Mas, sendo a Anarquia um “absoluto final”, em plena harmonia com a ideia do infinito, e o comunismo apenas uma passagem relativa — social, jurídica — que flui no empirismo econômico, sendo, portanto, prelúdio e promessa, mas não a harmonia plena nem o desfecho épico, sucede que os filhos florescentes dessas duas correntes continuam a disputar entre si — ora tempestivos, ora serenos — a herança filosófico-espiritual da Anarquia pura.
É o velho dualismo que, vestido de nova lógica, continua a girar no círculo vicioso onde o carrossel do dogma e da utopia roda sobre o eixo pouco auspicioso de um sonho que a verdade deforma e a vida transfigura.
E é justamente desse círculo vicioso — do qual nenhuma das partes ainda ousou escapar com coragem — que eu desejo libertar-me, para depois mergulhar no banho de um novo sol.
O anarquista que aspira ao comunismo e o individualista que aspira à Anarquia não percebem que estão presos — violentamente — nas cadeias de uma sociologia castradora e nas mandíbulas de um humanismo viscoso, mistura de não-vontade individual e de uma moral pseudo-cristã.
Quem aceita uma causa social, coletiva e humana não se encontra na Anarquia pura do instinto livre, virgem e originário dos inassimiláveis e negadores antropocêntricos.
Eu — anarquista e individualista — não quero, nem posso, abraçar a causa do comunismo ateu, pois não creio na elevação suprema das massas; e, por isso, recuso a realização da Anarquia entendida como forma social de convivência humana.
A Anarquia está nos espíritos livres, no instinto dos grandes rebeldes, nas mentes superiores.
A Anarquia é o mistério íntimo que anima as singularidades incompreendidas — fortes porque solitárias, nobres porque possuem a coragem da solidão e do amor, aristocráticas porque desprezam o comum, heroicas porque estão contra tudo…
A Anarquia é néctar para o Eu psíquico — não álcool sociológico para a coletividade.
O anarquista é aquele que recusa toda causa, pela alegria de viver que irradia da intensidade interior de seu espírito.
Nenhum futuro, nenhuma humanidade, nenhum comunismo — nem mesmo nenhuma anarquia — vale o sacrifício da minha vida. Desde o dia em que me descobri, considerei-me o fim supremo.
Agora, envolvo-me na trajetória ascendente de meu espírito libertado — e libertador —, lanço fora o arreio, entrego-me à nudez pura do instinto para elevar-me acima do arco — essa inspiração sociológica ideal — que une e confunde o utopismo dogmático dessas duas anarquias pálidas e sonhadoras, e glorifico — entre o choque dos ventos e as festas do sol — a soberania egoárquica e poderosa de mim mesmo.
Para além do povo e da humanidade, vive e pulsa o mistério absurdo — e sublime — do ÚNICO indefinido.
Eu — águia humana, delirante — rasgo as trevas sombrias desta noite negra, onde a tempestade das ideias uiva e os ventos do pensamento rugem, para depois elevar-me além dos braços do primeiro clarão da aurora, entre as chamas furiosas do sol do meio-dia, sentindo-me no pulsar voluptuoso e dionisíaco do instinto vital amoral, onde a luz do espírito e a paixão da emoção se embriagam nas fontes selvagens e virgens do sangue e da carne.
A alegria é — antes de tudo — uma maneira singular de sentir a vida.
Para o homem superior, aquele que se percebe elevado, há a alegria sublime da dor e a tristeza profunda da felicidade. Zaratustra, que, através da dolorosa e excelsa solidão dos píncaros, busca com avidez o agudo júbilo do conhecimento, encontrando, em troca, uma loucura divina e desvairada; Jules Bonnot, que, pelo “Crime” e pela “Transgressão”, exalta a vontade do Único que, para além do Bem e do Mal, se eleva ao céu da arte heroica de viver e morrer; Bruno Filippi, que se aniquila no esforço titânico, reclamando o direito do “Eu” contra os constrangimentos sociais das viscosas coletividades burguesas e plebeias — todos eles são joias radiantes que compõem a guirlanda libertária do meu amoralismo vital, bem como os protagonistas da minha tragédia espiritual.
Na vida, procuro a alegria do espírito e a voluptuosa opulência do instinto. Pouco me importa saber se tais delícias brotam das cavernas do bem ou dos abismos vertiginosos do mal. Ergo-me — e, se ao erguer-me encontro o raio trágico do meu destino, vida e morte curvar-se-ão aos meus lábios torcidos para, depois, seguirem-me até o supremo turbilhão onde a Arte glorifica os fortes, os incompreendidos, os rebeldes que a moral execra e condena, que a ciência chama de loucos e que a sociedade amaldiçoa.
Sou, portanto, o instinto jubiloso e libertado. Ao escutar-me, ouço o fragor trovejante do meu espírito libertador, entoando o cântico épico e triunfal da vitória final.
Todas as ARCHIAS ruíram, despedaçadas. Agora amo-me, exalto-me, canto-me, glorifico-me. Meus antigos sonhos encontraram repouso sobre a pele pálida e perfumada das mulheres. Minha mente — apaixonada e pagã — é a de um poeta sem freios, refletida voluptuosamente em seus olhos perversos, onde os espíritos do Prazer e do Mal dançam a mais delirante das danças. Apenas o cintilar das estrelas, o correr dos rios, o sussurro das florestas dizem algo daquilo que vive em mim. Quem não compreende as estranhas sinfonias da natureza não poderá jamais compreender os versos ressoantes dos meus cantos encantados.
O que é meu não é pensamento nem teoria, mas um estado de espírito, um modo particular de sentir. Quando me assalta a necessidade de soltar, com decisão, meus Centauros e meus garanhões em fúria, haverá ao meu redor uma orgia insensata de amor e sangue, pois eu sou — sinto-o — aquilo que os habitantes dos pântanos morais da sociedade chamam de “criminoso vulgar”.
Louco? Seja como quiserem! Os seres normais jamais gozaram de minhas afeições. Entre os homens, aqueles a quem mais amo são os “criminosos” do Pensamento e da Ação (Artistas, Ladrões, Vagabundos, Poetas).
Entre as mulheres, amo as perversas. Amo-as vestidas de azul ao crepúsculo; amo-as de vermelho sob os raios dourados da aurora que se anuncia; amo-as nuas e perfumadas no leito do amor; amo-as de branco no pequeno leito da morte.
Dizei-me, ó minhas irmãs vivas, ó minhas irmãs mortas: quem? quem dentre vós foi a mais célebre, a maior, a mais perversa?
Ah, recordo-me, recordo-me!...
Clara, foste tu!... Mas onde estás agora?
Conheci-te outrora pelas páginas de O Jardim das Torturas. Conheci-te — e amei-te! És a criatura mais estranha e mais delicada, a mais profundamente humana e cruel, que soube sentir a vida com agudeza, saborear o amor com requinte entre os gemidos dos torturados e o perfume das flores. Quando te imagino correndo, leve e delirante, sob o prelúdio loiro do crepúsculo dourado, em busca do relvado verde tingido de sangue, para dele fazer teu leito nupcial e conceder a ti mesma o mais profundo abraço de amor, sinto-me exaltado por uma admiração que me transcende.
Ah, criatura romântica e refinada, como sabes penetrar o milagre divino das flores, e como o perfume sensual da arruda chinesa te ensina a exaltar-te…
Só um grande voluptuoso e um grande pervertido poderia ouvir, como teu igual — ainda em meio aos gritos lancinantes dos torturados — a voz forte e imperiosa da natureza instintiva, que clama: “Ama-te!... Ama-te!... Faz-te também como as flores... Na verdade, só há o Amor!” E eu compreendo — e sinto — ó Clara, esse teu amor perverso e amoral, amaldiçoado e abominado pela pureza castrada da moral dos castos e dos homens. Sinto-o erguer-se, louco e impetuoso, das profundezas mais subterrâneas do instinto, para expandir-se — com harmonia musical de anseios e mistérios — livre e soberbo diante do espetáculo cruel e bárbaro do sacrifício humano, celebrando o supremo e vigoroso pulsar da mais dolorosamente profunda ALEGRIA, ressoando no coração sangrante da vida mais plena e mais trágica.
Ó heroína perversa de Octave Mirbeau, eu te exalto e te canto, porque sou o cantor bárbaro do Mal.
Acima das duas Anarquias da Razão e do Bem — gloriosas e triunfantes — ergo o estandarte da Anarquia do Instinto e do Mal.
- Renzo Novatore





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