Dizem que os encontros decisivos raramente se anunciam; chegam como uma tosse discreta ou um tropeço mal calculado. Assim se deu que Karl Marx, mergulhado em papéis e certezas, viu sua concentração interrompida por um homem de aspecto despreocupado, quase leviano, que se sentou à sua frente sem convite e com a naturalidade de quem não reconhece propriedades — nem mesmo as das cadeiras.
Era Max Stirner.
— Espero não incomodar — disse este, já incomodando.
Marx ergueu os olhos com visível contrariedade.
— Isso depende — respondeu, seco — do que o senhor pretende.
Stirner sorriu, como quem encontra precisamente o que buscava.
— Pretendo nada. É justamente essa a minha vantagem.
Houve um breve silêncio, desses que não são vazios, mas carregados de avaliação mútua. Marx fechou o caderno com firmeza, como quem delimita território.
— O senhor é daqueles que confundem ausência de propósito com liberdade.
— E o senhor — replicou Stirner, inclinando-se ligeiramente — é daqueles que confundem propósito com destino.
Marx apoiou os cotovelos na mesa.
— Falo de condições materiais, não de abstrações.
— Curioso — disse Stirner —, porque nunca vi algo mais abstrato do que “condições materiais” quando usadas para explicar o homem inteiro.
Marx franziu o cenho.
— A história é movida por forças reais: produção, trabalho, relações econômicas—
— Fantasmas — interrompeu Stirner, com delicadeza quase cortês.
— Perdão?
— Fantasmas — repetiu. — O senhor apenas trocou Deus por História, e o Espírito por Economia. Continua ajoelhado, só mudou o altar.
Marx soltou um riso curto, sem humor.
— Isso é uma caricatura.
— Toda verdade, quando bem colocada, parece uma caricatura — respondeu Stirner.
O ambiente, até então apenas tenso, começou a adquirir certa eletricidade. Não dessas que explodem, mas das que persistem.
— O senhor ignora — continuou Marx — que o indivíduo é produto de seu meio. Não existe esse “eu” soberano que o senhor tanto celebra.
Stirner cruzou as pernas, confortável.
— Ignoro não. Recuso. São coisas diferentes. O senhor dissolve o indivíduo em estruturas; eu dissolvo as estruturas no indivíduo.
— Isso é solipsismo.
— Isso é propriedade — corrigiu Stirner. — Eu sou meu. O resto… negocia-se.
Marx levantou-se ligeiramente, como se o corpo precisasse acompanhar o argumento.
— E o coletivo? A exploração? A injustiça?
Stirner ergueu uma sobrancelha.
— Palavras grandes. Muito úteis para quem gosta de mobilizar os outros.
— O senhor é cínico.
— Não — disse Stirner, quase gentil —, apenas econômico. Uso menos ilusões.
Marx voltou a sentar-se, agora mais contido. Havia, em seu olhar, não apenas irritação, mas algo próximo da curiosidade — o que, em certas naturezas, é já uma concessão.
— Suponhamos — disse ele — que todos pensassem como o senhor. O que restaria?
Stirner sorriu, dessa vez sem ironia.
— Finalmente, algo que não foi pensado por outro.
Marx permaneceu em silêncio por um instante mais longo do que os anteriores.
— Isso não constrói nada.
— Nem destrói por dever — replicou Stirner.
— O mundo exige transformação.
— O mundo exige muito — disse Stirner, levantando-se com a mesma facilidade com que chegara. — Eu, por minha vez, exijo pouco.
Já de pé, ajeitou o casaco com um desinteresse estudado.
— Foi um prazer, senhor Marx. Raramente encontro fantasmas tão bem articulados.
Marx não respondeu de imediato. Observou o outro afastar-se, com uma expressão que oscilava entre o desprezo e o reconhecimento — esse último, sempre mais difícil de admitir.
Quando enfim voltou aos seus papéis, algo parecia ligeiramente deslocado. Não o suficiente para alterar suas conclusões, é claro — mas o bastante para que, por um breve momento, lhe ocorresse a incômoda hipótese de que, talvez, até as convicções mais sólidas tenham o hábito pouco digno de projetar sombras.
Quanto a mim, que assisti à cena com a discrição de quem prefere não ser incluído nas teorias alheias, saí convencido de que há debates em que ninguém vence — mas um dos lados ri melhor ao final.
- Anhangá

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