No anarquismo, para além dos dois conceitos filosóficos que o dividem — o comunista e o individualista — existem dois instintos espirituais e físicos (ou melhor, duas formas de vida vivida, concreta e materialmente) que distinguem dois temperamentos, comuns a ambas as correntes teóricas.
Filhos de um mesmo sofrimento social, é certo — mas dotados de impulsos diversos, que nos conduzem a duas maneiras distintas de sofrer, ambas de origem hedonista.
Há aqueles (comunistas e individualistas) que sofrem — como diria Friedrich Nietzsche — por excesso de vida; e há os que sofrem por sua pobreza.
Entre estes últimos estão os amantes da quietude, da paz, do silêncio e da solidão. Já entre os primeiros — e é aqui que a pena parece aquecer-se — estão aqueles que sentem o próprio íntimo como um poderoso estremecimento dionisíaco, transbordante de força, e a vida como manifestação heroica da vontade.
São estes que trazem em si a necessidade instintiva — irresistível, quase fatal — de arremessar a chama do seu “eu” contra os muros do mundo exterior, para demolir… e viver a tragédia.
Nós estamos entre estes.
Estamos no anarquismo, antes de tudo, por instinto originário e sentimento apaixonado. Nossas ideias não passam — ouso dizer — de criaturas audazes e luminosas, nascidas do abraço primitivo entre a unidade do ser e a razão teórica que nega.
Hoje, a história da humanidade atingiu um de seus muitos turbilhões — talvez o maior — onde o espírito humano é chamado a renovar-se radicalmente sobre as ruínas magníficas e horrendas de fogo e sangue, catástrofe e destruição… ou, o que é mais triste, cristalizar-se covardemente na concepção de vida cadavérica e decrépita que a sociedade burguesa, já fora de época, nos legou como herança.
Se um punhado vigoroso de rebeldes — homens superiores, heróis — fosse capaz de saltar além das duas correntes do anarquismo, impulsionados por esse excesso vital, e se reunisse sob a bandeira negra da revolta, incendiando os corações das nações europeias… o velho mundo ruiria.
Pois ao redor dos Heróis tudo tende, fatalmente, à tragédia — e é somente na tragédia que nascem os espíritos renovadores, aqueles capazes de ouvir, com mais nobreza e altura, o canto festivo de sua vida livre.
Mas, se esse punhado de temerários não emergir da sombra para lançar a luva negra do desafio no rosto pútrido da sociedade burguesa, então os répteis da demagogia política, os acrobatas especuladores e os hipócritas da dor humana continuarão senhores do campo.
E tudo terminará numa comédia vil e grotesca — diante da qual, talvez, o anarquista digno sentiria vergonha suficiente para desaparecer.
Para aquela parcela de anarquistas italianos que sofre por excesso de vida — para aqueles, individualistas ou comunistas, para quem a luta, o perigo e a tragédia são necessidades tanto espirituais quanto materiais — o momento chegou.
A hora de impor-se. A hora de dominar.
Pois a verdadeira liberdade e o verdadeiro direito do ser humano residem apenas em sua capacidade de querer.
Direito e liberdade — são força.
Aquilo que para outros é sacrifício doloroso deve ser, para nós, dádiva e holocausto jubiloso.
É preciso lançar-se na onda do tempo passado, pisar os cumes arredondados dos séculos, regressar virilmente na história para beber nas fontes virgens, onde ainda jorra — quente e fumegante — o sangue dos primeiros sacrifícios humanos livres.
É preciso retornar, descalços e nus, entre as pedras vivas da floresta mítica e lendária, e nutrir-nos, como nossos ancestrais remotos, do tutano do leão e da natureza selvagem.
Agora nós também, como tu, sabemos cantar sob a tortura.
A vida que a sociedade nos oferece não é plena, nem livre, nem alegre.
É uma vida esmagada, mutilada, humilhada.
Devemos recusá-la.
E, se não tivermos força ou capacidade para arrancar violentamente de suas mãos a vida alta e vigorosa que sentimos pulsar em nós, então lancemos esse espectro sobre o altar trágico do sacrifício — e da renúncia final.
Pelo menos, poderemos coroar com um diadema heroico de beleza o rosto ensanguentado da arte que ilumina e cria.
Melhor erguer-se nas chamas de um incêndio e tombar, o crânio partido sob a rajada de um pelotão inconsciente, do que aceitar esse espectro de vida irônica — que não passa de uma paródia sinistra da própria vida.
Basta, ó amigos, de covardia. Basta, ó companheiros, da ingênua ilusão do “ato generoso das massas”.
A massa é palha — palha que o socialismo deixou apodrecer no estábulo da burguesia.
Errico Malatesta, Pasquale Binazzi, Dante Carnesecchi — e milhares de outros desconhecidos que apodrecem nesses manicômios miasmáticos e mortais que são as prisões da monarquia de Saboia — prisões cuja ampliação foi reclamada, nos chiqueiros parlamentares, pelos pequenos medalhões do Partido Socialista Italiano — devem ser, para nós, como espectros de remorso.
Devem caminhar, em formas terríveis, pelos desvios incertos de nossas mentes hesitantes; devem ser jorros ardentes de sangue que irrompem de nossos corações, atravessam as linhas do rosto e o cobrem de uma vergonha sombria.
Eu sei — nós sabemos — que cem SERES HUMANOS, dignos desse nome, seriam capazes de realizar aquilo que quinhentos mil “organizados” inconscientes jamais conseguirão.
Não vedes, ó amigos, a sombra de Bruno Filippi que nos observa, sorrindo com desdém?
Errico Malatesta e os milhares que caíram nas mãos do inimigo ao primeiro sinal desta tempestade social aguardam, com nobre e febril expectativa, o relâmpago que derrube o edifício em ruínas, que ilumine a história, que eleve os valores da vida, que acenda o caminho da humanidade…
Mas o relâmpago brilhante e fatal não pode nascer do coração das massas.
As massas, que pareciam ardentes admiradoras de Malatesta, são covardes e impotentes.
O governo e a burguesia o sabem — e sorriem.
Sabem: “O Partido Socialista Italiano está conosco. É a peça indispensável para o desfecho funesto de nosso jogo. É o abracadabra que toma forma na voz encantatória de nossa feitiçaria milenar. As massas covardes são suas escravas, e Malatesta está velho e doente. Deixá-lo-emos morrer na escuridão úmida de uma cela — e depois lançaremos seu cadáver ao rosto de seus companheiros anarquistas…”
Sim — é isso que o governo e a burguesia pensam, nos recantos ocultos de suas mentes estúpidas e maliciosas.
E nós? Suportaremos esse desafio vil com indiferença? Suportaremos esse insulto sangrento e brutal em silêncio? Somos, então, tão covardes assim?
Espero que estes três enormes pontos de interrogação — solenes e terríveis — encontrem, nas fileiras do anarquismo, uma resposta viril que diga: NÃO! E que o diga com um trovão ainda mais terrível…
É dos cumes ardentes, dos picos luminosos, que deve irromper o relâmpago libertador.
O VELHO forte espera. Companheiros heroicos: a nós!
O cadáver de um velho agitador custa sempre mais caro do que a vida de mil idiotas maliciosos.
Irmãos e irmãs, lembrai-vos disso.
Agi de tal modo que a mais profunda de todas as vergonhas humanas não recaia sobre nós.
Il Libertario
vol. XVIII, nº 793
La Spezia
8 de dezembro





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