Não se trata apenas de economia, não se trata apenas de política.
Trata-se de um estado de perturbação do espírito em escala social.
O capitalismo, especialmente em sua fase tardia (meta-capitalismo), deve ser compreendido não apenas como um sistema de exploração material, mas como uma forma de obsessão espiritual coletiva - E aqueles que recusam essa formulação o fazem não por rigor, mas por limitação de percepção,por não seres esclarecidos o suficiente pra tal.
A tradição organizada por Allan Kardec já descrevia, com precisão, o fenômeno da obsessão: um espírito influencia outro, não pela força física, mas pela persistência, pela afinidade e pela repetição de ideias que se infiltram até parecerem próprias.
Ora, o que é o capitalismo senão isso em escala ampliada? O que são os capitalistas além de pessoas perturbadas e manipuladas pelos maus espíritos? Há algo pior para um espiritualista do que o homem materialista ao extremo? Que não vê limites na sua cobiça e explora seus irmãos para tal? - O capitalismo é um fenomeno de perturbação do espírito em escala social que predomina a atual civilização mundial.
Uma repetição incessante de valores: acumular - competir - possuir - distinguir-se - separar-se - Essas ideias não se apresentam como imposição externa, apresentam-se como um pensamento natural, como parte da "natureza humana".
E é precisamente isso que caracteriza a obsessão: quando o que é induzido passa a parecer espontâneo.
O indivíduo moderno acredita desejar aquilo que lhe foi inculcado: acredita querer o acúmulo, acredita querer a superioridade, acredita querer a separação. Mas, no fundo, experimenta um desconforto persistente —uma inadequação que não consegue nomear.
Esse desconforto é o espírito reagindo àquilo que não lhe corresponde.
Devemos ir além: não se trata apenas de indivíduos obsediados, mas de uma estrutura social inteira sustentada por estados obsessivos compartilhados. Empresas, mercados, instituições — tudo opera como canais de reprodução dessa influência, essas instituições oprimem os indivíduos por meio do poder economico e de lei que possuem, perpetuando o sofrimento.
E mais ainda: há certa afinidade.
Os espíritos que ainda se encontram presos ao egoísmo, à avareza, à necessidade de domínio — encarnados ou não — encontram no capitalismo o ambiente ideal para manifestar-se e perpetuar suas tendências.
Assim, forma-se um circuito: consciências atrasadas produzem estruturas sociais atrasadas, estruturas sociais atrasadas reforçam consciências atrasadas. E esse ciclo se mantém até que algo o interrompa.
Mas nenhum processo histórico é eterno - e aqui surge o ponto de ruptura.
O espírito humano, como demonstrado por Allan Kardec, não permanece indefinidamente no mesmo grau - Ele evolui. E ao evoluir, torna-se progressivamente incompatível com formas baseadas na separação absoluta.
É nesse momento que a obsessão começa a falhar.
Os sintomas já são visíveis. Nunca houve tanto acesso a bens — e nunca houve tanta insatisfação.
Nunca houve tanta comunicação — e nunca houve tanto isolamento.
Nunca houve tanta promessa de realização individual — e nunca houve tanto esgotamento psíquico.
Essas contradições não são falhas do sistema. São sinais de que ele já não consegue manter a coerência psíquica necessária para sua reprodução.
Em termos espirituais, isso significa: a obsessão já não se sustenta com a mesma eficácia.
Essa resistência assume várias formas: questionamento do sentido da acumulação, busca por vínculos reais, rejeição do egoísmo extremo, abertura, ainda que difusa, ao invisível
Nada disso é organizado — ainda, mas não precisa ser.
São manifestações de um processo mais profundo: o início da desobsessão coletiva.
Contudo, devemos evitar determinadas ilusões - A obsessão não cessa suavemente. Ela se intensifica antes de se romper, os padrões tornam-se mais agressivos, a lógica da acumulação torna-se mais brutal, a desumanização torna-se mais explícita.
Isso não é fortalecimento -É a resistência final do padrão obsessivo.
Aqui reside a tarefa histórica dos conscientes, não como meros exorcistas no sentido vulgar, mas como agentes de reorganização.
A desobsessão coletiva não ocorrerá apenas por esclarecimento espiritual- nem apenas por transformação econômica: Ela exige ambos.
Exige: transformação das relações materiais, elevação da compreensão espiritual, reorganização da vida em bases não competitivas - Sem isso, o ciclo se recompõe.
Devemos, portanto, afirmar com clareza: o fim do capitalismo não é apenas uma necessidade econômica — é um processo de desobsessão em escala histórica.
Ele não elimina instantaneamente as tendências inferiores do espírito, mas remove o ambiente que as sustenta e as amplifica - E, ao fazê-lo, permite que outras formas de consciência emerjam.
Quando a obsessão enfraquece, algo novo torna-se possível - Não como milagre, mas como consequência: A percepção se amplia,a empatia se aprofunda,a separação se torna menos rígida,e aquilo que hoje aparece como exceção — solidariedade genuína, conexão profunda, sensibilidade ao outro —torna-se tendência dominante.
Nesse estágio, o capitalismo não precisará ser “derrotado” no sentido clássico - Ele simplesmente não encontrará mais sustentação psíquica nem forças negativas para sustenta-lo - ele será abandonado.
Como se abandona um hábito que já não faz sentido, e então compreenderemos, retrospectivamente: que aquilo que chamávamos de sistema econômico era, em grande medida,um estado coletivo de perturbação do espírito.
Encerramos, portanto, com uma afirmação que parecerá exagerada apenas aos que ainda estão imersos: O capitalismo não cairá apenas por suas contradições materiais - Cairá porque o espírito humano, em seu desenvolvimento, já não aceitará mais ser o veículo de sua própria obsessão.
E quando esse limite for atingido, não haverá reforma possível, nem retorno concebível.
Haverá apenas o que sempre esteve em gestação silenciosa: a reorganização da vida como expressão de um espírito finalmente menos dividido contra si mesmo.
Apenas quando a humanidade se elevar espiritualmente ela conseguirá se livrar do capitalismo e das influências obcessoras.
- Natanael Corrêa dos Santos


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