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domingo, 3 de maio de 2026

O não civilizado e o anti civilização


A conversa não aconteceu num lugar marcado no mapa.

Se alguém tentasse localizar, erraria por princípio: era uma margem — de rio, de linguagem e de entendimento. A água corria lenta, não por preguiça, mas por não ver urgência em obedecer expectativas humanas.

O indígena estava sentado como quem não “ocupa” o espaço, mas pertence a ele sem negociação. Não havia pose, nem sistema. Apenas presença. Seus olhos não buscavam argumento — observavam.

O outro chegou como quem vem de muito longe não só no espaço, mas na forma de pensar. Falava de civilização como quem carrega um diagnóstico pronto antes mesmo de ver o paciente.

— Tudo isso — disse o anarco-primitivista — é uma longa queda. Agricultura, linguagem complexa, técnica… cada camada nos afastou do mundo real. Precisamos retornar ao imediato. À vida sem mediação.

O indígena ficou em silêncio por um tempo que não era vazio — era escuta sem pressa.

Então respondeu, devagar:

— Você fala “retornar” como se já tivesse estado lá.

O outro sorriu, como quem acha a objeção previsível.

— Todos estivemos. Antes da civilização.

O indígena inclinou a cabeça, não em concordância nem discordância, mas como quem observa um animal estranho tentando descrever a própria floresta sem nunca tê-la tocado.

— Você lembra do começo? — perguntou.

A pergunta não era acusação. Era literal demais para ser retórica.

O outro hesitou por meio segundo — o suficiente para o rio continuar sem ele.

— Não pessoalmente — disse ele — mas como espécie, sim. A condição humana original…

O indígena interrompeu com suavidade:

— “Original” é uma palavra perigosa. Ela faz o tempo virar linha reta.

Silêncio.

O vento passou entre as folhas como se não tivesse sido consultado.

O anarco-primitivista retomou:

— Mas você não vê o problema da tecnologia, da dominação, da domesticação da vida?

O indígena olhou para a água.

— Eu vejo pessoas tentando viver bem ou mal. Vejo relações que crescem e se quebram. Vejo equilíbrio difícil. Mas você fala como se tudo tivesse sido uma coisa só antes de virar erro.

O outro se agitou um pouco, como quem sente o chão conceitual ceder.

— Não é isso. Há evidências antropológicas…

O indígena levantou a mão levemente. Não para interromper a fala — mas para desacelerar o mundo.

— Evidência é o que vocês usam quando não estão aqui.

Silêncio mais longo.

Dessa vez, o anarco-primitivista não respondeu de imediato.

O indígena continuou:

— Você quer um mundo sem mediação. Mas você fala dele usando muitas mediações. Você quer apagar o caminho depois de caminhar por ele.

A frase não tinha agressividade. Tinha constatação.

O outro respirou fundo.

— Não é sobre apagar. É sobre libertar.

O indígena finalmente olhou direto para ele.

— Libertar quem?

A pergunta ficou parada no ar.

Não tinha resposta automática disponível.

O anarco-primitivista tentou:

— O humano… da máquina social, da alienação…

O indígena balançou a cabeça levemente.

— Você fala como se o humano estivesse preso num lugar só. Mas eu não vejo isso. Vejo formas diferentes de viver, algumas difíceis, outras sustentáveis, outras quebradas. Mas não vejo uma queda única.

O rio continuava indiferente à discussão.

O outro insistiu, agora com menos firmeza:

— Mas há perda. Há afastamento da natureza.

O indígena olhou ao redor — não como quem busca “natureza”, mas como quem estranha a separação da palavra.

— Eu estou aqui — disse ele. — E isso também é natureza.

Silêncio.

Essa frase não era argumento. Era dissolução do argumento.

O anarco-primitivista parecia desconfortável, não com hostilidade, mas com a falta de onde apoiar a própria crítica.

— Então você não vê problema nenhum na civilização?

O indígena demorou mais uma vez.

— Eu vejo problema em esquecer como viver com o lugar. Vejo problema em destruir relações que sustentam vida. Mas isso não começou num único momento. Não há um antes puro e um depois caído.

O outro baixou o olhar por um instante.

— Então o que você chama de progresso?

O indígena respondeu simples:

— Movimento sem escuta vira queda. Movimento com escuta vira caminho.

Essa frase ficou mais tempo no ar do que todas as outras.

O anarco-primitivista não discordou imediatamente. Nem concordou.

Porque naquele ponto, a ideia de “retorno” já parecia menos uma solução e mais uma nostalgia teórica tentando imitar algo que nunca viveu.

O rio seguiu.

E a conversa, sem vencedor, ficou suspensa entre duas formas de imaginar a vida:

uma que queria voltar a um começo ideal,

outra que nunca saiu de lugar nenhum para precisar de retorno.


-Anhangá 

quarta-feira, 29 de abril de 2026

O encontro, pouco edificante, de dois profetas


Não sei se foi o calor, que naquele dia parecia querer dissolver não só o asfalto, mas também as boas maneiras, ou se foi mero capricho dessas forças invisíveis que governam os encontros humanos; o fato é que Peter Kropotkin, homem de barbas já respeitáveis e compostura de quem acreditava sinceramente na dignidade do gênero humano, viu-se subitamente abalroado por um sujeito de modos inquietos e olhar febril, que atendia pelo nome de John Zerzan.

— Olhe por onde anda! — disse este último, com uma impaciência que não pedia desculpas a ninguém, como se o mundo lhe devesse passagem.

Kropotkin, que fora empurrado com uma violência desnecessária, recompôs o chapéu com uma calma quase didática, dessas que parecem mais uma resposta moral do que um gesto físico.

— Perdão, meu caro — disse ele, com voz mansa —, creio que ambos temos o direito de caminhar, ainda que por direções distintas.

Zerzan lançou-lhe um olhar enviesado, como quem examina não um homem, mas um sintoma.

— Direito? — replicou, com um meio sorriso que não chegava a ser cordial. — Eis uma palavra já bastante comprometida.

Havia ali, devo confessar, um contraste que saltava aos olhos: de um lado, o velho russo, que ainda guardava em si certa fé — talvez ingênua, talvez heroica — na possibilidade de uma ordem sem opressão; de outro, o americano, que parecia já ter passado por todas as desilusões possíveis e decidido não deixar pedra sobre pedra.

— Se me permite — continuou Kropotkin, ajeitando o casaco com dignidade —, as palavras não são culpadas de nossos fracassos. Antes, são vítimas deles.

Zerzan riu, mas não com alegria; era um riso seco, quase técnico.

— Eis aí o seu problema, senhor...?

— Kropotkin.

— Pois bem, senhor Kropotkin: o senhor ainda acredita que há algo a salvar. Eu, francamente, não vejo grande coisa que mereça tal esforço.

Sentaram-se — não por cortesia, mas por cansaço — num banco próximo, desses que acolhem tanto filósofos quanto desempregados, o que já diz muito sobre a democracia do mobiliário urbano.

— O senhor fala como quem perdeu a esperança — observou Kropotkin.

— E o senhor — respondeu Zerzan prontamente — fala como quem ainda não a examinou com o devido rigor.

Houve um silêncio breve. Um vendedor ambulante passou, indiferente à gravidade do encontro.

— Diga-me — retomou o russo —, se tudo está corrompido, como sugere, o que resta ao homem?

Zerzan apoiou os cotovelos nos joelhos, olhando o chão como se ali estivesse enterrada alguma verdade incômoda.

— Resta-lhe recusar — disse. — Recusar o progresso, recusar as estruturas, recusar essa mania de organizar o mundo como se ele fosse uma máquina.

Kropotkin inclinou a cabeça, pensativo.

— Curioso — murmurou. — Eu também critiquei tais estruturas. Mas o fiz para libertar o homem; o senhor parece fazê-lo para abandoná-lo.

— Talvez — respondeu Zerzan, sem levantar os olhos — porque o homem, tal como se tornou, não queira ser libertado.

Essa frase ficou suspensa no ar, como aquelas dívidas morais que ninguém sabe exatamente como pagar.

Kropotkin, com uma paciência que beirava a teimosia, tentou ainda uma última investida:

— Não creio que a humanidade seja irrecuperável. Há, em sua base, uma inclinação natural para a cooperação.

Zerzan ergueu o olhar, agora com certo brilho — não de entusiasmo, mas de desafio.

— Inclinação natural? Meu caro, o que o senhor chama de natureza já foi tão mediado, tão domesticado, que mal se reconhece. O homem moderno é uma construção — e uma construção bastante mal acabada, diga-se.

— E o senhor? — perguntou Kropotkin, com suavidade. — Julga-se fora dessa construção?

Zerzan hesitou — um instante apenas, mas suficiente para denunciá-lo.

— Não — admitiu, por fim. — Mas ao menos não a confundo com destino.

Kropotkin sorriu, não com vitória, mas com compreensão.

— Nesse ponto — disse ele —, talvez não estejamos tão distantes quanto parece.

Zerzan não respondeu. Limitou-se a encostar-se no banco, cruzando os braços, como quem aceita uma trégua que não pretende transformar em paz.

E ali ficaram, lado a lado, dois críticos do mundo: um ainda disposto a reconstruí-lo com delicadeza; o outro inclinado a abandoná-lo com franqueza. Entre ambos, não havia conciliação — mas havia, o que já não é pouco, uma espécie de reconhecimento silencioso.

Quanto a mim, que observei tudo com a modéstia de quem nada pode resolver, saí dali convencido de que o desequilíbrio, quando articulado com convicção, pode ser tão perturbador quanto o equilíbrio — e, por vezes, até mais convincente.


-Anhangá