quarta-feira, 29 de abril de 2026

O encontro, pouco edificante, de dois profetas


Não sei se foi o calor, que naquele dia parecia querer dissolver não só o asfalto, mas também as boas maneiras, ou se foi mero capricho dessas forças invisíveis que governam os encontros humanos; o fato é que Peter Kropotkin, homem de barbas já respeitáveis e compostura de quem acreditava sinceramente na dignidade do gênero humano, viu-se subitamente abalroado por um sujeito de modos inquietos e olhar febril, que atendia pelo nome de John Zerzan.

— Olhe por onde anda! — disse este último, com uma impaciência que não pedia desculpas a ninguém, como se o mundo lhe devesse passagem.

Kropotkin, que fora empurrado com uma violência desnecessária, recompôs o chapéu com uma calma quase didática, dessas que parecem mais uma resposta moral do que um gesto físico.

— Perdão, meu caro — disse ele, com voz mansa —, creio que ambos temos o direito de caminhar, ainda que por direções distintas.

Zerzan lançou-lhe um olhar enviesado, como quem examina não um homem, mas um sintoma.

— Direito? — replicou, com um meio sorriso que não chegava a ser cordial. — Eis uma palavra já bastante comprometida.

Havia ali, devo confessar, um contraste que saltava aos olhos: de um lado, o velho russo, que ainda guardava em si certa fé — talvez ingênua, talvez heroica — na possibilidade de uma ordem sem opressão; de outro, o americano, que parecia já ter passado por todas as desilusões possíveis e decidido não deixar pedra sobre pedra.

— Se me permite — continuou Kropotkin, ajeitando o casaco com dignidade —, as palavras não são culpadas de nossos fracassos. Antes, são vítimas deles.

Zerzan riu, mas não com alegria; era um riso seco, quase técnico.

— Eis aí o seu problema, senhor...?

— Kropotkin.

— Pois bem, senhor Kropotkin: o senhor ainda acredita que há algo a salvar. Eu, francamente, não vejo grande coisa que mereça tal esforço.

Sentaram-se — não por cortesia, mas por cansaço — num banco próximo, desses que acolhem tanto filósofos quanto desempregados, o que já diz muito sobre a democracia do mobiliário urbano.

— O senhor fala como quem perdeu a esperança — observou Kropotkin.

— E o senhor — respondeu Zerzan prontamente — fala como quem ainda não a examinou com o devido rigor.

Houve um silêncio breve. Um vendedor ambulante passou, indiferente à gravidade do encontro.

— Diga-me — retomou o russo —, se tudo está corrompido, como sugere, o que resta ao homem?

Zerzan apoiou os cotovelos nos joelhos, olhando o chão como se ali estivesse enterrada alguma verdade incômoda.

— Resta-lhe recusar — disse. — Recusar o progresso, recusar as estruturas, recusar essa mania de organizar o mundo como se ele fosse uma máquina.

Kropotkin inclinou a cabeça, pensativo.

— Curioso — murmurou. — Eu também critiquei tais estruturas. Mas o fiz para libertar o homem; o senhor parece fazê-lo para abandoná-lo.

— Talvez — respondeu Zerzan, sem levantar os olhos — porque o homem, tal como se tornou, não queira ser libertado.

Essa frase ficou suspensa no ar, como aquelas dívidas morais que ninguém sabe exatamente como pagar.

Kropotkin, com uma paciência que beirava a teimosia, tentou ainda uma última investida:

— Não creio que a humanidade seja irrecuperável. Há, em sua base, uma inclinação natural para a cooperação.

Zerzan ergueu o olhar, agora com certo brilho — não de entusiasmo, mas de desafio.

— Inclinação natural? Meu caro, o que o senhor chama de natureza já foi tão mediado, tão domesticado, que mal se reconhece. O homem moderno é uma construção — e uma construção bastante mal acabada, diga-se.

— E o senhor? — perguntou Kropotkin, com suavidade. — Julga-se fora dessa construção?

Zerzan hesitou — um instante apenas, mas suficiente para denunciá-lo.

— Não — admitiu, por fim. — Mas ao menos não a confundo com destino.

Kropotkin sorriu, não com vitória, mas com compreensão.

— Nesse ponto — disse ele —, talvez não estejamos tão distantes quanto parece.

Zerzan não respondeu. Limitou-se a encostar-se no banco, cruzando os braços, como quem aceita uma trégua que não pretende transformar em paz.

E ali ficaram, lado a lado, dois críticos do mundo: um ainda disposto a reconstruí-lo com delicadeza; o outro inclinado a abandoná-lo com franqueza. Entre ambos, não havia conciliação — mas havia, o que já não é pouco, uma espécie de reconhecimento silencioso.

Quanto a mim, que observei tudo com a modéstia de quem nada pode resolver, saí dali convencido de que o desequilíbrio, quando articulado com convicção, pode ser tão perturbador quanto o equilíbrio — e, por vezes, até mais convincente.


-Anhangá 


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