“A fé inabalável é somente aquela que pode encarar a razão face a face, em todas as épocas da humanidade.”
— Allan Kardec
Antes que o leitor torça o nariz — seja por excesso de fé alheia, seja por prudência própria — proponho um pequeno exercício de curiosidade: tomemos o chamado espiritismo, tal como organizado por Allan Kardec, e tentemos reduzi-lo ao essencial, como quem desmonta um relógio não para negá-lo, mas para entender-lhe o funcionamento.
Não se exige aqui crença prévia, tampouco adesão entusiasmada. Basta uma disposição modesta: a de considerar, ainda que por instantes, a hipótese de que a vida talvez não se encerre onde os olhos deixam de ver, e de que o homem — essa criatura tão convicta de suas certezas — possa ser um pouco mais vasto do que imagina.
Sigamos, pois, sem pressa e sem devoção excessiva, por entre as ideias centrais dessa doutrina. Se ao final restar apenas uma dúvida bem formulada, já teremos feito melhor negócio do que muitas certezas apressadas.
“O progresso é lei da natureza; todos os seres da criação a ele estão submetidos.”
— Allan Kardec
Sobre Allan Kardec
Allan Kardec nasceu em 1804, na cidade de Lyon, sob o nome de Hippolyte Léon Denizard Rivail. Antes de qualquer inclinação espiritualista, foi homem de educação e método: discípulo das ideias pedagógicas de Johann Heinrich Pestalozzi, dedicou-se ao ensino e à produção de obras didáticas, sempre com espírito racional e disciplinado.
Foi apenas já maduro — o que dá à sua trajetória certo ar de prudência — que entrou em contato com os fenômenos das chamadas “mesas girantes”, muito em voga na Paris do século XIX. Ao invés de aderir com entusiasmo cego ou rejeitar com desdém, fez o que lhe era mais natural: investigou. Reuniu comunicações, comparou respostas, organizou perguntas — e desse trabalho sistemático nasceu, em 1857, sua obra mais conhecida, O Livro dos Espíritos.
Adotou então o nome “Allan Kardec”, que, segundo afirmava, seria de uma existência anterior — gesto que, para uns, reforça a coerência da doutrina; para outros, acrescenta-lhe um toque de mistério.
Ao longo dos anos seguintes, publicou outros livros fundamentais do espiritismo, estruturando aquilo que chamou de uma doutrina ao mesmo tempo filosófica, moral e — em suas pretensões — científica. Não se apresentou como profeta, mas como organizador: alguém que recolhe vozes e lhes dá forma.
Faleceu em 1869, deixando não apenas livros, mas um sistema de pensamento que atravessaria fronteiras e encontraria, curiosamente, terreno fértil em países como o Brasil, onde sua influência permanece viva até hoje.
“A reencarnação é a volta do espírito à vida corpórea, mas em outro corpo.”
— Allan Kardec
Allan Kardec em "O Livro dos Espíritos"
Dizem os compêndios organizados pelo meticuloso Allan Kardec, em seu laborioso O Livro dos Espíritos, que o homem comete um equívoco bastante comum — e até compreensível — ao tomar-se por aquilo que apalpa. Julga-se corpo, quando é, em verdade, o inquilino dele. A carne, nesse arranjo, não passa de vestimenta provisória, dessas que o tempo gasta sem pedir licença; já o espírito, este sim, é o portador da identidade persistente, o autor oculto das próprias inquietações.
A morte, que tanto impressiona os vivos — talvez por lhes ferir a vaidade mais do que a razão — não encerra a narrativa como se supõe. É antes uma mudança de cenário, uma troca de bastidores. O espírito despe-se do corpo com a mesma inevitabilidade com que o dia se despe da luz, e prossegue, não raro surpreendido por ainda ser ele mesmo, agora sem o disfarce que tanto prezava.
Mas não se pense que essa continuidade seja ociosa. Há, segundo a doutrina, uma insistência pedagógica no universo. O espírito retorna — e retorna de novo — em sucessivas existências, como aluno que, reprovado pela própria consciência, se vê constrangido a repetir o ano.
A esse processo deram o nome de reencarnação, que é palavra grave para uma ideia simples: viver várias vezes para aprender aquilo que uma só vida não deu conta.
E aprender o quê? Não as artes da ostentação ou da esperteza social, que essas o mundo ensina com eficiência duvidosa, mas algo mais custoso: a arte de ser melhor. Melhor no sentido moral — mais justo, mais paciente, menos inclinado à pequena crueldade cotidiana que, convenhamos, é vício quase universal. O progresso, aqui, não se mede em moedas, mas em consciência.
Naturalmente, toda ação deixa rastro. O espiritismo chama a isso lei de causa e efeito, mas o leitor pode, se preferir, pensar nela como a velha conta que nunca fecha sem acerto. Não há castigo teatral nem prêmio exagerado; há consequência. O bem praticado retorna com discrição; o mal, com a mesma fidelidade. E ambos, note-se, com finalidade instrutiva — como se o universo fosse menos um tribunal e mais uma escola severa.
Quanto a Deus, afasta-se da figura colérica que tantos sermões cultivaram com zelo. Surge antes como princípio — inteligência suprema, dizem — que organiza o todo sem recorrer a gestos dramáticos. Não intervém a cada deslize humano; estabelece leis e permite que elas se cumpram com a paciência de um relógio que não se adianta nem se atrasa.
E, como em toda boa narrativa onde há mais de um plano, admite-se certa comunicação entre os que partiram e os que ficaram. Espíritos, livres do corpo, ainda se insinuam entre os vivos, seja por intermédio dos chamados médiuns, seja por vias mais sutis. Não vêm sempre como sábios — o que seria pedir demais —, mas como continuam sendo: alguns lúcidos, outros nem tanto.
Por fim, não há céu nem inferno como moradas definitivas, dessas com endereço fixo e portaria. Há estados.
O espírito leva consigo aquilo que é; se traz paz, habita a paz — se traz perturbação, não encontra repouso, ainda que mude de mundo. O paraíso e o abismo, nesse caso, não são lugares, mas condições.
E assim se desenha a tese: viver é ensaiar-se. Morre-se, volta-se, erra-se, corrige-se — até que, por obra da experiência ou do cansaço, o espírito aprenda a escrever melhor a própria história, ainda que jamais lhe faltem rasuras.
“Fora da caridade não há salvação.”
Da evolução do espírito e das virtudes silenciosas
Se até aqui acompanhamos o espírito em seu trânsito entre erros e tentativas, convém agora perguntar — com a franqueza que raramente empregamos conosco mesmos — por qual estrada se dá, afinal, esse tal progresso de que tanto se fala. Não basta viver muitas vezes; seria apenas multiplicar equívocos com admirável persistência. É preciso transformar-se.
E aqui entra, com a modéstia das grandes forças, a caridade — essa palavra que, de tão repetida, corre o risco de parecer menor do que é. Segundo a arquitetura moral delineada por Allan Kardec, não se trata apenas de dar o que sobra, nem de praticar gestos ocasionais que tranquilizem a consciência nas tardes de domingo. A caridade verdadeira é mais exigente: pede disposição contínua, uma certa renúncia de si, e, sobretudo, a capacidade — rara — de reconhecer no outro algo além de sua utilidade.
A bondade, por sua vez, opera de modo ainda mais silencioso. Não anuncia sua chegada, não exige testemunhas. É dessas virtudes que se insinuam no cotidiano, nos pequenos atos que ninguém registra, mas que, somados, alteram a inclinação do espírito. Ser paciente quando se poderia ser áspero; compreender quando seria mais fácil julgar; estender a mão quando o impulso primeiro seria recolhê-la — eis aí a mecânica discreta da transformação.
Dir-se-á, talvez, que tais exigências são altas demais para criaturas tão afeitas ao próprio interesse. E não estará errado quem assim pensar. Mas é precisamente por isso que o processo é longo — e, ouso dizer, engenhoso. A vida, com suas contrariedades meticulosamente distribuídas, coloca o indivíduo diante de si mesmo, como um espelho pouco lisonjeiro. E, diante desse reflexo, resta-lhe escolher: persistir no que é, ou aventurar-se no que pode vir a ser.
A caridade e a bondade funcionam, então, como instrumentos de lapidação. Não transformam o homem de um dia para o outro — o que seria suspeito —, mas o inclinam, pouco a pouco, a um estado mais elevado. E, curioso notar, ao beneficiar o outro, beneficiam sobretudo aquele que as pratica. Há nisso uma espécie de economia moral: o bem, quando feito com sinceridade, retorna não como prêmio, mas como ampliação do próprio ser.
Assim, a evolução espiritual deixa de ser uma ideia abstrata e ganha contornos práticos. Não está nas grandes declarações, nem nos arroubos de virtude que duram uma semana; está na constância. No esforço repetido de ser um pouco melhor do que ontem — ainda que o ontem tenha sido, como tantas vezes é, decepcionante.
E talvez — apenas talvez — seja esse o segredo mais sóbrio dessa doutrina: não se exige santidade imediata, mas movimento. Não se pede perfeição, mas direção. Pois, no fim das contas, o espírito não se eleva por saltos heroicos, e sim por passos discretos, desses que quase não fazem ruído — mas que, com o tempo, o levam mais longe do que ele ousaria supor.
“O verdadeiro progresso moral consiste em dominar as más inclinações.”
— Allan Kardec
Da ajuda mútua e da ascensão do espírito
Há, nas ideias do príncipe anarquista Peter Kropotkin, uma observação que, à primeira vista, parece destinada apenas ao mundo visível: a de que a vida não prospera pelo conflito incessante, como tanto se apregoa, mas pela cooperação. Em sua obra Mutual Aid: A Factor of Evolution, sustenta ele que as espécies — inclusive a nossa — sobrevivem e se desenvolvem menos pela competição selvagem e mais pela capacidade de auxiliar umas às outras.
Ora, se trocarmos as lentes e olharmos essa tese à luz do edifício moral erguido por Allan Kardec, veremos que a distância entre ambos talvez não seja tão grande quanto supõem os mais apressados.
No plano material descrito por Kropotkin, a ajuda mútua é uma estratégia de sobrevivência: indivíduos que cooperam aumentam suas chances de persistir. No plano espiritual sugerido pelo espiritismo, a caridade e a bondade são estratégias de elevação: espíritos que auxiliam elevam sua própria condição. Em um caso, evolui-se como espécie; no outro, como consciência. Mas o gesto — esse impulso de sair de si em direção ao outro — permanece curiosamente o mesmo.
Dir-se-á que um fala de corpos e o outro de almas; e será verdade. Contudo, ambos parecem desconfiar da mesma ficção: a do indivíduo isolado, autossuficiente, triunfando sozinho. Para Kropotkin, tal criatura dificilmente sobreviveria. Para o espiritismo, dificilmente evoluiria.
A ajuda mútua, nesse curioso paralelo, deixa de ser apenas um fenômeno biológico e ganha um segundo estatuto: o de exercício moral. Quando um ser humano auxilia outro — não por cálculo, mas por inclinação — realiza, simultaneamente, dois movimentos. No mundo visível, reforça os laços que sustentam a vida coletiva; no invisível, afina o próprio espírito, tornando-o menos áspero, menos fechado em si.
E talvez seja justamente aí que as duas doutrinas, cada qual a seu modo, convergem com certa elegância: ambas sugerem que o progresso — seja da sociedade, seja do espírito — não se constrói pela negação do outro, mas por sua inclusão.
A competição pode, vez ou outra, produzir vencedores; mas é a cooperação que produz continuidade.
Não se trata, evidentemente, de transformar Kropotkin em místico, nem Kardec em naturalista — seria violência desnecessária a ambos. Mas reconhecer que há, sob linguagens distintas, uma intuição comum: a de que o isolamento empobrece, enquanto a relação enriquece.
Assim, o homem que pratica a caridade, sob a ótica espiritista, e o homem que se engaja na ajuda mútua, sob a lente kropotkiniana, talvez não estejam em caminhos opostos, mas em níveis diferentes de uma mesma escada. Um reforça o tecido social; o outro refina o tecido íntimo. E ambos, sem o saber, contribuem para uma forma de evolução que dispensa o heroísmo ruidoso e aposta na persistência do gesto simples.
No fim, resta uma hipótese — dessas que não se impõem, mas insinuam: e se a lei mais profunda da vida, seja ela material ou espiritual, não for a luta, mas a colaboração? Se assim for, então cada ato de bondade, por menor que pareça, não será apenas virtude — será também, discretamente, uma força de transformação do mundo e do próprio ser.
“Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral…”
— Allan Kardec
Daquilo que fica
Chegados a este ponto — e supondo que o leitor tenha resistido até aqui, entre a curiosidade e o ceticismo — convém recolher as ideias espalhadas e perguntar, com a serenidade possível: que espécie de doutrina é esta, afinal, que nos propusemos a examinar?
Dir-se-á, com alguma razão, que o pensamento organizado por Allan Kardec ocupa um lugar curioso entre os sistemas humanos. Não é religião no sentido mais rígido, pois carece de dogmas imutáveis e dispensa a pompa das instituições. Tampouco é materialismo, já que afirma, com certa obstinação, a primazia do espírito sobre a matéria. É, antes, uma espécie de ponte — dessas que não eliminam o abismo, mas permitem atravessá-lo com alguma dignidade.
Nessa travessia, o homem não é conduzido por fatalidades absolutas. Há, segundo a doutrina, um elemento que lhe devolve a responsabilidade: o livre-arbítrio. Cada espírito escolhe — ainda que nem sempre com clareza — os caminhos que trilha. E, escolhendo, compromete-se com as consequências. Não há destino fechado, mas há coerência; não há condenação eterna, mas tampouco há indulgência sem aprendizado.
Tal perspectiva traz consigo uma consequência quase reconfortante: a imperfeição deixa de ser escândalo e passa a ser ponto de partida. O homem não é um erro irremediável, mas um esboço. Erra porque ignora, insiste porque não compreende, e melhora — lentamente — à medida que se vê obrigado a confrontar a si mesmo. Há nisso uma certa indulgência, é verdade, mas também uma exigência contínua: a de não permanecer o mesmo.
E se o leitor, por ventura, esperava encontrar aqui um desfile de fenômenos extraordinários — espíritos que se manifestam, vozes que atravessam o invisível — talvez se surpreenda ao notar que tudo isso ocupa posição secundária. O centro da doutrina não está no prodígio, mas na conduta. Não é o que se vê do outro mundo que importa, mas o que se faz neste.
Daí a insistência — já não mais estranha — na caridade e na bondade como instrumentos de transformação. E é aqui que, com certa elegância, o espiritismo parece apertar a mão de ideias vindas de outro campo, como as do pensador Peter Kropotkin.
Se este nos fala da ajuda mútua como força de coesão entre os homens, aquele nos apresenta a caridade como força de elevação do espírito. Em ambos os casos, o isolamento surge como empobrecimento; a relação, como condição de progresso.
Não é de estranhar, portanto, que tais ideias tenham encontrado terreno fértil em terras como o Brasil, onde a prática da caridade — menos como teoria e mais como hábito — acabou por se tornar uma das expressões mais visíveis dessa doutrina. Aqui, o espiritismo parece ter trocado parte de sua abstração por um gesto concreto: o de auxiliar.
E assim, pouco a pouco, a teoria se recolhe à prática, como quem reconhece seus próprios limites. Pois, no fim das contas, não será pela quantidade de vidas que se vive, nem pelo número de ideias que se compreende, que se medirá o progresso do espírito, mas pela transformação efetiva que ele realiza em si — e, por extensão, nos outros.
Resta, então, ao leitor — agora cúmplice involuntário dessa reflexão — decidir o que fazer com tudo isso. Pode rejeitar, como quem fecha um livro que não lhe agradou; pode aceitar, com o entusiasmo dos convencidos; ou pode, o que talvez seja mais prudente, guardar a dúvida.
Porque, se há uma lição discreta que atravessa estas páginas, é a de que o homem não precisa ter todas as respostas para começar a melhorar — basta que desconfie, ainda que por um instante, de que pode ser melhor do que é.
E, se tal desconfiança produzir um único gesto de bondade, já não terá sido em vão todo este labor.
- Anhangá, com colaboração de JonniX