domingo, 7 de junho de 2026

Por que Bachofen?


 Há homens que descobrem continentes; outros, estrelas; outros ainda, maneiras novas de arruinar os seus semelhantes. Johann Jakob Bachofen pertence a uma categoria menos ruidosa e talvez mais singular: a dos que descobrem passados. Não passados propriamente ditos, desses que se registram em cartórios e arquivos, mas passados imaginados, reconstruídos à luz de fragmentos, mitos, símbolos e velhas tradições.

Segundo Bachofen, a humanidade não nascera sob a égide do pai, como tantas vezes supõem os respeitáveis defensores da ordem. Ao contrário, teria atravessado épocas remotas em que a figura materna ocupava o centro da vida social e religiosa. Antes do cetro do patriarca, haveria existido o véu da sacerdotisa; antes da autoridade do pai, a veneração da mãe.

A ideia pareceu extravagante a muitos dos seus contemporâneos, e talvez ainda o pareça. Contudo, Bachofen observava os mitos antigos com a mesma atenção que um avarento dedica ao seu cofre. Onde outros viam fábulas, ele via vestígios; onde outros encontravam apenas deuses e monstros, ele julgava perceber ecos de formas sociais desaparecidas.

Assim, propôs que a humanidade teria conhecido diferentes estágios. O primeiro seria uma condição primitiva e tumultuosa, quase entregue aos impulsos da natureza. Depois surgiria aquilo que chamou de "direito materno", uma ordem na qual a linhagem e a autoridade derivariam da mãe. Não porque as mulheres governassem necessariamente todas as coisas, mas porque a maternidade era a única certeza visível num mundo em que a paternidade permanecia envolta em dúvidas.

Esse período estaria associado, em sua interpretação, a divindades femininas, à fertilidade, à terra e aos ciclos naturais. A mãe apareceria como símbolo da própria continuidade da vida. O mundo seria compreendido menos como uma hierarquia e mais como um organismo fecundo.


Mas a história, segundo Bachofen, não permanece imóvel. Pouco a pouco, forças novas se afirmariam. Os antigos cultos femininos cederiam espaço a divindades masculinas. A ordem materna seria substituída por uma ordem paterna. O direito, a propriedade, a política e a religião reorganizar-se-iam em torno da autoridade masculina. Apolo venceria Deméter; a luz da razão jurídica substituiria os mistérios da terra.

Convém notar que Bachofen não descrevia essa transformação apenas como um fato social. Via nela um drama espiritual. Para ele, a história era também a história dos símbolos, dos valores e das formas pelas quais os homens interpretam o universo. O triunfo do patriarcado representava, em certa medida, a vitória de princípios considerados mais abstratos, mais racionais e mais distantes da natureza.

Naturalmente, os sábios posteriores trataram de examinar suas conclusões com o zelo habitual dos sábios, isto é, discordando bastante. Muitas de suas reconstruções históricas já não são aceitas como descrições rigorosas do passado. Faltavam-lhe evidências arqueológicas que hoje consideraríamos indispensáveis. Seus argumentos repousavam frequentemente sobre interpretações mitológicas ousadas.

Entretanto, seria injusto despachá-lo para o sótão das curiosidades intelectuais. Seu mérito não consistiu tanto em provar a existência universal de sociedades matriarcais quanto em sugerir que as formas familiares e políticas possuem história; que aquilo que parece eterno talvez seja apenas antigo; e que os mitos, longe de serem simples fantasias, podem guardar a memória deformada de mundos desaparecidos.

Dessa maneira, Bachofen permanece como uma dessas figuras peculiares que a posteridade nem abraça nem abandona. Errou em muito, provavelmente. Mas errou de maneira fecunda. E há erros que, como certas árvores, valem menos pelos frutos imediatos do que pela sombra que oferecem às gerações seguintes.

Da Poligamia, ou do Mundo Antes dos Pais

Há certas palavras que produzem nos espíritos respeitáveis o mesmo efeito que um rato produz numa sala de jantar: poligamia é uma delas. Mal se pronuncia o vocábulo, e já alguns correm em busca da moral, outros da religião, outros ainda da polícia. Convém, entretanto, que a ciência tenha um pouco mais de sangue-frio.

Para Bachofen, a poligamia — ou, mais precisamente, a ausência de vínculos matrimoniais exclusivos e rigidamente definidos — não era um vício inventado por povos extravagantes, mas uma condição pertencente às épocas mais remotas da humanidade. Ele empregava o termo grego hetairismo para designar esse estado primitivo, em que as relações entre homens e mulheres não estavam ainda submetidas às regras familiares que hoje nos parecem naturais.

Imagine o leitor uma sociedade na qual a paternidade não pudesse ser estabelecida com segurança. A maternidade, ao contrário, apresentava-se como uma evidência imediata. A criança saía do ventre da mãe; quanto ao pai, permanecia envolto em incertezas que nem os mais zelosos genealogistas conseguiriam dissipar.

Desse fato simples, Bachofen extraía uma consequência considerável. Se não era possível determinar com clareza quem era o pai, a organização social tenderia a apoiar-se na mãe. O parentesco, a herança simbólica e mesmo certos aspectos da autoridade seriam calculados segundo a linha materna. Não porque houvesse uma revolução feminista avant la lettre, mas porque a própria realidade biológica impunha essa solução.

O chamado "direito materno" surgiria, assim, como uma resposta à indeterminação característica das fases anteriores. A ordem nasceria precisamente do caos. A figura materna apareceria como um princípio de estabilidade num universo em que as relações sexuais ainda não estavam enquadradas pelas instituições posteriores.


Bachofen acreditava encontrar vestígios dessa antiga condição em numerosos mitos. Histórias de amazonas, cultos dedicados a deusas da fertilidade, narrativas de heróis obrigados a submeter-se a figuras femininas poderosas — tudo isso lhe parecia conservar lembranças, ainda que deformadas, de uma época em que os valores maternos ocupavam posição predominante.

Com o passar do tempo, porém, a situação se alteraria. O casamento monogâmico, a família patriarcal e a autoridade do pai consolidar-se-iam gradualmente. A sociedade deixaria de organizar-se em torno da certeza da maternidade para organizar-se em torno da afirmação jurídica e social da paternidade. O patriarcado não destruiria apenas antigas instituições; destruiria também uma antiga visão de mundo.

Naturalmente, o leitor moderno deve guardar certa prudência. Poucos estudiosos contemporâneos aceitam a sequência histórica proposta por Bachofen em seus detalhes. A ideia de uma humanidade inteira atravessando estágios universais de promiscuidade, matriarcado e patriarcado é hoje considerada excessivamente simplificadora. As sociedades humanas revelaram-se muito mais variadas e complexas do que imaginavam os grandes teóricos do século XIX.

Mas permanece interessante observar que, para Bachofen, a poligamia primitiva não era um sinal de decadência moral. Era, antes, uma condição histórica específica, pertencente a um momento da evolução social. Julgá-la pelos critérios de épocas posteriores seria, em sua perspectiva, tão impróprio quanto censurar uma criança por ainda não possuir barba.

Talvez resida aí uma de suas contribuições mais duradouras: a suspeita de que as instituições humanas não descem prontas do céu nem brotam completas da terra. Também elas possuem infância, juventude e velhice. E quem sabe se os costumes que hoje defendemos com tanta solenidade não parecerão, aos olhos de séculos futuros, tão estranhos quanto nos parecem os antigos mistérios das deusas-mães?

Por Que Bachofen?

É uma pergunta justa. Afinal, o século XIX produziu uma multidão de pensadores, sistemas e profetas. Muitos deles prometiam explicar a totalidade da história humana; alguns pretendiam desvendar o segredo da religião; outros acreditavam possuir a chave definitiva da sociedade. Por que, então, voltar os olhos para Johann Jakob Bachofen?

A resposta talvez esteja justamente no fato de que ele não procurava apenas compreender instituições. Procurava compreender símbolos.

Grande parte dos estudiosos de seu tempo observava leis, governos, batalhas ou formas econômicas. Bachofen dirigia sua atenção para algo mais nebuloso e, por isso mesmo, mais profundo: os mitos, os ritos, as imagens religiosas, os sonhos coletivos das civilizações. Intuía que os homens não vivem apenas de pão, propriedade ou interesse. Vivem também de significados.

Pode-se dizer que sua obra foi uma tentativa de escutar aquilo que as sociedades contam a si mesmas acerca de sua própria origem.

Naturalmente, muitas de suas conclusões envelheceram. A arqueologia moderna, a antropologia comparada e a pesquisa histórica corrigiram diversas de suas hipóteses. Poucos aceitariam hoje a sucessão rígida de estágios históricos que ele propôs. Menos ainda a ideia de um matriarcado universal antecedendo todas as formas de patriarcado.

Mas há autores que permanecem importantes não por terem respondido corretamente todas as perguntas, e sim porque formularam perguntas que ninguém antes havia ousado fazer - Bachofen pertence a essa categoria.

Ele obrigou os estudiosos a considerar que as relações entre homens e mulheres possuem história. Sugeriu que a família não é uma estrutura imóvel, gravada desde toda a eternidade na pedra do universo. Indicou que a religião pode conservar lembranças de transformações sociais profundas. E, sobretudo, ensinou que os mitos não devem ser tratados apenas como fantasias infantis da humanidade, mas também como documentos espirituais.

Sua influência, aliás, estendeu-se muito além daqueles que concordaram com ele. Pode ser percebida em antropólogos, historiadores das religiões, psicólogos, filósofos e até escritores. Em diferentes graus, pensadores tão diversos quanto Friedrich Engels, Carl Gustav Jung, Erich Neumann e Joseph Campbell dialogaram com questões que Bachofen ajudou a colocar em circulação.

E quanto à sua atualidade?

Talvez ela resida precisamente num tempo que voltou a interrogar os fundamentos da cultura. As discussões contemporâneas acerca do gênero, da família, da autoridade, da tradição e da identidade frequentemente giram em torno de uma questão central: as formas sociais são naturais ou históricas?

Bachofen não forneceu uma resposta definitiva. Mas foi um dos primeiros a afirmar que aquilo que parece natural pode ser o resultado de longos processos históricos e simbólicos.

Além disso, sua obra recorda algo que o nosso século, tão apaixonado por estatísticas e algoritmos, por vezes esquece: os seres humanos não são movidos apenas por interesses materiais. São movidos também por narrativas, imagens e crenças. Uma sociedade não se sustenta somente por suas leis; sustenta-se igualmente pelos símbolos que considera sagrados.

Talvez seja essa a razão pela qual Bachofen continua a reaparecer. Não como um legislador da verdade histórica, mas como um explorador de territórios raramente visitados. Seus mapas contêm erros; por vezes, muitos erros. Contudo, foram desenhados sobre regiões que outros sequer suspeitavam existir.

E há uma estranha nobreza nesses pioneiros. O navegador que alcança o destino merece reconhecimento; mas também merece lembrança aquele que, guiado por estrelas imperfeitas, teve a coragem de abandonar o porto.

Bachofen foi um desses homens. Não nos legou uma resposta final. Legou-nos, talvez, algo mais valioso: uma nova maneira de formular perguntas.



-JonniX

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