sexta-feira, 1 de maio de 2026

Última visita — ou advertência tardia

Nos derradeiros dias, quando o corpo já não acompanha o ímpeto da convicção, encontrava-se Vladimir Lenin reduzido àquela condição que os médicos descrevem com precisão e os homens evitam nomear: a de presença incompleta.

A cadeira de rodas, que outrora seria instrumento indigno para quem movera multidões, tornara-se agora seu mais fiel meio de locomoção — e, talvez, de contenção.

Era noite. Não dessas noites profundas e metafísicas, mas de uma banalidade quase ofensiva. Um silêncio doméstico, interrompido apenas pelo leve ranger de madeira e pelo esforço discreto da respiração.

Foi então que, sem cerimônia — como convém às verdades tardias —, fez-se notar uma presença.

Não houve clarão, nem vento súbito. Apenas uma alteração quase imperceptível na atmosfera, como se o ar tivesse decidido pensar.

— Sempre apressado, Vladimir Ilitch.

Lenin não se sobressaltou. Se houve surpresa, ela foi interna, contida, como tantas outras que já não encontravam expressão no corpo debilitado.

Diante dele — ou talvez ao lado, pois essas distinções tornam-se frágeis em tais circunstâncias — delineava-se a figura de Georgi Plekhanov, com aquela compostura que a morte, ao que parece, não se dá ao trabalho de corrigir.

— Não sabia — disse Lenin, com esforço controlado — que os mortos ainda se ocupavam dos vivos.

Plekhanov esboçou um sorriso breve, mais intelectual do que cordial.

— Não nos ocupamos. Observamos. O que, convenhamos, é menos cansativo… e frequentemente mais instrutivo.

Houve um silêncio. Lenin ajustou levemente a posição na cadeira, gesto mínimo que carregava, ainda assim, uma obstinação antiga.

— Veio cobrar algo?

— Cobrar? — repetiu Plekhanov, como quem experimenta a palavra. — Não. Advertir, talvez. Embora receie que seja tarde para ambas as coisas.

Lenin sustentou o olhar — ou aquilo que restava dele.

— Sempre acreditou que era cedo demais.

— E o senhor — replicou o espectro com suavidade — sempre acreditou que a história se curva à vontade.

— A história não se curva — disse Lenin, com um lampejo de energia. — Ela é forçada.

— Ah — murmurou Plekhanov —, aí está uma bela frase. Teria feito sucesso em vida.

— E não faz agora?

— Faz, certamente — respondeu o outro. — Mas já não produz os mesmos efeitos.

O ar pareceu mais pesado. Ou talvez fosse apenas a consciência que se adensava.

— O senhor dizia — continuou Vladmir — que não havia condições. Que a Rússia não estava madura. Que se saltava etapas.

Lenin permaneceu em silêncio por um instante.

— E estava enganado — disse, por fim.

Plekhanov inclinou ligeiramente a cabeça.

— Estava?

A pergunta não vinha carregada de ironia, mas de algo mais incômodo: uma curiosidade sem urgência.

— Fizemos o que era necessário — insistiu Lenin.

— Necessário — repetiu o espectro. — Eis outra palavra interessante. Costuma justificar muito… sobretudo quando os resultados ainda não podem ser avaliados por completo.

Lenin apertou levemente os braços da cadeira.

— O senhor fala como quem nunca teve de decidir.

— Pelo contrário — respondeu Plekhanov. — Falo como quem decidiu… não avançar.

Essa frase pairou entre ambos com uma densidade quase material.

— A prudência — continuou ele — é uma virtude pouco celebrada em tempos revolucionários. Talvez por parecer covardia.

— Ou por ser, de fato — retrucou Lenin.

Plekhanov sorriu, dessa vez com algo próximo da indulgência.

— E ainda assim, Vladimir Ilitch… diga-me com franqueza — agora que já não precisa convencer ninguém —: tudo ocorreu como esperava?

O silêncio que se seguiu não foi breve.

Lá fora, um ruído distante — talvez um passo, talvez o vento — insinuava que o mundo continuava, indiferente àquela conversa.

Lenin desviou o olhar, não por fraqueza, mas por economia.

— A história é longa — disse.

— E a vida — respondeu Plekhanov —, nem tanto.

Não houve réplica imediata.

— Eu lhe disse — acrescentou o espectro, com uma suavidade que beirava a melancolia — que as condições não estavam dadas. Que a pressa poderia custar caro.

Lenin voltou os olhos para ele, agora com uma intensidade silenciosa.

— E o senhor estava disposto a esperar quanto tempo?

Plekhanov não respondeu de pronto.

— O suficiente — disse, enfim — para que o necessário não precisasse parecer inevitável.

Lenin deixou escapar algo que poderia ter sido um riso, não fosse o cansaço.

— A história não oferece garantias.

— Nem perdões — completou o outro.

A presença começou a rarear — não desaparecer, mas tornar-se menos insistente, como uma ideia que se afasta sem ser refutada.

— Não vim para acusar — disse Plekhanov, já quase indistinto. — Apenas para lembrar.

— Não esqueço — respondeu Lenin.

— Eu sei — murmurou o espectro. — Esse é, talvez, o ponto.

E então já não estava.

Restou apenas o quarto, a cadeira, e um homem que, tendo apressado o curso da história, via-se agora incapaz de apressar sequer o próprio tempo.

Quanto a mim, que não estava lá — mas poderia ter estado, não fosse a indiscrição dos vivos —, fico com a impressão de que certas advertências não falham por serem incorretas, mas por chegarem sempre no único momento em que já não podem ser úteis.


- Anhangá 

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