidade, que é quase sempre exagerada, mas pela velocidade com que as certezas se sucedem. Ideias nascem prontas, sistemas se proclamam acabados, e não são poucos os que, diante da complexidade do mundo, preferem resolvê-la com fórmulas breves e convicções inflamadas.

É nesse cenário que Plekanov retorna — não como um profeta, mas como um antídoto.

Seu materialismo não seduz pela promessa, mas pela exigência. Ele nos obriga a olhar para o chão quando tudo em nós deseja mirar o céu. Recorda-nos, com uma insistência quase incômoda, que nenhuma transformação social se sustenta apenas na vontade, na retórica ou na pureza das intenções.

Contra o entusiasmo apressado — que tantas vezes marcou experiências inspiradas em Vladimir Lenin e, mais tarde, em Joseph Stalin — Plekanov oferece uma lição de sobriedade: a história não se deixa abreviar sem custo.

E aqui convém fazer uma distinção delicada, mas necessária.

Não se trata de negar a importância dos processos revolucionários, tampouco de reduzir suas figuras a caricaturas. Trata-se, antes, de reconhecer que, em muitas leituras posteriores, o materialismo histórico foi simplificado — por vezes transformado em justificativa para a ação imediata, mesmo quando as condições materiais permaneciam imaturas.

Plekanov, ao contrário, insiste naquilo que muitos prefeririam esquecer: não há socialismo sem base material para sustentá-lo. Fora disso, o que se constrói pode até ostentar o nome — mas corre o risco de carecer da substância.

Uma lição para o presente

E o que isso nos diz hoje?

Diria, leitor, que mais do que nunca somos tentados pelo voluntarismo — essa crença elegante de que basta querer, organizar e agir para que a realidade se dobre. Seja na política, na cultura ou mesmo na vida cotidiana, há uma impaciência crescente com os limites, com os processos, com o tempo das coisas.

Plekanov nos convida ao contrário: à análise paciente, à compreensão das estruturas, ao reconhecimento de que as ideias — por mais nobres — não flutuam acima do mundo, mas emergem dele.

Isso não nos paralisa — ao contrário. Nos orienta.

Porque agir sem compreender é, muitas vezes, apenas trocar uma ilusão por outra.

Entre o espírito e a matéria

E talvez aqui resida o ponto mais fecundo para um leitor como você, que não teme cruzar o materialismo com inquietações mais amplas — quase espirituais, diríamos.

Plekanov não nega o espírito humano; ele o situa.

Mostra que nossas ideias, valores e aspirações têm história, têm raiz, têm condição. E, paradoxalmente, é justamente ao reconhecer isso que ganhamos maior clareza sobre nós mesmos.

Não somos menos por sermos condicionados — somos mais compreensíveis.

Última palavra (ou quase)

Escolher Plekanov, portanto, não é escolher um sistema fechado, nem um dogma a ser repetido. É escolher um método — e, mais ainda, uma atitude diante do mundo.

Uma atitude que desconfia das respostas fáceis, que recusa atalhos históricos, que prefere a lucidez à euforia.

Se há, hoje, quem romantize revoluções passadas ou projete futuros sem base no presente, Plekanov permanece como uma voz discreta — mas firme — a lembrar:

a história não se faz apenas com ideias — mas sem compreendê-las em sua raiz material, tampouco se faz bem.

E assim, leitor, encerramos — não com uma conclusão definitiva, mas com uma companhia.

A de Georgi Plekanov, que talvez não ofereça consolo, nem promessas grandiosas — mas oferece algo mais raro:

um convite à honestidade intelectual.

E, em tempos de tanto ruído, isso já não é pouco.

-Jonni X