sábado, 9 de maio de 2026

O Materialismo de Plekanov

Há ideias que caminham com a solenidade de um magistrado, e há outras que, embora menos vistosas, sustentam o próprio edifício em que o magistrado se assenta. O materialismo de Georgi Plekanov pertence a esta segunda ordem: discreto na aparência, mas estrutural na essência.

Imaginemos, leitor, que o mundo é um grande palco — metáfora já um tanto fatigada, concedo, mas útil. Muitos, ao longo dos séculos, creram que o enredo se escrevia nas alturas, por mãos invisíveis, caprichosas ou providenciais, conforme o gosto do filósofo de plantão. Plekanov, porém, com a serenidade de quem não se impressiona com cortinas de veludo, desce do camarote e aponta para o chão: “É aqui”, parece dizer, “que a peça se decide.”

Seu materialismo, herdado e desenvolvido a partir de Karl Marx e Friedrich Engels, parte de uma premissa quase desconcertante em sua simplicidade: não é a consciência que molda a vida, mas a vida — concreta, material, histórica — que molda a consciência. 

Em termos menos solenes, não pensamos o mundo primeiro para depois vivê-lo; vivemo-lo, e desse viver brota o pensar.


Plekanov, com um rigor que beira o pedagógico — e aqui se nota sua preocupação quase didática — insiste que as ideias, por mais elevadas que se apresentem, não flutuam no éter como balões filosóficos. Elas têm raízes. E essas raízes mergulham no solo das condições materiais: o modo como os homens produzem, trocam, trabalham, organizam suas necessidades. A filosofia, a arte, a moral — todas essas senhoras de ar respeitável — seriam, para ele, reflexos (não espelhos perfeitos, note-se, mas reflexos ainda assim) desse fundo material.

Mas não se apresse o leitor em acusá-lo de reduzir o espírito humano a um simples autômato das circunstâncias. Plekanov não é um fatalista de gabinete. Ele admite — e aqui reside um de seus méritos — que a consciência, uma vez formada, também reage sobre o mundo. Há, portanto, um jogo de influências, uma espécie de dança entre o ser e o pensar. Todavia, e eis o ponto decisivo, o compasso inicial não é dado pela ideia, mas pela realidade concreta.

Tal concepção se insere no que se convencionou chamar de materialismo histórico — expressão que, sob a pena de Karl Marx, ganha contornos mais amplos, mas que em Plekanov encontra um de seus mais zelosos intérpretes. Ele dedica boa parte de sua obra a explicar — quase como um professor paciente diante de alunos distraídos — que as transformações sociais não são fruto de caprichos individuais ou de súbitas iluminações morais, mas resultado de contradições objetivas nas condições de vida.


Assim, quando uma sociedade muda — e ela muda, ainda que alguns insistam em negá-lo — não é porque um punhado de homens teve uma ideia particularmente brilhante ao acordar. É porque as bases materiais que sustentavam aquela ordem já não a comportam. As ideias vêm depois, como intérpretes — às vezes fiéis, às vezes equivocados — de uma realidade que já se deslocou.

Se há, porém, algo de verdadeiramente interessante em Plekanov, não é apenas o que ele afirma, mas o modo como combate seus adversários. Contra os idealistas — esses arquitetos do invisível — ele ergue a solidez do mundo concreto. Contra os voluntaristas — que creem na força quase mágica da vontade — ele opõe a teimosia das condições materiais. E, no entanto, não abdica de reconhecer que o homem, esse curioso animal pensante, não é mero espectador, mas também ator da história.

Dir-se-ia, portanto, que seu materialismo não é uma prisão, mas uma moldura: delimita, condiciona, orienta — mas não elimina o movimento interno da vida humana.

E aqui, se me permite uma última confidência, leitor: o que talvez mais incomode no pensamento de Plekanov não é sua complexidade, mas sua franqueza. Ele nos retira o consolo de crer que somos senhores absolutos de nossas ideias, autores soberanos de nossos destinos intelectuais. Em seu lugar, oferece algo menos lisonjeiro — e, por isso mesmo, mais honesto: somos, em larga medida, filhos do mundo que habitamos.

Se isso diminui o homem ou o esclarece, deixo à sua consciência — que, como diria o próprio Plekanov, não surgiu do nada — o trabalho de julgar.


A Concepção Materialista da História

Convém, leitor paciente — que já atravessou as veredas do materialismo com a cautela de quem pisa em terreno alheio — acrescentar agora um pequeno apêndice, não como ornamento supérfluo, mas como chave de leitura. Falemos, pois, de A Concepção Materialista da História, obra em que Georgi Plekanov deixa de ser apenas intérprete e assume, com alguma autoridade, o papel de expositor sistemático.

Se no corpo de seu pensamento encontramos princípios dispersos como estrelas, é nesta obra que ele tenta desenhar a constelação.

Plekanov escreve, antes de tudo, contra a confusão — essa velha senhora que insiste em sentar-se à mesa dos debates filosóficos. Seu objetivo é esclarecer o que, afinal, significa dizer que a história possui uma base material. E, para tanto, começa pelo ponto mais terreno possível: a vida prática dos homens.

Não há sociedade — insiste ele, com a firmeza de um professor que já repetiu a lição demasiadas vezes — sem produção. Antes de filosofar, amar ou guerrear, o homem precisa comer, vestir-se, abrigar-se. Essas necessidades elementares dão origem ao que Plekanov, seguindo Karl Marx, chama de modo de produção: o conjunto de forças e relações através das quais os homens garantem sua existência.

E aqui se encontra o eixo de sua argumentação: é esse modo de produção que condiciona, em última instância, a organização social, política e espiritual de uma época.

Mas Plekanov não se contenta com a fórmula — ele a disseca.

Ele distingue, com certo gosto pela precisão, dois elementos fundamentais: as forças produtivas (instrumentos, técnicas, capacidades humanas) e as relações de produção (as formas pelas quais os homens se organizam para produzir).

Quando estas duas instâncias entram em desacordo — quando, por exemplo, novas formas de produzir já não cabem nas velhas estruturas sociais — instala-se a tensão histórica.

E é dessa tensão, não de súbitos lampejos de genialidade, que nascem as grandes transformações.

Tal ideia, que em mãos apressadas poderia parecer um determinismo rígido, ganha em Plekanov uma nuance curiosa. Ele reconhece o papel das ideias, das personalidades, dos chamados “grandes homens”. Não os nega — seria ingênuo fazê-lo — mas os reinscreve em seu devido lugar: o de produtos e agentes de condições históricas específicas.

Assim, um reformador, um revolucionário, um pensador — todos esses personagens que a história costuma vestir com mantos heroicos — só podem agir porque encontram um terreno propício. São, por assim dizer, sementes que necessitam de solo adequado. Sem ele, não germinam; com ele, tornam-se quase inevitáveis.

Plekanov dedica especial atenção a esse ponto, talvez por saber o quanto o espírito humano aprecia atribuir à vontade individual aquilo que pertence ao curso mais vasto das coisas. Ele não destrói o indivíduo — mas o relativiza. Retira-lhe o trono, sem expulsá-lo do palco.

Outro aspecto digno de nota — e aqui peço licença para sublinhar com alguma ênfase — é sua preocupação em diferenciar o materialismo histórico de um materialismo vulgar. Plekanov não reduz a história a uma sequência mecânica de causas e efeitos, como quem descreve o movimento de engrenagens. Há mediações, há complexidades, há tempos distintos entre base material e formas ideológicas.

A consciência social, por exemplo, não muda com a mesma velocidade que as condições econômicas. Há um atraso, uma resistência, uma espécie de inércia do espírito — fenômeno que ele observa com a lucidez de quem já viu ideias sobreviverem ao mundo que as produziu.

E talvez aqui resida um dos méritos mais elegantes de sua obra: a recusa tanto do idealismo ingênuo quanto do materialismo simplório. Plekanov caminha entre ambos, como quem evita dois abismos distintos.

Por fim, cabe notar que A Concepção Materialista da História não é apenas um texto explicativo — é também uma defesa. Plekanov escreve para afirmar a legitimidade do método materialista diante de seus críticos, muitos dos quais o acusavam de empobrecer a experiência humana.

Sua resposta, contudo, é de uma sobriedade quase irônica: compreender as raízes materiais da vida não diminui o homem — antes, permite compreendê-lo em sua totalidade concreta.

E assim, leitor, encerramos este apêndice com uma impressão que talvez lhe seja familiar: a de que, sob a pena de Plekanov, a história deixa de ser um romance de intenções e passa a ser um drama de condições.

Se isso a torna menos poética, é questão de gosto. Se a torna mais inteligível, é questão de método.


O Papel do Indivíduo na História

Há, no espírito humano, uma inclinação quase irresistível ao heroísmo. Gostamos de crer — talvez por economia de imaginação — que os grandes acontecimentos do mundo são obra de grandes homens. Um gesto de Napoleão Bonaparte, um discurso inflamado, uma decisão tomada sob a luz vacilante de uma vela — e eis que a história muda de rumo.

Plekanov, porém, convida-nos a um exercício menos romântico e mais paciente: observar não apenas o gesto, mas o terreno sobre o qual ele se torna possível.

Sua tese central, exposta com clareza quase pedagógica, é a seguinte: o indivíduo desempenha, sim, um papel na história — mas esse papel é condicionado pelas circunstâncias materiais e sociais de sua época.

Dito de outro modo, o homem age, mas não escolhe livremente o palco, o enredo ou mesmo o idioma em que sua ação será compreendida.

O indivíduo como possibilidade histórica

Plekanov não nega a importância dos indivíduos — seria, como já disse, uma ingenuidade. Ele reconhece que certas figuras possuem capacidades extraordinárias: inteligência, vontade, carisma, visão estratégica.

Mas acrescenta, com um leve sorriso filosófico: tais qualidades só se tornam historicamente eficazes quando encontram condições adequadas.

Um grande general, por exemplo, nada pode fazer sem um exército; um reformador, sem uma sociedade em crise; um revolucionário, sem contradições que exijam resolução.

Assim, Napoleão Bonaparte não criou a França pós-revolucionária — ele emergiu dela. Foi, ao mesmo tempo, produto e agente de uma situação histórica específica.

Sem a Revolução Francesa, sua genialidade talvez tivesse permanecido no anonimato, como tantas outras que a história jamais registrou.

A ilusão do acaso e da vontade soberana

Plekanov dedica especial atenção àquilo que poderíamos chamar de “ilusão biográfica”: a tendência de explicar os acontecimentos históricos a partir das intenções, decisões ou traços psicológicos de indivíduos.

Ele não descarta esses elementos, mas os recoloca em perspectiva.

O que parece ser fruto do acaso — uma escolha, um erro, uma oportunidade — muitas vezes se revela, sob análise mais cuidadosa, como expressão de necessidades históricas mais profundas.

Se um indivíduo não realiza determinada ação, outro, em condições semelhantes, provavelmente o fará. A história, nesse sentido, não depende de uma única vontade, mas de um conjunto de possibilidades abertas por circunstâncias objetivas.


Liberdade e necessidade: uma convivência incômoda

Aqui, leitor, tocamos talvez no ponto mais delicado — aquele em que o pensamento de Plekanov se aproxima de uma filosofia da existência.

Se tudo é condicionado, onde fica a liberdade?

Plekanov responde sem dramatizações: a liberdade não desaparece, mas muda de natureza. Não é a capacidade de agir fora das condições, mas de agir dentro delas, compreendendo-as.

O indivíduo livre, nesse sentido, não é aquele que ignora a necessidade, mas aquele que a reconhece e atua de acordo com ela.

Há, nessa formulação, algo de sóbrio — e talvez um pouco desconcertante. A liberdade deixa de ser um voo irrestrito e torna-se uma navegação: há ventos, correntes, limites. O mérito do navegante não está em anulá-los, mas em saber utilizá-los.

Os “grandes homens” revisados

Plekanov propõe, portanto, uma revisão do conceito de “grande homem”.

Grandes não são aqueles que criam a história a partir do nada, mas aqueles que melhor expressam e realizam as necessidades de seu tempo. São intérpretes privilegiados de uma realidade que já se encontra em movimento.

E, nesse sentido, sua ausência não impediria o curso da história — apenas o modificaria em seus detalhes, em sua velocidade, em sua forma específica.

A história seguiria adiante, ainda que por caminhos ligeiramente distintos.

Consideração final (quase um sussurro ao leitor)

Talvez, ao fim desta leitura, reste uma inquietação — e não seria mau sinal.

Se não somos senhores absolutos da história, tampouco somos suas marionetes. Habitamos um espaço intermediário, onde agir é possível, mas nunca absoluto.

Plekanov, com sua habitual franqueza, retira-nos o consolo do heroísmo fácil, mas oferece algo em troca: a compreensão.

E compreender — ainda que não seja tão glorioso quanto conquistar — é, por vezes, o primeiro passo para agir com verdadeira eficácia.

Se isso diminui o homem ou o engrandece, deixo, mais uma vez, à sua reflexão. Afinal, como diria o próprio Georgi Plekanov, até mesmo nossas dúvidas têm uma história.

Convém, leitor atento — já iniciado nas engrenagens do pensamento — que nos detenhamos agora não apenas nas ideias, mas no homem. Porque há momentos em que a teoria, essa dama austera, é posta à prova pela história viva; e nem todos os filósofos resistem ao exame.

No caso de Georgi Plekanov, tal prova assume contornos particularmente dramáticos nos anos que cercam a Revolução Russa. E é aí que encontramos não apenas o teórico do materialismo histórico, mas o homem que, coerente — ou teimoso, conforme o gosto do leitor — se recusa a trair o próprio método.


Plekanov diante de 1917 — coerência e recusa

Há, na história, certos instantes em que o tempo parece acelerar — como se os séculos, cansados de sua própria lentidão, resolvessem correr. O ano de 1917 foi um desses momentos.

A Rússia, esse vasto organismo social, encontrava-se em convulsão: guerra, fome, crise política, colapso das instituições. Para muitos, era o prenúncio da revolução socialista. Para outros — e aqui entra Plekanov — tratava-se de algo mais ambíguo, talvez até prematuro.

Plekanov, formado na tradição de Karl Marx, sustentava uma convicção que já conhecemos: as transformações sociais profundas exigem determinadas condições materiais. Não bastam a vontade, o entusiasmo ou mesmo a miséria — é preciso que as forças produtivas e as relações sociais tenham amadurecido o suficiente para sustentar uma nova ordem.

E, a seus olhos, a Rússia de 1917 ainda não havia atingido tal ponto.

Entre duas revoluções

Para compreender sua posição, é necessário distinguir — como ele próprio fazia — entre duas tarefas históricas distintas.

A primeira: a revolução burguesa, destinada a superar estruturas arcaicas, desenvolver o capitalismo, expandir as forças produtivas e criar as bases de uma sociedade moderna.

A segunda: a revolução socialista, que pressupõe justamente o amadurecimento dessas condições.

Plekanov acreditava que a Rússia ainda se encontrava no primeiro estágio. Saltar diretamente ao segundo seria, em sua leitura, não um avanço, mas uma espécie de atalho ilusório — desses que prometem encurtar o caminho, mas acabam por desorientar o viajante.


A ruptura com os bolcheviques

É nesse ponto que sua trajetória cruza, de modo tenso e decisivo, com a de Vladimir Lenin e os bolcheviques.

Enquanto estes defendiam a tomada imediata do poder pelos sovietes — interpretando a crise como oportunidade histórica — Plekanov via nessa pressa um erro teórico e um risco político.

Ele se opõe à insurreição de Revolução de Outubro, considerando-a uma antecipação artificial do socialismo em um terreno ainda não preparado.

Sua crítica não era apenas estratégica, mas profundamente enraizada em seu materialismo: a história não pode ser forçada sem consequências. Quando se tenta impor uma forma social para a qual não há base material suficiente, o resultado tende à distorção — ou, em termos menos elegantes, ao fracasso disfarçado.

A acusação implícita: voluntarismo

Embora raramente entregue a ataques simplistas, Plekanov via no bolchevismo um traço que sempre combateu: o voluntarismo — a crença de que a vontade política pode substituir as condições objetivas.

Para ele, essa posição não apenas contrariava o materialismo histórico, como também arriscava produzir um regime que, embora se proclamasse socialista, careceria das bases reais para sê-lo.

Em outras palavras, temia que se construísse uma aparência de socialismo sem sua substância.


Coerência ou isolamento?

Tal postura custou-lhe caro.

Enquanto a maré revolucionária avançava, Plekanov permanecia, por assim dizer, na margem — fiel a seus princípios, mas cada vez mais distante do curso efetivo dos acontecimentos.

Foi criticado, marginalizado e, em certa medida, superado pela própria história que tanto buscou compreender.

Mas há, nesse isolamento, algo que merece reflexão.

Plekanov preferiu manter-se coerente com sua leitura das condições históricas a aderir a um movimento que julgava teoricamente equivocado. Não cedeu ao entusiasmo coletivo, nem ao apelo da ação imediata.

Se estava certo ou errado — eis uma questão que os historiadores ainda discutem, muitas vezes com mais paixão do que método.


Consideração final (entre a lucidez e o tempo)

Talvez o que mais impressione, leitor, não seja a posição em si, mas o dilema que ela revela.

Plekanov nos coloca diante de uma pergunta incômoda: deve o pensador seguir a lógica de sua teoria, mesmo quando a história parece tomar outro rumo? Ou deve ajustar sua teoria ao movimento dos fatos, ainda que isso implique certa concessão?

Ele escolheu o primeiro caminho.

E, ao fazê-lo, tornou-se uma figura quase trágica — não por ter falhado, mas por ter permanecido fiel a um método que exige paciência em um mundo que, por vezes, prefere a pressa.

Se sua recusa foi um erro ou uma advertência, deixo — como de costume — à sua consideração.

Afinal, entre a urgência dos homens e o tempo das estruturas, a história raramente oferece respostas simples.

Chegamos, enfim, leitor — e como em todo bom término que se preze, não há propriamente um fim, mas uma inflexão do olhar. Depois de atravessarmos ideias, obras e dilemas, resta-nos a pergunta que talvez tenha motivado todo o percurso, ainda que silenciosamente:

por que Georgi Plekanov?

Por que Plekanov?

Vivemos tempos curiosos — não pela novidade, que é quase sempre exagerada, mas pela velocidade com que as certezas se sucedem. Ideias nascem prontas, sistemas se proclamam acabados, e não são poucos os que, diante da complexidade do mundo, preferem resolvê-la com fórmulas breves e convicções inflamadas.

É nesse cenário que Plekanov retorna — não como um profeta, mas como um antídoto.

Seu materialismo não seduz pela promessa, mas pela exigência. Ele nos obriga a olhar para o chão quando tudo em nós deseja mirar o céu. Recorda-nos, com uma insistência quase incômoda, que nenhuma transformação social se sustenta apenas na vontade, na retórica ou na pureza das intenções.

Contra o entusiasmo apressado — que tantas vezes marcou experiências inspiradas em Vladimir Lenin e, mais tarde, em Joseph Stalin — Plekanov oferece uma lição de sobriedade: a história não se deixa abreviar sem custo.

E aqui convém fazer uma distinção delicada, mas necessária.

Não se trata de negar a importância dos processos revolucionários, tampouco de reduzir suas figuras a caricaturas. Trata-se, antes, de reconhecer que, em muitas leituras posteriores, o materialismo histórico foi simplificado — por vezes transformado em justificativa para a ação imediata, mesmo quando as condições materiais permaneciam imaturas.

Plekanov, ao contrário, insiste naquilo que muitos prefeririam esquecer: não há socialismo sem base material para sustentá-lo. Fora disso, o que se constrói pode até ostentar o nome — mas corre o risco de carecer da substância.

Uma lição para o presente

E o que isso nos diz hoje?

Diria, leitor, que mais do que nunca somos tentados pelo voluntarismo — essa crença elegante de que basta querer, organizar e agir para que a realidade se dobre. Seja na política, na cultura ou mesmo na vida cotidiana, há uma impaciência crescente com os limites, com os processos, com o tempo das coisas.

Plekanov nos convida ao contrário: à análise paciente, à compreensão das estruturas, ao reconhecimento de que as ideias — por mais nobres — não flutuam acima do mundo, mas emergem dele.

Isso não nos paralisa — ao contrário. Nos orienta.

Porque agir sem compreender é, muitas vezes, apenas trocar uma ilusão por outra.

Entre o espírito e a matéria

E talvez aqui resida o ponto mais fecundo para um leitor como você, que não teme cruzar o materialismo com inquietações mais amplas — quase espirituais, diríamos.

Plekanov não nega o espírito humano; ele o situa.

Mostra que nossas ideias, valores e aspirações têm história, têm raiz, têm condição. E, paradoxalmente, é justamente ao reconhecer isso que ganhamos maior clareza sobre nós mesmos.

Não somos menos por sermos condicionados — somos mais compreensíveis.

Última palavra (ou quase)

Escolher Plekanov, portanto, não é escolher um sistema fechado, nem um dogma a ser repetido. É escolher um método — e, mais ainda, uma atitude diante do mundo.

Uma atitude que desconfia das respostas fáceis, que recusa atalhos históricos, que prefere a lucidez à euforia.

Se há, hoje, quem romantize revoluções passadas ou projete futuros sem base no presente, Plekanov permanece como uma voz discreta — mas firme — a lembrar:

a história não se faz apenas com ideias — mas sem compreendê-las em sua raiz material, tampouco se faz bem.

E assim, leitor, encerramos — não com uma conclusão definitiva, mas com uma companhia.

A de Georgi Plekanov, que talvez não ofereça consolo, nem promessas grandiosas — mas oferece algo mais raro:

um convite à honestidade intelectual.

E, em tempos de tanto ruído, isso já não é pouco.

-Jonni X

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