terça-feira, 28 de abril de 2026

Uma conversação à mesa, entre o ócio e a filosofia

 


Numa dessas tardes que parecem ter sido inventadas apenas para justificar o repouso, achavam-se sentados, frente a frente, Paul Lafargue e o espirituoso Zé Carioca. Entre eles, uma garrafa discreta, dois copos e um silêncio que não era incômodo — desses que convidam à palavra, mas não a exigem.

— Diga-me, meu caro — começou Lafargue, girando lentamente o copo como quem revolve uma ideia —, não lhe parece que o homem moderno trabalha demasiadamente?

Zé Carioca, que até então examinava a ponta do próprio guarda-chuva com notável interesse filosófico, ergueu os olhos com um sorriso enviesado.

— Demasiadamente? Meu amigo, isso depende muito do ponto de vista. Para quem trabalha, sempre é demais. Para quem observa... bem, é quase um espetáculo.

Lafargue sorriu, reconhecendo ali uma afinidade.

— Escrevi certa vez — prosseguiu ele — que o direito ao trabalho era, na verdade, o direito à miséria. O que o homem deveria reivindicar, antes de tudo, era o direito ao ócio.

— Ah! — exclamou Zé, com entusiasmo sincero — então o senhor é, por assim dizer, um homem de bom senso.

— Ou de má reputação — corrigiu Lafargue, com leve ironia.

Houve uma pausa. O pássaro inclinou-se para trás, cruzando as pernas com uma elegância que não pedia licença à dita realidade.

— Sabe qual é o problema do ócio, doutor? — disse ele, num tom mais baixo. — É que ele exige coragem. Trabalhar é, muitas vezes, mais fácil. Dá a impressão de utilidade... e ainda rende elogios.

Lafargue pousou o copo.

— O senhor sugere, então, que o trabalho é uma espécie de... fuga?

— Não digo fuga — respondeu Zé, pensativo. — Digo distração. O sujeito trabalha, trabalha, trabalha... e, quando vê, já não precisa mais pensar no que faria se estivesse livre.

O filósofo inclinou a cabeça, como quem reconhece uma verdade incômoda.

— Curioso — murmurou. — Eu quis libertar o homem do trabalho excessivo, mas talvez não tenha considerado suficientemente o que ele faria com essa liberdade.

— Pois é — disse Zé, acendendo um cigarro com a solenidade de um pequeno ritual. — A liberdade é uma coisa muito bonita no papel. Na prática... dá um certo trabalho.

Riram ambos, mas não com o mesmo motivo.

— Ainda assim — retomou Lafargue —, não posso deixar de pensar que há algo de profundamente errado numa sociedade que transforma o descanso em culpa.

— Concordo — assentiu Zé. — Mas veja bem: a culpa também é uma espécie de companhia. Tem gente que prefere isso ao silêncio.

— O senhor é um cético, meu caro.

— Não — corrigiu o outro, com delicadeza —, apenas um observador. O cético duvida; eu apenas noto.

Lafargue ergueu o copo, como se brindasse à frase.

— E o que nota, neste momento?

Zé Carioca sorriu, olhando ao redor, depois para o filósofo.

— Que estamos dois homens discutindo o valor do ócio... enquanto o praticamos com admirável competência.

Lafargue não respondeu de imediato. Limitou-se a rir — um riso breve, mas honesto — e a inclinar levemente o copo.

— Nesse caso — disse ele —, talvez estejamos mais próximos da verdade do que supúnhamos.

— Ou mais distantes — replicou Zé, já relaxado na cadeira. — Mas, convenhamos... a distância também pode ser agradável.

E assim permaneceram, entre um gole e outro, sustentando com leveza uma conversa que, não fora o cuidado de ambos, poderia facilmente ter se tornado séria demais — o que, como se sabe, seria um desperdício imperdoável de uma boa tarde.

- Anhangá 




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