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domingo, 26 de julho de 2026

A Fraude do Feminismo - Capítulo 2


Capítulo II

O Dogma Principal do Feminismo Moderno

Apontamos, no capítulo anterior, que o Feminismo Moderno possui dois lados: um lado positivo, definido e articulado, que reivindica ostensivamente a igualdade entre os sexos — tendo como principal objetivo a concessão às mulheres de todos os direitos e deveres dos homens, bem como a abertura de todas as carreiras a elas —; e um outro lado, mais vago, que pleiteia para as mulheres imunidade perante a lei penal e privilégios especiais na lei civil com base no sexo.

A justificativa das reivindicações do primeiro lado baseia-se no dogma de que, apesar das aparências em contrário, as mulheres são dotadas por natureza da mesma capacidade intelectual e moral que os homens. Já o segundo lado fundamenta-se em um sentimentalismo — isto é, um sentimento distribuído de forma desigual em favor das mulheres, tanto por tradição quanto por hábito adquirido.

Raramente se tenta fundamentar esse apelo sentimental em argumentos propriamente ditos. No máximo, encontram-se referências vagas à suposta fraqueza física das mulheres e à reivindicação de consideração especial derivada da antiga teoria de sua inferioridade mental e moral — teoria esta energicamente rejeitada como ultrapassada quando se trata de defender o primeiro lado do Feminismo Moderno.

As suposições mais ou menos vagas desse segundo aspecto — o lado sentimental do chamado “Movimento Feminino” — equivalem, na prática, como já foi dito, a uma reivindicação de que as mulheres possam cometer crimes sem incorrer nas penalidades que a lei impõe aos homens por delitos semelhantes.

Deve-se observar que, na prática, os mais fervorosos defensores do lado positivo e articulado do feminismo são também os mais sinceros sustentadores dessas premissas imprecisas e pouco definidas do seu lado sentimental. Isso se torna particularmente evidente sempre que uma mulher é considerada culpada de um crime especialmente grave.

É relativamente raro que mulheres sejam sequer condenadas por tais crimes, pois a influência do feminismo sentimental sobre juízes e jurados frequentemente basta para assegurar uma absolvição, por mais conclusivas que sejam as provas em contrário. Mesmo quando condenadas, é comum que lhes seja aplicada uma pena praticamente simbólica.

Entretanto, se por acaso uma mulher é condenada por um crime hediondo — como homicídio ou mutilação em circunstâncias especialmente agravadas — e recebe uma sentença que seria unanimemente aceita pela opinião pública no caso de um homem, então vemos todo o movimento feminista levantar-se em protesto.

A indignação é liderada por aqueles que se autoproclamam defensores da igualdade entre os sexos — os apóstolos do lado positivo do feminismo — que, naturalmente, reivindicam a eliminação das distinções de sexo na vida política e social com base na suposta igualdade de capacidades, mas que, quando se trata de responsabilidade moral, recorrem convenientemente a um sentimento cujo único fundamento concebível reside na antiga teoria da fraqueza mental e moral feminina.


Como ilustração disso, o leitor pode considerar casos como o de Florence Doughty, em 1906, que atirou e feriu um advogado com quem mantinha relações, bem como seu filho; o de Daisy Lord, em 1908, pelo assassinato de seu filho recém-nascido; e o da italiana Napolitano, no Canadá, condenada em 1911 pelo assassinato deliberado de seu marido enquanto dormia — caso em que uma campanha bem-sucedida por sua clemência foi organizada por sociedades sufragistas.

Passemos agora a examinar o dogma que sustenta o lado positivo do Feminismo Moderno — aquele que reivindica fundamentos racionais e pretende justificar-se com base em fatos e argumentos.

Esse dogma consiste na afirmação da igualdade de capacidade intelectual entre mulheres e homens, apesar das aparências em contrário. Creio que se pode admitir que os objetivos articulados do Feminismo Moderno, considerados em conjunto, repousam sobre esse dogma — e somente sobre ele.

Sabe-se que, no que diz respeito à questão do sufrágio, argumenta-se que a reivindicação não se baseia exclusivamente na igualdade de capacidade, já que homens de inteligência notoriamente inferior não são excluídos do voto por esse motivo. No entanto, a falácia desse argumento é evidente.

Em todas essas questões, lidamos com médias. A opinião pública tem tradicionalmente considerado que a média das mulheres se situa abaixo do nível intelectual exigido para o voto, enquanto a média dos homens não. Se isso for admitido, basta para sustentar a tese contrária ao sufrágio feminino.

Essa posição não é afetada pelo fato de que existam homens individualmente menos inteligentes do que certas mulheres excepcionalmente dotadas. O suposto absurdo de “George Eliot não ter direito a voto, enquanto seu jardineiro o possui” não é, na verdade, absurdo algum.

Em primeiro lugar, dadas as vantagens econômicas que permitiram à romancista adquirir educação — o que não ocorreu com o jardineiro — não há evidência suficiente de que o julgamento dele em assuntos públicos não pudesse ser até superior ao dela. Além disso, a posse de uma imaginação excepcional, manifestada em talento literário, não implica necessariamente uma capacidade igualmente excepcional de julgamento político.

Seja como for, quando se trata de médias, exceções evidentemente não têm peso.

Pode-se, portanto, concluir que a premissa fundamental do movimento sufragista é a suposta igualdade média entre os sexos no que diz respeito ao valor intelectual.

Existe uma dificuldade inicial em provar, teoricamente, a inferioridade intelectual das mulheres em relação aos homens, ou mesmo sua relativa inadequação para exercer funções que envolvam um tipo especial de julgamento. Há coisas que pertencem ao campo dos fatos — fatos acessíveis à observação comum — que ninguém costuma negar ou questionar, a menos que tenha alguma razão específica para fazê-lo.

Ora, é sempre possível negar um fato, por mais evidente que seja à percepção comum, assim como é impossível provar que a pessoa que o nega esteja mentindo (ou, digamos, “deturpando a verdade”), ou mesmo que seja alguém com um funcionamento anormal dos órgãos de percepção.

No momento em que escrevo, uma pessoa comum, sem interesses ocultos em sustentar o contrário, afirmaria que o sol brilha intensamente. Mas, se alguém tiver interesse em negar esse fato evidente e declarar que o dia está sombrio e nublado, não há argumento capaz de provar que estou certo e ele errado. Posso apontar para o sol, mas, se ele insistir em dizer que não o vê, não há como provar que o vê.

Este é, evidentemente, um exemplo extremo, pouco provável na vida real. Mas, em essência, é semelhante aos casos de pessoas (e não são raros) que, ao se depararem com fatos que contradizem de forma irrefutável uma posição teórica que adotaram, não hesitam em resolver a controvérsia a seu favor simplesmente negando os fatos inconvenientes.

Frequentemente se observa esse recurso em discussões sobre características consideradas típicas do sexo feminino. O feminista, encurralado, procura salvar sua posição negando frontalmente fatos acessíveis à observação comum e aceitos como evidentes por todos que não são feministas.

Entre esses fatos estariam: uma condição mental patológica atribuída especificamente ao sexo feminino, comumente associada ao termo “histeria”; a ausência, ou no máximo o desenvolvimento extremamente imperfeito, da capacidade lógica na maioria das mulheres; a incapacidade da mulher média de ultrapassar considerações pessoais ao formar seus julgamentos; e, em grande parte como consequência disso, a falta de um senso de justiça abstrata e de equidade em geral.

Sustenta-se aqui que essas características das mulheres, enquanto grupo, são fatos de observação comum e são contestadas apenas por aqueles — isto é, os feministas — para os quais sua aceitação seria inconveniente, se não fatal, para suas posições teóricas e reivindicações práticas.

Naturalmente, tais caracterizações referem-se a médias e não excluem exceções parciais ou mesmo, ocasionalmente, marcantes. É possível, portanto — ainda que pouco provável — que a experiência individual de certas pessoas leve a uma visão geral distorcida; que a experiência de um homem com o sexo oposto tenha se limitado a algumas mulheres excepcionalmente fora do padrão e que, por isso, contradiga a experiência comum da maioria. Nesse caso, sua recusa em admitir aquilo que para outros é evidente seria perfeitamente sincera.

Essa hipótese — embora altamente improvável — é praticamente o único refúgio para aqueles que desejam sustentar a sinceridade das negações feministas. Neste ponto, trato apenas do feminista homem, pois a feminista mulher é geralmente considerada uma testemunha excessivamente parcial nessa questão.

Passemos agora a considerar as diferenças no caráter mental entre homens e mulheres à luz de uma generalização adicional, suficientemente evidente em si mesma e formulada com particular clareza pelo falecido Otto Weininger em sua obra Geschlecht und Charakter (Sexo e Caráter), especialmente na seção II, capítulos 2 e 3.

Esse ponto já havia sido anteriormente observado, e o próprio autor destas linhas, entre outros, já chamou atenção para ele em diversas ocasiões. Contudo, sua formulação e desenvolvimento por Weininger são, até onde sei, os mais completos.

A ideia em questão consiste no seguinte: um fato que, segundo o autor, seria inegável para todos aqueles não cegados por dogmas pré-concebidos — a saber, que, como já foi dito em outro lugar, enquanto o homem possui um sexo, a mulher é um sexo.

Vejamos como Weininger expõe essa ideia:

“A mulher é apenas sexual; o homem também é sexual. Tanto no tempo quanto no espaço, essa diferença pode ser observada no homem: as partes de seu corpo suscetíveis à excitação sexual são poucas e bem localizadas. Na mulher, a sexualidade está difundida por todo o corpo; qualquer contato, em qualquer parte, pode excitá-la sexualmente.”

Weininger observa que, embora o elemento sexual no homem, devido ao caráter fisiológico dos órgãos sexuais, possa por vezes ser mais intenso do que na mulher, ele é intermitente, ocorrendo em crises separadas por intervalos de repouso. Na mulher, por outro lado, embora menos espasmódico, esse elemento é contínuo.

O instinto sexual no homem, sendo — como ele o descreve — apenas um “apêndice”, permite que ele se eleve mentalmente para além dele.

“Ele está consciente disso como algo que possui, mas que não é inseparável do restante de sua natureza. Pode observá-lo objetivamente. Com a mulher não ocorre o mesmo; o elemento sexual faz parte de toda a sua natureza. Assim, não se manifesta, como no homem, de forma claramente localizada, mas influencia de maneira sutil toda a vida do organismo. Por essa razão, o homem tem consciência do elemento sexual dentro de si como tal, enquanto a mulher não tem essa mesma consciência. Não é por acaso que, na linguagem comum, a mulher é chamada de ‘o sexo’. Nessa diferenciação sexual que permeia toda a natureza da mulher, em contraste com o homem — e que se deduz das distinções fisiológicas e anatômicas — reside o fundamento daquelas diferenças de função que culminam no fato de que, enquanto a humanidade, em seu desenvolvimento intelectual, moral e técnico, é representada principalmente pelo homem, a mulher continuou a encontrar sua função principal na procriação direta da espécie.”

Uma variedade de fatores, especialmente o desenvolvimento econômico moderno e seus efeitos sobre a vida familiar, bem como a aplicação indevida da noção democrática moderna de igualdade — originalmente relativa a classes e raças — à questão dos sexos, contribuíram para a revolta contemporânea contra as limitações naturais entre homens e mulheres.

Assumindo a substancial exatidão dessas afirmações, torna-se evidente, segundo o autor, a fragilidade dos argumentos dos defensores modernos da chamada “pureza social”, que defendem uma mesma moral sexual para ambos os sexos. O reconhecimento da necessidade de maior liberdade para os homens nessa esfera seria, segundo essa visão, claramente fundamentado na fisiologia e no senso comum.

Nos homens, o instinto sexual manifesta-se de forma localizada e, em certos momentos, sua satisfação torna-se uma necessidade urgente e premente. Nas mulheres, isso não ocorreria da mesma maneira. Assim, a distinção tradicional entre os sexos nesse aspecto seria, até certo ponto, considerada coerente.

Isso não significa, afirma o autor, defender a severidade das restrições impostas às mulheres pelos códigos morais vigentes. Pelo contrário, ele sugere que tais restrições deveriam — e provavelmente serão — significativamente atenuadas em uma sociedade futura mais equilibrada. O ponto destacado é apenas que o grau de urgência não seria o mesmo entre os sexos.

Segundo essa linha de raciocínio, foi esse fato que levou à tolerância de uma rigidez maior — originalmente ligada sobretudo a fatores econômicos, como herança — no caso das mulheres, algo que não teria sido aceito para os homens, mesmo que existissem razões semelhantes. Qualquer tentativa de impor, por meio de leis ou da opinião pública, o mesmo nível de restrição aos homens, ignorando a fisiologia, teria consequências prejudiciais para a saúde e o bem-estar da sociedade.

O falecido Dr. Henry Maudsley dizia: “O sexo está mais profundamente enraizado do que a cultura.” Com isso, entende-se que as diferenças entre os sexos seriam de natureza orgânica.

Segundo diversos autores da área fisiológica, a mulher seria, em média, menos desenvolvida do que o homem em termos biológicos. O Dr. de Varigny afirma que essa diferença pode ser observada em todo o organismo feminino — em seus tecidos e funções.

Por exemplo, a estatura média da mulher é inferior à do homem em todas as raças. O mesmo ocorre com o peso: uma mulher adulta pesa, em média, cerca de 5 kg a menos que um homem. Além disso, em geral, a mulher completa seu crescimento alguns anos antes.

Os ossos femininos são mais leves em proporção ao corpo e, segundo algumas observações, não apenas mais finos, mas também mais frágeis — diferenças que se estenderiam até mesmo à composição química. O desenvolvimento muscular feminino é, em média, cerca de um terço inferior ao masculino.

O coração da mulher é menor e mais leve — aproximadamente 240 gramas no homem contra pouco mais de 225 gramas na mulher. Os órgãos respiratórios também apresentam menor capacidade torácica e pulmonar. O sangue contém uma proporção menor de glóbulos vermelhos.

Por fim, chega-se à questão do tamanho e da constituição do cérebro. (Deve-se observar que todas essas diferenças entre os sexos se manifestam, em maior ou menor grau, desde o nascimento.)

Os especialistas concordam que, em todas as idades, o tamanho do cérebro da mulher é menor do que o do homem. A diferença relativa de tamanho aumenta proporcionalmente ao grau de civilização. Isso é digno de nota, pois sugere que o cérebro do homem teria se desenvolvido com o progresso da civilização, enquanto o da mulher teria permanecido quase estacionário.

A proporção média atual entre os crânios feminino e masculino é de 85 para 100. O peso do cérebro na mulher varia de cerca de 1.090 g a 1.290 g; no homem, de aproximadamente 1.190 g a 1.390 g. Isso representa a diferença absoluta de peso, mas, segundo o Dr. de Varigny, o peso relativo — isto é, em proporção ao corpo — é ainda mais significativo na indicação dessa inferioridade.

O cérebro da mulher representa cerca de um quarenta e quatro avos do peso corporal, enquanto no homem corresponde a cerca de um quarenta avos. Essa diferença se acentua com a idade: é de cerca de 7% a favor do homem entre vinte e trinta anos, e de 11% entre trinta e quarenta anos.

Quanto à própria substância cerebral e suas circunvoluções, a grande maioria dos fisiologistas da época afirmava que o cérebro feminino seria mais simples e liso, com menos circunvoluções e mais superficiais do que o masculino; que os lobos frontais, geralmente associados às faculdades intelectuais, seriam menos desenvolvidos do que os lobos occipitais, ligados a funções psicológicas consideradas mais básicas.

A substância cinzenta seria menos abundante na mulher, enquanto os vasos sanguíneos da região occipital seriam relativamente mais desenvolvidos do que os que irrigam os lobos frontais — situação inversa à observada no homem.

Segundo essa linha de pensamento, não se poderia negar que o organismo feminino estaria orientado principalmente para as funções de gestação e lactação, o que explicaria o menor desenvolvimento de órgãos e faculdades não diretamente ligados a esse fim.



Tornou-se comum entre feministas, ignorando essas diferenças fisiológicas fundamentais entre os sexos, afirmar que a inferioridade observada nas mulheres — quando reconhecida — se deve aos séculos de opressão exercidos pelos homens. A suposta inconsistência desse argumento já foi apontada diversas vezes.

Mesmo que se admitisse essa hipótese, ela implicaria que meninas herdariam características apenas de suas mães, e meninos apenas de seus pais — algo que contradiz o conhecimento básico sobre hereditariedade.

Assim, aqueles que atribuem diferenças de inteligência entre os sexos exclusivamente a condições externas que afetam apenas um dos sexos não conseguem evitar essa contradição. Portanto, quem acredita que a mulher não seria inferior intelectualmente se tivesse tido as mesmas oportunidades precisa buscar fundamentos mais sólidos do que a teoria da opressão histórica.


Chega-se então à importante questão das condições mentais patológicas às quais o sexo feminino seria mais suscetível, geralmente associadas a distúrbios do sistema nervoso conhecidos como histeria.

O termo, como é sabido, deriva de hystera — útero — e foi durante muito tempo considerado diretamente ligado a doenças uterinas, uma visão que persistiu na medicina até meados do século XIX.

O Dr. J. Mason Good, em sua obra Study of Medicine (1822), afirmava:

“Em muitos casos, a histeria está estreitamente relacionada a uma condição mórbida desse órgão, embora seja excessivo dizer que depende sempre dela, pois há casos em que não se pode estabelecer tal relação.”

Essa talvez seja uma das primeiras manifestações, especialmente na medicina inglesa, de dúvida quanto à origem exclusivamente uterina da histeria.

Ao final do século XIX, passou a prevalecer a tendência de dissociar a histeria de problemas uterinos. Mais recentemente, porém, alguns patologistas voltaram a qualificar essa posição.

O Dr. Thomas Stevenson, em 1902, admitia que a histeria frequentemente acompanha estados mórbidos do útero, especialmente em casos de inflamação e congestão, sendo relativamente comum a remoção dos ovários em casos persistentes.

Por outro lado, o Dr. Thomas Buzzard afirmava que a histeria raramente ocorre em mulheres com doenças genitais, e que sua relação com distúrbios uterinos ou ovarianos seria semelhante à de outras doenças nervosas, podendo surgir sem causa física evidente.

O Dr. Thomas Luff, em seu Text-Book on Forensic Medicine (1895), afirmava que distúrbios das funções reprodutivas podem provocar episódios de insanidade na mulher. Já o Dr. Savage observava que a mania aguda ocorre com maior frequência na vida adulta, podendo surgir também em fases extremas da idade, e às vezes associada à interrupção da menstruação.

O mesmo se aplicaria à melancolia e outros sintomas mentais patológicos. Luff também observava que a mania aguda pode substituir a histeria, especialmente em períodos como puberdade, menopausa e menstruação.

Entre os episódios, essas pacientes frequentemente apresentam irritabilidade ou excitação, mas com o tempo podem sofrer redução de energia e embotamento emocional.

Em alguns casos, desenvolvem impulsos violentos ou destrutivos — rasgar roupas, quebrar objetos, incendiar bens — sem necessariamente apresentar delírios ou sinais prévios claros. Isso levava a debates sobre sua responsabilidade legal.

Curiosamente, o autor observa que tais descrições poderiam ser usadas como comentário sobre os movimentos sufragistas recentes de sua época.

O renomado professor francês Dr. Paul Janet, em Les Hystériques (1894), definiu a histeria da seguinte forma:

“A histeria é uma afecção mental pertencente ao amplo grupo de doenças decorrentes de fraqueza e debilidade cerebral. Seus sintomas físicos são algo indefinidos, consistindo principalmente em uma diminuição geral da nutrição. Ela é amplamente caracterizada por sintomas de ordem moral, sendo o principal deles um comprometimento da capacidade de síntese psicológica, uma abolição e contração do campo da consciência.
Isso se manifesta de maneira peculiar e por meio de diversos fenômenos elementares. Assim, sensações e imagens deixam de ser percebidas, parecendo apagadas da percepção do indivíduo, o que leva, em alguns casos, à sua separação persistente e completa da personalidade e à formação de múltiplos grupos independentes.
Essa série de fatos psicológicos pode alternar-se ou coexistir. Por fim, esse defeito de síntese favorece a formação de ideias independentes, que se desenvolvem de forma completa em si mesmas, desvinculadas do controle da consciência pessoal. Essas ideias se manifestam em estados afetivos com características muito variadas e singulares.”

Segundo o Sr. A. S. Millar (F.R.C.S.E.), na Encyclopædia Medica:

“A histeria é aquela condição em que há imaginação, imitação ou exagero (...). Ocorre principalmente em mulheres e em pessoas de temperamento nervoso, sendo causada por algum distúrbio do sistema nervoso, que pode ou não ser de natureza patológica.”

Sir James Paget, em Clinical Lectures on Mimicry, também afirma que pacientes histéricos são, em sua maioria, mulheres de temperamento nervoso:

“Pensam constantemente em si mesmas, gostam de relatar seus problemas a todos e, assim, buscam simpatia, pela qual têm um desejo mórbido. A força de vontade é deficiente em uma direção, embora possa ser bastante forte quando seus interesses estão envolvidos.”

Ele considera o termo “histeria” inadequado no sentido moderno, sugerindo substituí-lo por “mimetismo”.

“O ideal é que a vontade seja controlada pelo intelecto”, observa o Dr. G. F. Still, do King’s College Hospital, “e não pelas emoções; a ausência desse controle parece estar na raiz de pelo menos algumas manifestações da histeria.”

O Dr. Thomas Buzzard, já mencionado, resume os sintomas mentais da seguinte forma:

“A inteligência pode parecer de boa qualidade, e o paciente às vezes demonstra notável rapidez de compreensão; porém, ao ser examinada com cuidado, verifica-se a ausência dos elementos essenciais do mais alto nível de capacidade mental. A memória pode ser boa, mas o julgamento é fraco, e a capacidade de manter a atenção por longos períodos é inexistente.
Também há falta de precisão e da energia necessária para garanti-la em qualquer tarefa. As emoções são facilmente excitadas e, uma vez despertadas, tornam-se incontroláveis. Lágrimas podem surgir tanto por ideias comoventes quanto por motivos triviais, e crises de riso podem ocorrer de forma inadequada diante de situações trágicas — ou o inverso.
Os sinais habituais de emoção podem estar ausentes e ser substituídos por desmaios, convulsões, dor ou paralisia. Talvez mais constante do que qualquer outro fenômeno seja o forte desejo de simpatia e atenção dos outros. Isso seria apenas uma das características mais marcantes da feminilidade, não controlada pelos centros nervosos superiores que, em condições normais, a manteriam sob domínio.
Há frequentemente não apenas pouca consideração pela verdade, mas também uma tendência à enganação ativa e à desonestidade. Tão comum é isso que muitas formas de histeria são tomadas como simulação voluntária, negando-se seu caráter de doença. No entanto, parece mais razoável atribuir esses sintomas a uma perturbação dos complexos processos nervosos que constituem a base fisiológica das faculdades morais.”


“Não é incomum encontrar histeria em mulheres acompanhada de completa indiferença às relações sexuais. A interrupção precoce da ovulação é uma causa frequente. Nos casos em que os ovários estão ausentes, a transição da menina para a mulher, que normalmente ocorre na puberdade, não se realiza.
A jovem cresce, mas não se desenvolve plenamente; surgem características masculinas, a voz torna-se mais grave e áspera, o desejo sexual está ausente, e a saúde geral permanece boa. Os casos mais intensos de histeria ocorrem em jovens mulheres de constituição robusta e considerada ‘masculina’.”

(John Mason Good, Study of Medicine, 1822)

Outras causas apontadas incluem impressões dolorosas, longos períodos de jejum, emoções intensas, imitação, luxo, educação inadequada, ambientes desfavoráveis, celibato involuntário, casamentos infelizes, preocupações prolongadas, sustos, excesso de trabalho, decepções e outros distúrbios nervosos — todos fatores predisponentes à histeria.

“A histeria atinge mulheres sem filhos com mais frequência do que mães, especialmente jovens viúvas”, e, segundo o Dr. J. Mason Good, “mais ainda aquelas com tendência a uma excitação sexual considerada patológica (...); o remédio mais seguro seria um casamento feliz.”

A histeria, assim como outros distúrbios nervosos, seria essencialmente hereditária. Briquet (Traité de l’hystérie, 1899) apresenta estatísticas indicando que, em nove de cada dez casos, pais histéricos têm filhos também histéricos.


O Dr. Paul Sainton, da Faculdade de Medicina de Paris, afirma:

“O aparecimento de um sintoma histérico geralmente indica que a doença já existia há algum tempo, ainda que de forma latente. Dá-se o nome de agente provocador a qualquer circunstância que revele subitamente a doença, mas a causa real é uma predisposição hereditária.
Se a causa fundamental é única, os agentes desencadeantes são inúmeros. Emoções como tristeza, medo, raiva e outras perturbações psíquicas são as causas mais frequentes das manifestações histéricas, e indivíduos de todas as classes estão igualmente sujeitos a esses episódios.”

A histeria pode surgir em qualquer idade. É comum em crianças, especialmente nos cinco ou seis anos que antecedem a puberdade. Dos trinta e três casos com menos de doze anos observados pelo Dr. Still, vinte e três eram de crianças acima de oito anos.

Nas mulheres, a histeria é mais frequente entre os quinze e trinta anos, sendo particularmente comum entre quinze e vinte. Em geral, há uma tendência de cessação após a “mudança” (menopausa). No entanto, não é raro que a condição persista até idades mais avançadas.

“Há uma constante mudança”, diz o professor Albert Moll (Das nervöse Weib, p.165), “de um estado de espírito alegre para um estado depressivo. De livre e animada, a mulher em pouco tempo torna-se mal-humorada e triste. Enquanto, momentos antes, era capaz de entreter um grupo inteiro sem interrupção, falando com cada pessoa sobre o que lhe interessava, logo depois não diz mais uma palavra.
Posso mencionar o exemplo já trivial da recusa de um chapéu novo, capaz de transformar o humor mais animado em seu oposto. A fraqueza da vontade manifesta-se aqui no fato de que a mulher ‘nervosa’
[por ‘nervosa’, o Dr. Moll refere-se ao que comumente se chama ‘histérica’] não consegue, como a mulher considerada normal, controlar a expressão de suas emoções.
Ela pode rir continuamente das coisas mais insignificantes até entrar em crises de riso. Os acessos de choro que às vezes observamos pertencem à mesma categoria. Quando se excita com algo, apresenta explosões de fúria desprovidas das características atribuídas à feminilidade, sendo incapaz de contê-las.
Da mesma forma, assim como as emoções enfraquecem a vontade e ela não consegue impedir certas ações, observa-se em muitas mulheres ‘nervosas’ uma tendência a mudanças constantes no comportamento, independentemente dessas emoções.

Já se notou como característica de muitas pessoas nervosas que sua única consistência reside na inconsistência — embora isso não se aplique a todas. Dessa disposição, presente em muitas mulheres desse tipo, deriva o desejo constante por mudanças, manifestado na busca contínua por novos prazeres: teatros, concertos, festas, viagens e afins (p.147).
Coisas que para a mulher considerada normal são indiferentes, ou às quais ela já se acostumou, tornam-se para a mulher nervosa fonte de preocupação constante. Mesmo sabendo perfeitamente que sua situação — e a de seu marido — é excelente e que não há motivo para preocupação material futura, a ideia de ruína financeira a atormenta continuamente.
Assim, mesmo sendo esposa de um milionário, ela vive inquieta. Da mesma forma, cria problemas a partir de situações inevitáveis. Se, com o passar dos anos, surgem rugas e sua atratividade diminui, isso pode facilmente tornar-se uma fonte duradoura de sofrimento para a mulher nervosa.”

Chega-se então a um ponto frequentemente levantado por feministas da época ao serem confrontadas com esses sintomas mentais patológicos associados à histeria. Costuma-se dizer: “Mas os homens também podem sofrer de histeria!”

Segundo o Dr. Buzzard, na Inglaterra a histeria é relativamente rara em homens, sendo muito mais comum nas mulheres. As proporções variam conforme diferentes autores:

  • Dr. Pitré: 1 homem para 3 mulheres
  • Bodensheim: 1 para 10
  • Briquet: 1 para 20
  • Encyclopædia Britannica (1911): também 1 para 20

O Dr. Pitré indica ainda que 82% dos casos de convulsões ocorrem em mulheres, contra 22% em homens.

Contudo, o texto ressalta que, sob o termo “histeria”, muitas vezes se incluem sintomas físicos — especialmente convulsivos ou epilépticos — que são distintos das condições mentais associadas popularmente à histeria. Mesmo assim, a medicina já distinguia entre “histeria masculina” e “histeria feminina”, e alguns especialistas defendiam que os quadros observados em homens não eram equivalentes aos das mulheres.

Ora, esses sintomas patológicos — perceptíveis em grau leve e mais ou menos insignificante na grande maioria, senão em todas as mulheres, e em grau acentuado em uma proporção considerável delas — pode-se dizer que praticamente não ocorrem nos homens.

O autor afirma ter conhecido, ao longo da vida, apenas dois homens que apresentaram sintomas mentais semelhantes aos comumente chamados de “histéricos” nas mulheres. Por outro lado, sua experiência é que poucas mulheres com quem conviveu com alguma frequência, socialmente ou de outra forma, deixaram de apresentar tais sintomas em algum momento, e de maneira evidente.

Assim, mesmo admitindo a possibilidade de homens apresentarem tais condições, esses casos seriam tão raros que podem ser desconsiderados do ponto de vista prático.

Um aspecto curioso é que, nos casos mais pronunciados dessa instabilidade mental nas mulheres, os sintomas são frequentemente muito semelhantes, mesmo entre mulheres de origens, classes sociais e nacionalidades diferentes. O autor menciona recordar-se de três casos distintos nesse sentido, nos quais, apesar das diferenças de contexto, os sintomas surgiam de forma bastante parecida diante de ideias fixas semelhantes.


Considera-se desnecessário aprofundar ainda mais esse ponto. Afirma-se que toda a experiência histórica da humanidade — desde os primeiros registros escritos — e a observação de pessoas não comprometidas com as teorias do feminismo moderno confirmam tanto a prevalência do que é chamado de “mente histérica” nas mulheres quanto uma fragilidade mental geral.

Acrescenta-se que não é por acaso que mulheres e crianças foram frequentemente agrupadas na mesma categoria ao longo da história, e que essa visão permaneceu praticamente incontestada até o surgimento do movimento feminista moderno.


Não se considera necessário insistir longamente na ausência, ao longo da história, de exemplos de genialidade — e, com poucas exceções, de talento notável — entre mulheres nas áreas de arte, ciência, literatura, invenção ou na vida pública. Esse fato é apresentado como incontestável e, ainda que se argumente que tal ausência não prove a inferioridade média das mulheres, sustenta-se que a conclusão oposta ainda assim se mantém.

Defende-se que a existência, em todas as épocas, de homens excepcionalmente talentosos — sem equivalentes femininos — indica uma diferença média entre os sexos. Para ilustrar, utiliza-se a analogia de que picos elevados sugerem a existência de uma base mais alta no terreno ao redor.


Retoma-se ainda o argumento de que a suposta inferioridade intelectual feminina não poderia ser explicada apenas por opressões históricas. Mesmo admitindo tal opressão, argumenta-se que seria incompatível com as leis da hereditariedade supor que seus efeitos fossem transmitidos apenas pela linha feminina.

Nesse contexto, cita-se Herbert Spencer, que teria afirmado que as diferenças mentais entre homens e mulheres resultam de uma “necessidade fisiológica” que nenhuma forma de educação poderia eliminar. Spencer também teria observado que a suposta deficiência relativa da mente feminina estaria justamente nas faculdades mais complexas — intelectuais e morais — ligadas à ação política.


Um dos poucos pontos que feministas estariam dispostas a admitir seria a inferioridade física feminina. Sugere-se que isso ocorre porque esse argumento poderia ser usado para justificar certos privilégios concedidos às mulheres.

No entanto, argumenta-se que:

  1. Essa fragilidade física, em igualdade de condições, contradiz a ideia de igualdade intelectual entre os sexos;
  2. Essa fraqueza seria sobretudo muscular, já que, em termos gerais, o organismo feminino apresentaria grande resistência e capacidade de recuperação — em alguns aspectos até superior à masculina.

Afirma-se que é comum observar que mulheres suportam tensões e se recuperam de situações difíceis de maneira que poucos homens conseguiriam.

Conclui-se indicando que esses pontos serão retomados posteriormente com mais detalhes.

Como então, após consideração, devemos julgar a tese feminista, afirmada e reafirmada, defendida por tantos como um axioma incontestável, de que a mulher é igual ao homem, intelectual e moralmente, se não fisicamente?

Certamente, que ela possui todas as características de um verdadeiro dogma. Seus adeptos bem poderiam dizer com Tertuliano: credo quia absurdum.

Ela contradiz toda a experiência da humanidade no passado. É refutada por toda observação imparcial no presente. Os fatos que a enfraquecem não são seriamente negados por ninguém, exceto por aqueles comprometidos com o dogma em questão.

Como todos os dogmas, é sustentada por “blefe”. Neste caso, o “blefe” consiste em afirmar que é próprio, marca, função ou destino do homem “avançado”, que se considera atualizado e não “vitoriano”, encará-la como inquestionável.

Os dogmas teológicos são sustentados pelo blefe da autoridade, seja das escrituras ou das igrejas. Este dogma do culto feminista não é garantido pela autoridade de uma comunhão de santos, mas pela da comunhão de pessoas avançadas e atualizadas.

Infelizmente, o dogma não se ajusta tão bem à comunidade de pessoas avançadas e atualizadas — que, de outro modo, professam, e geralmente de fato submetem, os princípios que defendem ao crivo da razão e do exame crítico — quanto se ajusta a uma igreja ou comunidade de santos que se supõem, individual ou coletivamente, em comunicação com uma sabedoria superior.

Seja como for, o “homem avançado” que deseja ser considerado atualizado precisa engolir esse dogma e digeri-lo como puder. Pode, é verdade, rejeitá-lo em privado, mas em público, ao menos, deve fingir aceitá-lo sem hesitação.


Notas de rodapé:

  1. Acredito que existam algumas feministas fanáticas que afirmam sustentar a superioridade da mente feminina, mas duvido que essa tese seja levada a sério mesmo por aquelas que a defendem. Em todo caso, há limites para os absurdos evidentes que vale a pena refutar por meio de argumentação.

  2. As insanidades mencionadas acima são os extremos. Há perturbações mentais de menor gravidade que ocorrem constantemente e que estão ligadas ao período menstrual regular, bem como a distúrbios menstruais, à gravidez, ao parto, à lactação e, especialmente, à menopausa.


- Ernest Belford Bax 



domingo, 19 de julho de 2026

A Fraude do Feminismo - Capítulo 1

 


Ano de 1913


Prefácio

O presente volume tem por objetivo oferecer uma exposição sucinta das pretensões do Movimento Feminista Moderno. Busca apresentar o caso contra ele com especial atenção em rastrear e expor ao ridículo as infames falsidades — as afirmações convencionais que não são apenas distorções da verdade, mas que são direta e categoricamente contrárias a ela, e que, ainda assim, passam por válidas pela simples força da repetição incontestada. É por meio desse tipo de blefe que as reivindicações do feminismo se sustentam.

O trecho a seguir é um exemplo representativo das afirmações de escritoras feministas:
“Quanto a acusar o mundo em geral de uma indulgência tola para com a feminilidade, a ideia é absurda demais para merecer palavras. As verdadeiras ‘lendas do Old Bailey’ não falam de mulheres absurdamente absolvidas, mas de pobres moças enviadas à forca por crimes cometidos em meio ao delírio provocado pelo temor da crueldade de uma sociedade hipócrita.”

Ora, é justamente esse tipo de “lenda” que constitui um dos principais alvos das páginas que se seguem. Evidentemente, a “indulgência tola” para com a “feminilidade em geral”, praticada pelo “mundo em geral”, é precisamente uma das características mais marcantes de nosso tempo, e aquele que a nega, se não estiver deliberadamente faltando com a verdade, deve ser um verdadeiro Rip van Winkle despertando de um sono que durou ao menos duas gerações.

Da mesma forma, a história das “pobres moças enviadas à forca” etc. é, no que diz respeito à memória viva, uma pura lenda. É bem sabido que, nos casos referidos — de moças que matam seus filhos recém-nascidos — a pena aplicada, no máximo, costuma ser apenas um ou dois anos de prisão rigorosa.

Por outro lado, a absolvição de mulheres acusadas de crimes gravíssimos, especialmente quando as vítimas são homens, mesmo diante das provas mais contundentes, é um acontecimento cotidiano. Ora, são afirmações como as acima que, como já foi dito, alimentam o Movimento Feminista; sua arma argumentativa mais poderosa diante do homem comum é a lenda de que a mulher é oprimida pelo homem. Raramente alguém se dá ao trabalho de refutar essa lenda em termos gerais, ou mesmo qualquer caso específico apresentado como exemplo dela.

Quando, porém, o blefe é desmascarado, quando os fatos reais são expostos ao público, e a mulher é mostrada não apenas como não oprimida, mas como amplamente privilegiada, então os apóstolos do feminismo, homens e mulheres, incapazes de apresentar sequer uma defesa plausível, recorrem unanimemente ao boicote e, ao ignorar aquilo que não podem responder, procuram impedir a difusão de uma verdade incômoda e perigosa para sua causa. A pressão exercida sobre editores e publicadores pela influente irmandade feminista é bem conhecida.

De resto, não se deve supor que este pequeno livro pretenda esgotar o tema ou constituir um tratado científico. Trata-se, e assim se propõe a ser, de uma refutação popular dos argumentos correntes em favor do feminismo, bem como uma breve exposição do caso contra ele. O leitor pode consultar com proveito o breve tratado de Sir Almroth Wright, The Unexpurgated Case against Woman’s Suffrage, que aborda a questão sob um ponto de vista um tanto diferente.

Cabe também um reconhecimento ao editor de The New Age pela corajosa posição adotada por esse periódico na tentativa de conter a enxurrada de sentimentalismo liberada pelos autoproclamados campeões da feminilidade. Tenho ainda a agradecer a dois eminentes médicos por terem revisado as provas do meu segundo capítulo.


Introdução

Nas páginas que se seguem, não se pretende apresentar um tratado sobre a evolução da mulher em geral ou sobre o seu lugar na sociedade, mas simplesmente oferecer uma crítica à teoria e à prática do que se convencionou chamar de Feminismo Moderno.

Por Feminismo Moderno entendo uma certa atitude mental em relação ao sexo feminino. Essa atitude é frequentemente autocontraditória e ilógica. Pois, ao mesmo tempo em que reivindica, com base na igualdade intelectual e moral entre mulheres e homens, a concessão do sufrágio feminino e, comumente, também o acesso das mulheres a todas as profissões, cargos e funções da vida pública, por outro lado defende com vigor a preservação e até o reforço dos privilégios e imunidades legais — tanto no âmbito civil quanto no criminal — concedidos às mulheres ao longo do século XIX.

Essa postura, com todas as suas inconsistências, apoia-se em um forte espírito de solidariedade de sexo — ou uma espécie de união sexual, como se poderia chamar — entre as mulheres, bem como em uma massa difusa de sentimentalismo incoerente entre os homens. Há mais de um preconceito popular que obscurece, para muitas pessoas, o significado e o alcance do Feminismo Moderno. Existe, por exemplo, a teoria comum — baseada em algo que de fato ocorreu até certo ponto antes da ascensão do feminismo moderno — de que, em qualquer conflito entre os sexos, as mulheres sempre tomam o partido do homem contra outra mulher. Ora, essa teoria, ainda que algum dia tenha correspondido à realidade, há muito deixou de fazê-lo.

A poderosa união feminina mencionada exerce, nos dias atuais, uma pressão tão forte na formação da opinião pública entre as mulheres que se torna cada vez mais difícil, mesmo nos casos mais evidentes em que o homem é a vítima, conseguir que alguma mulher reconheça que outra mulher cometeu uma injustiça. Por outro lado, observa-se que a ausência quase total de qualquer consciência de antagonismo de sexo na atitude dos homens em relação às mulheres, combinada com uma intensificação do antigo ideal de cavalheirismo herdado da tradição em relação ao chamado “sexo frágil”, exerce, se possível, uma influência ainda maior sobre a opinião pública masculina. Daí a enorme força que o feminismo adquiriu no mundo do início do século XX.

Também se supõe com frequência — e isso igualmente é um equívoco — que, em disputas individuais entre os sexos, o veredito, por exemplo de um júri composto por homens, favorável a uma ré ou litigante mulher, seja determinado principalmente, ou mesmo essencialmente, por sua beleza. Isso pode, de fato, desempenhar algum papel; mas é fácil demonstrar, com base em registros de casos, que esse fator é secundário — que, independentemente de sua aparência ou idade, o veredito lhe é favorável não tanto por ela ser uma mulher bonita, mas simplesmente por ser uma mulher. Aqui novamente, a questão da atratividade pode ter tido maior peso em épocas anteriores, antes de o sentimento e as ideias feministas alcançarem a predominância atual. Hoje, porém, o simples fato de pertencer ao sexo feminino já basta para determinar um julgamento favorável.

Há ainda um artifício ao qual os adeptos do feminismo recorrem para predispor a opinião pública contra seus críticos: a alegação de que qualquer homem que ouse questionar as pretensões do feminismo é movido por ressentimentos pessoais contra o sexo feminino, decorrentes de injustiças reais ou imaginárias sofridas por ele nas mãos de alguma mulher. Pode-se supor que existam pessoas — não exatamente idiotas completos — capazes de acreditar em tal absurdo como forma de desacreditar quem ousa formular um juízo independente sobre essas questões; caso contrário, seria difícil compreender por que os feministas adotam tal linha de argumentação.

Ainda assim, preferimos crer que o número dessas pessoas de espírito fraco, que veem alguma conexão entre um homem possuir independência de julgamento suficiente para não se curvar ao dogma do feminismo moderno e o fato de ter tido desavenças com mulheres de seu convívio, não seja muito grande. De fato, não há sequer um único expoente de destaque das posições críticas ao chamado “Movimento Feminino” atual em relação ao qual exista qualquer evidência de que não tenha vivido em excelentes relações com as mulheres de sua vida.

Há apenas um caso conhecido indiretamente pelo presente autor — e não de um escritor ou orador de destaque sobre o tema — que poderia oferecer algum pretexto plausível para atribuir posições antifeministas a motivações pessoais desse tipo. Tenho consciência, naturalmente, de que feministas, com sua habitual falta de veracidade, fizeram afirmações falsas desse tipo sobre praticamente todos os autores proeminentes do campo antifeminista, na esperança de influenciar aqueles membros mais crédulos do público contra seus oponentes.

Mas uma investigação mínima basta, em todos os casos, para demonstrar a descarada falta de fundamento de tais acusações. A desprezível frivolidade desse método de controvérsia deveria torná-lo indigno de qualquer comentário sério; e a única razão para mencioná-lo aqui é a luz reveladora que lança sobre o calibre intelectual daqueles que a ele recorrem, bem como sobre o grau de confiança — ou de falta dela — que possuem na justiça intrínseca de sua causa e na solidez lógica de seus argumentos.


Capítulo I

Histórico

Durante muito tempo, a posição da mulher na vida social foi considerada algo natural. Não se colocava como uma questão, pois era tida como evidente. A predominância masculina parecia derivar de forma tão óbvia de causas naturais — da posse, por parte dos homens, de faculdades físicas, morais e intelectuais que se supunha faltarem às mulheres — que ninguém pensava em questionar essa situação.

Ao mesmo tempo, a inferioridade da mulher nunca foi concebida como tão grande a ponto de reduzir seriamente, muito menos eliminar por completo, sua responsabilidade por crimes que pudesse cometer. Havia, é claro, casos — como o de delitos cometidos por mulheres sob coação conjugal — em que se reconhecia uma diminuição de responsabilidade, refletida tanto na absolvição quanto na atenuação da pena. Mas não existia, de modo geral, um sentimento de maior indulgência para com criminosas em comparação com criminosos.

A ninguém ocorria derramar lágrimas de compaixão pela assassina de um amante ou marido mais do que pelo assassino de uma namorada ou esposa. Da mesma forma, infratores menores — uma chantagista, uma ladra, uma agressora — não eram considerados menos culpados nem merecedores de tratamento mais brando do que homens em situações equivalentes.

Presumia-se — e essa presunção era aplicada na prática — que a lei era a mesma para ambos os sexos. Homens e mulheres eram iguais perante a lei. As leis eram, em alguns aspectos, mais severas do que hoje, embora talvez não em todos. Ainda assim, não havia uma linha clara de distinção no que diz respeito à punição de delitos entre homens e mulheres. A pena prevista para crimes ou contravenções era a mesma para ambos e, em geral, aplicada igualmente.

Do mesmo modo, em processos civis, não havia um favorecimento sistemático da mulher em detrimento do homem. Como regra geral, não se observava uma parcialidade de sexo significativa na aplicação da justiça.


Esse estado de coisas persistiu na Inglaterra até bem avançado o século XIX. A partir daí, começou a ocorrer uma mudança. O Feminismo Moderno surgiu lentamente no horizonte. Ele apresenta dois aspectos distintos:

  1. Um lado político e econômico, articulado, que abrange reivindicações de direitos;
  2. Um lado sentimental, que insiste na intensificação de privilégios e imunidades que não surgiram de forma organizada ou por meio de demandas explícitas, mas como resultado de apelos emocionais em casos específicos.

Desse modo, formou-se uma opinião pública que passou a se manifestar em um favorecimento de sexo na lei — e ainda mais em sua aplicação — em benefício das mulheres em detrimento dos homens.

Esses dois aspectos do Feminismo Moderno nem sempre coexistem na mesma pessoa. Pode-se encontrar, por exemplo, opositores do sufrágio feminino que, ainda assim, defendem fortemente um tratamento indulgente e sentimental em favor das mulheres no âmbito jurídico. Por outro lado — embora isso seja mais raro — há defensores convictos dos direitos políticos e sociais das mulheres que desaprovam sinceramente a desigualdade atual da lei em favor do sexo feminino.

Em geral, porém, os dois aspectos caminham juntos: a grande maioria dos defensores dos chamados “direitos das mulheres” também apoia a manutenção e a ampliação de seus privilégios. De fato, parece que o principal objetivo de grande parte dos adeptos do “Movimento Feminino” é elevar o sexo feminino à posição de uma espécie de nobreza dominante.

Esses dois lados do feminismo avançaram lado a lado ao longo das duas últimas gerações, embora tenha sido o aspecto puramente sentimental o primeiro a surgir como força na opinião pública.

A tentativa de retratar as mulheres sob uma perspectiva diferente da tradicional — que as via como fisicamente, intelectualmente e moralmente inferiores aos homens — provavelmente encontrou sua primeira expressão literária em um tratado publicado em 1532 por Cornelius Agrippa de Nettesheim, intitulado De Nobilitate et Praecellentia Feminei Sexus, dedicado a Margarida, Regente dos Países Baixos, cujo favor Agrippa então buscava conquistar.

O mundo antigo nada oferece em termos de precursores literários do Feminismo Moderno, embora aquele diligente compilador de curiosidades históricas, Valerius Maximus, relate a história de uma certa Afrânia que, juntamente com algumas amigas, causou tumultos nos tribunais da Roma antiga ao tentar fazer com que as vozes das mulheres fossem ouvidas diante dos juízes.

No que diz respeito a períodos mais recentes, após Agrippa, é preciso esperar até o início do século XVIII para encontrar outro exemplo de um feminismo antecipado ao seu tempo, em um ensaio sobre a mulher escrito por Daniel Defoe. Ainda assim, somente no final do século XVIII começou a se tornar perceptível uma expressão mais significativa de opiniões favoráveis a alterar as posições relativas dos sexos, questionando a visão de seus respectivos valores, baseada na experiência geral da humanidade.


Os nomes de Mary Wollstonecraft, na literatura inglesa, e de Condorcet, na francesa, certamente ocorrerão ao leitor nesse contexto. Durante a Revolução Francesa, a excêntrica Olympe de Gouges alcançou notoriedade efêmera ao reivindicar a igualdade intelectual entre mulheres e homens.

Até esse momento (o final do século XVIII), nenhum avanço havia sido feito pela legislação no sentido de reconhecer a teoria moderna da igualdade entre os sexos. As reivindicações das mulheres — e de seus defensores — para assumir funções tradicionalmente masculinas, sejam políticas, sociais ou de outra natureza, embora apresentadas ocasionalmente por indivíduos isolados, recebiam pouco apoio da opinião pública e ainda menos da lei.

Entretanto, aquilo que chamei de aspecto sentimental do Feminismo Moderno sem dúvida avançou na opinião pública até o final do século XVIII e ganhou força nos primeiros anos do século XIX. Isso se concretizou na lei aprovada em 1820 pelo Parlamento inglês, que aboliu a punição de açoite para criminosas. Esse foi o primeiro passo na diferenciação entre os sexos no âmbito do direito penal.

O debate parlamentar sobre esse projeto de lei demonstra com clareza o poder que o Feminismo Sentimental havia adquirido na opinião pública ao longo de uma geração, pois nenhuma proposta foi feita, ao mesmo tempo, para abolir o açoite no caso dos homens. Até então, o direito penal inglês — como o de outros países — não fazia distinção entre os sexos no que diz respeito a crime e punição, ou pelo menos nenhuma distinção baseada em privilégio de sexo. (Uma pequena exceção talvez pudesse ser feita no crime de “petty treason”, que diferenciava o assassinato de um marido por sua esposa de outros casos de homicídio.)

Mas, a partir desse momento, tanto a legislação quanto sua aplicação passaram a se afastar cada vez mais do princípio de igualdade entre os sexos nesse aspecto, em favor da imunidade feminina. O resultado é que, nos dias atuais, supondo que a pena aplicada a uma mulher por determinado crime represente a penalidade padrão, o homem recebe um acréscimo além dessa pena — como se fosse uma punição adicional pelo fato de ter nascido homem e não mulher.

A Lei de Divórcio original de 1857, em suas disposições relativas a custas e pensão alimentícia, constitui outro marco importante na questão dos privilégios femininos perante a lei. Outras medidas de legislação unilateral em favor de um sexo seguiram-se nos anos posteriores, até o estado atual das coisas, no qual todo o poder do Estado se encontra, na prática, à disposição da mulher para coagir e oprimir os homens. Contudo, esse aspecto da questão será tratado mais adiante.

O movimento efetivo do Feminismo na vida política e social pode ser considerado como tendo começado no início da década de 1860, com a agitação que precedeu a proposta de John Stuart Mill, em 1867, sobre a concessão do direito de voto parlamentar às mulheres. Esse movimento coincidiu com outra campanha pela abertura de diversas carreiras às mulheres, especialmente na área médica. Estamos falando, naturalmente, da Grã-Bretanha, que foi pioneira na Europa tanto na teoria quanto na prática do Feminismo Moderno.

A publicação, pelo grande protagonista do movimento, John Stuart Mill, de sua obra The Subjection of Women, em 1868, forneceu à causa uma espécie de evangelho literário, que logo foi traduzido para as principais línguas do continente, dando origem a movimentos correspondentes em outros países. Curiosamente, o movimento ganhou força considerável na Rússia, cujo despertar para as ideias ocidentais começava a se fazer sentir naquele período.


A partir de então, o movimento passou a ocupar um lugar permanente na vida política e social deste e de outros países. Projetos de lei para o sufrágio feminino eram apresentados todos os anos na Câmara dos Comuns britânica, com maiorias contrárias que, em geral, diminuíam ano após ano, até que, alguns anos atrás, a balança se inclinou para o outro lado, e o projeto de emancipação feminina passou a ser aprovado em segunda leitura todos os anos, até 1912, quando, pela primeira vez em muitos anos, foi rejeitado por uma pequena maioria.

Enquanto isso, ambos os aspectos do movimento feminista, além da questão do sufrágio, vinham ganhando influência. O direito de voto municipal “nas mesmas condições que os homens” foi concedido. As mulheres passaram a votar e a ocupar cargos em Conselhos Escolares, Conselhos de Assistência e outros órgãos públicos. Sua reivindicação de exercer a profissão médica não apenas foi admitida legalmente, como também reconhecida pela opinião pública há bastante tempo. Todas as vantagens de uma carreira acadêmica lhes foram abertas, com a única exceção da concessão formal de diplomas em Oxford e Cambridge. Tal foi o crescimento do lado articulado e político da teoria do Feminismo Moderno.

O lado sentimental do feminismo, com seu efeito prático de inclinar a justiça em favor das mulheres nos tribunais — tanto civis quanto criminais — e sua imunidade prática diante da aplicação da lei penal quando estão no banco dos réus, avançou de forma correspondente; ao mesmo tempo em que a espada dessa mesma lei penal é afiada até o extremo contra o homem, mesmo quando apenas acusado — quanto mais quando condenado — de qualquer ofensa contra a suposta sacrossanta majestade da “Feminilidade”.

Tal é a posição atual da chamada “questão feminina” neste país, que tomamos como exemplo típico, no sentido de que na Grã-Bretanha — à qual podemos acrescentar os Estados Unidos da América e as colônias britânicas, onde, se possível, o movimento é ainda mais forte do que na própria metrópole — vemos o desfecho lógico da teoria e do sentimento feministas.

Resta agora examinar mais detalhadamente os fatos existentes, bem como os aspectos psicológicos daquele grande número de pessoas que, no passado recente e ainda hoje, têm sido influenciadas a aceitar os dogmas do Feminismo Moderno e as afirmações de fatos feitas por seus adeptos. Antes disso, porém, convém analisar a credibilidade desses próprios dogmas, a natureza dos argumentos usados para sustentá-los e também a exatidão dos fatos alegados pelos feministas para incitar a indignação da opinião pública contra os supostos agravos sofridos pelas mulheres.


Nota de rodapé

  1. Convém esclarecer que atribuo um significado específico à palavra “sentimental”. Tal como a utilizo, ela não significa — como para a maioria das pessoas — um excesso de sentimento em relação ao que eu próprio sinto, mas sim um sentimento distribuído de maneira desigual. Nesse sentido, a repulsa ao açoite de mulheres, enquanto nenhuma repulsa é sentida em relação ao açoite de homens, constitui sentimentalismo puro e simples. Por outro lado, a objeção ao açoite como forma de punição, seja para homens ou mulheres, não poderia ser descrita como sentimentalismo, seja qual for outra classificação que se queira dar.

Da mesma forma, a aversão de um antivivisseccionista a experimentos “fisiológicos” em animais, se limitada a animais domésticos e não estendida a outros, poderia justamente ser chamada de sentimentalismo; mas alguém que se opusesse a tais experimentos em todos os animais — concorde-se ou não com seu ponto de vista — não poderia ser corretamente acusado de sentimentalismo (ou, pelo menos, não, a menos que, ao se opor à vivissecção, estivesse disposto a tolerar outros atos que implicassem igual grau de crueldade contra os animais).

E. Belfort Bax, ano de 1913




sábado, 6 de junho de 2026

Sobre a Poligamia



Dedicatoria 

Dedico estas páginas a Andrômeda — não a constelação, embora também brilhe, mas ao amigo de longa data, cúmplice de ideias livres e entusiasta sincero desse delicado escândalo que é viver sem cabresto afetivo. Que nelas encontre não um espelho, mas um convite — e, quem sabe, uma gargalhada.

E, por justiça poética, desdedico esta obra aos moralistas paulinos, que, com seu apóstolo bem dobrado no bolso do colete, hão de vir atirar-me suas britas minúsculas — essas pedrinhas de convicção herdada que não ferem nem rasgam, mal chegando a empoeirar o tecido da casaca. Recebo-as, aliás, com certa ternura: são leves como toda fé que nunca ousou duvidar de si mesma.

Uma INTRODUÇÃO 

Não sei se o leitor é dado a escândalos — suspeito que sim, como todos nós, ainda que em silêncio —, mas convém desde já adverti-lo: este pequeno escrito não pretende pedir licença à moral, nem beijar a mão da tradição. Ao contrário, ousa fitá-las nos olhos, com aquela cortesia fria de quem já não teme desagradar.

A poligamia, palavra que soa aos ouvidos como delito antes mesmo de ser compreendida, tem sido, ao longo dos séculos, menos julgada por seus efeitos do que condenada por seu atrevimento. Não é o mal que escandaliza, mas a quebra do hábito. E o hábito, leitor, é talvez o mais tirânico dos legisladores — governa sem decreto e pune sem apelação.

Dir-se-á que o amor deve ser uno, indivisível, quase sagrado em sua exclusividade. Mas pergunto, com a modéstia de quem apenas observa: será o coração humano assim tão disciplinado? Ou terá ele sido, desde sempre, um território mais vasto do que as cercas que lhe impuseram? Se a natureza distribui afetos com mão pródiga, por que razão a sociedade insiste em contá-los como quem reparte moedas?

Não ignoro que há, nesse tema, mais paixões do que argumentos, mais temores do que razões. A monogamia, erigida como virtude suprema, talvez deva parte de sua glória não à sua perfeição, mas à sua conveniência. É simples, é administrável, é — ouso dizer — confortável para a ordem das coisas. Já a poligamia, com sua pluralidade inquieta, exige do indivíduo aquilo que raramente se exige: consciência, responsabilidade e, sobretudo, sinceridade.

Este texto, portanto, não vem converter o leitor, tarefa ingrata e quase sempre inútil. Vem, antes, convidá-lo a um breve exercício de suspeita: suspeitar das certezas, das tradições herdadas, das verdades que nunca se deram ao trabalho de justificar-se.

Se ao final destas páginas o leitor não estiver convencido, pouco importa. Basta-me que esteja, ao menos, ligeiramente inquieto. Porque é da inquietação — e não da obediência — que nascem as ideias que sobrevivem.

Bachofen, ou da Família que Não Quis Ficar Parada

Há certas ideias que, por força do hábito, adquirem entre os homens a aparência de verdades eternas. Ninguém lhes pergunta de onde vieram, ninguém lhes examina a certidão de nascimento; aceitam-se como se tivessem descido prontas do céu, junto com as estrelas e as estações do ano.

Tal é o caso da família.

O cidadão moderno, que tantas dúvidas alimenta acerca da política, da economia e até de sua própria identidade, conserva singular confiança na estrutura familiar que lhe foi legada. Crê encontrá-la em toda parte e em todos os tempos, como se Adão tivesse deixado um regulamento doméstico devidamente autenticado para as gerações futuras.

Foi precisamente contra essa tranquila certeza que se ergueu Johann Jakob Bachofen.

Jurista suíço de profissão e arqueólogo das instituições humanas por inclinação, Bachofen realizou uma operação de natureza quase cirúrgica: retirou a família de seu pedestal e devolveu-a à história.

Até então, muitos supunham que a ordem patriarcal e a família moderna fossem expressões naturais e permanentes da condição humana. Bachofen ousou sugerir que talvez não fossem.

A hipótese produziu escândalo suficiente para garantir-lhe um lugar entre os homens que tiveram o mau gosto de pensar por conta própria.


Em sua obra Das Mutterrecht — "O Direito Materno" — propôs que as sociedades humanas teriam conhecido formas de parentesco profundamente distintas daquelas observadas na Europa de seu século.

Não importa aqui se suas conclusões resistiram integralmente ao exame dos antropólogos posteriores. Poucas construções intelectuais sobrevivem intactas ao tempo. O que importa é que Bachofen formulou uma pergunta cuja força permanece.

Se a família mudou uma vez, por que não poderia mudar novamente?

A questão parece simples; contudo, possui a desagradável propriedade de abalar convicções estabelecidas.

Bachofen observava os mitos antigos com o olhar de quem suspeita que as lendas escondem memórias. Onde outros viam apenas narrativas fantásticas, ele julgava encontrar vestígios de formas sociais desaparecidas.

Assim, as grandes deusas da Antiguidade, os cultos maternos e os sistemas de descendência feminina não eram para ele simples curiosidades arqueológicas. Eram testemunhas.

Testemunhas de um mundo em que a organização familiar obedecera a princípios diversos daqueles que a modernidade julgava naturais.

Talvez estivesse certo. Talvez estivesse errado. O ponto essencial permanece outro.

Ao demonstrar a pluralidade histórica das instituições familiares, Bachofen libertou a família da prisão da eternidade.

Ela deixou de ser um fato da natureza para tornar-se um fato da cultura.

E fatos culturais têm a inconveniente tendência de variar.

Esta observação possui importância particular para a presente tese.

Não se pretende aqui restaurar matriarcados imaginários nem ressuscitar civilizações extintas. Tampouco se pretende converter Bachofen em profeta de qualquer sistema contemporâneo.

Seu mérito encontra-se em terreno mais modesto e, por isso mesmo, mais sólido.

Bachofen recorda-nos que a família não é uma fórmula matemática.

Não existe uma equação universal capaz de determinar, para todos os povos e em todas as épocas, quantos indivíduos devem compô-la, quais funções devem exercer ou de que maneira devem organizar seus afetos.

A história humana apresenta variedade excessiva para consentir semelhante simplificação.

O erro moderno consiste em tomar por inevitável aquilo que é apenas habitual.

Acostumados à família nuclear, muitos imaginam que ela constitui o ponto final da evolução social, como se a história houvesse encerrado suas atividades justamente em nossa geração.

Bachofen convida-nos a uma prudência maior.

As instituições humanas possuem passado.

E tudo quanto possui passado pode possuir futuro.

A família, portanto, não deve ser julgada por sua conformidade com um modelo consagrado, mas por sua capacidade de cumprir suas finalidades.

Se uma forma familiar produz cooperação, cuidado, estabilidade e transmissão da vida comum, ela merece exame sério, independentemente de sua distância em relação aos costumes vigentes.

É esta a lição mais duradoura de Bachofen.

Não a de que determinado sistema familiar deva prevalecer sobre todos os outros.

Mas a de que nenhuma geração possui o monopólio da imaginação social.

A família já foi muitas coisas.

Talvez ainda possa ser outras tantas.

Da Família como Cooperativa Humana

Entre os muitos milagres atribuídos à civilização moderna, existe um particularmente curioso.

Consiste em persuadir dois indivíduos, frequentemente inexperientes, quase sempre apaixonados e não raro imprudentes, de que são capazes de desempenhar sozinhos funções que outrora exigiam o esforço de uma comunidade inteira.

Chamam a isto maturidade.

Outras épocas teriam chamado aventura.

Não se pretende negar os méritos da família nuclear. Seria injustiça. Muitas delas florescem admiravelmente, produzem filhos virtuosos, velhos respeitáveis e até alguns cidadãos toleráveis.

O problema não reside em sua possibilidade.

Reside em sua pretensão de exclusividade.

A família moderna apresenta-se frequentemente como unidade autossuficiente. Um casal, alguns filhos, uma residência e uma conta bancária. Eis a fórmula.

Tudo quanto excede esse limite costuma ser tratado como acessório.

Os avós tornam-se visitantes ocasionais.

Os tios transformam-se em nomes de festas de fim de ano.

Os vizinhos convertem-se em estranhos que compartilham paredes.

E a comunidade, essa velha senhora outrora indispensável, acaba relegada ao esquecimento.

Entretanto, a história humana sugere outra interpretação.

Durante a maior parte de sua existência, o homem não viveu cercado apenas por seu cônjuge e seus filhos.

Viveu entre parentes: Entre irmãos, entre primos,entre agregados,entre velhos e crianças. Viveu, em suma, em grupos suficientemente numerosos para repartir encargos e suficientemente próximos para compartilhar destinos.

A sobrevivência dependia disso: O cultivo dos campos, a construção das moradias, a proteção contra perigos, a educação dos jovens, o cuidado dos enfermos. - Nenhuma dessas tarefas era confiada exclusivamente a duas pessoas.

A família funcionava como uma cooperativa antes mesmo que os economistas inventassem a palavra.

Talvez o leitor moderno estranhe esta comparação - Pois está habituado a considerar a família um fenômeno sentimental.

Mas as instituições humanas raramente sobrevivem apenas por sentimento.

O amor inspira - A cooperação sustenta.

Uma casa não permanece de pé porque seus habitantes se amam,permanece porque alguém prepara a refeição, alguém repara o telhado, alguém consola os aflitos e alguém trabalha para adquirir o pão.

O afeto é a alma da comunidade. - A cooperação é seu esqueleto.

Convém possuir ambos.

Quando observamos as dificuldades contemporâneas, percebemos frequentemente o peso desta ausência: Dois adultos devem prover renda, dois adultos devem educar os filhos,dois adultos devem cuidar dos pais idosos, dois adultos devem administrar a casa, dois adultos devem oferecer apoio emocional um ao outro.

E, além disso, espera-se que encontrem tempo para realizar-se pessoalmente.

Não surpreende que tantos fracassem.

Surpreendente seria o contrário - A sociedade moderna exige do casal a resistência de uma instituição e a flexibilidade de uma paixão.

Não raro obtém apenas exaustão.

A presente tese propõe uma reflexão diversa.

Talvez a família deva ser compreendida menos como um contrato romântico e mais como uma associação cooperativa.

Não uma empresa, não um quartel, não como uma mera "burocracia doméstica" - Mas uma comunidade de auxílio mútuo.

Nela, o valor dos indivíduos não se mede apenas por sua capacidade de produzir riqueza ou satisfazer desejos - Mede-se também por sua disposição em participar da vida comum.

Cuidar,ensinar,proteger,amparar,transmitir,receber, satisfazer,dar continuidade.

Sob esta perspectiva, o tamanho da família torna-se questão secundária.

O princípio fundamental é outro - Quanto maior a rede de cooperação, menor a vulnerabilidade dos seus membros.

Uma criança cercada por vários adultos responsáveis possui mais referências.

Um idoso cercado por vários familiares possui mais amparo.

Uma crise econômica torna-se menos devastadora quando seus efeitos podem ser distribuídos entre muitos ombros.

Um homem se sente mais amparado, uma mulher encontra mais apoio imediato - se dissolvem os arrufos monogâmicos peculiares 

A lógica é simples.


As sociedades compreendem-na perfeitamente quando constroem pontes, hospitais ou sistemas de abastecimento - Chamam-na redundância.

Quando aplicada à família, porém, a mesma ideia costuma provocar estranheza.

Talvez porque tenhamos aprendido a imaginar a independência como virtude suprema.

Mas o homem raramente foi independente : O homem foi interdependente - E talvez continue sendo.

A diferença é que algumas épocas reconhecem esse fato - Outras preferem escondê-lo sob o tapete das conveniências ideológicas.

A família, portanto, não deve ser julgada apenas por sua forma exterior.

Monogâmica ou plural.

Formal ou informal.

Tradicional ou inovadora.

Sua verdadeira medida encontra-se em outra parte.

Na capacidade de transformar indivíduos dispersos em uma comunidade capaz de enfrentar o tempo.

Pois o amor pode unir pessoas.

Mas somente a cooperação permite que permaneçam juntas quando o entusiasmo cede lugar à realidade.

E a realidade, como bem sabe qualquer família, possui o hábito desagradável de chegar sem aviso.

Crítica à Família Nuclear, ou da Arte de Construir Fragilidade

Toda época possui suas idolatrias : Os antigos possuíam estátuas,os modernos possuem conceitos - E entre os conceitos que alcançaram posição quase sagrada encontra-se a chamada família nuclear.

Não se trata apenas de uma forma de organização doméstica. Trata-se de um ideal.

Um homem, uma mulher, talvez alguns filhos,uma residência (raramente propria pois o capitalismo não os permite tal),dois automóveis, quando a prosperidade permite,talvez um cachorro, quando a publicidade insiste.

E uma quantidade variável de angústias cuidadosamente mantidas fora de vista.

Tal é o quadro - Tão familiar tornou-se esta imagem que muitos a confundem com a própria natureza humana.

Contudo, a natureza humana possui o defeito de ser mais antiga que a publicidade, mais antiga que a fábrica e mais antiga que o subúrbio.

Durante a maior parte da história, o homem viveu de maneira bastante diversa: As famílias eram extensas,os avós permaneciam próximos,os tios participavam da vida cotidiana,os irmãos frequentemente compartilhavam trabalho e patrimônio.

A casa era menos um abrigo para indivíduos e mais uma pequena comunidade.

A família nuclear, ao contrário, constitui uma redução - uma atomização.

Não necessariamente uma degeneração,mas uma redução.

Convém distinguir as duas coisas: Reduzir uma estrutura não implica automaticamente destruí-la.

Por vezes produz eficiência,por vezes produz vulnerabilidade - Tudo depende das circunstâncias. O problema começa quando uma solução histórica particular passa a ser tratada como modelo universal.


A família nuclear nasceu em estreita relação com a urbanização moderna, a mobilidade do trabalho e a industrialização. O trabalhador precisava deslocar-se - A indústria precisava de mão de obra móvel - As cidades cresciam, os laços comunitários enfraqueciam - Gradualmente, a unidade doméstica tornou-se menor.

Não por decisão filosófica - Mas por adaptação econômica.

O que surgiu como necessidade transformou-se posteriormente em ideal.

Eis uma das ironias favoritas da história: As circunstâncias produzem costumes,os costumes produzem doutrinas, e as doutrinas passam a apresentar-se como verdades eternas.

Entretanto, convém examinar a estrutura antes de celebrar suas virtudes.

Uma família nuclear repousa sobre um princípio singular: concentração.

Poucas pessoas desempenham muitas funções: Dois adultos devem prover sustento,dois adultos devem administrar recursos,dois adultos devem criar filhos, dois adultos devem oferecer apoio emocional, dois adultos devem enfrentar doenças, desemprego, velhice e infortúnios diversos, dois adultos devem se encontrar dispostos 24 horas para o outro.

Quando tudo funciona, o sistema parece admirável - Quando falha, revela sua fragilidade.

Basta a ausência de um dos pilares para que toda a construção seja abalada: O desemprego de um membro,a enfermidade de outro - Uma separação.



Uma morte, uma mudança repentina  - Cada evento exerce pressão desproporcional sobre a estrutura.

Não porque seus integrantes sejam incompetentes, mas porque a margem de segurança é pequena.

Uma ponte construída sobre dois pilares exige menos material - Também tolera menos acidentes.

Não se pretende aqui censurar aqueles que vivem em famílias nucleares, seria tão injusto quanto censurar um homem por habitar uma casa de madeira.

O ponto não é moral - É estrutural.

Uma forma social deve ser julgada também por sua capacidade de resistir às tempestades. - E neste aspecto a família nuclear apresenta limitações evidentes.

Existe ainda outra questão: Ao reduzir a família, ampliam-se as responsabilidades do indivíduo: O cidadão moderno encontra-se frequentemente cercado por pessoas e, ao mesmo tempo, profundamente só.

Precisa ser pai, precisa ser mãe,precisa ser educador,precisa ser psicólogo,precisa ser provedor,precisa ser amante, companheiro, compreensivo - Precisa ser companheiro perfeito.

Precisa administrar emoções, finanças, conflitos e expectativas - Tudo isto enquanto trabalha quarenta horas semanais ou mais.

Não surpreende que a exaustão tenha se tornado uma das doenças morais do nosso tempo.

Exige-se do indivíduo aquilo que outrora se exigia da comunidade.

E depois se estranha que ele falhe.

Talvez a crítica mais importante, porém, seja outra. - A família nuclear tende a transformar o casal no centro absoluto da vida doméstica.

Toda a estabilidade da instituição repousa sobre a permanência de um vínculo específico. Quando esse vínculo se rompe, frequentemente todo o restante se fragmenta.

As amizades dispersam-se, os patrimônios dividem-se,os filhos transitam entre mundos separados, os laços comunitários enfraquecem. - Uma comunidade inteira depende da continuidade de uma relação entre duas pessoas.

Tal arranjo merece ao menos reflexão.

A presente tese não propõe abolir a família nuclear - Nem poderia e nem pretende!

Ela existe, funciona para muitos e continuará existindo.

O que se questiona é sua pretensão de representar a única forma legítima de organização familiar.

Talvez seja uma solução.

Talvez não seja a melhor.

Talvez seja adequada em determinadas circunstâncias.

Talvez insuficiente em outras.

O erro consiste em transformar uma possibilidade histórica em destino universal.

A família nuclear é uma invenção humana - Como toda invenção humana, possui vantagens e limitações.

Reconhecer estas últimas não constitui ataque.

Constitui apenas o primeiro passo para imaginar alternativas.

E imaginar alternativas sempre foi a atividade mais perigosa para as ortodoxias de qualquer época.

Pequena Crônica Doméstica

Suponhamos duas casas - Não peço ao leitor que as visite; basta imaginá-las.

Na primeira habita a respeitável família nuclear.

O pai trabalha.

A mãe trabalha.

A criança cresce.

O cachorro destrói uma almofada.

A máquina de lavar resolve aposentar-se sem aviso prévio.

Tudo corre normalmente.

Numa terça-feira qualquer, a criança adoece.

O pai precisa faltar ao serviço.

A mãe cancela compromissos.

As contas continuam chegando.

O avô mora em outro bairro.

A avó em outra cidade.

Os tios encontram-se ocupados.

A família permanece unida diante da adversidade.

Mas permanece sozinha.


Passemos à segunda casa.

Nela reside uma família plural.

Não importa ao leitor quantos adultos a compõem; bastam alguns a mais.

Uma criança adoece.

Uma das mães permanece em casa.

Outra vai à farmácia.

Um terceiro adulto continua trabalhando.

O jantar é preparado por alguém que não precisou abandonar suas atividades para fazê-lo.

O problema existe.

Mas distribui-se.

A carga não desaparece.

Divide-se.

Dirá o leitor que esta segunda casa possui mais conflitos. - Sem dúvida.

Onde há mais seres humanos, há mais opiniões, a aritmética raramente falha nesse ponto. Contudo, também há mais recursos.

Mais braços.

Mais olhos.

Mais experiências.

Mais possibilidades de resposta.

A questão não é sentimental - É mecânica.

Consideremos agora uma crise mais grave.

O desemprego.

Na primeira casa, a perda de uma renda ameaça todo o equilíbrio doméstico.

Na segunda, a dificuldade continua séria, mas encontra uma estrutura mais ampla para absorver o impacto.

O mesmo princípio que leva engenheiros a construir pontes com margens de segurança aplica-se aqui. - Redundância -Os engenheiros apreciam essa palavra.

As famílias modernas parecem desconfiar dela, talvez porque associemos dependência à fraqueza. Entretanto, uma observação simples sugere o contrário: O recém-nascido depende de todos, o ancião depende de muitos,o enfermo depende de quem o cuide.

A vida humana inteira é atravessada por dependências mútuas - Chamamos isso de fragilidade quando nos acontece.

Chamamos de comunidade quando acontece aos outros.

Não se conclua, porém, que a segunda casa seja um paraíso - Longe disso.

Ali também surgem ciúmes, mal-entendidos,discussões, pratos eventualmente batem à mesa com energia superior à necessária - Os seres humanos conservam seus defeitos independentemente da arquitetura familiar que adotem.

A diferença está em outro lugar.


Quando uma discussão ocorre na primeira casa, metade da estrutura está em conflito.

Quando ocorre na segunda, trata-se apenas de uma parte do conjunto.

Uma comunidade possui a capacidade singular de sobreviver aos erros dos seus membros.

Um casal, por vezes, não.

Ao final do dia, ambas as famílias apagam as luzes.

Ambas alimentam seus filhos.

Ambas enfrentam dificuldades.

Ambas experimentam alegrias.

Mas uma delas deposita seu destino em dois pilares.

A outra espalha o peso por vários.

Qual sistema é superior?

A presente tese não exige resposta imediata.

Pede apenas que o leitor considere a pergunta.

Pois há questões que produzem mais luz quando permanecem abertas do que quando são encerradas depressa demais.

O Mercado e a Atomização Social, ou Como Aprendemos a Comprar o que Antes Recebíamos

Há uma peculiaridade nas sociedades modernas que raramente recebe a atenção merecida. - Quanto mais ricos nos tornamos em mercadorias, mais pobres parecemos tornar-nos em relações.

Não afirmo que uma coisa cause necessariamente a outra. O mundo é complexo demais para explicações tão cômodas. Limito-me a observar a coincidência, o leitor fará dela o uso que julgar conveniente.

Antigamente — palavra perigosa, mas por vezes inevitável — muitas necessidades humanas eram satisfeitas no interior da comunidade : A criança aprendia com os pais, os avós e os vizinhos,o enfermo era assistido pelos familiares,o velho permanecia próximo dos seus,o desempregado encontrava amparo entre parentes,a viúva raramente enfrentava sozinha os rigores da existência.

Não se tratava de uma idade de ouro - Havia miséria, injustiça e ignorância em abundânancia, mas havia também uma característica hoje menos comum:As pessoas dependiam umas das outras.

O mercado moderno observou essa situação com interesse.

Onde existe dependência comunitária, existe pouca oportunidade comercial,onde existe autonomia absoluta, existe um cliente. - Não se conclua daí que comerciantes conspiram contra as famílias em salas escuras iluminadas por velas sinistras.

Os homens de negócios costumam ser mais pragmáticos do que diabólicos,basta-lhes aproveitar circunstâncias favoráveis. E poucas circunstâncias são mais favoráveis ao comércio do que indivíduos isolados.

Uma criança que antes seria cuidada por parentes pode necessitar de um serviço.

Um idoso que antes viveria entre familiares pode necessitar de uma instituição.

Uma refeição que antes seria preparada em casa pode ser comprada.

Uma conversa que antes ocorreria na varanda pode ser substituída por entretenimento.

O mercado não cria todas essas necessidades mas certamente aprende a servi-las. - E, ao servi-las, cresce.

Há quem considere este processo uma vitória da liberdade individual. - Talvez seja.

A liberdade possui muitos méritos: Permite ao homem escolher seu caminho,permite-lhe abandonar ambientes opressivos,permite-lhe reinventar-se, não convém desprezá-la.

Mas a liberdade possui um irmão menos celebrado: A solidão.

Ambos costumam chegar juntos. Quanto mais o indivíduo se emancipa de todas as dependências, mais necessita de mecanismos substitutivos.

Os antigos encontravam apoio em pessoas, os modernos frequentemente encontram apoio em serviços.

A diferença merece reflexão.

Tomemos um exemplo simples.

Uma família extensa possui cinco adultos capazes de auxiliar uma criança.

Uma família nuclear possui dois.

Se ambos os pais estiverem ausentes, será necessário recorrer a uma solução externa.

Nada há de errado nisso.

O ponto interessante é que aquilo que outrora constituía uma função interna da comunidade converte-se em atividade econômica. - Multiplique-se o processo por milhares de situações e obteremos uma parte considerável da economia contemporânea.

Creches, asilos,serviços de entrega,aplicativos de relacionamento,empresas de entretenimento,assistência especializada para tarefas antes desempenhadas por parentes. - Tudo isso responde a necessidades reais.

Mas também revela uma transformação: O que antes era vínculo tornou-se serviço,o que antes era reciprocidade tornou-se contrato,o que antes era obrigação moral tornou-se transação. Tal mudança não ocorreu por maldade - Ocorreu por adaptação, e as adaptações, como os impostos, raramente pedem licença.

Existe ainda uma consequência mais sutil: O indivíduo atomizado não apenas compra mais. Ele também dispõe de menos filtros comunitários.

Suas referências tornam-se mais frágeis,suas decisões tornam-se mais dependentes de instituições externas, sua identidade passa a ser construída em ambientes cada vez mais mediados por mercados, plataformas e sistemas burocráticos.

Não se trata de uma conspiração - Trata-se de uma ecologia social.

As árvores não conspiram contra os arbustos, elas apenas crescem em determinadas condições. - Do mesmo modo, determinadas formas econômicas florescem melhor em determinadas formas de organização social.

A família reduzida, isolada e altamente dependente do consumo constitui uma dessas condições.

Chegamos então a uma questão delicada: Quem serve a quem? A economia serve à família? Ou a família foi gradualmente adaptada às exigências de uma determinada economia?

Talvez a resposta seja ambas as coisas - As instituições humanas raramente obedecem a uma única direção.

Influenciam-se mutuamente. Transformam-se em conjunto.

Contudo, permanece legítimo perguntar se o atual equilíbrio não produziu efeitos indesejáveis.

Quando uma sociedade substitui sistematicamente relações por serviços, corre o risco de adquirir eficiência à custa da coesão.Torna-se mais rápida,mais produtiva, mais especializada - Mas também mais fragmentada,mais solitária,mais dependente de mecanismos que não controla.

A presente tese não propõe abolir mercados. - Seria proposta tão absurda quanto abolir o inverno.

Mercados possuem funções indispensáveis: Geram riqueza, distribuem recursos,estimulam inovação.

O problema não reside em sua existência: reside em sua expansão ilimitada.

Nem tudo aquilo que pode ser comprado deveria necessariamente ser comprado - Algumas coisas tornam-se menores quando transformadas em mercadoria.

Entre elas talvez estejam o cuidado, a companhia e a solidariedade.

A família, compreendida como comunidade cooperativa, representa precisamente um dos últimos espaços em que tais valores podem existir sem depender de preço, recibo ou assinatura contratual.

Talvez por isso sua preservação seja importante.

Não apenas por razões morais.

Mas porque certas formas de riqueza não sobrevivem à comercialização.

E uma sociedade que vende tudo corre o risco de descobrir, tarde demais, que também vendeu aquilo que a mantinha unida.


Poligamia e Família Ampliada, ou da Quantidade de Pessoas Necessária para Formar um Lar

Existe uma curiosa tendência do espírito humano, quando se pronuncia a palavra "poligamia", muitos imaginam imediatamente um harém, uma extravagância oriental ou algum patriarca de barbas respeitáveis cercado por um número inconveniente de esposas.

A imaginação popular raramente decepciona - Ela possui o talento singular de substituir conceitos por caricaturas.

Entretanto, a presente tese não se ocupa de fantasias exóticas,ocupa-se de uma questão mais simples : Pode uma família tornar-se mais forte ao ampliar o número de seus membros?

A pergunta antecede qualquer discussão moral.

Antecede até mesmo a própria poligamia.

Pois ninguém se surpreende quando uma família extensa reúne avós, tios, irmãos e primos sob uma mesma rede de obrigações - mas basta mencionar a possibilidade de múltiplos vínculos conjugais para que muitos imaginem o colapso imediato da civilização. Tal reação merece exame.

Afinal, a história humana oferece abundantes exemplos de famílias organizadas de maneiras diversas.

Algumas prosperaram, outras fracassaram,como acontece com todas as instituições humanas.

A questão central não é saber se a poligamia existiu - Ela existiu.

A questão é compreender por que existiu.

Os críticos frequentemente a interpretam apenas como "mecanismo de privilégio masculino.", e em determinados contextos, sem dúvida foi.

As instituições humanas raramente escapam completamente aos vícios dos homens. Mas reduzir toda a experiência histórica da poligamia a essa explicação seria tão simplificador quanto reduzir a monogamia à história dos divórcios.

Ambas as formas comportam variedades,ambas comportam abusos,ambas comportam virtudes.

A presente tese propõe uma interpretação diferente - Não considera a poligamia como multiplicação de parceiros.

Considera-a como ampliação da unidade familiar.


A distinção é fundamental.

O primeiro conceito pertence à esfera do desejo, o segundo pertence à esfera da organização social.

O desejo é variável - A organização é duradoura.

O desejo aproxima pessoas.

A organização permite que continuem juntas quando o entusiasmo inicial se transforma nas responsabilidades da vida comum.

Sob esta perspectiva, a poligamia aproxima-se menos de uma aventura romântica e mais de uma cooperativa doméstica.

Uma família ampliada possui mais adultos capazes de compartilhar encargos, mais adultos para educar crianças, mais adultos para cuidar de enfermos,mais adultos para enfrentar crises econômicas,mais adultos para preservar a continuidade da casa quando um de seus membros se ausenta. 

Nada disso garante felicidade - Nenhuma estrutura humana possui semelhante poder.

Mas oferece recursos que uma unidade menor dificilmente possui.

Os defensores da família nuclear costumam responder que "o aumento do número de membros também multiplica os conflitos"

A objeção é correta.

Uma comunidade composta por cinco adultos possui mais potencial para divergências do que uma composta por dois. A matemática permanece implacável.

Contudo, convém recordar que a mesma multiplicação ocorre com os recursos: mais conflitos - Mas também mais ssoluçõe,mais opiniões. 

Mas também mais competências,mais atritos - Mas também mais apoio.

A questão não consiste em eliminar dificuldades - Consiste em distribuir responsabilidades.

Uma casa sustentada por muitas vigas pode exigir manutenção mais complexa -Mas dificilmente desaba porque uma delas enfraqueceu. 

Existe ainda um aspecto frequentemente negligenciado: A sociedade moderna concentra enorme quantidade de expectativas sobre uma única relação. Espera-se que um cônjuge seja simultaneamente amante, amigo, conselheiro, parceiro econômico, apoio emocional, companheiro intelectual e colaborador doméstico.

Tal concentração de funções talvez explique parte da fragilidade contemporânea.

A família ampliada opera segundo lógica diferente: as responsabilidades distribuem-se.

Os afetos distribuem-se.

As ausências distribuem-se.

As capacidades distribuem-se.

A carga deixa de repousar integralmente sobre um único vínculo.


A presente tese não afirma que toda família poligâmica será superior a toda família monogâmica - Tal afirmação seria tão ingênua quanto inútil.

Existem lares monogâmicos exemplares, e existem famílias plurais desastrosas (principalmente as embasadas no religionismo)

As instituições não substituem o caráter - Uma má pessoa pode arruinar qualquer sistema - e convém-se ao leitor jamais entrar em relações com tais criaturas, que merecem por sua perfidia o castigo de passarem o resto de seus dias sozinhos sem ter quem arruinar com sua cólera.

Um bom indivíduo pode melhorar até mesmo estruturas imperfeitas.

O argumento aqui desenvolvido é mais modesto: Sustenta apenas que a pluralidade familiar não deve ser julgada exclusivamente por critérios morais herdados ou preconceitos culturais. Deve ser examinada também segundo sua capacidade de gerar cooperação.

Pois uma família não existe apenas para celebrar casamentos ou produzir descendentes, ela existe para enfrentar a realidade. E a realidade, como já tivemos ocasião de observar, possui o hábito desagradável de distribuir desafios sem consultar previamente o número de pessoas disponíveis para enfrentá-los.

Chegamos, assim, à principal conclusão deste apêndice.

A poligamia interessa à presente tese não enquanto exceção romântica, mas enquanto possibilidade institucional.

Não enquanto ampliação do prazer (como pode o ser para ambos os membros,desde que estejam abertos a tal), mas enquanto ampliação da comunidade.

Não enquanto privilégio de um indivíduo, mas enquanto fortalecimento potencial da rede de auxílio mútuo.

Talvez funcione.

Talvez não.

Mas a pergunta merece ser feita.

Pois uma sociedade que aceita discutir livremente todas as formas de produção, todas as formas de governo e todas as formas de propriedade não deveria considerar escandaloso examinar também as formas possíveis da família.

Sobretudo quando a questão não é quantas pessoas podem amar-se.

Mas quantas podem cooperar para construir um lar.

Poligamia e Poliamor: Distinção Conceitual, ou da Diferença entre uma Casa e um Acampamento

Existem palavras que padecem do infortúnio de nascer próximas umas das outras - Aos olhos do observador apressado, tornam-se sinônimos.

Acontece com frequência na política, na filosofia e, não menos, nas questões de família.

Tal parece ser o destino da poligamia e do poliamor.

Ambas as expressões evocam a existência de múltiplos vínculos afetivos - Daí muitos concluírem que representam o mesmo fenômeno.

A conclusão é compreensível - E equivocada.

Entre uma e outra existe diferença semelhante à que separa uma cidade de uma feira.

Ambas reúnem pessoas, mas não se organizam segundo os mesmos princípios.

A poligamia, ao menos na forma examinada pela presente tese, constitui uma instituição familiar - O poliamor constitui uma filosofia relacional.

A distinção parece pequena, mais não é.

Instituições e filosofias obedecem a lógicas distintas: Uma instituição procura durar,uma filosofia procura orientar - Uma organiza estruturas, ja a outra organiza comportamentos.

A poligamia histórica surgiu quase sempre associada a elementos concretos: Patrimônio,parentesco,filiação,responsabilidades domésticas,herança,educação dos filhos,continuidade familiar - Em suma, ocupava-se da administração de uma casa.

O poliamor contemporâneo, por sua vez, costuma concentrar-se em questões diferentes: Autonomia individual, liberdade afetiva, negociação entre parceiros, consentimento,gestão de vínculos emocionais. -Em suma, ocupa-se da administração das relações.

O contraste é significativo.

A poligamia pergunta: Como organizar uma família?

O poliamor pergunta: Como organizar afetos?

São questões legítimas - Mas não são a mesma questão.

Talvez uma pequena imagem auxilie o leitor.

Imagine um arquiteto e um viajante, ambos se interessam por habitação.

O primeiro preocupa-se com fundações, paredes e telhados,já o segundo preocupa-se com os caminhos que percorre - Os dois lidam com o mesmo universo,mas observam aspectos distintos dele.

Algo semelhante ocorre aqui: A poligamia volta seu olhar para a estrutura, já o poliamor dirige-o à experiência.

Não se trata de elogio nem de censura - Trata-se de classificação. E as classificações, embora raramente despertem paixões, costumam evitar confusões.

Existe ainda uma segunda diferença: A poligamia pressupõe uma unidade familiar,o  poliamor pressupõe uma rede relacional.

A unidade busca integrar,já a rede busca conectar.

Na unidade, os vínculos tendem a convergir para uma comunidade comum.

Na rede, os vínculos podem conservar relativa independência.

Um modelo aproxima-se da casa, o outro aproxima-se da praça.

Ambos possuem utilidade,mas desempenham funções distintas.

A presente tese interessa-se principalmente pela primeira forma - porque investiga a família enquanto instituição cooperativa, seu objeto não é unicamente uma pressuposta liberdade amorosa - É a estabilidade comunitária.

Não pergunta quantas pessoas podem amar-se, pois isso seria tolice a esta altura de campeonato, pergunta quantas podem construir uma vida em comum.

Tal enfoque produz consequências importantes: Uma família ampliada exige mecanismos de continuidade,necessita resolver questões de cuidado,necessita distribuir encargos, necessita transmitir patrimônio material ou cultural, necessita sobreviver ao tempo.

O poliamor em sua vasta maioria ignora tais questões - ela não ocupa necessariamente posição central em sua elaboração teórica. - Seu foco costuma residir na qualidade das relações entre indivíduos.

O foco da presente tese reside na qualidade da comunidade produzida por essas relações.

Chegamos então ao ponto em que muitos debates se confundem.

Os críticos da poligamia frequentemente dirigem-lhe objeções concebidas para o poliamor -Os defensores do poliamor frequentemente respondem com argumentos relativos à autonomia individual.

Ambos acabam discutindo fenômenos distintos: Uma conversa sobre arquitetura transforma-se em conversa sobre sentimentos, uma conversa sobre sentimentos transforma-se em conversa sobre instituições - E todos regressam para casa convencidos de que derrotaram o adversário.

A filosofia moderna possui vários exemplos desse gênero de desencontro.

Convém evitar mais um.

A presente tese não pretende negar a legitimidade das experiências poliamorosas -  Tampouco pretende submetê-las a julgamento moral, pois o autor que vos fala, Stineriano que é, jamais o faria - o que poderia se julgar da questão do poliamor é sua eficiência e legitimidade, uma vez que a mim (e a muitos) me soa como fenômeno de adesão identitária, pauta importada por uma esquerda americanizada que nos faz padecer de vergonha absoluta por meio de sua pequines intelectualoide.

Seu objetivo é apenas assinalar uma distinção : A poligamia pode ser compreendida como uma forma de organização familiar - O poliamor pode ser compreendido como uma forma de organização afetiva.

As duas categorias eventualmente se encontram - Mas não coincidem.

E confundi-las produz o mesmo resultado de confundir uma biblioteca com um clube de leitura: Ambos se relacionam com livros,mas apenas um deles foi construído para permanecer de pé quando os leitores forem embora.

Talvez esta seja, afinal, a diferença essencial.

O poliamor preocupa-se, antes de tudo, com os vínculos.

A poligamia preocupa-se, antes de tudo, com a casa.

E a casa, como sabem todos aqueles que já precisaram reparar um telhado durante uma tempestade, possui exigências próprias que os sentimentos, por mais nobres que sejam, nem sempre conseguem satisfazer sozinhos.

O Amor Como Fenômeno Comunitário, ou da Estranha Ideia de que Amar Seja Mais do que Sentir

Poucas palavras sofreram tantas transformações quanto o amor. Os antigos fizeram dele uma divindade, já os poetas fizeram dele uma religião,os comerciantes fizeram dele uma ocasião.- E a modernidade, sempre diligente em simplificar assuntos complexos, transformou-o em sentimento.

Tal definição possui a vantagem da comodidade - E o defeito da insuficiência.

Sentimentos são coisas caprichosas: Chegam sem convite,partem sem explicação. Alteram-se conforme o tempo, a saúde, a idade e até mesmo a qualidade do café da manhã.

Construir uma instituição sobre fundamento tão volátil parece empreendimento arriscado,contudo, foi precisamente isso que a civilização contemporânea decidiu fazer: O amor converteu-se progressivamente no principal fundamento da família.

Tal mudança foi recebida com entusiasmo - Parecia razoável.

Quem melhor para formar um lar do que aqueles que se amam? A pergunta é justa - Mas talvez incompleta.

Pois outra questão se impõe: O que acontece quando o entusiasmo inicial diminui? Quando surgem doenças? Quando surgem dívidas? Quando surgem filhos? Quando surgem responsabilidades? Quando as frustrações diarias de uma relação se acumulam uma sobre a outra sem parar pois nenhum deles tem uma rota de fuga, um confidente, alguém para tentar remediar tais situações com a ponderação necessária.

Quando o amor deixa de ser uma promessa e passa a ser uma tarefa?

A filosofia romântica raramente se demora sobre tais assuntos - As contas de luz, infelizmente, costumam ser menos poéticas.

A presente tese propõe uma compreensão diferente, ela não nega o amor,jamais! 

Seria impossível. O amor constitui uma das forças mais poderosas da experiência humana.

O que se questiona é sua redução a mero estado emocional. Talvez o amor seja também um fenômeno comunitário.

Talvez sua verdadeira natureza revele-se não apenas na intensidade dos sentimentos, mas na capacidade de criar laços duradouros entre pessoas.

Sob esta perspectiva, amar significa participar, significa permanecer,significa compartilhar destinos.

O homem moderno tende a imaginar o amor como relação entre dois indivíduos - A história humana sugere algo mais amplo: Amamos os filhos, amamos os pais,amamos irmãos,amamos amigos,amamos lugares,amamos comunidades,amamos tradições. Amamos até mesmo os mortos, que continuam habitando a memória dos vivos.

O amor, portanto, não une apenas pessoas - Une gerações, une histórias, une responsabilidades - Une mundos. Tal observação possui consequências importantes.

Se o amor é compreendido apenas como emoção, sua duração depende da permanência do sentimento.

Se é compreendido também como vínculo comunitário, passa a possuir raízes mais profundas.

Uma mãe não deixa de amar o filho porque atravessa um dia difícil, um irmão não deixa de ser irmão porque houve uma discussão,um amigo verdadeiro não desaparece à primeira divergência,o vínculo sobrevive ao humor. Sobrevive ao entusiasmo.

Por vezes sobrevive até mesmo à razão.

Eis um dos seus mistérios.

Talvez por isso as sociedades tradicionais tenham concebido o amor menos como paixão e mais como pertencimento.

Pertencer não significa possuir. - Significa reconhecer-se parte de algo maior que si mesmo: Uma família,uma comunidade,uma linhagem,uma história comum.

A modernidade, porém, desenvolveu certa desconfiança em relação a tais conceitos: O indivíduo tornou-se a unidade moral fundamental.

Nada há de errado nisso - A dignidade individual representa uma conquista valiosa.

O problema surge quando todo vínculo passa a ser avaliado exclusivamente segundo a satisfação imediata que proporciona.

Nesse momento, o amor corre o risco de transformar-se em consumo : A relação torna-se produto,o parceiro torna-se fornecedor,a convivência transforma-se em negociação permanente. E o afeto passa a ser medido por critérios semelhantes aos utilizados para escolher um serviço ou uma mercadoria.

A presente tese vê com cautela essa transformação.

Não porque deseje restaurar formas opressivas do passado, jamais, não sou um panaca para ser reacionário de quinta! Mas porque suspeita que certas dimensões da experiência humana não florescem adequadamente sob lógica puramente contratual.

O amor parece ser uma delas.

Nenhuma mãe consulta um contrato antes de cuidar de uma criança febril,nenhum amigo autêntico exige cláusulas para oferecer consolo,nenhum avô calcula retorno financeiro ao transmitir suas histórias - Esses atos pertencem a outra esfera: A esfera da reciprocidade, da gratuidade, da comunidade.

O amor, portanto, talvez não seja apenas aquilo que sentimos pelos outros. Talvez seja também aquilo que construímos com eles.

Uma casa,uma memória,uma tradição,uma rede de auxílio,uma história compartilhada.

Nesta concepção, o amor deixa de ser simples acontecimento emocional e torna-se obra coletiva. - E como toda obra coletiva, exige tempo, esforço e perseverança.

Exige inclusive aquilo que os romances raramente mencionam: Rotina.

A rotina possui péssima reputação entre os poetas, mas excelente reputação entre as civilizações.

São as rotinas que alimentam crianças, que preservam lares,que mantêm comunidades,que atravessam gerações.

Talvez porque o amor, quando amadurece, adquira precisamente essa forma discreta: menos semelhante a um incêndio e mais semelhante a uma lareira.

A primeira impressiona - A segunda aquece.

A primeira ilumina a noite - A segunda permite atravessar o inverno.

E os homens, por mais fascinados que estejam pelas chamas, sempre viveram melhor ao redor das lareiras.

O maior símbolo do amor não é a lascívia do ato sexual, não é a banalidade de uma dita "suruba" - é a chegada do patriarca a casa e o receber dele com entusiasmo e cuidado, é o carinho de entregar as toalhas limpas, de após o banho o brindar com um beijo afetuoso no rosto e o receber a mesa do jantar, com todos reunidos para conversarem sobre banalidades do dia a dia. O símbolo principal do amor maduro e saudável é o cuidado, e talvez ai seja o porquê a Poligamia seja um modelo a ser considerado - pois amiplia as margens do cuidado e retira os encargos que antes teriam que ser de uma pessoa apenas.

Contra a Idolatria do Casal, ou da Curiosa Crença de que Dois Constituem um Universo

Toda civilização possui seus ídolos. Alguns são feitos de pedra, outros de ouro. Os mais sofisticados são feitos de ideias.

Estes últimos possuem uma vantagem considerável sobre os primeiros: Não ocupam espaço, não exigem templos e frequentemente passam despercebidos até mesmo por seus devotos.

Tal parece ser o caso do casal moderno.

Não me refiro ao casal enquanto realidade humana: Dois indivíduos podem amar-se, auxiliar-se e construir juntos uma vida admirável.

Nada há de estranho nisso. - Refiro-me ao casal enquanto princípio absoluto.

Enquanto unidade considerada suficiente para responder a quase todas as necessidades da existência. Enquanto ideal elevado à condição de destino universal.

A modernidade realizou uma operação singular : Tomou uma forma possível de convivência e converteu-a em paradigma moral.

Desde então, o casal deixou de ser apenas uma maneira de organizar a vida, ele passou a representar a própria medida da realização humana.

O indivíduo solteiro é visto com suspeita,o viúvo desperta compaixão,o divorciado exige explicações - Mas o casal permanece.

Sempre o casal.

Como se toda biografia devesse necessariamente culminar na mesma estrutura.

Não deixa de ser curioso.

A mesma sociedade que celebra a diversidade em quase todos os aspectos da existência demonstra notável uniformidade quando imagina o amor.

Mudam as profissões,mudam as crenças,mudam os costumes - Mas o horizonte permanece inalterado: Dois indivíduos,uma residência,uma história comum. E a esperança de que tal arranjo suporte sozinho o peso da vida.

A presente tese não questiona a legitimidade desta escolha. - Questiona apenas sua exclusividade.

Pois há diferença entre reconhecer uma possibilidade e venerá-la.

A veneração começa quando deixamos de perguntar.

E poucas perguntas são mais raras do que esta: Por que dois? porque apenas dois? Porque não três? Porque não quatro? 

O leitor talvez sorria, ou fique indignado se se tratar de um religionista.

A resposta parece evidente "Porque dois constituem um casal" ou a pior resposta "porque o apóstolo Paulo ordenou" - pobre Paulo! A queda do cavalo não lhe fez bem aos miolos!

Mas a observação apenas desloca o problema. Não o resolve.

Por que o casal tornou-se a unidade afetiva fundamental? por que não uma família ampliada? por que não uma comunidade doméstica mais extensa? por que não outras formas de associação humana?

A tradição responde de uma maneira,a religião responde de outra,a economia oferece uma terceira explicação,a sociologia sugere uma quarta. E nenhuma delas encerra definitivamente a questão.

E quando uma questão permanece aberta, a prudência recomenda evitar dogmas.

A idolatria do casal manifesta-se de formas discretas: Espera-se que um único indivíduo satisfaça necessidades outrora distribuídas por comunidades inteiras,p parceiro deve ser amigo,confidente,amante,conselheiro,companheiro intelectual,aliado econômico,apoio emocional,coparticipante da criação dos filhos,guardião dos projetos comuns. - Tudo isso simultaneamente.

E, de preferência, sem falhas.

A exigência seria ambiciosa até mesmo para uma instituição - Aplicada a um ser humano, aproxima-se do heroísmo.

Talvez por isso tantas relações terminem exaustas.Não por ausência de amor,mas por excesso de expectativa.

Pede-se ao casal que desempenhe funções antes exercidas por famílias extensas, vizinhanças, comunidades religiosas e redes de parentesco. Quando fracassa, atribuímos a culpa aos indivíduos. Raramente examinamos a estrutura.

Ora, uma ponte que desaba sob carga excessiva pode indicar problema na engenharia, não necessariamente nos viajantes.

Existe ainda um aspecto mais profundo: A idolatria do casal tende a reduzir o amor à reciprocidade imediata: Dois indivíduos trocam afeto, dois indivíduos trocam cuidados,dois indivíduos trocam promessas e devem cumpri-las, dois indivíduos devem se encontrar sempre na mesma frequência e sintonia de sentimentos.

Tudo permanece encerrado dentro de um círculo relativamente pequeno.

A comunidade surge apenas como cenário - Nunca como protagonista.

Entretanto, a história humana sugere outra possibilidade.

Durante séculos, o amor esteve ligado a redes mais amplas de pertencimento: A família não era apenas um vínculo entre duas pessoas,era um elo entre gerações,entre casas,entre histórias,entre responsabilidades compartilhadas.

O casal participava da comunidade - Não a substituía.

A modernidade inverteu parcialmente essa relação: O casal tornou-se o centro,a  comunidade tornou-se acessória - ja dizia a velha vagabunda do neoliberalismo conservatrouxa Margaret Thatcher, ex-primeira (vadia)-ministra do Reino Unido: "Não existe essa coisa de sociedade. Existem homens e mulheres individuais e existem famílias (no caso as monogamicas)".

Tal mudança produziu benefícios: Aumentou a autonomia individual,enfraqueceu imposições tradicionais,permitiu escolhas antes impensáveis.

Mas também produziu custos: A solidão tornou-se mais frequente,a fragilidade estrutural tornou-se mais visível,a dependência emocional concentrou-se em menos pessoas.

A presente tese não propõe abolir o casal - Seria proposta tão absurda quanto abolir a amizade.

Propõe apenas devolvê-lo ao seu devido lugar.

Nem trono.

Nem altar.

Nem dogma.

Apenas uma entre várias formas possíveis de cooperação humana.

Talvez excelente em determinadas circunstâncias. - Talvez insuficiente em outras.

Talvez capaz de florescer quando integrada a estruturas comunitárias mais amplas.

Pois o erro não está em amar uma unica pessoa.

O erro está em esperar que uma única pessoa substitua uma comunidade inteira.

Os antigos construíam cidades porque compreendiam essa limitação.

Os modernos frequentemente tentam resolvê-la com relacionamentos. E depois se surpreendem quando dois seres humanos, por mais dedicados que sejam, demonstram possuir capacidades menores do que uma civilização inteira.

Talvez a idolatria do casal seja, em última análise, uma forma de solidão organizada.

Uma tentativa sincera de concentrar em duas pessoas tudo aquilo que durante milênios foi distribuído entre muitas.

A experiência merece respeito.

Mas não necessariamente veneração.

E nenhuma instituição humana se beneficia quando seus admiradores lhe recusam o direito de ser questionada.

A Ética da Escolha, ou do Direito de Defender uma Estrada sem Necessariamente Percorrê-la

Existe uma curiosa exigência moral em nosso tempo.

Toda vez que alguém defende uma ideia, imediatamente surge quem lhe pergunte se pretende aplicá-la à própria vida.

A pergunta parece razoável. - Nem sempre é. Em maioria vem do Espírito sofista de alguns seres.

Se um homem defende a liberdade de imprensa, ninguém lhe exige fundar um jornal.

Se uma mulher defende a existência de museus, não lhe pedem que se torne curadora.

Se alguém sustenta a importância da pesquisa oceânica, raramente é obrigado a embarcar num navio.

Mas basta o assunto tocar costumes, família ou afetos para que a lógica se altere.

O defensor passa a ser tratado como suspeito, sua tese deixa de ser examinada,examina-se sua biografia.

A questão já não é: "O argumento é verdadeiro?" Mas: "Você pretende viver assim?"

A mudança parece pequena. - Na realidade, é profunda.

Confunde a validade de uma ideia com as preferências de quem a formula. E ideias possuem o hábito inconveniente de sobreviver aos seus autores.

A presente tese encontra-se particularmente exposta a esse tipo de objeção.

Ao defender a legitimidade intelectual de formas familiares ampliadas, logo surgirá quem pergunte: "Mas o autor deseja participar de uma família poligâmica?" " O senhor deve ser um pervertido que pretende ter um harém!" "O senhor é um indecente e pecador! Esta pisando sobre as ordens boloradas de Paulo!" 

A resposta, embora interessante do ponto de vista biográfico, possui relevância limitada para o argumento.

Uma instituição pode ser defensável sem que todos desejem integrá-la.

A liberdade religiosa não exige múltiplas conversões.

A liberdade artística não exige múltiplas carreiras.

A liberdade acadêmica não exige múltiplos diplomas.

O mesmo princípio aplica-se aqui.

Existe uma diferença entre considerar uma escolha legítima e considerá-la obrigatória. A modernidade compreende perfeitamente essa distinção em quase todos os campos.

Mas frequentemente a esquece quando trata da vida privada,talvez porque as paixões humanas raramente apreciem a neutralidade.

Contudo, uma sociedade livre depende precisamente dela.

O reconhecimento de uma possibilidade não implica sua universalização,reconhecer que uma estrada pode ser percorrida não significa obrigar todos a caminhar por ela: Significa apenas retirar a placa que a declara proibida.

Esta observação conduz a uma questão mais ampla: O que significa escolher?

A palavra tornou-se tão frequente que poucos se detêm para examiná-la.

Escolher não consiste apenas em seguir desejos, consiste também em assumir responsabilidades.

Toda escolha cria obrigações, toda liberdade produz consequências,toda forma de vida exige custos. A verdadeira escolha não elimina compromissos, seleciona quais compromissos estamos dispostos a assumir.

Sob esta perspectiva, a liberdade não é o contrário da responsabilidade. - É sua condição.

Uma decisão só possui valor moral quando poderia ter sido diferente.

O mérito da fidelidade desaparece se a fidelidade for compulsória,o mérito da generosidade desaparece se a generosidade for obrigatória,o mérito da cooperação desaparece se a cooperação for imposta. A escolha confere significado à ação.

E justamente por isso a presente tese evita transformar a poligamia em imperativo.

Imperativos pertencem aos profetas - O objetivo deste trabalho é mais modesto: Deseja apenas examinar possibilidades. A poligamia não é apresentada como destino inevitável da humanidade, nem como solução universal para todos os problemas familiares,nem como estágio superior da evolução social.

Tais pretensões produziram estragos suficientes ao longo da história, e a mim não me apetece o título de apóstolo ou de revolucionário.

O que se propõe é algo mais simples: Se uma forma familiar demonstra capacidade de gerar estabilidade, cooperação e apoio mútuo, ela merece consideração séria.

Nada mais.

Nada menos.

O leitor poderá então aceitá-la, ou rejeitá-la, talvez ignorá-la e quiçá modificá-la. Cada uma dessas atitudes permanece compatível com a liberdade intelectual.

Pois uma ideia não precisa conquistar todos os homens para justificar sua existência. - Basta que tenha o direito de ser discutida.

Existe ainda uma última confusão que merece esclarecimento: Muitos imaginam que toda defesa teórica esconde necessariamente um interesse pessoal.

Às vezes ocorre. - Outras vezes não.

A inteligência humana possui uma característica admirável: Consegue reconhecer valor em experiências que não pretende viver.

Um celibatário pode admirar o casamento,um marinheiro pode defender o direito de cultivar a terra,um pacifista pode estudar a arte militar,um cidadão urbano pode proteger florestas que jamais visitará. A capacidade de compreender além da própria experiência constitui uma das maiores virtudes da civilização.

Sem ela, toda filosofia se reduziria a autobiografia.

Toda política se reduziria a conveniência.

Toda ética se reduziria a interesse.

Felizmente, os seres humanos são capazes de algo mais: São capazes de imaginar.

E imaginar significa precisamente isso: reconhecer que o mundo contém possibilidades que ultrapassam nossas preferências individuais.

Chegamos, assim, à conclusão deste livreto.

A questão fundamental não é saber quais formas de vida escolhemos para nós, a questão fundamental é saber quais formas de vida admitimos que outros escolham para si.

Uma sociedade madura distingue essas duas perguntas.

Uma sociedade insegura costuma confundi-las.

A presente tese prefere a primeira alternativa.

Não porque todas as escolhas sejam igualmente sábias.

Mas porque a sabedoria raramente floresce onde apenas uma escolha é permitida.

E porque as instituições humanas, assim como os homens, revelam suas virtudes e seus defeitos apenas quando lhes é concedida a liberdade de existir.

- JonniX